A João Marchante, do blogue Eternas Saudades do Futuro, a referência...
terça-feira, 24 de junho de 2008
Do Sentido de Estado
Porque também nutro uma especial admiração de teor académico pelo homem do século XX português, quero notar aquilo que escrevia em 1936/37 no ensaio "Como se reergue um Estado" (ed. Esfera do Caos). Se paralelismos podem ser traçados entre o sistema do rotativismo monárquico do século XIX e o que se revela hoje em dia, é também de notar a forma precisa como Salazar diagnostica algo que tem levado à decadência dos regimes políticos em Portugal, tão presente na I República como talvez na actual III. Tirem as ilações que quiserem:
A seriedade é, em primeiro lugar, a conformidade dos sentimentos com as ideias e a conformidade dos actos com os princípios. Tanto na vida pública como na vida privada, a falta de sinceridade desmoraliza e cansa: nenhum regime político que emprega a mentira como método de governação ou que se contenta com verdades convencionais pode ter crédito na alma popular.
Para nós, não há falsas acusações como arma política, nem factos para além daqueles que foram controlados, nem promessas que não sejam a antecipação de um desígnio amadurecido ou de um plano realizado com segurança.
Se somos contra os abusos, as injustiças, as irregularidades da administração, o favoritismo, a desordem, a imoralidade, é porque isso corresponde a uma ideia séria de governação e não a uma atitude política, à sombra da qual cometemos os mesmos abusos e as mesmas injustiças.
(...)
A gravidade da vida não implica necessariamente o luto da tristeza, o pessimismo, o desencorajamento; ela é, pelo contrário, muito compatível com a alegria do povo, as brincadeiras, a graça e o riso. Exige simplesmente que as coisas sérias sejam seriamente tratadas. Eis porque é que as pequenas conspirações de passeata, os planos dos revolucionários desempregados, os projectos que trarão felicidade e abundância apenas porque são publicados no Boletim Oficial, os gabinetes de amigos, as combinações de nepotismo, a distribuição de lugares e a criação do caos de onde sairão depois, espontaneamente, a ordem e a luz, deixam de lado as profundas realidades nacionais e não passam em geral de jogos infantis, de pequenas tragédias familiares, sob o olhar vigilante dos pais.
A seriedade é, em primeiro lugar, a conformidade dos sentimentos com as ideias e a conformidade dos actos com os princípios. Tanto na vida pública como na vida privada, a falta de sinceridade desmoraliza e cansa: nenhum regime político que emprega a mentira como método de governação ou que se contenta com verdades convencionais pode ter crédito na alma popular.
Para nós, não há falsas acusações como arma política, nem factos para além daqueles que foram controlados, nem promessas que não sejam a antecipação de um desígnio amadurecido ou de um plano realizado com segurança.
Se somos contra os abusos, as injustiças, as irregularidades da administração, o favoritismo, a desordem, a imoralidade, é porque isso corresponde a uma ideia séria de governação e não a uma atitude política, à sombra da qual cometemos os mesmos abusos e as mesmas injustiças.
(...)
A gravidade da vida não implica necessariamente o luto da tristeza, o pessimismo, o desencorajamento; ela é, pelo contrário, muito compatível com a alegria do povo, as brincadeiras, a graça e o riso. Exige simplesmente que as coisas sérias sejam seriamente tratadas. Eis porque é que as pequenas conspirações de passeata, os planos dos revolucionários desempregados, os projectos que trarão felicidade e abundância apenas porque são publicados no Boletim Oficial, os gabinetes de amigos, as combinações de nepotismo, a distribuição de lugares e a criação do caos de onde sairão depois, espontaneamente, a ordem e a luz, deixam de lado as profundas realidades nacionais e não passam em geral de jogos infantis, de pequenas tragédias familiares, sob o olhar vigilante dos pais.
Portugal começou a "cumprir-se"
Com a morte do Conde D. Henrique, vinha crescendo a importância do fidalgo galego Fernando Peres junto da Condessa viúva, D. Teresa, o que punha em perigo as pretensões autonómicas de um alargado grupo de Cavaleiros do Condado, os quais transferiam agora as suas esperanças para o ainda muito novo D. Afonso Henriques, a quem urgiam neutralizasse aquela maléfica influência, pois que, como refere um ilustre vimaranense, Padre Torquato, «a brevidade com que se ataca os males é remédio deles».
Deste modo, no dia em que se honrava São João, aconteceu, em lugar incerto, mas nas imediações do Castelo, o recontro no qual, nas palavras do General Luíz Maria da Câmara Pires, se jogou "o destino de um povo, a batalha por Portugal"...
E se é certo que só meio século depois, "de trabalhos e proezas militares", como se lê na Bula "Manifestis Probatum", de 23 de Maio de 1179, Alexandre III confirmaria o novo reino e a realeza de D. Afonso, nada de mais verdadeiro do que considerarmos aquele como o primeiro dia de Portugal...
segunda-feira, 23 de junho de 2008
domingo, 22 de junho de 2008
Ainda na Beira Alta
Começámos por olhar as ruínas do palácio de Cristóvão de Moura, feito conde, e Senhor daquela terra por Filipe II, como paga da lealdade à coroa castelhana, mas que o povo, logo que soube da Restauração, na pessoa de D. João IV, destruíu quase totalmente, para, depois de percorrermos aquelas ruas solitárias que conduziam ao Castelo, mandado erigir por D. Dinis após a celebração do Tratado de Alcanizes, apreciarmos o monumento evocativo da Batalha de Salgadela, no ano de 1664, decisiva para a defesa de toda aquela região, e onde se destacou o governador militar da Beira, Pedro Jacques de Magalhães.
sábado, 21 de junho de 2008
Sempre pelo São João
"Há-de ser feita antes do nascer do sol, senão amarga".
Muito cedo lhe foi inculcada a crença nas propriedades calmantes da planta, pelo que lembro, desde sempre, a grande "chocolateira" (era assim que a chamávamos, apesar de nunca ter sido usada para fazer chocolate, e era em barro) com a infusão quente, ao borralho, que tomávamos, invariavelmente, antes de deitar, com bolachas Maria. Era o melhor dos aconchegos...
Celebrações
Hoje muitos neo-pagãos celebram o solstício de Verão! No Wicca com o nome de Litha ( noutras religiões pagãs com outra designação ) celebra-se ritualmente a maturidade do Deus que atinge neste dia a sua potência máxima e começa o seu declínio – simbolizado através da união sexual fértil com a Deusa mas sem se limitar a esse contexto. É um dia de festa e o momento mais exuberante e vivo do ano em que se festeja a abundância e as possibilidades futuras.
Este dia 14 que passou (a data não foi assinalada antes por esquecimento meu) celebrava-se em Atenas na antiga Grécia (e os seguidores do Helenismos ainda o fazem ainda que não exactamente da mesma forma) a festa da Bufónia (o assassinato do boi) dedicada Zeus Polieu (Zeus protector da cidade) em que miticamente ao serem deixados alguns bolos de cevada a Zeus um boi teria tido a audácia de os comer; os atenienses gritaram blasfémia e um deles matou o touro com um machado. Percebendo imediatamente que agira mal o assassino foge deixando a cidade entregue às maldições de um Zeus furioso por terem sacrificado um animal que devia ter sido deixado em paz. Desesperados os atenienses enviam representantes a Delfos para falar com Apolo que lhes comunica que a única forma de restaurar a paz dos deuses é trazendo o assassino à justiça e ressuscitar o boi. Como o assassino há muito que havia fugido os atenienses julgaram o machado empunhado na morte do animal e condenaram o objecto (que passou a simbolizar a sua culpa colectiva) a ser atirado ao mar e na impossibilidade de ressuscitar o boi embalsamaram o animal de forma a simbolizar o seu retorno à vida. E foi assim que se passou todos os anos durante séculos.Coisas do Bairro das Colónias
Para desanuviar do estudo fui até um café. Enquanto bebi um café e três panachés vi uma série de agradáveis beldades desconhecidas a passearem-se por aqui, o que só me leva a tirar uma conclusão: passo demasiado tempo em casa, quer em tempo de estudar ou não...
Responsabilidade Internacional dos Estados, siga...
Responsabilidade Internacional dos Estados, siga...
A Verdade da História. 1. O Ultimatum de 1890. 2. O Ultimatum à França (Fachoda).
Um dos temas recorrentes dos detractores da Monarquia Constitucional, é invariavelmente, o chamado Ultimatum de britânico de 1890. Apresentam a resolução do conflito como uma inadmissível cedência perante a prepotência da Pérfida Albion, não procurando uma explicação para a difícil situação criada pela cedência à megalomania do espírito da época e da incipiente opinião pública dos cafés e tascas de Lisboa.
Nos finais do século XIX e apesar do seu apogeu imperial, a Grã-Bretanha, via despontar na cena internacional um perigoso contendor - o Império Alemão -, que mercê da ocupação de um espaço territorial central na Europa e de um arranque industrial sem precedentes, ascendia à condição de grande potência continental com legítimas pretensões à obtenção de um lugar ao sol na partilha colonial. A nova realidade que a abertura de mercados propiciou às sociedades industrializadas na Inglaterra, Alemanha, França ou Bélgica, impeliu à criação de uma miríade de sociedades e companhias de índole comercial e colonial, que passaram a encarar o continente negro como uma clara possibilidade de expansão e obtenção de vultosos lucros propiciados pela extracção de matérias-primas e estabelecimento de entrepostos europeus. As próprias inovações tecnológicas - a electricidade, as armas automáticas, os caminhos de ferro ou os avanços da medicina - , aliavam-se ao espírito positivista da época que via o homem branco, como o promotor da civilização de gentes entregues ao primitivismo tribal e a incompreendidas formas de organização social, política e económica.
No período de consolidação do sistema liberal-parlamentar - a Regeneração -, deu-se em Portugal um relevante arranque na modernização de infra-estruturas que abriu o país às novidades materiais do século. Simultaneamente, entravam também as obras de cariz científico e lúdico que entusiasmaram leitores de uma geração que ansiava pela restauração do prestígio e poder, obras essas onde o espírito de aventura, o denodo dos valorosos e a consagração de novos heróis, era susceptível de estimular ímpetos que prolongassem uma vez mais no ultramar, o já longínquo destino aberto pela epopeia dos Descobrimentos.
Após a criação da Sociedade Livre do Congo, Portugal teve a necessidade de negociar com poderes imperiais que almejavam ao rápido estabelecimento de zonas de influência em África e sendo o aliado preferencial da Inglaterra, conseguiu no difícil jogo de equilíbrio, uma inicial benevolência britânica quanto ao domínio da desembocadura do rio Congo. Sendo este a principal via de penetração na África Central, a pretensão portuguesa - baseada no argumento dos direitos históricos -, foi de imediato contestada por franceses, belgas e alemães que pretendiam a partilha da bacia do Congo em áreas de influência. Os ingleses, visando o reconhecimento internacional dos seus interesses na África do Sul - onde as repúblicas boéres consistiam num permanente ponto de contestação aos desígnios expansionistas de Londres -, viram-se obrigados a contemporizar com os seus concorrentes e deixaram de apoiar as desmedidas pretensões portuguesas ao total domínio da zona. Reagindo, Portugal solicitou a realização de uma conferência internacional - o Congresso de Berlim - que viria afinal, a reconhecer o princípio da ocupação de facto de territórios, em detrimento de direitos históricos jamais formalmente aceites por todos.
A propósito das possibilidades portuguesas no momento da "corrida a África", Andrade Corvo escrevia: ..."a este propósito parece-nos oportuno - embora seja mal visto para os que sonham com impérios sem limites, não pensando um instante em melhorar o que é realmente nosso, nem na força que é necessária para dominar e defender territórios vastíssimos-, lembrar quanto é perigosa a fantasia, quanto é pouco prudente a pretensão de supormos nossa toda a África Central e Austral, de um a outro mar" (1)... Segundo este ministro, a estratégia portuguesa devia consistir em ..."abrir largamente as portas ao comércio, às actividades de todos os géneros, seja qual for a sua procedência; atrair por todos os meios de sedução a emigração nacional ou estrangeira, europeia ou asiática; varrer todos os monopólios, seja qual for a marca com que se disfarcem, ou os pretextos por que busquem justificar-se; fazer, especialmente, concessões aconselhadas pela prudência, que não tolham em caso algum a livre concorrência; são regras que a razão e a experiência, nossa e estranha, estão aconselhando por numerosos exemplos e prósperos resultados"... Consciente dos perigos decorrentes do envolvimento de Portugal nos complicados e perigosos jogos de alianças na Europa, Andrade Corvo salientava ainda, que ..."as tradições da nossa política e os importantes e valiosos interesses que nos unem à Inglaterra são poderosas razões, para que não deixemos afrouxar os vínculos de aliança que nos unem àquela potência"... e que Portugal, sendo uma potência de segunda ordem, ..."além de bom governo, boa política e boa administração, precisa de boas alianças"..., no nosso caso, o poder marítimo dominante: o Reino Unido.
Na década de oitenta do século XIX, a generalidade dos políticos e da opinião pública portuguesa, apoiava ansiosamente qualquer projecto que visasse o mitigar a influência britânica e entusiasticamente passou a ver nos reivindicadores da criação de um novo Brasil em África - o Mapa Cor de Rosa -, os firmes esteios da libertação daquela tutela. Contudo, as forças em confrontos eram ainda poderosamente favoráveis à Inglaterra. Derrotada pelos alemães em 1870-71, a França era uma potência continental que necessitava da Rússia como contraponto à hegemonia militar da aliança germano-austríaca das Potências Centrais, na qual participava ainda a também recentemente unificada Itália. A Royal Navy era ainda o poder marítimo supremo em todos os oceanos do planeta, manifestando uma esmagadora superioridade de efectivos e de argumentos técnicos em presença. Qualquer pretensão de domínio colonial, teria que forçosamente contar com o beneplácito britânico.
Seguindo alguns indicadores económicos e a nova mas enganadora relação de forças apresentada pelo grande bloco que se constituíra na Europa Central, o ministro Barros Gomes julgou azado o momento, para uma aproximação ao poder continental dominante - a Alemanha -, que manifestava interesse em contestar aos ingleses o seu predomínio em amplas zonas da África Austral. A existência de o sempre latente conflito anglo-boer, seria para Barros Gomes, outro motivo para aquela aproximação, criando dificuldades às reivindicações britânicas na área e propiciando a possível criação de uma grande colónia portuguesa que servisse de "Estado tampão" entre os poderes imperialistas em disputa. Contudo, o estado de acelerado desenvolvimento e organização das companhias majestáticas britânicas na África do Sul, conduziu ao alinhamento da política do governo britânico com as pretensões daquelas, onde pontificava o aventureiro Cecil Rhodes, talvez o protótipo do empresário aventureiro dos finais do século XIX ao serviço de um desígnio imperial.
O efervescer e radicalizar dos "centros de opinião" lisboetas - as sedes partidárias, os cafés do Rossio e a Sociedade de Geografia - , também condicionados pela demagogia do minoritário partido republicano, impeliu o governo à formal apresentação das reivindicações portuguesas sobre o hinterland austral, seguindo-se o envio de ordens para a apressada celebração de tratados com os potentados locais que colocassem amplos territórios sobre nominal soberania portuguesa. Conhecedor da realidade no terreno e do perigo que representava para a Inglaterra o ruir do seu projecto Cabo-Cairo - e procurando cercear as veleidades independentistas das repúblicas boéres -, o governo britânico reagiu. O Ultimatum de 1890 deixou o país numa situação muito difícil, pois o projecto de Andrade Corvo teria sido susceptível de tranquilizar a posição britânica, obtendo mais vantagens territoriais e até uma prevista ligação fluvial entre Angola e Moçambique. Nos meses imediatos à nota de Londres, o Parlamento rejeitou um acordo que incluía essa ligação pelo Zambeze e ainda assim, os britânicos cederam uma parte do planalto de Manica, permanecendo sob soberania portuguesa Lourenço Marques e amplos territórios que o país custosamente ocuparia, dada a exiguidade de possibilidades demográficas e económicas. A pergunta que legitimamente se coloca é a seguinte: o que teria sucedido se o governo de Lisboa, pressionado pela histeria das ruas, não tivesse emitido as ordens que acabou por enviar para Moçambique? A resposta parece ser, como é óbvio, a efectivação de uma decidida intervenção militar inglesa e a consequente ocupação da maior parte dos territórios ultramarinos portugueses. O que o Ultimatum deixou a Portugal, consistiu afinal numa extensíssima propriedade imperial, de uma dimensão absolutamente desproporcionada para o real poder de um país que beneficiou de uma situação muito privilegiada, se a compararmos com as rivais Alemanha e Itália. Se à época não aconteceu o definitivo ocaso da aventura ultramarina nacional, tal se deveu exactamente, ao desejo britânico de não entregar importantes parcelas africanas a potenciais inimigos, mantendo-as assim, na sua esfera de influência. O perigo da perturbação do equilíbrio europeu, a moderação aconselhada pela rainha Vitória e o desejo da obtenção de um modus vivendi com o tradicional aliado português - onde D. Carlos I iniciava o seu reinado -, conduziram directamente à possibilidade das campanhas de ocupação, onde efectivamente, Portugal procedeu a um esforço sem precedentes e perfeitamente consagrado pelo êxito militar que espantou as potências, algumas das quais, como a Itália na Abissínia e a própria Inglaterra na Zululândia e no Sudão, foram derrotadas por exércitos nativos. A renovação da aliança luso-britânica e o bom entendimento estabelecido entre D. Carlos e os ingleses, impediram o esbulhar do património nacional, que chegaria praticamente intacto até 1975. Não se limitando à zona central de Moçambique, as campanhas de pacificação estenderam-se a Angola e ao Estado da Índia, criando novos sonhos de grandeza numa população urbana que aguardava ansiosamente a chegada das expedições, como uma prova do valor e pujança da Pátria. Foi a época de todas as ilusões e de todas as esperanças. A baixa política, a demagogia infrene e a violência iconoclasta daquele tempo, em breve conduziriam Portugal a uma situação de desesperada anarquia, ruína económica, prepotência partidária e ao século XX que bem conhecemos. Foi esta a verdade do Ultimatum. Tudo o mais, é mero objecto do desconhecimento e da paixão partidária.
(1) O Mapa Cor de Rosa
A seguir: o Ultimatum britânico à França: o episódio de Fachoda e a capitulação de Paris.
E porque já é Verão...
Sunshine on my shoulders makes me happy
Sunshine in my eyes can make me cry
Sunshine on the water looks so lovely
Sunshine almost always makes me high
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Lord Flasheart motiva os pilotos da RAF
Fiquem a saber como se deve tratar as esposas, e como os pilotos da Royal Air Force estavam motivados na I Guerra Mundial:
No início de um fim-de-semana
Embora goste de olhar o mar, não gosto de praia; é hora de me perguntar "que vou fazer?".
Olho pela janela, e vejo que a catalpa já floriu, e tem folhas suficientes para fazer uma boa sombra. Olho depois a estante, e reparo no livro; digo-me "já sei o que vou fazer!"...
Princípe George, Duque de Wellington e Scolari
Um dos melhores sketches dos poucos que vi da série Blackadder (definitivamente tenho que comprar os DVDs). Qualquer semelhança com o sketch dos Gato Fedorento sobre a agressão do ex-seleccionador nacional, presumo eu que seja pura coincidência:
Por falar em dizer mal da revolução...
...porque não falar mal dos franceses? E quem melhor do que os ingleses e a série Blackadder:
Na ressaca do jogo de ontem
Para além de as estrelas continuarem as suas vidas milionárias, o país volta à realidade (as bandeiras até já estão a desaparecer...), e agora está na altura de enfrentar as frequências/exames/orais! E como optimista, a melhor consideração a fazer é congratular-me por não ter de, em princípio, voltar a ver Ricardo e Nuno Gomes a envergar a camisola da selecção.
Enquanto vamos preparando as mudanças no Estado Sentido, peço a compreensão da equipa e dos leitores pois irei encerrar para obras até fins de Julho, que é como quem diz, encerrar-me no quarto a estudar.
Enquanto vamos preparando as mudanças no Estado Sentido, peço a compreensão da equipa e dos leitores pois irei encerrar para obras até fins de Julho, que é como quem diz, encerrar-me no quarto a estudar.
Os dois Grandes vistos por Ramalho Ortigão
Histórias que a minha mãe conta
A fim de tornarem mais leve esta tarefa, afinavam as vozes e cantavam
Doba, doba, dobadoira,
Não m'enrices a meada,
Quero dobar o novelo,
Tenho a minha mão cansada.
O novelo já é grande,
Já me não cabe na mão.
Doba, doba, dobadoira,
Dentro do meu coração
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Penha Revisited
Começou bem, esse fim-de-semana, com um dia cheio de sol, um convite a ir, no teleférico, até ao monte da Penha. Era aí que, com os amigos, acampava, mal surgiam os primeiros sinais de calor.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Dizer mal da Revolução
Se há desporto que desde há uns anos para cá tem ganho adeptos dentro da direita é o dizer mal da Revolução Francesa, caindo em generalizações ridículas sobre o estado de coisas antes das mudanças radicais que se iniciaram em 1789 (e sim meus caros quer gostem quer não gostem esta data é uma fractura essencial para o nascimento do Ocidente progressista moderno) e demonizações de alguns eventos e personagens (o directório, o papel político de Luís XVI, a sua execução, o terror) e a glorificação de outras (tudo o que foi reacção ao radicalismo e essencialmente a oposição entre a revolução americana e francesa como se a primeira não tivesse envolvido a fuga de 10% da população, violência urbana, guerra civil e ainda maiores baixas em termos proporcionais à população total) e indo alimentar o dogma “liberal” (a la Fukuyama) da evolução tendencial para o mundo-mercado. No fundo estavam perfeitamente confortáveis com um mundo em que como a antiga nobreza francesa dominem milhões de súbditos sem possibilidade de apelo – relembro que os 27 milhões de plebeus franceses tinham exactamente 1 voto nas cortes, o mesmo que poucos milhares de aristocratas e pouco mais de 100000 membros do clero.

Há 200 anos: a 1ª invasão francesa
Os primeiros vinte dias do mês de Junho de 1808, foram pródigos em acontecimentos que conduziriam inevitavelmente à derrota da primeira invasão, comandada por Junot. De norte a sul do país, a sublevação popular restaurava a independência, disso sendo avisada a corte no Rio de Janeiro. Estes acontecimentos propiciaram o ataque do exército francês às cidades e vilas portuguesas, deixando um rasto de morticínios, saque e destruição. Assim, a Guarda, Alpedrinha e Sarzedas foram saqueadas, embora a resistência popular tivesse liquidado um sexto dos efectivos do ocupante. À medida que a revolta alastrava em direcção ao sul, a força bruta dos soldados de Napoleão Bonaparte castigava rudemente Vila Viçosa, Estremoz, Elvas, Arronches, Portalegre, também queimando Beja e chacinando a sua população, enquanto na zona centro, as Caldas da Rainha, Alcobaça, Leiria e Tomar sofriam o mesmo flagelo. No Mosteiro da Batalha, profanaram os túmulos dos monarcas e príncipes da Ínclita Geração, decapitando o corpo incorrupto de D. João II e saqueando os mausoléus. No Mosteiro de Alcobaça, danificaram gravemente os túmulos de D. Pedro I e de Inês e Castro, generalizando-se a depredação de monumentos nacionais e roubando ou destruindo objectos valiosos pertencentes a particulares, à Igreja ou ao Estado. Na repressão à população, celebrizou-se o general Loison - o famoso Maneta -, conhecido pela sua implacável ferocidade, enquanto os seus colegas Margaron, Delaborde, Thomiers, Avril e Kellermann se distinguiam por idêntica brutalidade e cupidez.
Os meses seguintes seriam decisivos para a derrota da primeira invasão, encontrando-se o país totalmente sublevado, surgindo guerrilhas de apoio ao exército anglo-luso que nos finais de Agosto venceria decisivamente no Vimeiro, obrigando os franceses a capitular.
terça-feira, 17 de junho de 2008
O que penso de Salazar
Assim via, em 1921, «O Século Ilustrado» o povo a ser asfixiado pelo "Polvo Gigante"
Não há homens providenciais? Acho que há. Mas também há homens que não sabem sair do lugar onde muito fizeram, no tempo apropriado.
Para mim, Salazar reúne essas duas qualidades.
Quando a Primeira República tinha já deixado o País num estado reconhecidamente lastimoso, ele foi muitíssimo oportuno, no labor de o levantar do atoleiro em que se encontrava, e, por isso, temos muito a agradecer-lhe. Mas uma grande virtude nos Grandes Homens há-de ser, forçosamente, a de ter a coragem, e o saber, de sair de cena na altura certa; essa vejo-a eu no final dos vinte primeiros anos em que esteve à frente dos destinos do País que se propôs levar adiante, o que fez com êxito...
Para mim, Salazar reúne essas duas qualidades.
Quando a Primeira República tinha já deixado o País num estado reconhecidamente lastimoso, ele foi muitíssimo oportuno, no labor de o levantar do atoleiro em que se encontrava, e, por isso, temos muito a agradecer-lhe. Mas uma grande virtude nos Grandes Homens há-de ser, forçosamente, a de ter a coragem, e o saber, de sair de cena na altura certa; essa vejo-a eu no final dos vinte primeiros anos em que esteve à frente dos destinos do País que se propôs levar adiante, o que fez com êxito...
Alemanha?
Já que estamos em plena semana futebolesa, desafio o grande aficcionado Pedro Fontela a decidir-se por uma destas duas equipas... :P
Coisas simples
Ao contrário de outros sítios do mundo Portugal é um país onde se passa a vida a discutir os mesmos assuntos n vezes sem chegar a nenhuma conclusão. Quanto a mim a questão central está que os portugueses (generalizando) entram numa discussão com uma ideia que é imutável e que não pode ser contrariada por nada, muito menos pela realidade. E por isso descontextualiza-se todos os elementos (mesmo os técnicos) de forma a retomar argumentos que chegam ao medievo – se dúvidas houvesse relembro aos mais distraídos que as últimas obrigações feudais ligadas ao trabalho na agricultura só foram legalmente abolidas em pleno século XX, muito depois de qualquer debate razoável sobre os males do feudalismo ter tido tempo de ser conduzido e provado até à exaustão.
Parece que existe uma certa dificuldade em distinguir o que é um debate normal, com a participação de pessoas informadas e o que temos cá no burgo que é mais uma alegre negociação de todos os grupos de interesses estabelecidos desde tempos imemoriais e pouco interessados no bem comum.
Cá está o homem que estragou os planos do Costa
Paul Emil von Lettow-Vorbeck (1870-1964), comandou as forças imperiais alemãs no Tanganica (I Guerra Mundial). Procedeu a uma audaciosa campanha contra as forças inglesas, abastecendo-se de equipamento militar capturado. O seu plano consistia em reter o maior número possível de unidades britânicas, impedindo-as de reforçar a frente ocidental europeia. Desta forma, desenvolveu um sistema de golpes de mão e de guerrilha que levou à desorganização do dispositivo dos adversários, preparados para uma guerra convencional. Os seus 12.000 soldados, na sua maioria askaris, tiveram como opositores grandes contingentes (45.000 homens) comandados por Jan Smuts e assim, Lettow-Vorbeck teve que usar o terreno e o clima como elementos fundamentais para os seus movimentos. A guerra com Portugal (1916) levou-o à invasão de Moçambique propiciando-lhe uma clara vitória militar e o fornecimento de numeroso e moderno equipamento de que tanto necessitava, pelo que continuou a sua campanha de movimento e ataques imprevistos e súbitos que atingiram todo o norte de Moçambique e as Rodésias do Norte e do Sul (Zâmbia e Zimbabué).
O fim da guerra (1918) trouxe-lhe o reconhecimento na Alemanha e foi deputado monárquico no Reichstag, recusando-se mais tarde a servir o regime de Hitler. A Alemanha Federal viria a outorgar pensões e assistência aos sobreviventes soldados askaris que tão lealmente haviam servido o império. Um bom exemplo a ser seguido por este ingrato Portugal que tantos milhares de leais soldados abandonou ao seu triste destino na Guiné, Angola e Moçambique.
João Quaresma dá o testemunho do avô em Moçambique
Caro Nuno, eu sei isso muito bem. O meu bisavô cumpriu duas comissões em Moçambique (1914-15 e 1917-18). O governo queria fazer bonita figura em África, pensando que eram favas contadas contra uma tropa alemã cercada por mar e por terra.*
O que mais importava nos oficiais era se eram de confiança política da república (como era o meu bisavô) e se conseguiam manter a disciplina nas tropas (idem) para evitar restaurações da Monarquia em África. Os que tinham mais do que isso, ou seja, que de facto eram oficiais militarmente bem formados e com provas de competência foram mandados logo em 1914, para recolher ensinamentos, porque praticamente todos os oficiais com experiência da guerra de 1895 eram monárquicos e estavam no exílio. Infelizmente os comandantes mandados de Lisboa eram acima de tudo políticos fardados, que recusavam dar ouvidos às recomendações dos subalternos com experiência para que a sua autoridade não fosse questionada. Além do mais, o general Sousa Rosa (no comando em 1917-18) estava comprado pelos alemães. No rescaldo da ofensiva alemã, o meu bisavô e os seus oficiais, para além dos comandantes de outros batalhões denunciaram isso mesmo a Lisboa. Foram todos presos (isto em plena guerra) e o meu bisavô esteve seis meses na prisão militar de Lourenço Marques, onde só estava autorizado a comer capim (logo ele que não era uma pessoa nada saudável). Foi autênticamente deixado para morrer.
No terreno, na maior parte do tempo as tropas estavam abandonadas à sua sorte, a informação não circulava.
Em Negomano, o meu bisavô foi avisado que o grosso do Exército Alemão vinha na sua direcção (4500 homens comandados pelo próprio Von Lettow Vorbeck) com apenas algumas horas de aviso e apenas por que o destacamento de reconhecimento que mandou atravessar o Rovuma e penetrar em território alemão encontrou um oficial inglês, um dos poucos sobreviventes de todo um regimento de cavalaria inglesa que tinha sido aniquilado na véspera. De Porto Amélia (onde estava o comando das operações) não deram o mínimo aviso. Ele comandava a chamada Coluna Quaresma (um batalhão reforçado, cerca de 800 homens) que se preparava para atravessar o Rovuma para atacar os alemães pelo flanco. Numa posição não-preparada, em grande inferioridade numérica contra tropas já com três anos de experiência de combate, sofre um ataque esmagador. Mas ainda conseguiu mandar avisar a coluna de Viriato Lacerda que, devidamente entrincheirada na Serra Mecula, dias mais tarde resistiu heroicamente aos alemães.A nossa infantaria estava bem armada, ainda que ao longo do tempo fosse recebendo armamento diferente do que já tinha (e com uma confusão de calibres diferentes). Foram usadas desde Martini-Henry e Castro-Guedes de tiro-único e Kropatschek remanescentes da guerra de 95, até Mannlicher, Mauser G98, Vergueiro 1904, Lee-Enfield e até carabinas Winchester (americanas).
Os alemães e os sul-africanos gostavam bastante das nossas Vergueiro (capturadas, abandonadas..), e usaram-nas muito.
Mas faltavam metralhadoras em maior número e sobretudo morteiros (na altura eram uma coisa muito recente), medicamentos e material médico, e até os uniformes não eram os mais próprios para o clima africano.
Quanto ao tratamento dado pelos alemães, no caso do meu bisavô, ele e os seus homens foram tratados de forma civilizada. No acordo de cavalheiros que precedeu a libertação, em que os oficiais portugueses se comprometiam em não voltar a combater a Alemanha, Von Lettow-Vorbek abriu uma excepção para o meu bisavô, como reconhecimento da sua bravura em Negomano, concedendo-lhe que ele pudesse voltar a combater a Alemanha fora de África. Note-se na diferença de tratamento entre o inimigo e o comando português.
*Publicado como comentário no meu post sobre a parada da Vitória (Londres, 1918), por João Quaresma no blog Estado Sentido em 17 de Junho de 2008 0:03
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Histórias que a minha mãe conta
Leio n«Os Mesteres de Guimarães»: " Quando o carrego é a preceito, vai o jugo dos bois enfeitado, e a carrada tem seu ar de festa.
No alto, por sobre os molhos de linho, ergue-se um ramo de oliveira, com flores, que é obra da moçarada de saias. Sim, porque as raparigas também vão á "enterra".
À dianteira vai a tocada, com tamboril, ferrinhos viola e armónica" (e cavaquinho, acrescenta a minha mãe)." É de ver que havendo viola e mulheres há cantadoria e dança.
Feita com as enxadas a cama ao linho, na areia lavada do rio, aí o enterram".
Mas a festa continuava quinze dias depois, quando se "erguia" o linho, para que ele secasse "à torreira do sol"....
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