quinta-feira, 17 de abril de 2008

Cartas, entrevistas e testemunhos do PREC e da "descolonização"

Este é apenas um curto e hilariante exemplar de um video sobrevivente do período de 74-75, em que Portugal resvalou para a condição de manicómio em autogestão, como então se dizia. Poucos videos relativos ao PREC estão à nossa disposição. Muitos terão sofrido o destino da lixeira, devido à necessidade de espaço nos arquivos da televisão e outros terão desaparecido por conveniência de muitos (tal como o arquivo da PIDE). Os filmes sobreviventes, são um precioso testemunho de um conturbado período da nossa história e demonstram claramente, as verdadeiras intenções dos senhores do momento.

Tinha apenas quinze anos e espantava-me com o baixíssimo nível exibido pelas autoridades que decidiam o nosso destino. Era a ralé mais reles! O primeiro ministro Gonçalves, criatura absolutamente inclassificável e da qual toda a Europa se ria; o Otelo e as suas quotidianas tolices de revista; as conhecidas tropelias e inépcia dos altos comissários em Angola e Moçambique; o repulsivo papel de espantosa duplicidade desempenhado pelo "marechal" Gomes; as corridas de Chaimites diante do Galeto; os patetas semi-analfabetos das coordenadoras do MFA, enfim, intérpretes de gente em tudo incapaz de gerir uma simples portaria de repartição pública, um infindável rol de excentricidades que seriam apenas risíveis se não tivessem causado a desgraça de milhões. Milhares de mortos chacinados nas ruas de Lourenço Marques e de Luanda. Milhares de soldados negros que serviram lealmente a bandeira portuguesa, fuzilados sumariamente pelo PAIGC, MPLA e FRELIMO, na Guiné, em Angola e Moçambique. Países entregues a ferozes e sanguinárias tiranias como a África jamais vira, deixando déspotas como Touré ou Idi Amin, como pálidos precursores dos caminhos abertos pela chamada "descolonização" portuguesa.

Não vou referir o problema dos refugiados do Ultramar, porque sou parte interessada. No entanto, muitos desconhecerão as humilhações suportadas por aqueles que desembarcando em Lisboa pela primeira vez nas suas vidas, depararam com uma população habilmente manipulada e pronta a encontrar novos "inimigos do povo", capazes de saciar os seus bestiais apetites por chufas, linchamentos e, claro está, de roubo. Bastava o nosso sotaque para sermos expulsos de um taxi. Foi esse o Portugal que encontrámos, a ditosa Pátria nossa amada, como na escola nos ensinaram.
Não tínhamos ilusões, porque os longos meses que se seguiram ao 25 de Abril, foram demonstrativos da natureza do novo regime implantado em Lisboa e que sob um ténue simulacro de democracia, ameaçava entregar o país a uma ditadura radical, onde até a pena de morte era reivindicada nas ruas como conquista progressista e revolucionária. Felizmente, tudo isso acabou e a ideologia que corporizou o momento, encontra-se para sempre enterrada em ignomínia. A sociedade civil e o Estado de direito venceram.

Este desabafo surge na sequência da polémica que corre pela blogoesfera e que se iniciou pelo artigo de António Barreto no Público. Os argumentos contrários à veracidade da missiva alegadamente da autoria de Rosa Coutinho, impelem os leitores desprevenidos no sentido da rejeição, devido ao mau português escrito, à crueza do projecto e - sem que alguém o tenha mencionado -, ao claríssimo indício de traição e incentivo ao crime. É esta uma verdade que a carta nos traz. Caberá aos especialistas proceder ao estudo grafológico para se comprovar a autenticidade da assinatura, mas o conteúdo programático da mesma, foi copiosamente executado de forma célere e eficaz e disso ninguém duvida. Quantos antigos combatentes estarão hoje dispostos a testemunhar ordens espúrias ditadas pelos chefes hierárquicos de 74-75? Quantos confessarão a sua passividade perante a chacina da população aterrorizada? Quantos deles estarão prontos a relatar factos até hoje convenientemente esquecidos, de participação em acções lesivas do interesse português em África? Decerto poucos, muito poucos. A retirada poderia qualificar-se de patética se não tivesse raiado a tragédia.

Os discursos das autoridades do PREC são um grande testemunho de acusação. Existem milhares de páginas impressas em jornais e revistas, com entrevistas e sonhos de grandeza pessoal. Aquela gente alçada à embriaguês do poder total, julgava tudo poder fazer ou dizer. O discurso de Vasco Gonçalves na siderurgia, nos plenários do MFA ou em comícios, as tiradas oteleiras de mão na anca e sorriso parvo à Fidel, o famoso chiclete de Lourenço ou os inacreditáveis Correias Jesuínos, Fabiões, Costas Martins, os Clementes, os Charais, os Dinis d'Almeidas e uma infinidade de nomes felizmente esquecidos e que abusivamente nos entravam em casa à hora do telejornal das oito, fizeram-nos temer o pior. Ainda hoje me parece extraordinário que entidades como o Colégio Militar ou a Academia, tenham formado como oficiais, nulidades intelectuais de tal calibre, que não lhes permitiriam a assunção de qualquer comando subalterno num exército europeu. Espantoso.

A famosa "carta de Rosa Coutinho a Agostinho Neto", inclui-se nesta colossal esteira onde rolaram cabeças, corpos e países, em suma, a vida de populações inteiras que aguardaram o destino que certos interesses lhes reservaram. A boçalidade e a crueza são apanágio de ditadores e de pretendentes a tal, categoria conseguida por Neto ou Machel e frustrada nas pessoas dos seus amigos das forças armadas portuguesas e dos cúmplices civis. A forma não estranha, assim como não é estranho o conteúdo programático, aliás um clássico perfeitamente decalcado de modelos bem conhecidos. Era a intelectualidade do momento...

A memória é curta e no plano político, poucos se lembrarão das tentativas de subverter os resultados das eleições para a Constituinte de 75, não permitindo a apresentação do MRPP (e consequente prisão de Arnaldo Matos) e do PDC ao sufrágio. Os maoístas foram o pesadelo do PC pró-soviético e eram os únicos a enfrentá-lo nas ruas e escolas, pagando caro a ousadia. O PDC amedrontava pelo simples nome exibido. Foi a primeira chapelada legal da revolução e dos seus patronos, o chamado Conselho da Revolução que após a decepção pela esmagadora derrota dos seus companheiros de viagem (12%), pretenderam a subversão dos resultados através da intimidação nas ruas, desorganização do aparelho produtivo e completo caos no Ultramar. Sabemos a quem aproveitou esse caos, a história não chegou ao fim.

As culpas e responsabilidades directas têm sido habilidosamente escamoteadas ou escondidas pelo conveniente biombo oferecido aos "pais da democracia", mas a realidade foi outra. Pais da democracia foram milhões de portugueses que nas ruas não permitiram a continuação dos desmandos que iam tornando o país numa presa fácil de um qualquer aventureiro sem escrúpulos. A democracia que hoje vivemos está seguramente muito longe do tipo de regime pretendido por uns quaisquer auto-promovidos generais Tapioca ou Alcazar. Boa ou má, foi a nossa vontade que se impôs, contra pretensos e irreversíveis destinos.
O longo processo de perseguição aos magnicidas do século XX ainda não terminou, sendo ainda hoje levados a julgamento, anciãos com mais de noventa anos de idade. Aqueles que colaboraram activa ou indirectamente na chacina de populações e que procederam a qualquer tipo de limpeza étnica, devem responder perante um Tribunal Internacional. Os crimes contra a humanidade não prescrevem. É isto que queremos tornar bem claro. Não prescrevem.

3 comentários:

cristina ribeiro disse...

Não tenhamos dúvidas de que muitas das ignomínias que nos cabe viver foram plantadas nessa altura, em que grassou uma irresponsabilidade calamitosa.

Luísa disse...

Também li o artigo do António Barreto, Nuno, e fiquei chocadíssima com as revelações, nomeadamente dessa carta do Rosa Coutinho. Acho que da história da nossa «descolonização exemplar», nunca saberemos - nem conseguiremos, sequer, adivinhar - nem a metade.

Anônimo disse...

Tudo isto é uma vergonha que anda escondida por conveniência de quem ainda manda. Até quando?