quinta-feira, 20 de março de 2008

A importância de Bin Laden para a ordem internacional

Numa nova mensagem audio Bin Laden veio condenar e ameaçar a Europa, fruto dos insultos que os cartoons dinamarqueses têm intentado contra o Islão. Devem os norte-americanos andar a pensar que talvez assim os europeus consigam sair do marasmo da hesitação na luta contra o terrorismo global, bem na senda do que Fukuyama considera em A Construção de Estados, a ideia europeia de um mundo pacífico, que só o é dentro das suas fronteiras, supostamente suportado pela máquina de guerra norte-americana.

Esta mensagem surge numa altura em que Bush veio afirmar que o mundo é um lugar melhor graças à intervenção no Iraque, e em que vale a pena ler este artigo de Paul Craig Roberts, ex-Secretário Assistente do Tesouro da Administração Reagan, sobre o colapso do poderio norte-americano, que poderá levar a uma grande transformação na configuração do panorama internacional.

De notar ainda que Bin Laden, mais do que qualquer outro Estado, Multinacional ou Organização Internacional, tornou-se um importantíssimo actor das relações internacionais contemporâneas, até pela estabilidade que providencia. Num mundo em que as questões de segurança transbordam para áreas aparentemente tão díspares como o ambiente, os recursos energéticos ou os direitos humanos, e em que estamos num daqueles raros momentos da História em que a ordem internacional se configura através da ausência de uma dialéctica de poder, em que passou a existir uma monopolaridade e um vazio institucional ou moralmente legítimo, isto é, um Estado ou Estados e/ou uma Ideologia, Bin Laden desempenha o papel de uma entidade quase transcendente que deve pairar sobre todos nós como forma de nos limitar nas nossas acções, sendo um excelente aliado dos E.U.A. na lógica maquiavélica, napoleónica e bismarckiana de que é necessário um inimigo comum para promover a coesão interna.

Bin Laden é assim uma espécie de Big Brother orwelliano, que não se sabe muito bem se ainda existe e o que é que faz, mas que em conjunto com os E.U.A. consegue pôr um planeta inteiro a pensar, a falar, a escrever e a agir em nome da luta contra o terrorismo, em que a ideia de um inimigo invisível parece assentar que nem uma luva neste sistema internacional. Trocámos a lógica da Guerra-Fria pela lógica do Ocidente e mais alguns contra o Terrorismo fundamentalista islâmico, em que Bin Laden se tornou o melhor aliado dos E.U.A. para a manutenção do estatuto de super-potência suprema sobre todos os outros. Talvez eu esteja enganado quando recorrentemente tenho dito que a ordem mundial ainda se está a tentar definir a si própria. Talvez esteja até bem definida, pelo acima exposto.

3 comentários:

José M. Barbosa disse...

Muito bem visto!

cristina ribeiro disse...

O José M. Barbosa tirou-me as palavras da boca :)

Samuel de Paiva Pires disse...

Muito agradecido pelas simpáticas palavras! Ainda que não esteja a insinuar qualquer tipo de teoria da conspiração como as que aparecem por aí a dizer que o 11 de Setembro foi orquestrado pelos Estados Unidos, e independentemente da verdadeira, ou não, intenção norte-americana de captura de Bin Laden, a realidade é que esse dá-lhes muito mais jeito na situação actual.