quarta-feira, 28 de maio de 2008

Sem margem para qualquer dúvida

A um estranho que chegue a Portugal e tome contacto com os portugueses poderá parecer que se trata do povo com maior potencial revolucionário do mundo conhecido. Ninguém está satisfeito com nada, toda a gente se queixa de tudo, a crer nas conversas e nos desabafos vive-se à beira da revolta generalizada. Com algum conhecimento mais, chega-se à conclusão de que estamos na realidade perante um povo que em regra aceita tudo o que lhe fazem - esgotando a indignação e as energias contestatárias na verborreia maledicente.
Um povo comodista, conformado e abúlico, que só se incomoda mesmo com o que lhe chega à porta, ou se mexem com as suas pequenas rotinas, e ainda então fica a aguardar que alguém resolva o problema.
Uma terra extremamente conservadora e imobilista, em suma.

Manuel Azinhal in O Sexo dos Anjos (já agora, leiam o restante do post que vale bem a pena)

Corolários do grande pensamento socialista

Os países ricos são melhores que os pobres a combater a pobreza.

As políticas socialistas que não resultaram nos últimos quarenta anos vão dar um resultadão agora.

A crise está a ser causada pela queda do dólar, logo, a culpa é do Bush.

O que não conseguimos fazer na política social, com 50% do PIB, é da responsabilidade dos escandalosos vencimentos dos administradores da banca (cerca de 0,045% do PIB, antes de impostos).

A “globalização capitalista neoliberal” não serve porque os países emergentes estão a submergir-nos.

O facto da maior parte dos problemas humanitários acontecerem em países com regimes socialistas totalitários não interessa nada. Onde está o vosso internacionalismo humanista!?

Já mencionei que a culpa é do Bush? Pois. É.

Miguel Botelho Moniz in O Insurgente

A diplomacia tem destas coisas (4)

terça-feira, 27 de maio de 2008

Provocações que não o deveriam ser


Resolvi meter para aqui uma mini provocação em termos de moralidade social porque acho o debate que actualmente se faz no main stream passa ao lado dos assuntos relevantes. A homossexualidade está relegada a causa fracturante – expressão profundamente cretina, no mesmo nível que a do politicamente correcto, que designa basicamente acções que são moralmente correctas mas que custariam votos, ou seja, vulgo calculismo eleitoral do governo (seja ele qual for) e moralismo de trazer por casa da oposição.

Hesitei em colocar uma imagem tão explicita como esta num espaço que não é apenas meu mas penso que vai directa ao assunto que um perspectiva puramente intelectualizada não iria. Estou farto de entrar em debates da treta em que se tem que defender a moralidade de qualquer relação entre pessoas do mesmo sexo – estão no mesmo nível da defesa da igualdade racial ou sexual – quando a questão passa por algo que não recorre a qualquer argumento. Já que não falamos de argumentação sinceramente proponho mais uma solução retributiva... que a maioria dos homofobicos deveria ser sodomizada regularmente por duas razões:

- Neutralizava os casos de armário que povoam os sectores conservadores.
- Dava uma razão real a esse grupo para ter um ódio tão visceral à coisa.

«Povo que lavas no rio» (2)

" Não dávamos ponto sem nó; vocês agora não sabem divertir-se", diz a minha mãe quando recorda o tempo em que, com as amigas, ia lavar roupa ao rio.
Era a ocasião sempre esperada, pois que era então que, já depois da roupa lavada, e estendida na erva para corar ao sol, os rapazes vinham ter com elas e aí namoravam até começar a escurecer...

Como começar mal o dia

Depois de 4 horas bem dormidas, saio de casa, tomo um garoto e um rim (risos) e alegremente compro o Diário Económico. Abro na página do suplemento universidades e leio: "Para o estudante de Relações Internacionais Manuel Paiva Pires, o Brasil é "um país com grande potencial, em que os portugueses deviam investir mais culturalmente e socialmente". Este estudante do Instituto de Ciências Sociais e Políticas esteve durante seis meses na Universidade de Brasília, cidade que é a capital da diplomacia da América Latina. Uma experiência dois em um. Para além das aulas estagiou na Embaixada de Portugal, o que lhe "abriu portas" e permitiu "aprender novos conceitos".

Nem com gravações conseguem acertar no nome de uma pessoa e no nome da Universidade que frequenta, tendo eu dito Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa. Ainda para mais até tiraram fotografias à minha placa, oferecida pelo Santander, que tem pelo menos o meu nome, julgo que não o da Universidade. Devem ter-se deixado abrasileirar, posto que passavam a vida a chamar-me Manuel, até porque os brasileiros acham que nós nos chamamos todos Manuel...É o Diário Económico, um jornal de referência pois... É o jornalismo estúpido!

Depois chego ao Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, e não tenho aula. A única aula que tenho de manhã...Isto hoje começou bem...

Do Caçador


Fazia parte da banda sonora de um dos filmes que me marcou para sempre: o Caçador (The Deer Hunter). Tinhamos chegado há pouco tempo de África e tudo aquilo parecia familiar.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

«Povo que lavas no rio» (1)

"Ainda que meu pai me bata
E minha mãe me tire a vida
Minha palavra está dada,
Minha mão está prometida"

Não seria muito diferente o cantar da roda de amigas, entre as quais se encontrava a minha mãe,que acompanhava o esfregar da roupa nas pedras do ribeiro que atravessa a aldeia, enquanto os moços as olhavam do cimo da pequena ponte.

É isto que andam a fazer aos desgraçados!




Vejam mais em Demokratia: Pois agora sou eu quem pergunta onde é que anda o SOS-Racismo quando é realmente preciso? Foi aqui onde "roubei" as fotos. Para que o mundo veja e reaja.

Passeios de fim-de-semana

Marialva foi, talvez, de entre as várias Aldeias Históricas visitadas, a mais impressiva.
Lembro que quando lá chegámos, depois de percorridos caminhos invadidos pelas silvas e ervas daninhas, termos tido a sensação de que chegáramos a um lugar encantado, que o tempo adormecera, mas sem lhe quebrar nunca o dom de enfeitiçar, e onde, a cada esquina, tropeçávamos com o passado.
Mas um lugar abandonado...
Tinha lido em «Aldeias Históricas», das Edições Inapa, que " andando por aqui D. Afonso II, se tomou de amores por uma linda senhora de nome Maria Alva. Como não lhe podia oferecer o coração, o rei doou-lhe a terra onde vivia, baptizando-a Marialva. Perpetuava, assim, o monarca enamorado o nome da sua amada".
Pode-se ficar indiferente a uma lenda tão bela?...

Do "Correio da Manhã" de Moçambique


Esta é uma carta que podia ter sido escrita por uma testemunha dos acontecimentos que ensanguentam a África do Sul. Foi escrita na coluna Marco do Correio e é da autoria do jornalista moçambicano Machado da Graça. Aqui a reproduzo, agradecendo o Estado Sentido, todas as informações que ajudem à compreensão do que se passa na África Austral.

Meu caro Sitoi

Sei que tens bastantre família na África do Sul e estás preocupado com os terriveis tumultos que lá estão a acontecer.

Na tua última carta preguntavas-me porque é que isto começou, assim de repente.

Ora a verdade, meu amigo, é que isto não começou assim a partir do nada.

Na minha opinião isto que está a acontecer na zona de Joanesburgo, e ameaça espalhar-se para outras zonas, é mais um resultado da desastrosa política dos governos da zona em relação aos acontecimentos trágicos do Zimbabwe.

Desde sempre a nossa zona foi palco de migrações de trabalhadores entre os vários países e a vizinha África do Sul, principal foco regional de desenvolvimento económico.

E, desde sempre, esse fluxo migratório foi sendo gerido com flexibilidade, mais ou menos a contento de todas as partes.

Só que isso agora foi completamente desiquilibrado, com e entrada, descontrolada, de zimbabueanos, fugindo da violência política, do desemprego e da fome, num país praticamente destruido pelo desgoverno de Robert Mugabe e da ZANU FP.

Segundo alguns cálculos oficiais o número de zimbabueanos actualmente na África do Sul é de mais de 3 milhões de pessoas. A maioria dos quais entrou naquele país nos últimos tempos.

Ora 3 milhões de pessoas é muita gente. É uma pressão enorme no mercado de trabalho. Principalmente se, como é o caso, chegam em grandes quantidades num curto espaço de tempo e, portanto, não conseguem ser naturalmente integradas.

Daí a esta explosão de violência foi só um passo. E, tragicamente, esse passo já foi dado.

Como te lembras, o Zimbabué foi um país com uma economia próspera onde os seus cidadãos tinham um bom padrão de vida, melhor do que a grande maioria dos países africanos.

De repente, em poucos anos, essa economia foi completamente destruida pelas políticas insanas de um dirigente senil apoiado por uma casta de polícias e militares cuja fidelidade foi mantendo à custa de privilégios.

E o resultado foi esta fuga em massa para a fronteira do sul, para um local onde a vida se aproximasse daquilo que tinha sido, anteriormente, no Zimbabué.

A África do Sul não conseguiu “digerir” esta invasão de mão de obra e o resultado está à vista.

Costuma dizer-se que, quando vemos as barbas do vizinho a arder, é bom colocarmos as nossas próprias barbas dentro de água.

E digo isto porque é muito possivel que os zimbabueanos, incapazes de viver no seu próprio país e, agora, ameaçados de enorme violência na África do Sul, se virem para a outra fronteira que têm mais próxima. Isto é, Moçambique.

Parece óbvio para toda a gente que a solução para este ptoblema, que cresce dia a dia, é forçar uma mudança no Zimbabué. É conseguir fazer sair Robert Mugabe, e os seus apoiantes, do poder em Harare para que possa ser feito um real esforço de restauração da economia. Porque só uma economia em franca recuperação e o fim da violência política podem atrair, de novo, os zimbabueanos para casa.

E isso é fundamental para voltarmos ao equilíbrio anterior nos fluxos migratórios da nossa região.

O mesmo é dizer, voltarmos à paz social.

Mas quem tem poder para o fazer finge estar cego e não ver a queimada descontrolada que já arde por cima das fronteiras dos nossos países.

Esperemos, meu caro Sitoi, que essa política irresponsavel não faça as coisas ainda muito piores do que aquilo que já estão.

Um abraço para ti do

Para a Comemoração do centenário 2010


No seguimento das boas novas acerca da total europeização do tipo de vida usufruído pelos titulares de cargos públicos, sugerimos que nesta época de pré-comemoração do centenário do regime republicano, sejam facultadas mais algumas regalias a suas excelências. Assim, às contas hollywoodescas de telemóveis, aos carrões topo de gama com chauffeur e às despesas de representação, sugerimos como símbolo máximo da república, a instalação deste tipo de cadeirões em cada um dos departamentos do Estado. Em acobreado, para os gestores das empresas públicas; em prateado para os membros do governo; e em dourado para o palácio de Belém. O período de despacho de assuntos pendentes será decerto um prazer para os sentidos e as sábias medidas não deixarão de beneficiar o contribuinte.

O ataque aos moçambicanos


As imagens que nos têm chegado da África do Sul, apontam para mais uma tragédia a que aquela parte do mundo nos tem habituado. Desta vez, as vítimas da brutalidade xenófoba são os emigrantes - muitos deles refugiados de países como o Zimbabué, ou os trabalhadores contratados, como aqueles oriundos de Moçambique - que no país de Mandela procuraram encontrar melhores condições de vida. Mortos à cacetada, cortados com catanas, alvos de armas de fogo ou queimados vivos, não têm beneficiado de uma protecção eficaz por parte das autoridades de Pretória e assim, amontoam-se em combóios e autocarros, numa desesperada fuga que lhes permita pelo menos salvar a vida. 
As notícias indiciam uma iminente catástrofe humanitária e aqui apelamos ao governo português para que tudo faça junto das autoridades sul-africanas, no sentido de ser proporcionada a protecção e a assistência às vítimas. A comunidade portuguesa e luso-descendente devia igualmente participar no esforço que é uma obrigação moral. Os moçambicanos têm sofrido enormemente com a situação e a CPLP terá decerto um vasto campo de actuação, desde a pressão diplomática, à assistência humanitária junto da população atingida. Esperamos que a reacção seja célere e eficaz.

* Na imagem, "A Fuga", ilustrando a debandada das populações devido a uma queimada. 

Começo a perceber....

...porque a legislação laboral é tão rígida em Portugal. E cada vez duvido mais de mim próprio. Qualquer dia estou a fazer como um conhecido Professor do ISCSP que todos os dias se olha ao espelho e diz "Tu não és de esquerda, tu não és de esquerda!". Ou então vou ser o primeiro sindicalista de direita. Tenho a impressão que tenho que voltar à minha burguesa condição de simples estudante universitário. Ter que levar com uma série de gente burra, ignorante e pedante todos o dias é coisa que não me apraz. E como diria o meu falecido tio-avô, "trabalhar para aquecer, mais vale ficar à chuva". Já falta pouco também, ou forças armadas, ou, mais provável, vou-me pôr a andar daqui para fora...

Já agora, esta semana estarei ausente das lides blogosféricas, por afazeres académicos e profissionais, que me impedem de ter a devida disponibilidade mental e temporal para tal. Desde já, as minhas desculpas ao Nuno, Cristina, Pedro, e aos nossos leitores. A casa fica bem entregue, a diferença não se fará notar.

Uma boa semana para todos

domingo, 25 de maio de 2008

Exageros comunistas


António Luís Vicente in Codfish Waters

Pedaços do Minho


Ó meu amor, se partires
Leva-me, podendo ser,
Que eu quero ir acabar
Onde tu fores morrer.

Vivo triste, pensativa,
Cuidadosa, dando ais,
Desejosa de saber,
Meu amor, por onde andaes.

Da minha janela reso
À Senhora das Areias,
Que me mande o meu amor
Que anda por terras alheias.

Saudades não vinhais juntas,
Vinde antes poucas e poucas,
Vinde mais compassadinhas,
Dae lugar umas às outras.

«O Minho Pittoresco»

Durante

anos a do Porto foi a única Feira do Livro que conheci. Quase sempre debaixo de chuva, que naqueles anos de criança as " casinhas" distribuíam-se pela encharcada Rotunda da Boavista.
Era uma alegria enorme quando, sempre ao Domingo à tarde, o meu pai dizia: "-vamos à Feira do Livro": que importava que chovesse a potes?
O primeiro livro que de lá trouxe, foi-me oferecido por um senhor de uma editora, que me deu a escolher entre dois livros, grandes e verdes- "Heidi" e "O Gnomo"; optei por este, mas lembro-me de ter chegado a casa a pensar que escolhera mal...
Seguiram-se, noutros anos, os livros da Condessa de Ségur. "Memórias de um Burro", para mim, "Os Desatres de Sofia", para a minha irmã...
Só muitos anos mais tarde iria conhecer a Feira do Parque Eduardo VII...

Depois daquela ironia da Eurovisão ali em baixo...

...uma observação a roçar alguma brejeirice: nunca percebi muito bem esta coisa de entregar as chaves de uma cidade a alguém. Faz-me lembrar cintos de castidade.É entregar o que é preciso para abrir e logo a seguir... Será que foi isso que aconteceu neste caso?

Existencialista, pois

É pelo menos o que sou, de acordo com um quiz que ficámos a conhecer pela Carla.







What philosophy do you follow? (v1.03)
created with QuizFarm.com
You scored as Existentialism

Your life is guided by the concept of Existentialism: You choose the meaning and purpose of your life.



“Man is condemned to be free; because once thrown into the world, he is responsible for everything he does.”

“It is up to you to give [life] a meaning.”

--Jean-Paul Sartre



“It is man's natural sickness to believe that he possesses the Truth.”

--Blaise Pascal



More info at Arocoun's Wikipedia User Page...


Existentialism



100%

Justice (Fairness)



80%

Strong Egoism



75%

Hedonism



70%

Utilitarianism



50%

Kantianism



45%

Divine Command



10%

Apathy



5%

Nihilism



5%


É um prazer...

...estar no terraço da Miss Pearls, com os sentidos agradecimentos em nome da equipa do Estado Sentido.

A isso chama-se autismo político

Sad, but true

Not only that. Since the people in Cath societies tend to be very orthodox, as they cannot live without an orthodoxy, imported ideologies tend to be practiced more orthodoxically in Cath societies than in its very countries of origin. Furthermore, as the cardinal sin in Cath societies is heresy, that is, for some people to think differently from the group, not only adherents of any political ideology (or party) tend to be very orthodox, but they also see adherents of any other political ideology (or party) as sinners and enemies of society.
.
The result is political warfare and the most ferocious political warfare of all as each party sees itself as being right and possessing absolute truth and all other parties as being a bunch of sinners and enemies of society. The end result is paralysis, if not destruction, of public institutions and the state and ultimately paralysis, if not destruction, of society itself.

Pedro Arroja in Portugal Contemporâneo

Ironias da Eurovisão

Vânia Fernandes está de parabéns, foi à final e trouxe um honroso 13.º lugar para Portugal...com 69 pontos...

O exército prussiano em parada

Os dramas dos Regeneradores (no Combustões)

sábado, 24 de maio de 2008

Para os nossos leitores, prenda de fim de semana



Como a Cristina mencionou o António Manuel Couto Viana, aqui vai esta recordação. Costumávamos almoçar às segundas-feiras na Sociedade de Geografia. Um homem excepcional, de grande classe e de uma incomparável bonomia. Durante anos, a SGL foi praticamente o quartel-general da NM.

Hoje, o chá é na outra casa

Nuno, Samuel, e demais amigos venham daí tomar chá (ou outras bebidas,"viu", Mike? :) ) e pôr a conversa em dia em www.vistodasnuvens.blogspot.com. Não há hora marcada: o chá estará sempre aquecido pelas palavras...

Usurpando,

descaradamente, um título a João Marchante, do blogue Saudades do Futuro, trouxe da livraria este "Livro para Hoje». A Agustina é uma escritora que aprecio, integrando-a na Escola de Camilo- o autor que elejo entre todos-, e que é também, afinal, a de outros que considero, como Tomaz de Figueiredo ou António Manuel Couto Viana...
Até na temática vejo essa proximidade, quando leio numa das badanas: "Maria Adelaide é uma mulher munida de uma alegria negra que é a de escapar ao amor da lei e às cumplicidades que a rodeiam"...

Em resposta ao Sr. Jaume Larrea: Espanha Unida!



No seguimento do post em que tecia algumas considerações relativas ao posicionamento lógico das potências perante uma improvável União Ibérica em pleno século XXI, recebi uma simpática carta e-mail da parte do senhor Jaume Larrea. Catalão e nacionalista - segundo reivindica -, parece não ter verdadeiramente compreendido a minha posição perante a ainda imponente construção histórica que é o Estado Espanhol. Contactando-me em inglês (...?) dissertou sobre os malefícios da permanência daquela região do antigo reino de Aragão que hoje reivindica a condição de nació catalá. O pressuposto relativo aos portugueses, é que o separatismo barcelonês deverá gozar de amplo suporte para cá da fronteira e que a generalidade da nação lusa - galegos incluídos! -, espera ansiosamente a fragmentação do reino vizinho.

O discurso claramente inspirado nas diatribes do senhor Carod-Rovira, chega ao ponto de inevitavelmente tecer um rol de comparações absolutamente inacreditáveis entre os castelhanos - os "maus, ladrões e opressores" - e os catalães -os "bons, honestos, industriosos, cultos e cosmopolitas" -, sem sequer se preocupar minimamente em justificar a razão pela qual me escreve numa espécie de sub-dialecto anglo-saxónico (?), em vez de utilizar a língua de cultura de primeira água que é o catalão. Já tinha identificado o preclaro Carod-Rovira como um perfeito exemplar daquilo que é mais desprezível num político, pois é o arauto cutuqueiro de ódios sem razão, acicatando preconceitos, cultivando a marginalização dos seus semelhantes - quantos castelhanófonos vivem na Catalunha?! -, promovendo também um sagrado egoísmo tendente a evitar distribuição da riqueza em benefício solidário dos mais pobres, entre muitas outras costumeiras pechas atribuídas a histéricos de turvas intenções. Tenho-o em baixíssima conta como ser humano, pois o político eclipsa-se perante aquilo que verdadeiramente importa: o respeito pelo outro.

O senhor Larrea enganou-se na pessoa a quem pretendeu dedicar o canto da sereia.  A Espanha vista como um todo, é um grande e respeitabilíssimo país na sua multiplicidade e habituou o mundo à sua indelével presença na História. Castelhano falam mais de 400 milhões de humanos e o reino é um dos pilares fundamentais daquilo que consideramos idealmente ser a Europa.

O facto de termos nascido portugueses e portugueses querermos descer à tumba - na feliz expressão do rei D. Luís -, não implica necessariamente qualquer desígnio revanchista sobre um passado de muitos conflitos e incompreensões mútuas, ditados pela férrea vontade portuguesa em construir o seu futuro autónomo, apesar de todos os escolhos consequentes da nossa exiguidade territorial, falta de recursos materiais e dependência de habilidosos e coerentes arranjos diplomáticos. A independência convém-nos e convém às potências e acredito verdadeiramente que também é conveniente a esta Espanha unida, moderna e próspera.

Para Portugal, a destruição do reino vizinho teria tremendas consequências, porque em vez de um parceiro estável e progressivo, conheceríamos uma realidade de conflitos inter-étnicos de uma provável e inaudita violência que nos remeteria para situações julgadas impossíveis na Europa do nosso tempo. Lisboa dialoga frutuosamente com Madrid, cujo imperialismo mitigado é bem conhecido e velho de séculos, fazendo até parte de um certo folclore revivalista além-fronteira. Sabemos quem são, como reagem e o que verdadeiramente pretendem muitos políticos espanhóis, ou castelhanos, como preferir. Uma independência catalã será um gravíssimo precedente na Europa ocidental e um colossal desastre na Península Ibérica, pela dissolução de vínculos entre populações, empresas, infra-estruturas e inevitáveis conflitos bélicos pelo traçado de novas fronteiras, numa febre nacionalista que incendiará aquilo que conhecemos por Espanha. Este não é um cenário interessante e minimamente desejável, porque em resposta a uma aventura catalã, teremos outras tantas sagas valencianas, bascas, galegas - um autêntico e indesejável perigo para a tranquilidade portuguesa - e, pasme--se, andaluzas, esta última com contornos vagamente islamitas. É um horrendo cenário em perspectiva e Portugal em nada beneficiará dessa fragmentação previsivelmente conflituosa e de contornos indefiníveis em termos temporais. É para Portugal mais coerente e sobretudo mais proveitoso, ter apenas um interlocutor na Ibéria, quando esse Estado vizinho se apresenta como um perfeito modelo de autonomias onde a livre expressão, circulação e decisão das populações é garantida pelo modelo adoptado em 1976

O argumento clássico dos "nacionalistas", consiste na apresentação dos exemplos bálticos ou ex-jugoslavos, como se fosse possível proceder a comparações completamente desfazadas  entre realidades tão diversas. Desta forma, posso até deixar algumas sucintas questões de fácil compreensão:
1. O que têm os idiomas baltas em comum com o russo e quais são as fundamentais diferenças de raíz entre o castelhano e o catalão?  E que tipo de contrato selou a união dos povos baltas com o império russo, czarista ou estalinista?
2. Qual o papel histórico desempenhado pelos baltas na construção da grande Rússia e qual aquele exercido ao longo de séculos pelo povo e pelas elites catalãs na construção da Espanha de aquém e além mar?
3- E uma simples mas delicada questão que respeita ás relações internacionais: qual o interesse das potências europeias, dos EUA e das antigas colónias espanholas da América do Sul e Central, na pulverização do reino?

A resposta a estas três questões é tão evidente quanto desnecessária, porque significa a redução ao nada absoluto, de quaisquer veleidades secessionistas. Quanto à viabilidade de um novo pequeno Estado na Europa, a lei do mercado decerto funcionaria contra ele, chame-se o neo-nato Catalunha ou Kosovo. Não pesa, não possui massa crítica populacional, não tem um poderoso suporte ultramarino que dê corpo visível no palco das relações internacionais.

Que o senhor Rovira, candidato a condottieri de ocasião pareça não compreender a realidade das coisas, podemos aceitar. Mas que as potenciais vítimas da loucura nacionalista queiram alegremente embarcar no combóio com destino ao inferno na Terra, isso ultrapassa a compreensão de todos.

Queremos e saberemos continuar a ser Portugal e decerto almejaremos sempre a ter como vizinho, a Espanha forte, próspera e feliz que nos tranquiliza.

Como nota final, desejo também comunicar-lhe que entendi muito bem o aparentemente inexplicável ódio ao señor Borbón. Ele é o maior óbice a certos projectos onde o maquiavelismo e a velhacaria  chã, surgem metamorfoseados em liberdade. Patético.

*Nota: da próxima vez pode escrever em catalão. Compreenderemos o fundamental da mensagem.