terça-feira, 2 de outubro de 2007

O Homem de Estado

Não vou aqui deixar extensas teorizações sobre noções clássicas de Filosofia e Teoria Política. Não é esse o propósito deste blog. Mas a título inicial remeto os leitores para o artigo publicado em http://symposium.nostrumtempus.info/, intitulado “Da melhor forma de governo e a estabilização do subsistema internacional ocidental”, que poderá ser uma boa introdução para a visão que aqui tentarei transmitir, e que para a maioria, poderá à primeira vista enquadrar-se num radicalismo.

Sem mais, inicio o primeiro post deste recém-nascido projecto.

Ainda haverá e o que deverá ser o Homem de Estado?

A centelha que incendiava os espíritos de animais políticos como Richelieu, Napoleão Bonaparte, Otto von Bismarck, Metternich, Woodrow Wilson, Theodore Roosevelt, Winston Churchill, Lenine, Estaline, Charles de Gaulle, Mao Tse Tung, Hitler ou Mussolini, só para citar alguns, poderá ainda ser encontrada hoje em dia? Mesmo no plano nacional, o sentido de Estado do Marquês de Pombal, Duque de Saldanha, Marquês de Sá da Bandeira, D. Pedro IV, Fontes Pereira de Melo, Mouzinho da Silveira, Rodrigo da Fonseca, José Estevão, Almeida Garrett, Teófilo Braga, Manuel de Arriaga, Bernardino Machado, António de Oliveira Salazar, será que ainda poderá fazer parte do ideário do político português?

Atentem os caros leitores, na referência a individualidades do absolutismo ao liberalismo, da monarquia à república, da esquerda à direita. Porque o sentido de Estado não deve ser visto através de lentes maniqueístas redutoras entre duas perspectivas aparentemente opostas, personalidades tão distintas como Churchill e Hitler, são representativas de uma capacidade necessária à definição de um elevado interesse nacional, que independentemente da sua orientação ou conotação ideológica, deverá permitir alcançar o desenvolvimento intelectual, económico, político e social dos seus cidadãos, bem como potencializar os recursos à sua disposição, por mais infímos que sejam, para inferir tendências no plano internacional.

O Estado, essa entidade considerada pelos Portugueses como estranha, porque invasora, deve ser o albergue de tendências que se concretizam numa governação que não se deverá limitar a gerir a situaçao vigente, até que se alterne com a suposta oposição, numa contínua alternância sem alternativas.

Porque o Estado chama a si a noção de Pátria, consegue conter os seus cidadãos, a ele ligados por esse conceito socialmente construído, actuando no sentido de preservar os interesses dos que se encontram no topo do aparelho de decisão, e não o colectivo e superior interesse nacional.

O interesse nacional, não corresponde necessariamente à soma das vontades individuais, mas sim a uma Rousseauniana vontade geral, que só um verdadeiro Estadista poderá aferir e definir.

Só um verdadeiro Estadista poderá fazer cumprir interesses e projectos que beneficiem o Estado e a Nação, com uma visão de longo prazo, que até lhe poderão imputar custos políticos mais imediatos, como uma reeleição, ou uma perda de popularidade.

A acepção Maquiavélica (no sentido técnico do termo) de que o Príncipe deverá fazer tudo para se manter no poder, tem de ser contextualizada no âmbito da sua obra, e não interpretada de forma isolada, como a maior parte dos actores políticos actuais faz.

Porque o Príncipe é eleito pelo povo, deve sempre ter presente a noção de “coisa pública”, pois ele, enquanto “servidor público” deve garantir o bom funcionamento da res publica. E deve ter noção do real, de quando deixa de ser útil aos seus cidadãos.

Perspectivando de forma distante e desapaixonada, julgo que grandes líderes da linha dos acima referidos, para o bem ou para o mal, conforme as interpretações da História, muito raramente poderão ser encontrados hoje em dia. Para já, não me ocorre nenhum.

O movimento de massificação das sociedades contemporâneas, em conjunto com uma aceitação generalizada de um conceito de democracia comum aos países geralmente designados por Ocidentais, conduziu a um sistema integrado que perdeu o carácter ideológico que o mundo comportou, desde o início da civilização até à data da queda do Muro de Berlim e da ex-União Soviética.

O poder das ideias e das ideologias não podia ser subestimado, era o motivo de mobilização de sociedades, nações e estados, e numa perspectiva Kantiana, foi no plano das ideias que as grandes revoluções encontraram a sua base.

Mas num mundo sem ideologias, a consciência política perde-se, de dia para dia, quando o cidadão comum não mais actua como cidadão, quando não mais se preocupa com a actividade política, preferindo que escolham por ele, quando se vê jovens toldados pelas redutoras ideias de Juventudes Partidárias, ou dogmáticos demagogos profissionais, ir e vir, assumindo posturas de D. Sebastião, salvador da Pátria, nesse usual discurso messiânico do “agora é que é, agora é que vamos chegar a algum lado”, que se repete e perpassa os líderes de todo o espectro partidário português.

Não terá chegado a altura de reflectir sobre qual é hoje o sentido de Estado e o Estado sentido nesta República à beira mar plantada?

É o representado por PS e PSD, os únicos partidos que poderão almejar a concretizar um projecto de governação, que por vezes, já nem eles sabem o que representam? É o que responde aos inputs imediatos do mercado, sejam eles quais forem, porque o que interessa é responder ao que as massas pretendem, para garantir a reeleição? É o aparente pluralismo democrático que chama partidos da periferia ao poder, para que deixem de prosseguir os seus ideais interesses iniciais, em troca de uma mísera capacidade de influência? É o debate nostálgico sobre uma eventual ressurgência da Monarquia ou de um resquício salazarista?

Salvem-nos a nós de cair neste tédio, pois então todos teremos que ser recordados, por Pessoa, que o Estado é superior ao cidadão, mas o Homem é superior ao Estado.

Porque L’État ne c’est pas moi... nem são apenas uns poucos...

Um comentário:

vera disse...

Eu diria que está há demasiado tempo no Brasil e já voltáva para Portugal para me explicar mais pormenorizadamente essa sua "posição politica" se é que lhe podemos chamar assim.
Está á sua altura ...nada a que não nos tenha habituado já. À altura não estou eu, para já, de criticar tantas e tamanhas abordagens ao conceito de Estado, à (in)existência de figuras de Estado ou de participação cívica, ou mesmo da consciência por parte da maioria de nós do que quer que isso seja... Até porque concordo com muitos dos pontos que foram focados, nomeadamente no facto de o chefe do Estado, na figura principal do Estado concentrar em si o poder e a obrigação de tudo pelo Estado fazer ainda que por si só isso possa trazer para si poucas regalias ou até a não re-nomeação, etc... Há verdadeiramente pontos aqui nos quais existe uma concordância de pontos de vista, mas muito mais á a discutir, portanto, largue daí o forró e volte rápido sim? =`P*

Cumprimentos, Vera Matos*