quinta-feira, 27 de março de 2008

Março de 1982. A nova JM e a primeira reunião



Duas imagens da nossa primeira reunião como Comissão Concelhia de Lisboa da JM (Março de 1982)

Março de 1982. Recentemente empossada, a nova Concelhia da Juventude Monárquica do PPM, realiza a sua primeira reunião na sede do Partido, na Rua da Escola Politécnica, a S. Mamede. Presidido pelo Miguel, o grupo de trabalho organizou em pouco tempo a escassamente representativa JM, que no âmbito da acção escolar era praticamente inexistente. Antes do fim daquele ano lectivo, já contávamos com importantes vitórias para a associação de estudantes dos mais importantes liceus da capital e a presença sempre em crescendo, de simpatizantes, era notória nos comícios da A.D. O ano de 1982-83 foi vivido freneticamente e os resultados obtidos, surpreenderam pela grandeza e expressão das vitórias, facto para muitos espantoso, pela simples razão da quase total inexistência de recursos para as acções de propaganda que eram próprias daqueles tempos.

Esta introdução, serve sobretudo, como base para a eterna e delicada questão colocada entre os monárquicos e que tem como ponto primordial, o estabelecimento de imaginários - porque impossíveis de fixar - limites da acção tendente a captar aqueles que eventualmente sejam susceptíveis à causa da luta pela mudança da forma de representação do Estado. Conhecendo bem as dificuldades decorrentes do regresso à eterna batalha da "doutrinação", abundantemente prosseguida durante a maior parte do século passado pelos Integralistas e seus dissidentes, será preferível encarar este problema de uma forma mais objectiva, talvez menos sólida sob o ponto de vista conceptual, mas sem dúvida mais consentânea com o nosso tempo.

Recordo-me perfeitamente das longas noites de vigília, onde discutimos até à exaustão os problemas que quotidianamente surgiam nos nossos núcleos, que, é preciso dizê-lo claramente, cresceram de uma forma tão rápida, que se tornava difícil gerir ou viabilizar a sua consolidação nas escolas. Faltavam-nos os meios materiais e assim, a competição directa com as grandes organizações JSD, JC ou JS, tornava-se numa luta desigual e extenuante.

O facto de os símbolos serem fundamentais como polo de atracção e de identificação de grupos, facilitou o nosso trabalho, porque neste campo, as explicações de âmbito "racional", deixavam de ter razão de assim se considerar. Na verdade, a simples apresentação de uma só bandeira histórica, eclipsava milhares de autocolantes ou cartazes dos nossos adversários. Disso o Miguel se apercebeu rapidamente e a direcção da propaganda foi criteriosamente orientada para um aproveitamento e distribuição de meios que possibilitassem a máxima visibilidade. Os resultados foram bons e muito acima das primeiras expectativas. O Directório do PPM - recordo-me muito bem de um exultante Ribeiro Telles e do encorajamento de Luís Coimbra, Ferreira Pereira, Borges de Carvalho, Ferreira do Amaral e Barrilaro Ruas -, estava estupefacto com o sucesso obtido de uma forma aparentemente tão fácil e inesperada. Nada se deveu ao acaso ou a uma moda passageira, explicável pela novidade de uma organização moderada e que apelava ao patriotismo.

Na realidade, e embora fossemos extremamente jovens, verificámos de imediato que a explicação do retumbante êxito da JM e do correspondente afundamento dos nossos rivais se devia essencialmente, ao grande poder de atracção exercido pela Monarquia - sem que aqui seja curial sedimentar princípios, doutrinas ou programas -, como polo aglutinador de vontades. O esvaziamento do eleitorado liceal da JSD/JS/JC devia-se sobretudo a uma escolha entre a imaginária, porque pouco consistente fidelidade "partidária" e a opção clara por aquilo que é substancial, mesmo que na aparência peque por alegada irracionalidade. Não era necessário explicar o porquê de se declarar monárquico e sinceramente, ainda hoje creio que a esmagadora maioria daqueles que aberta ou solitariamente se revêm nestas cores, não precisam de qualquer justificação. Crêem, é tudo. Se aparentemente pode isto remeter-nos para o saguão das inutilidades - criado pelos chamados intelectuais cuja única função reside na anulação do querer e vontade daquilo a que depreciativamente chamam "povo" ou "homem comum" -, talvez não seja extemporâneo afirmar encontrar-se aqui a grande força que possibilita aqueles momentos únicos da História, onde os acontecimentos conduzem as sociedades a desenlaces inesperados e que podem surpreender. A verdade é que aos vinte anos já compreendiamos que a "Monarquia" cortava transversalmente toda a sociedade, estilhaçando afinidades clubísticas ou partidárias, unindo vontades e fazendo esmorecer diferenças, fossem elas de âmbito educacional ou de pertença a "classe". No entanto, deparámos com o paradoxo de um Partido que sendo inegavelmente pioneiro na modernidade das suas propostas de reorganização do país e do Estado - eram bem conhecidos os livrinhos publicados pelo PPM, sobre a agricultura, ambiente, urbanismo, política externa ou reordenamento territorial e que eram praticamente copiados pelos staff dos grandes partidos do poder -, enfermava também, daquilo a que rapidamente denominámos de "vertigem do reposteiro-mor". Isto quer simplesmente dizer que por aquela sede passavam personagens absolutamente setecentistas, onde o apego aos "valores do fado", "touradas reais", costadismos e brasonites de outrem, eram o ponto de honra e identificativo de pertença à casa. Era desesperante o simples e necessário trabalho de sede, o local ideal para reuniões e preparação de acções de rua. Tendo a JM atraído jovens que em muitos casos estavam habituados às sedes dos seus próprios partidos - fossem eles o psd, o ps ou o cds -, tornavam--se embaraçosas as constantes interrupções feitas por alienígenas clamando por ..."é preciso doutrinar"..., imiscuindo-se na concepção de um mero cartaz, enrubescendo as calvas por causa de castelos em pé ou caídos no escudo nacional, esperneando pela bandeira branca ou liberal e outras transcendências do estilo. As tiradas à Sardinha, a evocação deste ou daquele homem santo, os mistérios do V Império, as profecias do Bandarra e obrigatoriedade da leitura das Razões Reais - e aqui ressalvo toda a consideração que Mário Saraiva merece -, eram o polo negativo que sendo tão exótico e bizarro, se tornava na imagem de marca da organização sénior. E isto muito injustamente, porque na verdade, Telles e a sua equipa tinham um projecto que ia muito além da discussão da forma de representação do Estado.

O PP era um partido que também era M por opção. Quase ninguém disso se apercebeu e estou apenas a referir-me aos "monárquicos" que inacreditavelmente, muito se surpreendiam pela existência de correligionários - termo que no PPM se equiparava aos camaradas no PC e PS - em todos os outros partidos! Os "netos do conde de Chambord", como gostosamente lhes chamávamos, viviam no planeta das pirites, das ortotenias, dos jogos do pau e das lutas de galos. Creio que hoje em Portugal, só uma parte do BE possuirá características em tudo semelhantes aqueles preclaros e auto--conceituados massas cinzentas, como muitas vezes se declaravam a quem os quisesse misericordiosamente escutar.

Desde cedo concluímos também, que os considerados homens inteligentes da nação, eram muito hábeis na simples manipulação dos números e preocupações comezinhas do dia a dia, mas de uma total vacuidade na transmissão de algo que se situasse para além de um suposto evento a acontecer dentro de horas ou dias. Assim, a massa susceptível de se interessar por algo que não se limite a superficialidades de um consumismo aliciante, torna-se inevitavelmente muito restrita a uma mão cheia - passe a expressão - de esclarecidos e talvez, de verdadeiros conformadores e organizadores daquilo a que chamamos coisa pública. E esses, infelizmente, estão hoje numa total dependência de um sistema que os alimenta e garante lugares melhor ou pior remunerados. Em 26 anos nada mudou, nem mesmo o recurso às novas tecnologias que se democratizaram o acesso à informação, acabaram também por alargar enormemente, a transmissão dos desígnios dos grupos mais poderosos que a controlam.

O Partido Monárquico é impossível e totalmente indesejável. Ainda há poucas semanas, quando da votação da moção parlamentar relativa ao regicídio, não nos surpreendemos por aquilo que se passou no parlamento. A chamada Direita votou em bloco, é "claramente permeável". A Esquerda votou contra, mas as dúvidas foram evidentes. A dois deputados do PS - que são "correligionários", como dizíamos -, perguntei o porquê daquele estúpido voto negacionista. O "teve que ser", o "não tem importância por agora", coincidiam perfeitamente com a desejável disciplina partidária. No entanto, declararam-me também, que essa disciplina não é extensível ao dia de um hipotético referendo nacional, nem sequer a uma eventual emenda ou resolução parlamentar num momento de crise. Têm toda a razão! É isto que os "monárquicos" precisam de entender e de uma vez por todas. Porque o seu desejo de Restauração, é tão válido e tão precioso como o do seu adversário de clube ou de partido. No entanto, é também necessário o apresentar de soluções para os problemas do país, sejam eles de ordem constitucional - hoje bastante degradada e à beira do fim de ciclo -, ou de ideias - dentro ou fora dos partidos em que os monárquicos se revejam - tendentes à nossa consolidação como nação que após o encerramento de cinco séculos de império, ainda procura o seu espaço e destino.

O que ficou daquela década de acção? Alguma coisa. Ainda hoje são monárquicos aquelas dezenas de colaboradores constantes, muitos dos quais são frequentadores da blogosfera. Outros há que são deputados, juízes e presença habitual em jornais e televisão e que jamais renegaram "a causa". É com orgulho que recordo o também longínquo verão de 87, em que aquele núcleo que formara quatro anos antes a NM, acabou por salvar a campanha eleitoral do CDS de Adriano Moreira, vítima da fuga dos seus militantes abismados pela avalanche cavaquista. Valeu a pena. Continuámos o caminho aberto por Telles nos anos sessenta que desfez muitos preconceitos e mentiras. Sem isso, existiria um hiato intransponível.

Este texto é uma explicação. Tenho recebido muitos e-mail com apelos ao ressurgimento imediato da Nova Monarquia, que como é evidente, jamais poderia ser a mesma de há vinte anos. O mundo mudou e nós também. A eleição de Paulo Teixeira Pinto para a presidência da Real, foi talvez um ponto essencial num virar de página da história de uma causa-sem-efeito. A sua acção já se fez sentir. Seria uma deslealdade o surgimento de uma organização paralela, até porque PTP possui qualidades sobejamente reconhecidas - o Prós e Contras demonstrou-o -, para captar a atenção de muitos. O tempo o dirá.

8 comentários:

cristina ribeiro disse...

Tem razão, Nuno. Esta é a hora de todos se unirem, à volta do essencial, para que um dia as coisas possam ser possíveis...

António Bastos disse...

Um texto que me fez relembrar alguns momentos vividos no comício no Pavilhão Carlos Lopes com o Prof. Adriano Moreira, ou as conferências no Hotel Roma. Meu Deus, estou a ficar velho!

Anônimo disse...

Ainda era uma criança anquele tempo, mas vendo a foto, parecem ser gente de hoje. Portugal já tinha pessoas assim há 25 anos?
Pedro Matias

João Pedro disse...

Interessante texto. Já que fala nisso, no outro dia o blogue Bic Laranja mostrava as fotos de alguns murais; um deles era da Juventude Monárquica, datava de 83 e ocupava uma parede do Técnico, em Lisboa. Calculo que o Nuno e o seu irmão tenham tido parte na sua autoria.

Nuno Castelo-Branco disse...

Sim, João Pedro, estivemos lá. Foi uma longa tarde e o sol era abrasador. Acredita se lhe disser que não tenho fotos dessas?

João Pedro disse...

Então aqui tem um exemplar raro, caro Nuno. http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/x-arqweb/(S(sqe2i355nqzoc0bj4m2o4v45))/ContentDisplay.aspx?ID=9524e772854e0001e240&Pos=1&Tipo=PCD

Espero que o link esteja correcto. Bom seria encontrar mais fotografias destas, com murais do PPm ou da Nova Monarquia.

João Borges disse...

Caro Nuno

Não tenho tempo, neste momento, para mais do que felicitá-lo por esta memória. Parabéns. Não o conheço mais do que tenho esporádicamente lido, mas a sua memorábila espelha o seu carácter e amadurecimento face aos tempos que descreve. Conheci, recentemente o Borges de Carvalho e o Luís Amorim a quem pedi uma pequena colaboração para algo que quero organizar. Não sei se me vou situar mas sou primo do (já) saudoso e peculiar João Camossa, fundador do PPM.
Falaremos mais tarde.

cumprimentos,
João Borgesj

João Borges disse...

caro Nuno

(p.s. do comentário anterior)
... pelo que me sugere o comentário do interveniente João Pedro, o Nuno e o Miguel Castelo-Branco (do blogge Combustões) serão irmãos. Quero transmitir-lhe que considero o seu irmão, pelo cerne intelectual e índole que transpira, um Homem-elite.


cumprimentos,
João Borges