quarta-feira, 19 de março de 2008

Nesta pequena aldeia chamada Terra

(Torre de Babel por Pieter Brueghel, tirada daqui)

Enquanto num acto simbólico e inédito, a chanceler alemã, Angela Merkel, discursou no Knesset, criticando o Irão e reforçando o apoio a Israel quanto ao conflito israelo-palestiniano, já o Comandante da NATO teme pelos soldados em missão no Afeganistão após o anúncio da intenção de um deputado holandês de divulgar um filme de cerca de 15 minutos onde critica o Corão, a que o presidente egípicio, Hosni Mubarak, reagiu dizendo que os insultos ao profeta Maomé trazem inconvenientes a todos.

Do outro lado do mundo, num liceu no Illinois, um estudante de origem iraniana pretende processar a escola que frequenta depois de uma professora e vários colegas o terem descriminado, insinuando que cabe no estereótipo típico de um terrorista e, nesse mesmo país, o Pentágono revela um plano para melhorar a imagem dos E.U.A. no mundo e garantir uma ordem mundial mais pacífica, que em conjunto com as declarações do Ministro dos Negócios Estrangeiros Iraquiano de que uma rápida retirada das tropas norte-americanas seria catastrófica e de consequências desastrosas, pressiona no sentido de que as questões do Afeganistão e Iraque se tornem centrais na agenda dos candidatos presidenciais norte-americanos.

Nesta era da globalização, da chamada aldeia global, da revolução científica e tecnológica, onde a ordem mundial ainda se está a tentar definir, é cada vez mais evidente que Fukuyama não tinha razão em proclamar o Fim da História quanto às democracias liberais, pelo menos tão cedo quanto previa, e que o tão criticado Choque de Civilizações de Huntington vai sendo cada vez mais acertado.

Nesta espécie de sistema de estados ou sociedade internacional, onde muitos tentam puxar no sentido de uma kantiana comunidade internacional partilhada, o sistema tornou-se global e deixou de ter um ambiente externo para onde possa exportar os problemas que não consegue resolver, o que advém da transversalização da economia mundial e dos avanços tecnológicos que acentuaram de sobremaneira as interdependências.

Nesta pequena aldeia chamada Terra onde não nos conseguimos entender a nós mesmos nem lidar com os outros, onde questões de etnia, raça, religião, língua, cultura, mais se apresentam como causas da divisão e choque entre indivíduos e nações, nesta Torre de Babel onde todos fomos divididos para que não nos possamos entender, ainda não conseguimos sequer encontrar uma solução pacífica para a paz e desenvolvimento mundial, e no entanto preocupamo-nos com formas de vida alienígena e viagens ao espaço, talvez porque seja esse o próximo ambiente externo para onde poderemos exportar os problemas que não conseguimos resolver, ou porque talvez algures possamos começar uma nova Humanidade sem os vícios e problemas da actual.

O que é certo é que temos viver aqui e agora nesta pequena aldeia chamada Terra, onde a Teoria do Caos de que uma borboleta bate asas em Nova Iorque, Washington, Bruxelas, Pequim, Londres, Paris, Moscovo e logo levanta uma tempestade em qualquer canto do planeta, cada vez mais se me apresenta como a mais viável para explicar o mundo em que vivemos, nesta quotidiana verificação do que Jung verbalizou na ideia de que em todo o caos existe um cosmos e em toda a desordem há uma ordem.

2 comentários:

Cristina Ribeiro disse...

É isso. A Babel está bem presente entre nós, e receio que esteja de pedra e cal...

Samuel de Paiva Pires disse...

Feliz ou infelizmente assim é...nem entre nós nos conseguimos entender e andamos a pensar em extra-terrestres e em viagens ao espaço...