quarta-feira, 12 de março de 2008

Separatismos, eleições espanholas e Kosovarices

As recentes eleições espanholas, vieram demonstrar a dicotomia entre a realidade da política decidida pelas outrora chamadas maiorias silenciosas e o frenesim mediático baseado em ficções. Ainda há poucos dias, o reino vizinho era geralmente apontado como uma réplica da antiga Jugoslávia, uma "prisão de povos" (termo aliás que fora aplicado à Áustria-Hungria, Checoslováquia, Rússia imperial, entre outros desaparecidos Estados). Quem ouvisse o sr. Rovira, era tentado a crer verdadeiramente na inevitabilidade da secessão catalã, enquanto o problema basco estaria tacitamente resolvido com uma separação consagrada por um próximo referendo. Foi sobretudo, um terrível revés para a imprensa sensacionalista que por cá bem conhecemos.

Os piores prognósticos goraram-se e os partidos nacionais, os da unidade de Espanha, venceram de forma esmagadora. O PSOE - que não pode ser acusado de pretender destruir a criação dos Reis Católicos Fernando e Isabel, consolidou as suas posições, ao mesmo tempo que aumentava a sua votação de forma substancial, precisamente no País Basco, Catalunha e Baleares. O ERC, considerado como ameaça e equivalente - sem dúvida mais belicoso e ainda mais arrogante - ao "nosso BE", foi triturado e deixou de ter uma expressão que decida qualquer arranjo governamental. Simultaneamente, o PP conquistou posições naquilo a que nos habituámos a chamar Espanha propriamente dita, isto é, Castela, Aragão e País Valenciano. Boas notícias para Portugal. Sem conflitos internos de maior, os nossos vizinhos poderão combater de forma mais eficaz a crise económica que consiste numa enorme ameaça para o nosso país, porque os governos de Lisboa foram ao longo dos últimos vinte anos, fazendo depender a nossa economia daquela além fronteira. Um erro crasso e fácil de prever. Uma outra aposta noutros pontos do mundo e em economias emergentes da "zona portuguesa" africana e sul-americana, diversificariam a economia, tornando-a menos dependente dos problemas internos do parceiro hegemónico.

A secessão do Kosovo, dá-se numa conjuntura muito específica da situação criada nos Balcãs pela derrota do comunismo. Derrota que não sendo apenas política e económica, foi sobretudo, moral. Num post publicado há umas semanas e referente ao tema do Kosovo, vincava a necessidade da comunidade europeia dar uma especial atenção à Sérvia. Sendo, confesso, um atlantista convicto, neste caso discordo totalmente da posição norte-americana. A Sérvia é o único Estado herdeiro da defunta Jugoslávia, com uma certa consistência histórica. Nos finais do século XIX, lutou pela sua independência, afirmou a sua identidade, resistiu ao ataque austro-húngaro e alargou-se em direcção a norte, fruto do beneplácito dos EUA e da desastrosa política francesa do Diktat de Saint Germain e de Trianon. A Eslovénia e a Croácia, foram praticamente anexadas e se excluirmos a efémera e fictícia construção do reino da Croácia erigido por Ante Pavelic e Aimone da Sabóia (1941-45), os territórios que passaram a integrar a Jugoslávia, careciam de uma forte identidade e daquele desígnio comummente aceite e professado por uma expressiva maioria da população, de construir um Estado próprio no conjunto internacional. A Jugoslávia foi e assim se manteve sempre, como um Estado sucessor. Neste âmbito, realcemos apenas o caso montenegrino, que sendo um dos vencedores da Grande Guerra, foi igualmente e de forma coerciva incluído na Eslávia do Sul dirigida por Belgrado.

O caso do Kosovo é muito complexo e de impossível resolução. A colonização do território - pois disso se tratou - ao longo das últimas décadas, pressupôs uma radical modificação da estrutura étnica e assim, o chamado berço da pátria sérvia, passou a contar com uma forte maioria albanesa. A posição americana parece concertar-se no sentido da obtenção de uma posição vantajosa no campo militar e político. Militar, porque o Kosovo situa-se numa reconhecida posição estratégica, no novo mapa criado pela implosão da defunta URSS. Politicamente, o apoio a um "país islâmico", torna-se num maravilhoso instrumento de propaganda junto das desinformadas massas dos seguidores de Maomé, sempre sequiosas de alegadas desafrontas ao Islão. Os EUA, surgem assim como os defensores de três Estados muçulmanos em plena Europa, como a Albânia, a Bósnia e o Kosovo, ao mesmo tempo que dificultam a coesão da acção dos "Grandes" parceiros europeus, mais divididos que nunca.

A posição portuguesa, tem-me parecido bastante sensata. Se a omissão da tomada de uma posição poderá parecer espúria à luz da tradicional ética da diplomacia de antanho, as novas realidades impõem sem dúvida, novas soluções. Assim, o silêncio é a melhor opção e uma paulatina mas breve retirada dos contingentes nacionais - e sua colocação onde o interesse português é óbvio-, deve ser uma prioridade. Aliás, ainda não constou em qualquer chancelaria, que o novo Estado do Kosovo pretende aderir à CPLP...

Somos aliados dos EUA e do Reino Unido. Somos e continuaremos a ser. No entanto, não podemos ser obrigados a imolar-nos no altar dessa aliança e decerto Bismarck concordaria com este princípio.

Num mundo onde o sentido da oportunidade e da realpolitik parece ser a pedra basilar das relações internacionais, uma posição contemporizadora para com a Sérvia, pode trazer-nos dividendos onde mais nos interessa: na Rússia, a superpotência que está de regresso à mesa onde se tomam as grandes decisões e se joga o destino comum dos homens. O telefone vermelho do Kremlin foi reactivado.

4 comentários:

CMF disse...

Nuno, se me permite, gostaria de fazer dois reparos (ou melhor, pequenas discordâncias):
1) Creio que não houve uma derrota dos separatismos em Espanha. O PSOE passou a legislatura a namorar (perigosamente) os ímpetos independentistas basco e catalão (e chegou ao ponto de conseguir o que há uns anos parecia impossível: animou o nacionalismo andaluz!). Os eleitores (erradamente, ou não, o futuro o dirá) talvez tenham visto no PSOE a melhor arma para as suas ambições separatistas. Quanto ao desaparecimento da esquerda-folclórica-tipo-BE, também não estou assim tão convicto desse facto. Quem assistiu à campanha eleitoral "em directo", como eu, não pôde deixar de notar o timbre adolescente no discurso de Zapatero, aquele histerismo típico da extrema-esquerda moderna, que se preocupa mais com os okupas (ou lá como eles se chamam) e outro inúteis do que com aqueles que querem fazer a sua vida em paz e procurar a prosperidade. Resumindo: o PSOE ganhou estas eleições porque foi muito hábil a tomar conta do espaço tradicional dos separatistas e da extrema-esquerda. Mas a longo prazo talvez tenha sido um erro. O PSOE pode ter perdido espaço de manobra ao centro, e se o PP souber lidar com a situação ganha as próximas eleições. Isto sim, é a única boa coisa que veio das últimas eleições em Espanha.

2) Não sei se a Croácia e Eslovénia foram “praticamente anexadas”. Não nos podemos esquecer que a Grande Ideia, a união dos Eslavos do Sul, era transversal às diversas etnias balcânicas e tinha muitos simpatizantes na Eslovénia e na Croácia, especialmente entre as elites sobre-educadas. Quanto ao Montenegro, o Nuno diz que foi incluído de forma coerciva na Eslávia do Sul dirigida por Belgrado. Mas os montenegrinos eram (e são) sérvios. Havia uma ligação (étnica e política) entre Belgrado e Cetinje muito maior do que entre qualquer uma das outras etnias. Aliás, como eu disse, nem sequer existe aqui uma questão étnica: os montenegrinos são sérvios. O nacionalismo montenegrino foi fabricado por Belgrado, no final do século XIX, com o objectivo de unir os clãs na luta contra o já titubeante império otomano. A separação entre Sérvia e Montenegro foi o episódio mais ridículo da desagregação da Jugoslávia.

Cumprimentos,
Carlos M. Fernandes

Nuno Castelo-Branco disse...

Quanto ao PSOE, espero bem que saiba ler os erros do passado e não voltar às tentações dos anos 30. No entanto, quero ser optimista e pensar - por enquanto - que os espanhóis "colocaram a mão no bolso" e decidiram garantir a prosperidade conquistada. talvez, vamos a ver. No entanto, interessa-nos que em Espanha existam dois partidos nacionais hegemónicos e que o PP não se torne no único "partido espanhol". seria uma desgraça. espero que me perdoe os excessos que debito à ERC, mas devo ter anticorpos: neles vejo instintivamente o inimigo. racista, xenófobo, mesquinho e odioso, é o mínimo que posso dizer.
Quanto à Jugoslávia, tem razão em sublinhar a certa atracção exercida pela Sérvia sobre as regiões limítrofes pertencentes à Áustria-Hungria, mas o facto é que 1914-18 encontrou os regimentos croatas e eslovenos, unidos na fidelidade a Francisco José. O catolicismo talvez tenha sido mais forte que o pan-eslavismo. O assassinato do rei Alexandre em Marselha, foi obra do terrorismo croata (curioso, quando a isto se referem, os historiadores portugueses falam em terrorismo, mas quando chega a vez de D. Carlos, falam em "atentado"...). A Croácia manteve-se sempre relativamente tranquila e se as elites se exprimiam contra o Dualismo, parece-me que iam ao encontro daquilo que o arquiduque Francisco Fernando pretendeu criar: uma vasta confederação germano-hungara-eslava. uma quimera? talvez. A União Europeia é-o ainda mais!
O Montenegro: são sem dúvida sérvios, mas "espernearam" bastante quando da incorporação na Jugoslávia. O Carlos tem razão quando sublinha a força dos clãs. Pouco parece ter mudado

cristina ribeiro disse...

No que respeita à independência unilateral do Kosovo, acho que andou muito bem em recusar a posição dos EUA, sem que tal, como bem frisou, tal signifique um distanciamento relativamente a estes...
Já quanto à independência do Montenegro - e lembro-me de ter, na altura, mantido, no "Insurgente" uma discordância com CMF-,a coisa parec-me bem diferente: sempre teve uma História de soberania face aos Otomanos, ao contrário de muitos dos seus vizinhos, tendo como diz, "esperneado" bem quando, no fim da 1ª Guerra Mundial, foi integrado no então Reino da Jugoslávia.

Anônimo disse...

O melhor era ter-se mantido a Jugoslávia, tal como existiu durante anos. A imagem é bonita, pertence a quem?