quarta-feira, 18 de junho de 2008

Dizer mal da Revolução

Se há desporto que desde há uns anos para cá tem ganho adeptos dentro da direita é o dizer mal da Revolução Francesa, caindo em generalizações ridículas sobre o estado de coisas antes das mudanças radicais que se iniciaram em 1789 (e sim meus caros quer gostem quer não gostem esta data é uma fractura essencial para o nascimento do Ocidente progressista moderno) e demonizações de alguns eventos e personagens (o directório, o papel político de Luís XVI, a sua execução, o terror) e a glorificação de outras (tudo o que foi reacção ao radicalismo e essencialmente a oposição entre a revolução americana e francesa como se a primeira não tivesse envolvido a fuga de 10% da população, violência urbana, guerra civil e ainda maiores baixas em termos proporcionais à população total) e indo alimentar o dogma “liberal” (a la Fukuyama) da evolução tendencial para o mundo-mercado. No fundo estavam perfeitamente confortáveis com um mundo em que como a antiga nobreza francesa dominem milhões de súbditos sem possibilidade de apelo – relembro que os 27 milhões de plebeus franceses tinham exactamente 1 voto nas cortes, o mesmo que poucos milhares de aristocratas e pouco mais de 100000 membros do clero.

25 comentários:

CARLOS VEIGA - PSICÓLOGO disse...

Muito bem!
A importância da revolução francesa no mundo ocidental é inegável!!!
Liberdade! Igualdade! Fraternidade!

João Pedro disse...

é bom distinguir o que de bom saíu da revolução e o que de péssimo se produziu; as ideias de liberdade que influenciaram a Europa nas décadas seguintes e que construíram os regimes constitucionais pertencem ao primeiro, e o Terror e o radicalismo dos Montagnards incluem-se claramente dentro destes últimos. Não me parece que seja uma mera "demonização" gratuita: falamos de cabeças a rolar dia e noite (mais do que as vítimas de duzentos anos de Inquisição), de genocídios como a Vendeia e dos primeiros assomos de totalitarismo. A perfeita imagem da modernidade: deve ser bem recebida, mas em demasia, acaba por ser fatal.

Nuno Castelo-Branco disse...

Pedro, quem iniciou esse "desporto" foram os próprios contemporâneos, muitos dos quais se sentaram nos Estados Gerais! Na verdade, os adoradores do modelo francês, esquecem convenientemente a clara distorção daquilo a que os Iluministas de Paris almejavam: um "sistema à inglesa", em suma, o parlamentarismo, a liberalização no acesso aos lugares do Estado. Vejam o que Lafayette dizia, Quem mais fez por liquidar a imagem da revolução junto dos moderados, foi o regime da 1ª república e o sr. Bonaparte, com as suas guerras de anexação e abusos no campo económico. A França teve muita sorte em não ter sido tratada em 1815, tal como a Alemanha foi, em 1918-19...

Pedro Fontela disse...

Carlos,

È isso mesmo! O slogan é muito usado mas pouco sentido...


João Pedro,

Ninguém diz que a guerra civil é positiva. Mas o que digo (e atenção que não quero desresponsabilizar os radicais franceses que nele participaram) é que o terror surgiu num determinado contexto político mais complexo que os senhores que critico no post parecem querer reconhecer - ficam sempre pelos contos de fadas onde existem bons e maus. Sabe eu acho que os primeiros assomos de totalitarismo surgiram com a primeira cabeça coroada mas isso é uma longa conversa...

mike disse...

Depende da perspectiva... le dépotisme éclairé?

Pedro Fontela disse...

Nuno,

Estou de acordo e não estou... existem várias correntes iluministas e por comodidade deixo aqui algo que escrevi há uns tempos noutro sitio sobre o tema:

«Ao processo que começa com Descartes e que prossegue ao longo do século XVII e XVIII, que deu origem a uma revolução no esquema mental até do habitante europeu mais desligado da vida intelectual e política, dá-se o nome de iluminismo mas o fenómeno não possui uma lógica de evolução linear ou sequer dualista. De facto o iluminismo foi construído através de um esquema triangular, da interacção de 3 movimentos e conceitos diferentes, representados grupos muito distintos.
Os radicais, que queriam aplicar a razão de forma sistemática e universal a toda a realidade, formavam uma minoria em termos de números e poder social (muitas das suas publicações eram feitas ilegalmente á revelia das autoridades reais e eclesiásticas e estavam quase universalmente excluídos do sistema de ensino) mas tiveram um poder formativo na sociedade desproporcional ao que seria de esperar - em parte devido às inconsistências dos que defendiam as posições intermédias e as insuficiências gritantes dos que se lhes opunham frontalmente. As ideias cruciais sobre igualdade, secularização do estado e naturalismo que partilhamos hoje no mundo ocidental foram essencialmente propostas por este grupo que teve por principais vozes e influências: Epicuro, os estóicos clássicos, Maquiavel, Espinoza, Bayle, Fontenelle, Diderot, D'Alembert, Helvétius, D'Holbach entre outros.
Os moderados, ou o grupo que procurava reconciliar a razão e um deus mais ou menos tradicional e com as normas sociais vigentes. Este grupo representaria a maioria dos intelectuais que já não podiam aceitar a arbitrariedade de uma visão do Homem que era completamente teológica mas que não estavam dispostos a abraçar completamente os novos conceitos. Esta corrente de iluminismo "moderado", que saiu profundamente derrotada já que foram os ideias dos radicais que prevaleceram (a coexistência da fé e da razão a um mesmo nível provou ser um projecto inundado de contradições e compartimentalizações que desafiavam os mais coerentes), era essencialmente caracterizada por uma anglofilia sendo que o seu esquema seguia a corrente dos seguintes pensadores: Bacon, Boyle, Locke, Newton, Montesquieu, Voltaire e Hume. Para suprema ironia muitas das propostas e métodos de alguns dos pensadores do iluminismo moderados foram absorvidas pela corrente radical - por exemplo: o empirismo de Hume foi absorvido pela corrente radical mas não as opiniões do autor sobre a sociedade, desigualdade racial e tradição.
O último grupo é o que os historiadores chamaram "contra-iluminismo". Um conjunto de ideias que essencialmente limitava-se à reacção face às novas propostas radicais e á reafirmação da tradição, obediência à autoridade (monárquica e religiosa) e à prevalência da fé face a qualquer método de investigação sobre a realidade. Apesar de este grupo deter praticamente o monopólio do poder durante a maior parte dos séculos XVII e XVIII foi perfeitamente incapaz de responder ás questões levantadas pelo esprit philosophique. Muito depois de os seus edifícios ideológicos terem sido derrubados e do pensamento de Descartes e principalmente de Espinoza terem sido levados às suas consequências lógicas ainda tinham medo de falar abertamente do Espinosismo - Durante décadas todos os defensores da cristandade tiveram de tal modo pavor a Espinoza e ás suas ideias que não se atreviam a escrever o seu nome, fazendo sempre alusão às suas ideias gerais (com o propósito de as rebater) sem o mencionar directamente.
Através deste conflito entre três sectores, ou mais correctamente, da interacção entre radicais e moderados e com a oposição dos conservadores, nascia um conjunto de filosofias e ideias que seriam a base do que hoje se chama a sociedade ocidental moderna.
Dado o ambiente gerado pelas monarquias absolutas que reinavam na maior parte da Europa ser um radical (e em países oficialmente católicos até ser um moderado) era oferecer-se a represálias brutais por parte das autoridades e por isso durante mais de um século todos as publicações de cariz naturalista, materialista ou republicano eram feitas ilegalmente com grande risco por parte dos autores e dos editores. Ao longo deste tempo, e apesar das perseguições, estabelece-se uma comunidade intelectual marginal que viria a ser a pedra central de todo o edifício da modernidade. Inicialmente centrada nas recém liberadas (do domínio espanhol) Províncias Unidas Holandesas e em menor escala na Inglaterra estas ideias seriam disseminadas por toda a Europa começando pela França que viria a tornar-se o centro intelectual das luzes durante o século XVIII e mesmo XIX»

http://inbetweenpt.blogspot.com/2006/10/o-iluminismo-uma-viso-no-linear.html

Pedro Fontela disse...

Mike,

Acho que os nossos "liberais" são mais fãs da oligarquia clássica, permite melhor divisão de espólios e permite que uma diminuta classe técnica/política se cole às elites económicas - que é o papel que a maioria deles desejaria obter.

CMF disse...

"Se há desporto que desde há uns anos para cá tem ganho adeptos dentro da direita é o dizer mal da Revolução Francesa..."
Esse tal "desporto" começou, e muito bem, com Burke. Depois, foram dois séculos de um esforçado desporto de esquerda: branqueamento do Terror, colocação de marcos na História de acordo com a ideologia. Mas agora menos gente compra a fraude, é só isso...

Nuno Castelo-Branco disse...

Pedro, este tema oferece quase infinitas cambiantes. No caso do chamado "despotismo esclarecido (Maria Teresa e José II, Frederico II, D.José/Pombal, Carlos III, Catarina a Grande), é em nome de soberano que se inicia um inédito programa de reformas que conduziria décadas depois, à instalação do parlamentarismo: o fim da distinção entre cristãos velhos e cristãos novos (Portugal) a abolição da escravatura na Matrópole (Portugal), a mitigação do poder da Inquisição, são actos nada desdenháveis. Em quatro décadas apenas, verificou-se uma alteração na relação de forças, pois a burguesia começa a preencher os lugares do aparelho do Estado, desde as secretarias, à magistratura e forças armadas.
Foi um processo natural e inevitável. Se a Inglaterra e a Holanda conseguiram uma abertura de forma rápida - mas conturbada (Stuarts, a chegada de Guilherme de Orange a Londres, o Bill of Rights e o parlamentarismo dos Hanôver), a Reforma teve sem dúvida um papel determinante.
A revolução francesa teve como motor primeiro, a insatisfação dos estratos burgueses que viam dificultada a sua ascensão social, devido ao poder terratenente da nobreza e à existência dos chamados Parlamentos. A revolução centralizou o poder em Paris e liquidou a nobreza como classe, potencializando o aceleramento da industrialização da França.
Quanto à crítica acerca da aversão dos regimes estabelecidos contra o espírito naturalista, recordo apenas que foi sob patrocínio de Luís XVI que se procederam a importantes expedições de exploradores naturalistas ao pacífico (Bouganville e La Pérousse), enquanto em Portugal se fazia exactamente o mesmo no Brasil (e se explorava o hinterland que ia de Angola a Moçambique. Carlos III de Espanha foi igualmente um entusiasta desse tipo de exploração científica, promovendo o levantamento das potencialidades dos domínios americanos. era o espírito da época.
* Não se trata de "dizer mal" da França. A frança encarregou-se ela própria disso, tanto em publicações - os emigrées das mais diversas tendências foram muito loquazes- como na sua política imperialista de agressão militar e económica (tão importante como a primeira). A frança da revolução estabeleceu o padrão nacionalista que nos trouxe um conturbado século XIX e o século XX que ainda conhecemos. Não adianta tecermos muitas considerações acerca de possibilidades a bondade ou o carácter desastroso dos acontecimentos. A História é assim e somos nós quem a faz. Não se pode voltar atrás.

Nuno Castelo-Branco disse...

P.S. - O que me pareceu curioso foi o "timming" escolhido para este alegado "dizer mal da revolução". referi apenas a invasão francesa - os 200 anos - como um inegável, senão um dos maiores, desastres da nossa história. Nem falei na revolução, mas apenas na agressão francesa de cariz imperial e de rapina. de qualquer forma, a maior vítima de Bonaparte - a Alemanha no seu todo - retribuiria generosamente com a mesma moeda muitas décadas depois.
Este movimento de anexação na Europa - pretendendo o controle da economia mundial através da posse dos portos onde os ingleses negociavam - já tinha raízes profundas: a derrota da França na Índia e no Canadá, reencaminhou o país para o destino que Luís XIV lhe reservara, ou seja, a hegemonia continental. Bonaparte foi verdadeiramente, o grande sucessor do rei sol e beneficiou ainda do seu incontestável génio militar.

Pedro Fontela disse...

cmf,

Fraude, fraude é defender o ancien regime como se não fosse a criação obscena que sempre foi...


Nuno,

Calma lá... eu não escrevi este texto como resposta ao teu! Simplesmente lembrei-me do tema e comentei sobre algo que tenho reparado - além disso as guerras napoleonicas são um periodo diferente daquele a que me refiro, todo o Império é uma traição aos ideais de 1789. Se fosse uma resposta tinha-te mencionado por nome.

João Borges disse...

caro Pedro Fontela

Explique-me lá, por favor e se o entender, o que "Liberdade! Igualdade! Fraternidade!" tem a ver com os "guilhotinados"? Acha que foi a última "das boas"? Ou ainda estamos em tempo de termos mais umas revoluções e com "melhores resultados"?


cumprimentos,
João Borges

Pedro Fontela disse...

João Borges,


Veja bem o que eu disse... falei do momento que considero crucial (de forma positiva) para a formação da modernidade. A igualdade passou pelo abalo da monarquia (quando napoleão foi apodrecer para a sua ilha já todas as monarquias europeias estavam feridas de morte e ainda não o sabiam) e pela formação de novas correntes políticas (liberalismo, parlamentarismo, socialismo, etc); a liberdade passou pelo abrandamento da censura social (quando mais não fosse nos escritos que eram todos os anos confiscados e queimados pelas coroas) e a fraternidade é o sentimento que deve unir as comunidades ao saberem-se iguais e livres. Se você disser que isto não chega como definição eu até lhe dou razão, podem-se escrever livros inteiros sobre cada um destes conceitos...

Em termos de aplicação para o presente. De forma absoluta acho que foi um fenomeno positivo essencial para a nossa evolução social - e pela última vez não estou a afirmar que não houve violência e injustiças q.b. no processo. Se acho que há possibilidade de algo do genero se repetir num futuro mais ou menos próximo? Depende do ritmo a que as coisas caminharem na esfera política, a continuar esta tendencia para a plutocracia de facto acho que é uma possibilidade a não excluir...

Nuno Castelo-Branco disse...

Parabéns, Pedro! este texto bateu o recorde de comentários... o tema é sempre controverso. Não quis ofender e a invasão foi o que se sabe, não há volta a dar ao que se passou, em nome da tal trilogia. Traição aos ideais da revolução? Talvez, mas os comunistas dizem hoje a mesma coisa relativamente à defunta experiência URSS ..."a ideia é boa, mas foi mal implementada, blábláblá, patati-patatá"...
:) é ou não é?
Além do mais, ainda não se estava no Império e os franceses invadiam e saqueavam o Egipto, procedendo tambem a uma política de anexações territóriais na Alemanha e na Itália*


* Os alemães não se esqueceram.

Nuno Castelo-Branco disse...

E não é que aqui tens razão, Pedro? Não me admirava nada um novo 1848. Como vão as coisas...

Pedro Fontela disse...

Bem Nuno como metade dos comentários devem ser meus não deve ser record lol :) Mas sim tens razão a invasão foi o que foi e mais nada - querer ilibar certos acontecimentos ou pessoas por simpatias ideológicas é um vicio terrivel em que espero não cair demasiadas vezes...

Sabes que cada vez que entro no British Museum ou no Louvre há sempre aquela sensação que culturas inteiras foram postas a saque...

Nuno Castelo-Branco disse...

É por essas e por outras que considero o Dr. Zahi Hawass um dos grandes homens do nosso tempo!

João Borges disse...

caro Pedro

Em teoria, académica, isolada no seu egos, qualquer "coisa" pode ser entendível. Mas o que busco na sua questão é saber até que ponto o povo francês e os "povos" do mundo estivessem – naquele momento, naqueles micro-segundos – numa posição de "Igualdade, fraternidade, etc, etc....". Se o Pedro acha, baseado na teoria "comum", então, ao primeiro guilhotinado a "igualdade" acabou-se!!!!! para isso que se eleve de novo a pena de morte para outros assuntos de igual respeito...

Pedro Fontela disse...

João,

Veja que toda a cidadania vem com certas condições... se forem violadas o contrato social e qualquer obrigação deixa de existir.

João Borges disse...

caro Pedro

Pois! ... lá se construiu um novo "contrato social" à custa de um genocídio e da ignomínia! É pr'a "Liberdade"??? Vai mais um novo contrato pr'a URSS e outro, bem assinado, pelo Mao e outros da sua espécie. E o "povo" ainda se queixa?
Em nome de que "modernidade" vamos fazer mais "sacrifícios"?

Pedro Fontela disse...

Estou a ver que viemos ter precisamente ás generalizações que falava logo no post :)

Demokrata disse...

«relembro que os 27 milhões de plebeus franceses tinham exactamente 1 voto nas cortes»

Sorte a deles! Pois, na União Europeia, 494.070.000 pessoas não tem voto nenhum matéria. Quem manda são os eurocratas e ninguém tem nada haver com isso!

Pedro Fontela disse...

E no entanto a relevância continua a ser um conceito intemporal. Falar de barriga cheia do que não se sabe é um espetaculo.

Anônimo disse...

A França só se safou em 1815, porque tinha os Bourbons para acalmar a Europa destruída pelos revolucionários Napoleão, Murat, Junot, etc e tal. 100 anos depois esqueceu-se dessa benevolência e oprimiu e explorou a Alemanha aio máximo, levando ao voto no Hitler. Porcaria de país, é uma fraude!
Pedro Matias

Pedro Fontela disse...

Pedro Matias,

Mais uma vez parecem-me afirmações exageradas... todos os países europeus tiveram sonhos imperiais profundamente nocivos a todas as culturas com quem contactaram por isso escolher uma nação e apontar-lhe o dedo como causa dos males do mundo é... simplista. E acrescento que a qualidade dos bourbons era tanta que Napoleão ainda teve um retorno (os 100 dias) e passado poucos anos a linha foi quebrada.