


Hoje é Sábado e parece-me acertado fazer uma pausa nas nossas preocupações com o devir da nação, com fumos de tabacos alheios ou com a transcendência das malandragens de Bin Ladens, Chávez e outras personagens que preenchem alegremente o nosso dia a dia.
Assim, decidi apresentar-vos uma parte importante do trabalho executado pela minha mãe ao longo de décadas. Considero estes testemunhos pictóricos, uma fonte de informação única no âmbito da compreensão daquilo que foi e representou a derradeira fase da presença portuguesa além-mar. Na linha daquilo que Jean-Baptiste Debret fizera no Brasil durante a permanência da Corte no Rio de Janeiro, a minha mãe começou desde cedo, a recolher aspectos característicos da vida na antiga colónia de Moçambique. Interessaram-lhe sobretudo, as incontornáveis cerimónias públicas, as actividades dos quadros administrativos locais, os sectores da economia, a vida familiar e sobretudo, a sua grande paixão pelos usos e costumes daquela boa gente que forma aquilo que hoje reconhecemos como povo moçambicano. As cantinas onde um pouco de tudo se vendia e onde ao fim da tarde o pessoal da administração bebericava o muito anglófilo whisky, a consulta ao feiticeiro capaz de curar maleitas e de afastar os maus espíritos, as ruas onde se aglomeravam gentes oriundas do então Indostão britânico, as mesquitas, a comunidade macaense ou goesa e muitos outros temas que compunham com veracidade, a realidade moçambicana daquele tempo. Como é evidente, não se trata de uma obra decorativa, mas sim documental e considero inédita, num país que aprendeu há apenas umas décadas, a esquecer os caminhos trilhados durante séculos. São mais de cem pequenos quadros de uma riqueza documental incomparável e que ainda não mereceram a curiosidade ou interesse de quem devia zelar pela preservação de um património que é a nossa razão de ser como nação.
Infelizmente não consegui fazer o scanner de forma correcta, porque as imagens colocadas sobre o vidro ficaram inevitavelmente afastadas do mesmo, devido às dimensões de cada cartão pintado. Os desenhos parecem desfocados e pouco nítidos, devido a esta deficiente cópia. De qualquer forma e como curiosidade, aqui vos apresento como prenda de fim de semana, três cenas de um outro Portugal que morreu.