terça-feira, 1 de abril de 2008

E Depois do Adeus, sem vergonha alguma!

Aos domingos à noite, temos desde há uns tempos os serões preenchidos pela Dª Elisa. Recentemente regressada da sua comissão barrosista em  Londres e gestora in title do programa Depois do Adeus, tem procurado interessar o telespectador por assuntos do nosso passado de nação que ao longo de séculos se espalhou pelo mundo. Esta diáspora ainda testemunhada por milhares de pedras de armas das quinas e castelos em igrejas e fortalezas de Ceuta a Macau e Timor, é  prova vibrante da vontade simples mas inflexível, de existência e persistência de todo um povo que com os seus dirigentes, soube durante mais de meio milénio imprimir a sua marca na História.

Assisti por mero acaso ou puro azar, à exibição do programa referente ao Estado da Índia. Nos primeiros minutos, ainda pensei que o tema em discussão sublinharia o precioso legado cultural e o intercâmbio de valores, ideias e costumes que normalmente ocorreram pela natural empatia dos portugueses pelo fascinante mundo descoberto no subcontinente. Nada disso, cruel desilusão. Tratou-se de um baixo, repugnante e fastidioso costumeiro exercício de reles exorcismo a que a RTP nos vem habituando há quase duas gerações. Uma vergonha de obrigar a liquefazer de raiva o seco sangue de S. Francisco Xavier! Parece que a presença portuguesa na Índia se resumiu à década que antecedeu a invasão. Mesmo proferindo em surdina o acto, isto é, a invasão, a Dª Elisa balbuciou atrapalhadamente o "correctês" libertação, não fosse aborrecer um qualquer satiagrá atento às emissões da RTP internacional. Uma aberração paga pelo indefeso contribuinte.

Salvo uma ou duas excepções, os intervenientes prometiam um painel equilibrado e interessante. Narana Coissoró, como natural do Estado da Índia, garantia - até por ser hindu -, uma apreciação desapaixonada da realidade colonial. Desiludiu-me porque também afinou pelo diapasão do mero negativismo, embora tardiamente corrigisse o trilho, ao vincar a especificidade  temporal de eventos e instituições da presença lusa. O representante do Instituto Camões e o Dr. Carita estiveram bem e relativizaram como mera propaganda eivada de anacronismos, muitos dos preconceitos que se foram solidificando na pouco esclarecida e desinteressada opinião pública nacional, sempre pronta a ouvir passivamente e a aceitar sem estudo, tudo aquilo que lhe é incutido como verdade absoluta. Como muito bem salientaram, não é por mero acaso que os territórios de Goa, Damão e Diu gozam dos mais elevados padrões de bem estar no seio da União Indiana, embora, acrescentemos, estejam estes territórios sujeitos a uma colonização por parte de gentes que vão diluindo as especificidades étnicas e culturais que lhes ofereciam uma riquíssima amálgama do encontro entre Portugal e os indianos.

Um caso impressionante e decerto testemunho de uma realidade convenientemente esquecida e ocultada pelos senhores da Situação, foi o daquela mulher goesa espoliada pelos invasores.  Com um olhar gelado pela desilusão de quarenta e seis anos de ausência da sua terra natal, notava-se-lhe a mágoa e o desespero de um silêncio forçado e impiedoso. Tentou contar a sua história e a roubo de tudo o que a sua família possuiu ao longo de séculos. Tudo perdeu por Portugal. Recusou desdenhosamente a cidadania outorgada pelo ocupante e empobreceu. A Dª Elisa empalideceu e deve ter tido um fugaz momento de arrependimento pelo convite endereçado a tão incómoda testemunha. Silenciou-a. Uma vergonha, uma mesquinhez inqualificável. Aquela senhora não merecia uma humilhação tamanha!

O processo de auto-flagelação mergulhou então num fétido e habitual pântano intelectualóide, quando surgiu uma fulana que num português correctíssimo, é entrevistada repimpada na varanda do seu luxuoso palacete goês. Esperava-se um depoimento em conformidade com os alegados pergaminhos de antanho como membro de uma família tradicional - como detesto esse termo! - , mas na verdade, foi mais do mesmo. Para cada parágrafo da sua ruminante logorreia perfeitamente lisboeta, surgia repentinamente um aglomerado de ..."yes, you know"... e uma ou outra frase num inglês-de-batata-na-boca (mais "ingrês" que outra coisa, diga-se), muito idêntico ao comummente falado por qualquer vendedor de chamuças pápris de bazar. Incrível! Conheço muito bem esse "fazer de conta" que é apanágio de certos privilegiados sempre ciosos de um estrato mental a que julgam pertencer, isto é, a casta dos donos bem pensantes do nosso tempo que confortavelmente vão apontando o dedo a quem lhes garantiu as suas preciosas e insignificantes vidinhas. É certo que não falta em Portugal, quem se apreste a dar uma mãozinha ao despautério e para isso lá estava o estoriador  Costa Pinto (nada de o confundir com o grande homem que foi o capitão Júlio da Costa Pinto). Esse cavalheiro que ainda há poucas semanas fez a triste figura de derrotado no debate Monarquia-república da Dª Fátima, lá se encanitou no seu "antifeixisme" de sarjeta, muito pouco convincente na sua típica farpela da subespécie "betus ibericus"- CDS Alternativa 76. Foi de vómitos e aquele sorrisinho alvar de tacha arreganhada, apenas confirmou a total ausência de razão da sua presença no programa. 

A coisa começou muito mal e pior acabaria. De facto, a Dª Elisa decidiu convidar militares que se encontravam em comissão no Estado da Índia. Pensei que os telespectadores escutariam o testemunho de um homem de reconhecida verticalidade e incontestáveis brios patrióticos, como o general Azeredo que, prisioneiro, protagonizaria um episódio de orgulhoso portuguesismo e desafio aos carcereiros.  Não. Tivemos que beber o penico da bílis produzida por mais um coitadinho, generosamente abrigado pelo senhor Nehru no campo de Alparqueiros. Foi triste e deprimente, porque começando por tecer loas à  alegada  - e ainda hoje muito pouco credível - feroz resistência ao invasor, terminou lacrimejante e tartamudeou um incompreensível e nada castrense solilóquio contra não se sabe bem quem ou o quê. Para cúmulo e pretendendo demonstrar as injustiças sofridas, um dos seus camaradas de infortúnio ainda manifestou incontida revolta, devido ao facto de no dia do embarque, as autoridades portuguesas terem dado primazia aos civis que tudo abandonaram para conservar a sua nacionalidade. A latrina em que aquele estúdio se transformara, transbordou e a única conclusão a tirar de tudo o que pacientemente ouvimos foi lapidar: se nem os militares perceberam que o simples e universalmente aceite princípio de "civis primeiros, tropas depois" é o que mais normal existe em situações de conflito, vemos bem que a 2ªrepública de Salazar também falhou no que é essencial e caracterizador de um povo, isto é, o civismo. No entanto, aquele cavalheiro tem um incontestável alibi, porque faz parte da trupe dos "Malucos do Riso". Está desculpado.

*Peço que me perdoem pelo destempero, mas por vezes perco a paciência. Nada mais há a fazer que começar de novo e mudar radicalmente. Basta de miserabilismo e de derrotas. Comecemos pela bandeira, Constituição, lei eleitoral e organização do Parlamento. São os símbolos da soberania do povo. Tudo o resto virá por arrasto. Ou isso, ou nada.

5 comentários:

cristina ribeiro disse...

Tristeza! Não vi (esse tipo de programas "cheiram-me" a tempo perdido, além de me deixarem mal disposta...). Só posso dizer que assistimos a uma revoltante onda de ingratidão para com os nossos egrégios, só presentes no Hino para inglês ver...

cristina ribeiro disse...

...cheira-me...

José M. Barbosa disse...

Peço desculpa mas não vejo nenhum programa da Maria Elisa qualquer-coisa-que-me-não-lembro. Quando refere o General Azeredo é o sr. General Carlos Azeredo da quinta dos Varais, ex-digníssimo-chefe da casa militar da presidência de Soares ? Se assim foi, referiu um especialista em vinho do Porto, um anfitrião como há poucos. Nada mais.

Cumprimentos,

JB

Vieira Calado disse...

Foge!
Do que eu me livrei!
Vá lá que eu não vejo praticamente televisão... a não ser... bola!...
Um abraço

Anônimo disse...

Grande post!