sábado, 31 de maio de 2008

Exposição de Mina Anguelova


O Mundo de Mina Angelova: Desenhos das Carnes





É daquelas imediatas certezas. Havemos de ouvir falar desta miúda búlgara que vive em Portugal há 15 anos. Talento indiscutível, evidente perfeccionismo e destemor perante as convenções de sempre e um trabalho que prima pela seriedade. Uma grande exposição de desenhos, aguarelas + pastéis de óleo. A revisitar.

No vistodasnuvens

Bordados de Guimarães

Cantarinha dos Namorados ou das Prendas

"A Cantarinha maior significa a abundância perene que se deseja ao futuro casal, semeada de esperanças rutilantes...
A Cantarinha menor, despida de enfeites, significa a vida real, as incertezas do amanhã.

Quando um rapaz escolhia aquela que deveria ser a sua companheira, e se dispunha a fazer o pedido oficial aos pais da " futura", oferecia à namorada uma Cantarinha das Prendas. Se esta era aceite, ficavam, a partir desse momento, comprometidos.
A Cantarinha seria, então, para guardar as " prendas" que o noivo e os pais da noiva ofereciam, em ouro, como cordões, tranceletes, corações, cruzes, borboletas, arrecadas..."
(«Oficina» da olaria, Guimarães)

Conhecem a música...?

Nem queria acreditar. Era este o hino da Prússia. Se alguém quer aborrecer amigos na Inglaterra, enviem-lhes este video do youtube Die deutesche Kaiserhymne.


Prenda de 6ª feira e ADIVINHA DE FIM DE SEMANA: quem é?

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Piódão, outra Aldeia Histórica Beirã

É na Serra do Açor, que encontramos esta povoação que, devido ao seu isolamento, o qual lhe permitia fugir à justiça, foi durante muito tempo o couto do «Terror das Beiras», o salteador João Brandão.
Depois de ter integrado o concelho de Avô, esta aldeia onde se salientam as casas de xisto, dispostas em socalcos, com muitas das suas janelas e portas debruadas a azul, passou, já em finais do século XIX, a fazer parte do de Arganil.

O que ditou a sua classificação como Aldeia Histórica não terá sido, ao contrário de outras, o seu passado de lutas bélicas, mas antes a beleza natural das suas paisagens, a qual,porém, pelas dificuldades que opunham aos homens que nela habitavam não os isentou doutro tipo de guerra; seria esta aliás que iria encorajar os mais novos a emigrarem para as cidades, em busca de uma vida mais fácil.

Não estive lá na melhor das alturas, por certo, mas mesmo no Inverno Piódão fascina.

Pedaços do Minho

Lenço Dos Namorados- Vila Verde

"É tam certo eu amarte
Como branco o lenço ser
Só deixarei de te amar
Quando o lenço a cor perder"

Croniquetas Republicanas (7): Relvas estrumadas


Da leitura em diagonal das Memórias Políticas de José Relvas, decidimos retirar mais alguns valiosos contributos para o melhor conhecimento daquilo que foi o regime saído do golpe de 1910, assim como das questíunculas, ódios e irresponsabilidade política e moral dos seus principais dirigentes.

Sendo Relvas geralmente apontado pelos panegiristas do regime da Demagogia, como uma inatacável personalidade eivada de todo o tipo de qualidades políticas, morais e intelectuais, os seus escritos deverão ser encarados como honestos testemunhos da situação imposta pela violência a um país coagido pela coacção física e propagandista.

Já na fase pós-sidonista, Relvas parece esquecer-se da feroz luta contra a "ditadura" administrativa de Franco (1906-08) e assim, declara em 1919 ..."como pode o Governo com o actual Parlamento que já não representa a vontade nacional, visto que o País aceitou o meu Ministério, não só sem resistências, mas até com aplauso? Foi por isso que eu fiz na entrevista um apelo ao Parlamento para nobremente votar o princípio da dissolução e uma nova lei eleitoral, elaborada com o consenso dos partidos, deixando entrever que se a vida do executivo ainda fosse possível com as actuais Cortes iríamos até ao momento em que novas eleições constituíssem uma necessidade inevitável para a formação dos dois novos e grandes partidos, base duma tranquilidade, que não conhecemos há muito tempo".

Este parágrafo remete-nos de imediato à famosa entrevista dada pelo rei D. Carlos ao Temps, em que os pressupostos para a normalização da vida pública, tinham como ponto central a formação de dois partidos constitucionais verdadeiramente alternativos - o governo "à inglesa" - e à elaboração de um novo sistema eleitoral mais equilibrado. Mais de uma década decorrida e num cenário de indescritível desordem pública, miséria económica e clara, embora camuflada derrota militar na I Guerra Mundial, Relvas parece pretender ressuscitar o plano de João Franco, num momento em que a dissolução do regime já se tornara inevitável.

Continuando, o autor escreve que ..."acentua-se a campanha da dissolução em termos da maior violência. Hoje, na Câmara, quando se começava a discutir o projecto a que me referi na carta de ontem, o Francisco Fernandes afirmou que tal projecto, recordando o decreto de 31 de Janeiro, de João Franco, o excedia todavia nas autorizações arbitrárias que concedia ao poder executivo. Devo dizer-lhe que não é muito grande a correcção do dr. Fernandes e o seu espírito de transigência, não hesitando em aprovar o projecto desde que ele contivesse a restrição das autorizações concedidas apenas ao actual Governo". Por outras palavras, é a "ditadura!

A guerrilha entre os caciques republicanos, vai enrubescendo de fulgor e assim, ..."o Cunha Leal - comediante-tragediante sabendo que o Parlamento já não existia, resignou o seu mandato de deputado perante o comício. E acrescentou que, se o Governo não decretasse a dissolução, convocava desde já o povo para dissolver o Governo!" Foi esta a gente de alegados elevados princípios de rectidão moral que quis governar o país. Continuando, vai escrevendo que ..."esse farsante subiu as escadas do Ministério do Interior, acompanhado de populares, que a breve trecho entravam violentamente no meu gabinete, armados com pistolas e espingardas, invectivando-me e não me tendo morto, graças à oportuna e enérgica intervenção de Tito de Morais (...) entretanto, nas Ruas do Ouro e dos Capelistas continuava o tiroteio com a polícia, obrigada a defender-se dentro já da esquadra do banco de Portugal. Havia mortos e feridos. O primeiro polícia foi morto à porta do Ministério (...) durante a noite a Polícia, que se manifestara hostil ao Governo, teve de render-se, não sem ter manifestado num pátio da Parreirinha os seus afectos em vivas entusiásticos à Monarquia"...

De Machado Santos, a grande figura do 5 de Outubro da Rotunda, , dizia que ..."é um sincero em tudo o que faz. Há porém entre estes dois homens diferenças fundamentais. É honestíssimo. Mas é de uma mediocridade intelectual assustadora, o que o conduz, fora da Rotunda, a todos os desaires e a todos os desastres. Está sendo cúmplice inconsciente do Cunha Leal, que não tem escrúpulos de nenhuma espécie, que é superiormente inteligente, e ilimitadamente ambicioso".

Na sua 24ª carta, desabafa que ..."quando mataram o Sidónio - vilíssimo assassinato -, e quando o Teófilo Duarte passeava por Lisboa as suas loucas tropelias, dizia-lhe eu que tinha a impressão de presidir a um manicómio. Hoje tenho a impressão de habitar um covil de feras!" Estas palavras são absolutamente idênticas às de D. Manuel II logo após os acontecimentos de 1908-10, mas Relvas parece esquecer-se do constante recurso à violência física promovida pelos chefes do p.r.p. nos derradeiros anos da Monarquia Constitucional.

De Guerra Junqueiro, fazendo juz ao preconceito da época e aludindo ao desvario pela acumulação de riqueza que parecia obcecar o vate da república, dizia que ..."o fundo irresistível da sua origem semita procura conciliar, com a mais alta e nobre visão da Pátria, os interesses da sua ambição. O que o conduz por vezes a situações lamentáveis".

Voltando à dissolução do parlamento, Relvas escreve: "Outro acto de firmeza do governo que parece estar esquecido, e que todavia não podia ser de maior transcendência, foi a dissolução do parlamento. Por não estar incluída na Constituição a faculdade de dissolver o Parlamento, atravessámos épocas políticas agitadíssimas, e viemos a dar a uma revolução." Curiosa auto-condescendência do escriba-primeiro ministro, parecendo oportunamente esquecer-se da tremenda campanha de imprensa levantada pelos republicanos durante o governo de João Franco. Assim, para Relvas a ilegalidade justifica-se desde que seja a "sua ilegalidade".

Não nos alongando mais no demolidor contributo do antigo primeiro ministro da 1ª república, finalizamos, como epitáfio de uma situação insolúvel, com um pequeno parágrafo:
"Entretanto, todas as pessoas que passam pelo meu gabinete estão assombradas com o espectáculo duma política tão mesquinha. Realmente, este gabinete é agora um posto de observação, e até de estudo, para psicólogos. Nesta luta de pigmeus, a fingirem de grandes homens, é fácil distinguir os motivos que os fazem agir (...) é a indicação que leva ao Terreiro do Paço outro Governo, que não pode ser, senão em outros moldes e com outras pessoas, uma reprodução do que vai desaparecer sumido nessa terrível voragem de desorientação e desprestígio em que se somem, nos últimos anos, em Portugal, umas atrás das outras, todas as situações ministeriais?"

* Na imagem, manifestação popular de apoio a D. Manuel II, diante do Paço das Necessidades (1910).

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Pedro Batista, na Arqué Art Gallery


"Encontramos na pintura dos retratos um claro paradoxo formado, por um lado, pela expressão entre a apatia e a contemplação que é objectivamente apresentada na atitude dos corpos, e, por outro, pela permanência de um constante olhar directo das personagens orientado ao espectador, que impossibilita a fuga a um diálogo intencional entre os intervenientes, criando laços, unindo, confrontando o visto e o pensado, levando à afirmação de sensações subjectivas que impossibilitam a passagem indiferente de cada indivíduo diante do representado".

Manuel Sarmento Pizarro

Exposição presente  de 29 de Maio a 28 de Junho de 2008

Arqué Art Gallery
Av. Miguel Bombarda, 120A
1050-167 Lisboa
Tel. 217972886
arque.artgallery@gmail.com

Linhares da Beira

Tínhamos vários dias pela frente, e iríamos aproveitar para visitar as várias Aldeias Históricas do distrito da Guarda.
Linhares, no concelho de Celorico da Beira seria a primeira paragem.
Lera já que a sua fundação, atribuída aos Túrdulos, remontava, muito provavelmente, ao século VI A. C., mas que fora durante a Reconquista que sobressaíra, dada uma situação geográfica privilegiada, propícia à defesa de toda aquela região, e já no século XII o Castelo de Linhares é referido como uma significativa barreira face às forças de Leão, razão pela qual D. Afonso Henriques lhe veio a conceder foral.
Seria, porém, durante o reinado de D. Manuel I que Linhares viria a conhecer os seus tempos áureos, e disso são testemunho, além do Pelourinho encimado pela esfera armilar, as muitas casas onde são visíveis sinais da arquitectura que marcou esse período, como as muitas janelas manuelinas que pudemos admirar. Alguns desses solares encontravam-se em ruínas, como o belíssimo Palácio dos Corte-Real.
Uma construção que logo se impõe é o Castelo, no alto de um maciço granítico, esse sim, bem preservado.

Era, porém, gritante o pouquíssimo movimento que encontrámos nas ruas medievais, ladeadas de graciosas casa de granito, e calcetadas com a mesma pedra. Apenas alguns idosos, ávidos de companhia, a quem relatar as muitas histórias que envolvem Linhares da Beira, o que fizeram com notório orgulho.

A explicação dos acontecimentos na África do Sul, por Machado da Graça - Correio da Manhã (Moçambique)


Olá Sitoi

Em resposta à minha carta da semana passada falaste-me, como muitos outros têm falado, da grande ingratidão manifestada pelos sul-africanos em relação a um país, como o nosso, que acolheu os militantes do ANC, durante o tempo do apartheid e, por isso, sofreu todo o tipo de agressões e atropelos.

E, se olharmos para os aspectos morais e políticos, tens toda a razão, meu bom amigo.

Só que o fenómeno a que estamos a assistir tem, na minha opinião, mais que ver com a economia do que com a moral e a política.

Porque, em termos económicos, não há paralelo possivel.

Os sul-africanos que estiveram refugiados em Moçambique quantos terão sido? 1000? Provavelmente nem tantos, contando aqui a ala militar do Unkontho We Sizwe, que transitava frequentemente para dentro e para fora da África do Sul.

E este número, como podes perceber, não se pode comparar com a verdadeira invasão de zimbabueanos, com números na casa dos milhões. São realidades completamente diferentes.

Mais do que isso. Os sul-africanos que viveram entre nós, na sua maioria, não competiram no mercado de trabalho com os moçambicanos mais pobres. Ou eram autónomos, recebendo os seus abastecimentos da Direcção do ANC, ou eram quadros com formação elevada e até ajudaram a tapar buracos que tinhamos em muitos sectores, nomeadamente no ensino universitário.

Os mais velhos recordam que, muitas vezes, no tempo em que as nossas prateleiras estavam vazias, eram pessoas do ANC que ajudavam os seus amigos moçambicanos com uns ovos, umas batatas e, porque não, com uma ou outra garrafa de vinho ou de whisky.

O peso da presença deles foi em termos da nossa soberania agredida, dos mortos e feridos nas incursões do regime de Pretória, no apoio à guerra de desestabilização da Renamo, na destruição de infra-estruturas de todo o tipo.

Não foi a competição, ao nivel da subsistência, entre o pobre sul-africano e o pobre imigrante na África do Sul.

Essa é a realidade de hoje na África do Sul. E será a realidade em Moçambique se os zimbabuenos decidirem trocar a insegurança da terra do Rand pelo nosso hospitaleiro país.

Tu já pensaste no que significaria a entrada nem que fosse “apenas” de um milhão de zimbabueanos para as nossas principais cidades? O que isso provocaria? Pensa lá bem.

É por isso que eu tenho vindo a defender que é necessário travar a violência xenófoba na África do Sul mas, em paralelo, tratar de resolver a verdadeira causa do problema.

A xenofobia tem, em quase todo o mundo, uma base económica e, ou se resolvem os problemas económicos que estão na sua origem ou a xenofobia não desaparece por si só. Pode ser reprimida e controlada mas, quando a barriga apertar, novamente haberá multidões à procura do diferente, do estrangeiro, do outro que também luta pelo mesmo pedaço de pão.

Não, Sitoi. Não creio que os sul-africanos sejam ingratos. Estou convencido que aqueles que estiveram refugiados em Moçambique sentem estas agressões como nós próprios as sentimos. E as declarações dos principais dirigentes, desde Thabo Mbeki a Jacob Zuma têm sido claras sobre isso.

Os problemas estão na base, nos desempregados que vivem nas cidades, nos que sobrevivem na economia informal. Foi para esses que a chegada dos zimbabueanos se tornou uma agressão.

Esses, Sitoi, não são politizados, não avaliam as coisas em termos de correcção política.

E, mais grave do que isso, estão misturados com todo o tipo de marginais e delinquentes que, nestes momentos, facilmente viram as coisas a seu favor, isto é da roubalheira e do saque dos bens alheios.

Tudo isto é muito sensível. Tudo isto exige grande cautela, por um lado, e firmeza por outro.

Que os espíritos dos antepassados iluminem os dirigentes da região, que bem precisados estão eles disso neste momento.

Um abraço para ti do

Notas Soltas

Caro Pedro, estou demasiado cansado e sem qualquer capacidade de raciocínio! Irei estar ausente nos próximos 5 dias, pelo que mais tarde falaremos sobre o assunto, até porque deturpaste o que eu quis dizer, mas depois falamos sobre isso.

Amanhã estarei pelo Corta-fitas, a falar dos jovens e a política, com os devidos agradecimentos ao Pedro Correia e restante equipa!

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Uma outra visão de Camilo

É de todos conhecido o mau feitio de Camilo, mas por muitos ignorada uma outra faceta do seu carácter, trazida até nós pelo camilianista, seu contemporâneo, António Cabral.
Tinha este acto abonatório de uma índole generosa vindo a público nas páginas d'«O Primeiro de Janeiro» de 3 de Junho de 1890, pouco tempo, portanto, após a morte do escritor.
"Foi há muitos anos, na Póvoa de Varzim.
Camilo achava-se naquela praia, para onde fora com os filhos, que iam fazer uso dos banhos do mar.
No mesmo hotel em que estava Camilo, achava-se um medíocre pintor espanhol, que perdera no jogo da roleta o dinheiro que levava.
Havia três semanas que o pintor não pagava a conta do hotel, e a dona, uma talo Ernestina, ex-actriz, pouco satisfeita com o procedimento do hóspede, escolheu um dia a hora do jantar para o despedir, explicando ali, sem nenhum género de reservas, o motivo que a obrigava a proceder assim.
Camilo ouviu o mandado de despejo, brutalmente dirigido ao pintor. Quando a inflexível hospedeira acabou de falar, levantou-se, no meio dos outros hóspedes, e disse: - a D. Ernestina é injusta. Eu trouxe do Porto cem mil réis que me mandaram entregar a esse senhor e ainda não o tinha feito por esquecimento. Desempenho-me agora da minha missão. E puxando por cem mil réis em notas entregou-as ao pintor. O Espanhol, surpreendido com aquela intervenção que estava longe de esperar, não achou uma palavra para responder. Duas lágrimas, porém, lhe deslizaram silenciosas pela faces, como única demonstração de reconhecimento".

Noções de História económica

Num post um pouco abaixo falo que para rebater os disparates que se dizem liberais que andam a crescer na opinião pública portuguesa bastava ter umas noções de história económica e assim é. Se algum desses senhores se der ao trabalho de ler Alfred D. Chandler (ou um dos continuadores do seu trabalho) que é o pai da história económica ficaria a saber que o domino de mercado se constrói a partir da segunda revolução industrial, especialmente com os caminhos de ferro e o telégrafo - o livro de referência é o "scale and scope" que é massivamente inclusivo e chato. E que as empresas tradicionais que se adaptaram a esse meio se encontram essencialmente nos EUA por algumas razões simples. Em primeiro lugar os Estados Unidos fizeram um uso mais intensivo das novas tecnologias porque além de terem um espaço geográfico gigante e uma população dispersa não tinham meios de comunicação que existiam noutras regiões (exemplo: estradas na Alemanha e canais no Reino Unido). Depois eram um país livre das oligarquias europeias o que permitia a emergência de novos actores.

Além de beneficiarem dessa vantagem de localização as empresas americanas ainda beneficiaram do facto de terem sido as primeiras a efectuar os investimentos críticos dessa era: produção industrial maximizada de acordo com o mercado. Distribuição controlada ou assegurada pela própria empresa e hierarquização dos diferentes níveis da empresa. Como Chandler demonstra quem quer que fizesse estes 3 investimentos chave dominaria o seu mercado interno e tornaria a emergência de qualquer competidor muito mas muito difícil – para produzir nesta escala é preciso ter um numero mínimo de unidades muito elevado o que significa que qualquer pessoa que entre no mercado corre o risco de ficar com as suas unidades no armazém –além de muitas vezes não ter acesso à tecnologia em questão que lhe permita criar um produto superior. Em resumo, a partir do momento que falamos de um certo nível de produção as noções clássicas de Adam Smtih são irrelevantes e as realidades do oligopólio e do monopólio impõem-se – juntamente com a plutocracia no campo político. O que se aplica dentro de um país também se aplica à competição mundial e mais uma vez os americanos, Ingleses e Alemães estão solidamente implantados desde 1880 enquanto as pequenas e médias nações que só se industrializaram depois sistematicamente falharam em levar a cabo projectos similares – para detalhes de um case study deve-se ler o trabalho do professor Franco Amatori sobre a industrialização italiana.

Carros em casa, boicote e petróleo a baixar


As últimas notícias da tarde, indicam os preços do barril de petróleo em forte queda. Poderão dar-se múltiplas explicações, mas os carros estacionados à porta de casa, os transportes públicos cheios e o generalizado apelo ao boicote aos lucros das petrolíferas, começam a surtir efeito. Devemos prosseguir e acirrar ainda mais a oposição à especulação desenfreada.

Convite para uma boa exposição

Já conhecia o trabalho do Pedro Baptista e esta é uma exposição a ser vista. Um novo olhar sobre o retrato de gente como nós. A não perder, na Arqué, avenida Miguel Bombarda, 120A, Lisboa.

O golfo do Sião à espera de um tufão




Desde que se sentou no poder que o actual Governo não consegue estabilidade quer interna quer externa. As lutas dentro da colicação e dentro do próprio partido dominante, têm enfraquecido extraordinariamente a sua produção. Para além disso os casos dentro do Governo são tantos e tão constantes que lhe enfraquecem a imagem e o poder de se afirmar. O próprio Primeiro Ministro não ajuda muito pois, sendo uma figura extremamente controversa, especialmente pela rudeza da sua linguagem, (o Pinheiro de Azevedo era um aprendiz ao pé deste), nunca consegue transmitir nada de positivo do que o Governo faz, e algumas coisas tem feito. e isto apesar de ter um talk-show todos os fins de semana na TV.

Como sempre na Tailândia logo se fala em mais um golpe militar e o CEMFA já veio, pela milionésima vez, desmentir que houvesse algum plano para tal. Pelo sim pelo não o PM sempre que sai para visitas ao estrangeiro leva-o consigo não lhe vá acontecer o mesmo que com Thaksin que aproveitaram ele estar em Nova Iorque para lhe enviarem a guia de marcha.

Notas sobre o tema anterior

Depois de ler as respostas aqui ao outro post (especialmente a do Samuel e a do Mike) acho que tenho a obrigação de especificar umas coisas e pôr os pontos nos is noutras.

Em primeiro lugar a medida sugerida não seria em nada radical dado o track record do sector conservador nesta área. Seria apenas justiça servida sobre a forma da pena de talião, olho por olho dente por dente. Nada mais justo.

Depois acho que posso comentar sobre o papel das elites porque escrevi uma tese sobre elites portuguesas. Em primeiro lugar convém especificar ao que nos referimos. Elites no sentido de ocupação de poder ou de vanguarda cultural? Não são grupos coincidentes no nosso país. As elites em termos de poder tendem a servir-se a elas mesmas e em Portugal sistematicamente recusaram as suas responsabilidades de liderança cultural e cívica o que levou uma e outra vez à sua queda e substituição quando o poder bruto lhes falha. A sua relação com as mentalidades tem sido tradicionalmente um papel de manutenção das coisas tal como elas estão por medo de perturbar o status quo que os mantém – uma exploração sem vergonha dos preconceitos de uma populaça semi-educada.

Agora vem o que me incomodou mais… o Samuel vem com uma conversa que eu já conheço de ginjeira… eu não tenho nada contra e tal e coisa mas… (só faltou dizer que tinha muitos amigos que eram para completar a intervenção estereotipada). A ideia que fica é que no fundo é tudo muito bonito quando é socialmente invisível. A partir do momento que a tal diferença é assumida e vivida passamos a ter “bichas”, ou seja, o que eu assumo aqui é que o ideal seria manter uma fachada hipócrita para não incomodar o “bom” povo português. É uma ideia que sobre a capa de uma suposta neutralidade é de uma agressividade enorme pela sua normalização não da aceitação pacífica do “outro” mas pela normalização dos costumes e supressão individual (pela reprovação colectiva).

Será que estes dois rapazes que trocam afectos em público já estão na categoria "bicha"?


Por fim a questão dos casamentos e adopções. É rídiculo adiar esta legislação por razões de igualdade de direitos legais (e não me venham com a treta as uniões de facto porque não são a mesma coisa nem de longe nem de perto) e pelas oportunidades de outros seres humanos (neste caso crianças) de terem um lar normal – no fundo é dizer que pelo preconceito infundado de uns devem pagar todos até que o grupo em falta resolva mudar de ideias. E pelos exemplos que temos de outros países parece-me seguro afirmar que a sociedade não vai entrar em colapso com a permissão de casamentos gay. Tal como não se desmoronou com a igualdade racial, de sexo, etc.

Por fim a questão da definição da nossa sociedade. Eu serei o primeiro a dizer que nem tudo o que vem de fora tem um valor intrinsecamente superior ao que nós fazemos – não tenho complexo de inferioridade por ser deste país – mas também serei o primeiro a apontar as falhas que temos. E caro Samuel é preciso admitir que a nossa sociedade é profundamente provinciana nos seus gostos, maneirismos, hábitos, etc. Trata-se simplesmente de aceitar factos. Nunca ouviram dizer que o primeiro passo para qualquer solução é admitir que existe um problema?

O absurdo ou o esquecimento conveniente


Os telejornais da hora de jantar da passada terça-feira, passaram várias entrevistas com comentadores que centraram as respectivas ladainhas nos estudos sociológicos do dr. Alfredo Bruto da Costa e no alarmante artigo de Mário Soares. O tema foi a inevitável e bem conhecida pobreza que nos últimos vinte anos tem sido habilidosamente escondida pelo biombo dos Fundos Estruturais, pelo chamado crédito fácil para todos e por uma inigualável propaganda de que não há memória desde os tempos do inefável Costa.

A interrogação sobre o porquê da persistência de uma situação que há muito devia ter sido colmatada pelo investimento feito no combate à exclusão e pobreza, não encontra respostas fáceis ou plausíveis. Aparentemente, os agentes da grande política nacional esgotaram os recursos oratórios e os argumentos tendentes à apresentação de razões e soluções, volatilizaram-se perante a realidade dos factos.

Gostaríamos apenas de deixar algumas questões, tanto aos poderes do Estado - órgãos de soberania -, como aos sempre reivindicadores e por vezes impertinentes privados.

1. Após a normalização de 1976, existiu algum plano concertado para o desenvolvimento e modernização da indústria portuguesa que oferecia tão positivas perspectivas apenas cinco anos antes?

2. Das grandes obras daquilo a que se chamava Fomento Nacional e entre as quais situamos a construção naval - Lisnave e Setenave -, quais as verdadeiras  razões para a sua inexorável liquidação? O argumento da concorrência dos mercados asiáticos não pode ser considerado, uma vez que esse tipo de indústria continua a produzir em pleno, em Espanha, na Alemanha, França ou Itália.

3. Existindo estudos sobejamente conhecidos e da autoria do arq. Telles e do seu grupo de trabalho, pode o regime apresentar-nos as razões do seu desinteresse relativo ao ordenamento territorial, aspecto vital do desenvolvimento equilibrado, da fixação de populações e de sectores económicos e da preservação da paisagem - esta nos seus múltiplos aspectos, desde a natural à monumental -, factor absolutamente imprescindível para um país de escassos recursos que tem no turismo uma potencial e prodigiosa fonte de receita?

4. Tendo Portugal recebido importantíssimas somas provenientes do Fundo de Coesão, quais foram os critérios seleccionados para a sua aplicação? Desde 1986 até aos nossos dias, não parece notório um salto qualitativo na diversificação da produção - apesar do inegável aumento da exportação de maquinaria - e principalmente, no ponto vital que é a formação profissional.
A pergunta deverá ser endereçada aos drs. Mário Soares e Cavaco Silva, os principais responsáveis pelas opções políticas e económicas dos seus governos.

5. Como foi possível o abandono total de uma política de controle sobre a especulação imobiliária desenfreada que o país vive já há mais de 25 anos? Como poderemos explicar o facto dos preços de casas em Lisboa, serem superiores aos de Berlim, ao mesmo tempo que se assiste à destruição devastas áreas em redor das grandes cidades, devido ao desvario de uma política de cedência diante do sector do betão?

6. O Estado administrou empresas nacionalizadas durante o PREC e o preço foi pago pelo contribuinte. Como se explica então que tendo sido algumas destas empresas colocadas sob a direcção competente de gestores altamente qualificados e pagos que conseguiram torná-las em valiosas entidades lucrativas, se verifica hoje um inaceitável propósito de alienação de património nacional que corre sérios riscos de fragmentação e desaparecimento em manobras especulativas?

7. Conhecendo as causas profundas dos males que minam a sociedade portuguesa, as entidades competentes decerto não desconhecem a necessidade imperiosa de proporcionar o exemplo a dar aos cidadãos. Desta forma, como é possível que se mantenham privilégios que raiam o simples saque, concedidos a detentores de cargos públicos? Como pode parecer normal o brutal gasto de entidades como o Palácio de Belém - e as dúzias de assessores que tornam a dispensável "presidência da república" num voraz Moloch esbanjador de recursos, gastando mais 30% do orçamento concedido pelo governo Zapatero à Casa Real -, os serviços adstritos aos ministérios e secretarias de Estado, Parlamento, E.P's e uma infindável lista de comissões de estudos, comissões instaladoras, etc? Como se justifica perante a população, a apresentação de contas exorbitantes de despesas de representação pouco credíveis e roçando a simples lambujem? 

8. Como é possível os detentores do Poder permitirem diante de uma opinião pública indignada e estupefacta, a entrega de zonas de interesse colectivo - como a frente ribeirinha ou vastos terrenos em pleno centro da capital -, a entidades ligadas a negócios controversos e de contornos indefinidos?

9. Como se explica o agravamento radical da situação de débito da generalidade das famílias portuguesas, ao mesmo tempo que os bancos publicam relatórios de contas onde os lucros fabulosos só encontram uma correspondência inversa no constante esbulhar dos depositantes, através de normas abusivas e de serviços desnecessários e não solicitados?

10. Pode o Estado explicar com clareza, a natureza das negociações celebradas entre Portugal e o regime venezuelano? Trata-se de um acordo que beneficia o país no seu todo, ou apenas abre  novas perspectivas de ingentes lucros a uma certa e timorata iniciativa privada que vive do mero financismo e especulação, acobertada por um poder que dela depende? Será o Estado o mero agente de interesses que sustentam o sistema?

São estas algumas questões que todos os portugueses colocam quotidianamente e para as quais não parece existir qualquer vontade ou garantia de resposta credível ou satisfatória. A imensa maioria da população está exausta por uma depressão que não sendo apenas económica, mina os próprios fundamentos da consciência nacional. Não pretendendo qualquer revolução tumultuosa e depredadora, logo suicidária, almeja contudo, a plena garantia de um progresso que baseado na educação e autoridade democrática, garanta o futuro. Este modelo de solução baseada na simples casuística que dá corpo ao regime, chegou ao fim. Urge pensar noutra democracia. Da nossa parte, conhecemos bem quais os caminhos a trilhar. O tempo urge.


O tipo de república que teimam em não instaurar em Portugal...

Do Brasil, uma petição


Amig@s, 

109 países estão agora mesmonegociando um tratado para banir as bombas cluster -- armas que matam e mutilam crianças e civis inocentes anos após o fim da guerra. Clique aqui para enviar uma mensagem para seu governante pedindo apoio ao tratado:

ACABE COM AS 
BOMBAS CLUSTER


Agora mesmo, em Dublin na Irlanda, vários países estão se reunindo para criar um acordo para banir a bomba cluster (ou bombas de fragmentação).Fabricantes de armas estão pressionando governos a firmarem um tratado cheio de exceções. O texto final do acordo será decidido nos próximos dias. 

Bombas cluster não matam só em tempos de guerra. Elas espalham pequenas “bombinhas” brilhantes que permanecem no solo por décadas depois de serem jogadas. Elas atraem a curiosidade de crianças que não raro, são mutiladas ou mortas. Alguns governos acreditam que essas bombas devem ser banidas, mas o Brasil continua a fabricar e exportar estas bombas. O tratado será assinado no final desta semana e alguns governos ainda estão pedindo exceções com “períodos de transição” e clausulas para amenizar a banimento. 

Temos uma forte chance de influenciar esse tratado. Se cada um de nós enviar uma mensagem para seu chefe de estado, poderemos convencer nossos governos de banir as bombas cluster de uma vez por todas. Clique abaixo para enviar uma mensagem (pré escrita) e encaminhar essa campanha para seus amigos e familiares: 

http://www.avaaz.org/po/ban_cluster_munitions/18.php?cl=93205005 

Demagogia e subsidiariedade

O ministro da Economia, Manuel Pinho, pediu à Comissão Europeia para intervir na subida do custo dos combustíveis, identificando «medidas de curto e médio prazo que possam minimizar o efeito negativo da escalada do preço do petróleo», refere um comunicado do ministério, citado pela RTP.

Isto, para além de demagogia sem quaisquer resultados que não sejam o iludir o povinho, é...vá lá...como diz o Ricardo Araújo Pereira..hmmm..é ESTÚPIDO!

É estúpido porque quando já aqui ao lado (vulgo, Espanha) se praticam os preços que se vêem, é lógico que o problema é apenas a nível interno. Certo é que há uma crise internacional generalizada, em relação à qual a UE poderá eventualmente tomar medidas. Mas quanto ao que realmente interessa neste momento, o escabroso aumento dos preços dos combustíveis em Portugal, o problema é interno, para ser resolvido tem que ser focado a nível das condicionantes e jogadores internos. Não sei se Manuel Pinho já ouviu falar daquele princípio que preside a grande parte do projecto de construção da integração europeia, aquele de que já Aristóteles, ou São Tomás de Aquino uns séculos mais tarde, andavam a falar, o princípio da subsidiariedade...Parece que não. Ou pelo menos finge que não.

O Dragão no seu melhor

O Dragão deixou-nos mais um daqueles seus posts tão característicos, onde encontrou possivelmente a denominação mais feliz para o regime vigente em Portugal: Narcisocracia. A ler aqui, está lá tudo. Tudinho mesmo.

A respeito do tal artigo de Mário Soares no DN

Ao ler:

Já uma vez, nestes últimos anos, escrevi e agora repito: "Quem vos avisa vosso amigo é." Há que avançar rapidamente - e com acerto - na resolução destas questões essenciais, que tanto afectam a maioria dos portugueses. Se o não fizerem, o PCP e o Bloco de Esquerda - e os seus lideres - continuarão a subir nas sondagens.

Mais parece que estamos em 74/75/76 do que em 2008. Soares sabe bem do que fala. É o mesmo que levou norte-americanos a apoiar ditaduras na América Latina. A fome é o rastilho das revoluções. E o comunismo está sempre à espreita para aproveitar esses males do neoliberalismo.

De notar ainda, quer se goste ou não de Soares, que há uma distinção essencial a fazer entre a nomenclatura vigente no PS e a nomenclatura da sua fundação, de Soares, e é precisamente aquilo por que muita gente talvez me ache "obcecado": o sentido de Estado. Soares sabe bem o que é isso. E não tem muito a ver com a actuação do PS nos últimos anos...Mas quanto a sentido de Estado, iria até mais longe, dizendo que esse é coisa que não abunda na actuação de Portugal, vá lá, não digo nos últimos 30 anos, mas pelo menos desde a entrada nas Comunidades Europeias em 86.

E é também na linha do que Silva Lopes dizia hoje na TVI, em entrevista a Constança Cunha e Sá, quanto ao interesse nacional existem apenas visões dispersas, fragmentadas. É uma pena, falta-nos de facto um projecto de longo prazo, talvez a roçar o desenvolvimentismo latino-americano, que mobilize estes meros 10 milhões de pessoas.

Sem margem para qualquer dúvida

A um estranho que chegue a Portugal e tome contacto com os portugueses poderá parecer que se trata do povo com maior potencial revolucionário do mundo conhecido. Ninguém está satisfeito com nada, toda a gente se queixa de tudo, a crer nas conversas e nos desabafos vive-se à beira da revolta generalizada. Com algum conhecimento mais, chega-se à conclusão de que estamos na realidade perante um povo que em regra aceita tudo o que lhe fazem - esgotando a indignação e as energias contestatárias na verborreia maledicente.
Um povo comodista, conformado e abúlico, que só se incomoda mesmo com o que lhe chega à porta, ou se mexem com as suas pequenas rotinas, e ainda então fica a aguardar que alguém resolva o problema.
Uma terra extremamente conservadora e imobilista, em suma.

Manuel Azinhal in O Sexo dos Anjos (já agora, leiam o restante do post que vale bem a pena)