sábado, 26 de abril de 2008

Comemorações abrilistas ao som de Chico Buarque

Em tempo de comemoração do 25 de Abril, atentemos na homenagem prestada por um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira, pelas músicas Tanto Mar e Fado Tropical:




Esta tarde, na Avenida

Será?

Pergunto-me se "quem está à beira dos Alpes" terá, ainda, de viajar "à volta do seu quarto". Não, se por lá estiver um tempo, por pouco aproximado que seja, como o que tivemos no dia de ontem, com um céu assim, em que muitos foram os que arejaram já as vestes de Verão. Mas temos de atender ao adágio popular que diz ser fraco o Maio que não rompe uma croça .
Pelo menos, os que amanham a terra puderam começar as sementeiras da batata: já muitos se lamentavam.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

A qualidade da democracia em Portugal

Em dia de comemoração da Revolução dos Cravos, vale a pena ler o único discurso oficial sem lugares comuns, o do Presidente da República, sobre o distanciamento dos jovens em relação à vida política, e os artigos do Público sobre o descontentamento de destacados oficiais militares em relação à qualidade da democracia em Portugal, aqui, aqui e aqui.

Assim tento responder ao desafio do Nuno...


Comecei por socorrer-me do arquivo do Combustões, pois que tinha uma vaga ideia de um post em que versa esta matéria. Depois de uma busca, encontrei-o:" O Brasil de D. Pedro II e o Brasil de Lula", de 4 de Outubro de 2006; - aí diz o Miguel ser aquele "Homem de grande dimensão moral e intelectual(...)que sempre viveu de forma discreta" tendo sido grande amigo de Portugal e das letras portuguesas", referindo as visitas do Imperador a Camilo Castelo Branco. Mas os dois homens terão, além disso, mantido uma correspondência regular, como me dei conta ao consultar, entre outros, o «Boletim da Casa de Camilo.
Tê-lo-á visitado, também, na casa do escritor no Porto, na Rua de S. Lázaro, em 1872, quando este já se encontrava doente: "Tornou-se assunto de conversação a analyse de uns quadros que o senhor Camillo Castello Branco tinha na sala, mostrando o soberano vastos conhecimentos sobre pintura".
Depois de o escritor ter oferecido a D. Pedro um quadro com os vinte e um primeiros reis portugueses, tendo-se ele" comprazido de possuir umas lembrança de Camillo (...), fallaram de literatura, tanto portuguesa como brasileira, matéria sobre a qual o monarcha discursou largamente, com perfeito conhecimento de causa".
Finalmente, num dos volumes de "Dispersos de Camilo" , coligidos por Júlio Dias da Costa, encontrei uma carta dirigida a Tomás Ribeiro, na qual diz Camilo: "No « Livro de Consolação», pagina primeira, está impresso um documento que eu desejo fazer-te conhecido. É uma carta escripta a S. Magestade o Imperador do Brasil, dedicando-lhe affoitamente e audaciosamente, o meu livro. Essa carta manifesta o meu grande respeito e a minha profunda gratidão áquelle magnanimo homem, que não carecia de diadema para ser um dos mais veneraveis cultores das letras, e amigo dos operarios que vivem acorrentados á galé dos trabalhos do espírito, em que a alma, alando-se para altas regiões, vai deixando cahir em terra o corpo despedaçado».

Achmed, o Terrorista

Manifestação em Lisboa de apoio à rainha Carlota

Inacreditável! Estão a reunir-se grandes grupos populares na zona do Marquês de Pombal, preparando-se para descer a avenida da Liberdade, numa manifestação comemorativa do aniversário da rainha Carlota Joaquina. Aproveitam para nesta mesma data celebrar a aclamação de D. Miguel (25-4-1828) como rei, pelo Senado de Lisboa. Ao fim de dois séculos o povo não perdeu a memória e é ainda com os cravos vermelhos que encheram a carruagem real que sai à rua.

Histórias do Minho: O imperador do Brasil visita Camilo

Aqui vai um desafio à Cristina. O imperador D. Pedro II era um erudito e um dos mais decentes homens do seu tempo. Visitou Camilo Castelo Branco em S. Miguel de Seide. Assim, desafio a Cristina a elaborar um post que nos esclareça acerca das relações que o bom monarca manteve  com essas terras e gentes... Que tal?

Por muito querer à sua terra (2)


É ainda por muito ter querido à terra onde nascera, que o Padre Ferreira Caldas, membro da Associação dos Arqueólogos Portugueses e da Sociedade de Geografia "se passava dias inteiros a passear na Costa, na Penha ou ainda na Citânia de Briteiros" dedicava-se a estudar aturadamente tudo o que a ela respeitava, nomeadamente as suas origens, começando por constatar o quão nebulosas elas eram: que esta povoação, situada na confluência dos rios Ave e Vizela, tenha sido a Araduca- a Cidade das Letras- mencionada por Ptolomeu, é apenas uma das hipóteses, com bastante acolhimento na Tradição, embora.
Tudo se tornaria mais claro a partir do século X, quando a viúva Condessa Mumadona vem de Tui fundar um mosteiro na sua quinta de Vimaranes, onde hoje se situa a Colegiada, começando a formar-se uma povoação, que, mais tarde, com a vinda do Conde D. Henrique, iria salientar-se no seio do território governado por Afonso VI de Castela e Leão, dado o importante contributo deste Príncipe na luta de Reconquista, o qual viria a ser reforçado quando seu filho, Afonso Henriques, toma nas suas mãos o combate aos sarracenos, ganhando , deste modo, e após a decisiva Batalha de Ourique, travada em 1139, legitimidade para se proclamar Primeiro Rei do novo Reino que agora nascia.
E mesmo quando a corte se desloca mais para Sul, para Coimbra, Guimarães irá continuar a prosperar, culminando no "estabelecimento da corte dos Duques de Bragança, a família mais nobre e opulenta do Reino".

Feliz Aniversário, Majestade!


Nasceu em Aranjuez a 25 de Abril de 1775, D. Carlota Joaquina de Bourbon, rainha de Portugal e imperatriz do Brasil. Faz hoje 233 anos. Nesta solarenga sexta-feira, desejamos um feliz aniversário a Sua Majestade.


* O trepa-moleque que a rainha ostenta é fabuloso. Por onde andará? A Laura Junot tinha muita inveja dos diamantes de D. Carlota.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Quarto com vista nocturna

E agora tentem imaginar a música do Nocturno, da Luísa...

Pedaços do Minho


Pergunta a quem saiba amar
Qual é mais para sentir,
Se amar e viver ausente,
Se vêr e não possuir.

Eu hei de amar-te de noite
Que a noite tudo encobre
Dá-me uma falla, amorsinho,
Que a tua gente já dorme.

Ó luar da meia noite
Não sejas meu inimigo,
Estou á porta de quem amo,
Não posso entrar comtigo.

Rosa que estás na roseira
Fechadinha no botão,
Deixa-te lá estar dentro
Que lá te procurarão.

Ninguem se fie nos homens
Nem no seu doce fallar,
Que tem fallinhas de mel,
Coração de rosalgar.

Rosa que estás na roseira
Deixa-te estar que estás bem
Debaixo ninguem te chega,
Acima não vae ninguem.

Elle chove, elle chovisca
Na folha ao manjaricão,
É bem tola e é bem varia
Quem por homens tem paixão.

(in «O Minho Pittoresco» )

A Rainha Sofia e a milionésima passagem em revista das tropas espanholas

A blogosfera anda excitadíssima com a foto da ministrazeca da defesa de Espanha, que grávida de onze meses, passa em revista esta e aquela guarda de honra. Grande coisa! Quantas vezes a rainha Sofia fez o mesmo? A propósito, convém lembrar a estes bajuladores dos estrangeiros, que Portugal, que jamais adoptou a Lei Sálica, teve duas mulheres como Chefes do Estado e comandantes-em-chefe das Forças Armadas. Que tal este tema como debate nos blogs? 

* Sinal de grande progresso e modernidade será uma passagem em revista pela ministra, com o trambolho ao colo daqui a uns seis meses, no momento em que o neo-nato chupe furiosamente um dos terminais abastecedores em plena parada. Isso é que era!

Com quem os pratica,

No Desconversa o Mike faz uma reflexão muitíssimo pertinente, e pergunta se não é certo que os actos ficam com quem os pratica. Claro que ficam, Mike. Podem deixar-nos magoados, e até custar a "encaixá-los", mas acabamos, felizmente, por assim concluir, numa espécie de catarse...

Não queiram enganar-nos

O governo resolveu dar a volta ao texto, ou melhor ao nome, porque o essencial dele permaneceu, e aquela coisa brindada com um "porreiro pá!" lá foi aprovada. Não foi ainda ratificada, mas não esperemos que o não seja: é só uma questão de agenda do mais alto magistrado...; pensam que vão continuar a enganar os tolos com bolos. Assumam a natureza do texto que aprovaram...

A ler

Sem dúvida imperdíveis, para quem se interessa por estas coisas, dois artigos na Foreign Affairs que com algum wishfull thinking à mistura, como de resto é normal atendendo ao contexto da publicação em causa, alertam para o que poderá consubstanciar um novo paradigma na Teoria das Relações Internacionais ou, de forma mais prática, o tipo de transformações a que poderemos assistir nos próximos anos, no que diz respeito ao declínio do domínio norte-americano do sistema internacional entendido sob a forma de um mundo pós-americano:

The Future of American Power, por Fareed Zakaria (editor da Newsweek International).

The Age of Nonpolarity, por Richard Hass (presidente do Council on Foreign Relations).

A ler

Os limites do bom senso...dos jornalistas, pelo Alexandre Guerra n'O Diplomata:

Pelos vistos, a Federação Nacional de Imprensa Italiana (FNSI) terá ficado chocada pelo facto de Berlusconi ter simulado com as mãos uma arma a disparar para uma jornalista russa que estava na conferência, após ter feito uma pergunta que Putin não terá gostado.

À primeira vista esta seria, no mínimo, uma brincadeira de mau gosto e que poderia colocar em causa o princípio de liberdade de imprensa, no entanto, lendo com mais atenção a notícia percebe-se o ambiente em que tudo se passou e chega-se a uma conclusão diferente: ao contrário de outras situações no passado, desta vez Il Cavalieri foi apenas sarcástico perante uma pergunta inconveniente da jornalista russa. Esta, talvez pensando que estaria a servir os interesses dos leitores russos, perguntou a Putin se estava em processo divórcio.

Além da questão por si só não ser motivo de notícia nem de interesse público, dificilmente se a consegue enquadrar numa visita do Presidente russo ao estrangeiro, sobretudo durante uma conferência de imprensa acompanhado do chefe de Governo de outro país. Há limites e noções de bom senso que devem reger os jornalistas em diferentes situações, e neste tipo de conferências de imprensa estas são perguntas que apenas servem para cobrir de rídiculo o próprio repórter.

Dia Mundial do Livro

Ora quase me esquecia que hoje, isto é, ontem, 23 de Abril, se comemorou o Dia Mundial do Livro. E para comemorar, nada melhor do que ter um desconto de 20% pela minha condição estudantil ao adquirir o recente livro de Nuno Simas, Portugal Classificado - Documentos Secretos Norte-Americanos 1974-1975, por alturas da comemoração da revolução abrilista. Para já estou a gostar, especialmente do sempre pragmático Henry Kissinger, que a 8 de Outubro de 1975 reunia com os seus conselheiros:

Kissinger: Por que diabo tínhamos nós que saber mais do que o Governo que foi derrubado?

Hyland: Eu disse isso, que [Marcelo] Caetano foi apanhado de surpresa. Mas a resposta ao que eles [Comissão Pike] queriam saber - prevemos o golpe? - é não (...)

Kissinger: Mas que exigência é esta de pôr as nossas agências de informações a descobrir golpes pelo mundo fora? (...) Será que nós temos que ter um FBI em cada país? (...) Nós dizemos que [Portugal] é uma ditadura, com serviços de segurança internos. Se os serviços de segurança internos portugueses não previram o golpe, como diabo íamos nós conseguir prever o golpe?

Sozinho

É e sempre será uma das minhas canções favoritas. Caetano Veloso ao Vivo na MTV. Um grande abraço aos nossos irmãos brasileiros e aos seus imensos artistas.


quarta-feira, 23 de abril de 2008

A respeito da alegada ratificação do Tratado de Lisboa

A mostrar como os jornalistas portugueses padecem de uma grave formação em diversas matérias, Carlos Loureiro do Blasfémias alerta:

Ao contrário do que se afirma no Público (aqui, aqui e aqui, pelo menos), no Expresso, no Sol e em vários outros jornais on-line, Portugal AINDA NÃO RATIFICOU o Tratado de Lisboa. O parlamento limitou-se a aprovar o Tratado para ratificação. A ratificação propriamente dita é competência própria do Presidente da República, através de Decreto-presidencial antes do qual é incorrecto falar-se em ratificação.

O Presidente pode, entre outras coisas, solicitar ao Tribunal Constitucional a fiscalização preventiva da constitucionalidade do Tratado antes de o ratificar.

Não sendo provável que o Presidente utilize esta prerrogativa, considerar, desde já, ratificado o Tratado constitui uma grave subalternização do papel constitucional do PR.

Fim de tarde na Praça do Comércio


O Arco Triunfal, a estátuta de D. José I, o Castelo de S. Jorge ao fundo, um dos principais componentes da sede do poder lusitano e uma imensa praça que desde há muito deixou de ser do comércio, banhada pelo Tejo e com um tecto luzidio de um leve sol primaveril.

Breves Escritos Internacionais

A Joana é uma amiga e colega de faculdade que tem vindo desde há algum tempo a esta parte a revelar-se como uma das mais promissoras "aspirantes" a especialista em Relações Internacionais, no que ao Médio Oriente diz respeito. Para além de sermos colegas de blog no Nostrum Symposium, o seu blog a título pessoal é sem dúvida um ponto de passagem obrigatória para quem se atreve a tentar perceber um pouco mais sobre uma das zonas mais problemáticas do globo. Ora ide lá ver.

Estado Sentido torna-se luso-brasileiro

A mostrar que não precisamos de acordos ortográficos para nos entendermos, e reflectindo a demanda que os nossos leitores de além mar representam nas visitas ao Estado Sentido, é com grande prazer que este se torna um blog luso-brasileiro, para já, com a Cristiane Alcântara, docente universitária da área de artes, uma grande amiga que deixei em Brasília, a quem agradeço ter aceite o convite para integrar a equipa do Estado Sentido.

Este é um espaço cada vez mais multifacetado, e de certa forma cada vez mais completo, versando sobre temas que sempre andaram de mãos dadas, Política, Arte e Literatura. A todos, leitores e colegas de blog, o meu sentido agradecimento, e que possamos continuar com esta bem sucedida empresa.

Lisboa arruinada (29) O terreno da Feira Popular

Em Entrecampos, o enorme terreno onde outrora se ergueu a Feira Popular, encontra-se limpo de ruínas e aguarda por novas construções. A cidade de Lisboa tem sido privada de espaços de lazer e a Feira Popular foi um grande polo de atracção durante décadas, onde gerações se divertiram no luna park disponível, comemorando aniversários ou participando em patuscadas nos Santos Populares. É um apetecível espaço para o sector betoneiro que domina o país e é com preocupação que os lisboetas imaginam o uso a que está destinado. Será decerto mais um colosso a perder de vista e sem qualquer interesse para a população, com volumetrias disparatadas, alumínios e placas em pedra polida ao gosto de qualquer WC de hotel de Tegucigalpa. Nada de novo.
Lisboa precisa urgentemente de espaços lúdicos adaptados às novas necessidades de uma juventude adepta de novos desportos e formas de lazer. Este terreno seria ideal para a construção de um prolongamento do jardim do Campo Grande, estendendo a malha verde em direcção ao renovado Campo Pequeno e incluindo pistas para ciclistas, skatters e patinadores.
Argumentarão com os compromissos tomados. Gesticularão com a ameaça de indemnizações, processos em tribunais nacionais e europeus. O interesse da comunidade está muito acima dos jogos da especulação e seria curioso verificar até onde pode ir a cumplicidade entre as diversas forças políticas dominantes na Câmara e as empresas investidoras interessadas ou "proprietárias" do espaço. Como disse anteriormente, nacionalizações ou expropriações "Por Bem" não amedrontam seja quem for. Ficamos à espera de um projecto do arq. Ribeiro Telles.

Por muito querer à sua terra (1)

Encontrando-se de há muito esgotada a primeira edição, datada de 1881, entenderam por bem, e para bem de todos nós, a Câmara Municipal de Guimarães e a Sociedade Martins Sarmento, reeditar a obra máxima do Padre António José Ferreira Caldas, «Guimarães, Apontamentos Para a Sua História».
Nascido em 1843, foi este "Este espírito ilustrado, aprimorado cultor das letras(...) , um escritor esmerado e jornalista vigoroso", nas palavras do prefaciador da actual edição, Francisco Martins, num texto datado de 1923.
Nele, "o sentimento de amor à Pátria" foi uma realidade de todos os dias.
Sobre Guimarães, escreve:
"Guimarães, cúria augusta do primeiro Afonso, berço nobilíssimo da monarquia portuguesa, assenta em prados verdejantes, que se alastram nas fraldas ocidentais da serra pitoresca de Santa Catarina(...). É tão aprazível e bela a sua estância que um dos nossos antigos infantes, ao contemplar Guimarães da vertente da montanha, dissera enleado por tão formoso quadro: quem te deu, não te viu, se te vira, não te dera. Aludia, diz Frei Leão de S. Tomás, aos reis antepassados, que doaram a vila à Casa de Bragança, o que decerto não fariam, se a vissem tão bem assentada, tão bem murada, coroada de tanta frescura e arvoredo, e tão formosa em si.
(...) Daqui nasce, que, sendo tão pequena esta região, é sumamente fértil, e a benignidade dos seus ares, a afluência dos seus rios, as abundâncias e delícias dos seus campos comprovam a fama do seu admirável temperamento, donde se animou a dizer Manuel de Faria que se no Mundo houve Campos Elísios, existiam nesta Província, e se os não houve, merecia que somente os houvesse nela..."

Só para dizer Olá

À Chris,
Um blogue luso-brasileiro, este que encontrei quando liguei o computador. Já estávamos à sua espera, mas veio sem fazer barulho, de mansinho. Bem-vinda!

Pra começar que tal falar um pouquinho sobre arte contemporânea?

Quem já viu o vídeo-clip do cantor Seu Jorge com a música "Tive Razão"? Bem, quem já viu sabe do que eu estou falando. É lindo! Simplesmente ele está sentado em frente a uma igreja de Roma cantando e tocando tranquilamente seu violão. Pode parecer uma observação boba, mas aquela imagem ali, pra mim, resume tudo que um artista quer da vida: mostrar - exibido, o que faz. E digo mais, vou somente uns 100 anos atrás pra mostrar um outro exemplo: Os impressionistas. Qual era o grande intuito deles? Mostrar o que faziam, e não adianta negar, eles queriam ser aceitos.
O salão de Paris não aceitava os quadros dos pintores impressionistas, por isso eles se uniram e criaram um outro jeito pra mostrar sua arte. E qual era a maior alegria de Van Gogh? Mostrar sua pintura. Quando ele leu pela primeira vez uma crítica de seus quadros ele saiu saltitando de alegria pelos trigais! E Gauguim? Foi pra uma ilha do Pacífico conseguir novas idéias, um novo estilo, qualquer coisa que fizesse com que seus quadros fossem novamente admirados pelos parisienses (que num certo momento começaram a o ignorar) .
Interessante, a pessoa que eu mais tenho visto atualmente escrever e criticar arte contemporânea não é um crítico de arte, nem um artista plástico, é um músico, o Bruno Medina da banda Los Hermanos. E por que será? Num dos posts em seu blog, Medina fala novamente do problema que tem com as instalações. Isso acontece porque ele faz parte da maioria das pessoas que gostam de arte. Feliz do Seu Jorge que toca seu violãozinho e não precisa se preocupar com o "conceito da performance estrutural da vídeo arte inserida na contemporaneidade do homem virtual". Ele canta ali, diante do mesmo público que Van Gogh, Pissarro, Degas e Gauguim buscavam. Que bom que ainda existem pessoas que gostam de arte, sem conceitos, sem problematizações, sem grandes questionamentos, gente feito o Bruno Medina, que reclama por uma arte que ele entenda. Eu torço muito, muito, pra que os tais problemáticos da arte não contaminem esse público e ele não se torne preconceituoso, vazio e frio, como parte da arte contemporânea. E quem não ouviu ainda Seu Jorge e sua música "Tive razão", tem que ouvir, porque é linda, aliás, é brega usar essa palavra em arte contemporânea, né?

Lygia Clark e sua complicada "Arquiteturas biológicas", de 1969.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Pensamento (2)


A ler «Diário Quase Completo», de João Bigotte Chorão, de uma forma aleatória e intervalada, por sentir assim mais proveitosa a leitura de um livro recheado de sabedoria empírica, deparo no escrito no dia do mês correspondente ao de hoje, mas de 1965, com a frase "Céu nublado. Chuva. Como estas nuvens hostis, assim os homens- certos homens- nos ocultam a límpida face do céu."
Até no clima a tradição se mantém...

A crise do PSD e a parcialidade sacerdotal do P.R.


Os recentes acontecimentos no maior partido da oposição, o PSD, parecem confirmar a progressiva decadência do sistema partidário consolidado no regime da Constituição de 1976. Para a reconhecidamente apática opinião pública nacional, o partido é matéria putreciente após um longo declínio iniciado exactamente em 1995, quando o seu chefe de momento e actual presidente da república, decidiu retirar-se do lugar que com total soberania ocupara durante uma década. O PPD ou o PSD - concedamos "generosamente" a oportunidade de situação aos seus militantes -, sempre foi palco de raivenças mais ou menos resolvidas quando do seu cíclico e previsível regresso à condução da nau do Estado. A situação que hoje se vive poderia apenas confirmar a tradição do baronatismo que nele sempre imperou, mas que no momento de sagração de um chefe por todos aceitável, conduziu à união de velhos e de novos militantes, abrindo as mais luzidas esperanças de ascensão a muitos e à conquista de um fugaz mas apetecido El Dorado na gigantesca máquina governamental.  Estamos agora perante uma situação bem diversa, porque às habituais picardias, sucederam-se safarrascadas sem quartel, onde os presidentes do partido foram imolados pelos Brutus de ocasião, tornando-se a agremiação "liberal", num sangradouro onde se torna missão arriscada o simples alvitre de um nome capaz de unificar todos os desavindos. O PSD sempre viveu do poder e foi desde o início do regime quem por  mais tempo dele se assenhorou, em governos mono-partidários ou em coligações à sua direita ou à sua esquerda. A sua missão foi apercebida pelo eleitorado como sendo a das sempre ansiadas e necessárias reformas, sem que o cidadão comum tenha jamais lobrigado o verdadeiro alcance do termo. Situacionistas por natureza, somos tentados a evitar confrontos  que descortinem um futuro incerto, mesmo que aparentemente as parcas o anunciem como promissor, daí o cuidado que todos os chefes dos dois partidos rotativos têm, em evitar a frequência de oráculos comprometedores que coloquem em risco futuros resultados eleitorais. O PSD falhou na missão reformista, quando há seis anos tudo tinha conquistado para se legitimar nesta tarefa: esmagou o PS nas autárquicas e atraiu o arredio CDS ao redil da coligação, subordinando-o aos seus desígnios. Falhou porque temeu as manchetes dos diários e as notícias de abertura dos telejornais. Falhou porque notórios militantes  foram os primeiros a marcar terreno no jogo de influências  que devendo ser simples manifestações de opinião interna, trouxeram à ribalta todas as quezílias e ódios acumulados, fazendo-se o ajuste de contas diante dos esbugalhados olhos dos eleitores de sempre. O sepuku parece não ter fim e nem a ameaça de irreversível residualização, parece demover os chamados grandes nomes do partido. Entre todos estes, figura o actual Chefe do Estado, entidade etéreamente tutelar e derradeiro - e hoje impossível - farol orientador da união da desavinda e dispersa frota laranja. O prof. Cavaco Silva sabe e tem a perfeita consciência que a manutenção do regime de 76 pressupõe um sólido e tacitamente aceite rotativismo. O rumo dado às políticas económicas ocidentais nos últimos dez anos e a emergência de novos polos de poder financeiro e industrial no globo, impelem a corrida partidária às reformas, encaradas estas como a última  - e sempre indesejada - oportunidade a uma Europa envelhecida e prisioneira do seu modelo social que poucos - nem nós - querem ver seriamente adulterado.

 O PSD perdeu a oportunidade, porque o seu eterno rival social-democrata, o PS, apreendeu a urgência e o maná oferecido, exactamente numa altura em que ele próprio se fizera desacreditar após duas maiorias absolutas conquistadas num período de relativa abastança económica mundial. O PS agarrou essa oportunidade e aproveitou-a, fazendo exactamente aquilo que no seu íntimo, o eleitorado esperara do governo PSD-CDS

A posição do Chefe de Estado é por demais típica para poder ser contestada pelos participantes no jogo do poder constituído. É o verdadeiro árbitro da situação e aquela dissolução da A.R., obtida pela directa e muito visível intervenção dos poderes fácticos - a banca -, expôs a figura presidencial de uma forma julgada por muitos como inaceitável, embora pressentida e há décadas interiorizada pelos cidadãos. O caso PRD e a rivalidade Eanes/Soares, a guerra de baixa intensidade entre Soares presidente e Cavaco primeiro-ministro, o fácies iracundo ou gelado de Sampaio durante o mandato de Barroso ou a aberta acrimónia manifestada nos tempos de Santana, são sintomas da ineficácia decorrente da hibridez do sistema semi-presidencial português, acrescendo-se ainda a pulverização em poderes subsidiários dos Supremos, etc.

O que hoje se torna visível para quem se interesse minimamente pelos negócios públicos, é a centralidade da figura presidencial, na qual os portugueses desde sempre depositaram vãs esperanças na obtenção do tal estatuto europeu que há muito nos foi esbulhado pelos avatares da história. Hoje, o presidente Cavaco é o questor maximus  do seu Partido e disso ninguém tem qualquer dúvida. Apesar de todos os desmentidos, para a generalidade dos portugueses surge como um rabdomante à procura do necessário chefe que minimamente congregue hostes ontem entregues a um hedonismo regabofista e hoje caídas no desespero motivado pela acefalia por elas mesmo propiciada pelo constante trucidar de personalidades.

O presidente olha pelos seus e isto tão só por interesse próprio, já na expectativa de um reafretamento de contingentes susceptíveis de viabilizar o segundo mandato. Na esperança de encontrar um chefe partidário capaz de capitalizar o descontentamento motivado pelas inevitáveis reformas - não se discute aqui o alcance ou a bondade das mesmas -, o presidente tem por fim último e lógico, o empossamento dos seus no cargo da governação. É a quitação dos compromissos, o saldar de contas. 

Cremos ser esta, a realidade da situação da república portuguesa, onde o aparelho do Estado no seu todo, é mero circo de exibição de façanhas de aprazados chefes que garantem os conhecidos e circunscritos interesses privados. Um verdadeiro Chefe de Estado terá que ser muito mais que um mero peão no  xadrês da pequena política nacional. A recente visita à Madeira denunciou a fragilidade do sistema, quando as normais e unanimemente aceites praxes de cortesia foram sacrificadas ao capricho de um irreflectido momento. Um caso semelhante é impossível na vizinha Espanha ou na velha aliada Inglaterra. Impossível, porque impensável, dado o universal respeito que a figura do máximo representante do Estado merece. Em Portugal, a clara identificação dos presidentes com a transumância eleitoral, traz o prejuízo irreparável da Situação, entendida esta como o edifício Constitucional que dá forma ao regime. A Democracia pode e merece mais. 

A simplicidade dos ordenamentos constitucionais ingleses ou dinamarqueses, com a presidencialização do poder do primeiro-ministro, dissipa dúvidas, concentra democraticamente o poder, racionaliza gastos e credibiliza os regimes. O Chefe do Estado não pode ser o permanente e incómodo intruso esbanjador de dotações anuais, o nosso bem conhecido participante na faena que corrói o sistema, assumindo em derradeira instância, a ingrata e escandalosa função de sacrificador-mor deste ou daquele governo.

Quando há alguns meses o general Eanes se referiu à  Monarquia Constitucional como o único regime capaz de unir as populações num projecto de liberdades e de progresso, sabia do que estava a falar. Confirmou apenas o que sempre pensámos e dissemos. O tempo o dirá.


A NATO, o Terrorismo e a Nova Ordem Mundial

(ensaio elaborado por Samuel de Paiva Pires para a cadeira de Organizações Técnicas e Científicas, leccionada ao 3.º ano da licenciatura em Relações Internacionais do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (Universidade Técnica de Lisboa), no ano lectivo de 2007/08 - também publicado em Nostrum Symposium)

A NATO, o Terrorismo e a Nova Ordem Mundial - Os Estados Unidos da América, a NATO, a Al-Qaeda, o 11 de Setembro de 2001 e o estabelecimento de uma Nova Ordem Mundial

I. Introdução

Neste breve ensaio, fruto de uma reflexão pessoal para a qual, desde já advertimos, pelo carácter algo polémico, que nos é permitido pelo facto de ser um ensaio crítico de opinião, não descritivo, partindo de determinados elementos de análise pretendemos demonstrar como a multilateral relação entre fenómenos aparentemente tão díspares como a organização terrorista Al-Quaeda, os Estados Unidos da América e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN, doravante designada pela expressão em inglês, NATO – North Atlantic Treaty Organization), estão intrinsecamente relacionados com o estabelecimento de uma Nova Ordem Mundial formulada a partir dos Ataques Terroristas de 11 de Setembro de 2001.

Outros fenómenos há, desde actores internacionais como empresas multi e transnacionais, passando por organizações como as Nações Unidas ou a União Europeia, até movimentos como a opinião pública cada vez mais transnacionalizada através dos meios de comunicação de massas, que merecem ser considerados como variáveis na análise do tema sobre o qual nos propomos debruçar brevemente, porém, para que não se perca o foco devido à circunscrita relação em análise, optámos por centrar esta reflexão nas variáveis previamente referidas.

As razões que nos compelem à realização deste ensaio prendem-se com o natural interesse que desperta o tema da Ordem Internacional, conceito esse presente de forma imemorial na Humanidade, desde que os primeiros povos, tribos, clãs, cidades-estado, nações, e Estados, se propuseram a relacionar-se, e que no caso em análise já nos têm vindo a inquietar desde há algum tempo[1].

Se a opinião vigente, à qual não somos certamente alheios até certo ponto, constata que a chamada Nova Ordem Mundial (porque deixou de ser apenas internacional, i.e., inter nationes), ainda se está a tentar definir, procuraremos demonstrar que poderá existir um outro ponto de vista analítico que vale a pena ser explorado, onde a NATO poderá ter pelo menos um papel a desempenhar em relação ao aparente estabelecimento dessa ordem, ou, em última instância, um papel fulcral adaptado às circunstâncias quanto ao que Francis Fukuyama classificou como o Fim da História, sob a ideia da alegada natural expansão das democracias liberais ao resto do mundo.

Como tal considerámos apropriado estabelecer uma estrutura dividida em três partes, a primeira dedicada a uma breve conceptualização necessária sobre o conceito de Terrorismo, a segunda reportando-se a uma contextualização do tema em análise, e a terceira prendendo-se essencialmente com a consequente argumentação quanto ao que nos propomos demonstrar posteriormente na conclusão.

II. O Conceito de Terrorismo

Sendo um dos conceitos que, porventura, tem suscitado mais controvérsia na academia, não podemos escusar-nos a tomar como referencial o património teórico desta nossa casa que é o ISCSP. Em primeiro lugar, tomamos em linha de conta a consideração do Professor Adriano Moreira quanto ao que classifica de poderes erráticos, formas de subversão da ordem instituída, reconhecendo ainda o terrorismo internacional como um actor na arena internacional[2], o que se nos afigura como extremamente útil quanto à relação que pretendemos demonstrar.

Em segundo lugar, o Professor António de Sousa Lara, deixa-nos de forma resumida na sua recentemente publicada obra “O Terrorismo e a Ideologia do Ocidente”, as mais importantes acepções quanto ao conceito de Terrorismo, nomeadamente distinguindo, em primeiro lugar, entre terrorismo indiscriminado e terrorismo selectivo:

No primeiro caso incluem-se todos os atentados e agressões que visam generalizar um dano de monta a um paciente previamente indefinido, anónimo ou indistinto. É relativamente irrelevante quem morre ou fica ferido, desde que morra ou fique ferida muita gente. No segundo caso, trata-se exactamente do contrário, ou seja, visa-se um alvo concreto, que se quer pressionar, eliminar, que se quer chantagear, fazer desaparecer de cena ou condicionar de forma definitiva, com vista a alterar o paralelograma de forças ou o circunstancialismo político de uma determinada correlação vigente[3].

Para logo de seguida nos deixar a distinção de super terrorismo, enquanto uma nova fase da avançada terrorista abrangendo meios cada vez mais poderosos e letais, designadamente de natureza biológica, química e nuclear, de concepção e execução transnacional, o que constitui, diga-se de passagem, um dos vectores principais da criação da NATO Response Force (NRF), enquanto força de intervenção altamente habilitada a actuar em teatros hostis provocados por ataques com armas biológicas, químicas e nucleares, adicionando ainda a esta categoria de super terrorismo, as acções suicidas de larga escala[4].

Fica assim tratado o fenómeno do Terrorismo, sobre o qual não nos alongaremos mais posto que está objectivamente definido no âmbito a que nos prestamos neste ensaio.

III. Contextualização

Fundada em 1949 pelo Tratado de Washington, a NATO surgiu como a expressão ideológica contrária à que naturalmente se lhe viria a opor durante o período da Guerra Fria, nomeadamente, a União Soviética e o Pacto de Varsóvia.

Até à Queda do Muro de Berlim em 1989, simbólico anúncio da consequente dissolução da União Soviética e do Pacto de Varsóvia nos anos seguintes, assistimos a um sistema internacional dominado pela lógica bipolar, que não degenerou em nenhum dos sistemas de Morton Kaplan, mas cujo fim imprevisto revelou a incapacidade de analistas e académicos em prever tal acontecimento que se processou de forma tão singular e abrupta.

Se, durante a Guerra Fria, de um lado tínhamos o chamado bloco comunista, com a União Soviética como potência directora e o Pacto de Varsóvia como organização militar exprimindo a ideologia que presidia a este pólo (ainda que enquanto na NATO o domínio dos Estados Unidos da América se fe(a)z sentir pelo soft power, no caso do Pacto de Varsóvia, vários analistas catalogaram a organização como mera forma de controlo e legitimação desse controlo sob os países satélites da órbita soviética[5]), do outro tínhamos o bloco Ocidental das democracias capitalistas liberais, liderado pelos Estados Unidos da América, em parceria com o Canadá e os tradicionais aliados da Europa Ocidental, com a devida expressão ideológica representada no campo militar pela NATO.

Esta era a ordem internacional definida de acordo com a sempre importante lógica dialéctica da oposição entre dois ou mais pólos numa balança de poderes, que presidiu desde 1648 às relações internacionais no sistema internacional dominado pelo, e derivado do, continente europeu, que sempre se mostrou avesso ao surgimento de uma potência destabilizadora dessa ordem, mas que também se revelou afoito a deixar-se cair numa monopolaridade com um vácuo de poder quanto ao tradicional equílibrio de poderes, pelo que a doutrina da Mutual Assured Destruction assentou perfeitamente no sistema internacional vigente durante a Guerra Fria, onde os parcos conflitos no terreno apenas ocorreram nas franjas desse sistema, e no qual não foram sequer permitidos conflitos de índole étnica ou religiosa como aqueles a que vimos assistindo desde o fim da Guerra Fria.

Porém, com o declínio do poderio soviético, assistiu-se desde então a uma transformação no sistema internacional (optamos pela definição de sistema internacional na acepção da Escola Inglesa de Teoria das Relações Internacionais, analisando a nível mundial a existência de um sistema internacional, composto por sub-sociedades e eventuais sub-comunidades internacionais, onde ainda assim, elementos do conceito de sociedade internacional desenvolvido por Hedley Bull e outros, poderão estar presentes no sistema internacional) onde o domínio dos assuntos relacionados com a segurança foi alargado, passando esse conceito a estar presente e a depender de sectores como o ambiente, direitos humanos, energia ou desenvolvimento sustentável.

Dessa forma se tem vindo a processar uma desmilitarização do sistema internacional, por vezes mais ténue, outras vezes até ameaçada, onde numa primeira análise a NATO seria condenada ao desaparecimento, posto que se cumpriu o seu objectivo de oposição ao Pacto de Varsóvia, entretanto dissolvido.

Fukuyama não se poderia ter enganado de forma mais assoberbada ao determinar a aparente consequente expansão das democracias liberais a todo o mundo, quando Samuel Huntington, não só contrariou essa tendência com o seu Choque de Civilizações, imensamente criticado, mas cada vez mais acertado no mundo pós-11 de Setembro de 2001, como teorizou sobre as Ondas de Democratização, estabelecendo que a cada Onda de Democratização se segue uma onda reversa onde democracias mais fracas regressam a formas não democráticas de governo[6].

A aparente falta de legitimidade quanto à existência continuada por parte da NATO, tendo em conta o aguardado efeito dominó das democracias liberais, foi rapidamente colmatada pela não verificação desse efeito, pelo surgimento de novos conflitos de índole étnica e religiosa, como nos Balcãs, e através do processo de politização interna da mesma, originando uma transformação que pretende conduzir a ainda aliança e organização regional de defesa colectiva[7] a uma aliança global de intervenção rápida em determinados desafios como crises humanitárias ou catástrofes naturais (como exemplos, a intervenção em Nova Orleães após a passagem do Furacão Katrina em Agosto de 2005, e a intervenção no Paquistão após o terramoto ocorrido em Outubro de 2005), actuando proactivamente no estabelecimento da paz e segurança, através de uma acção preventiva em relação à não proliferação de armas de destruição massiva e no combate ao terrorismo, o que pretende alcançar através de diversas ferramentas de índole política como sejam o Conselho Euro-Atlântico de Parceria, as Parcerias para a Paz, o alargamento a novos membros, o diálogo com a Rússia e Ucrânia que têm fora próprios de consulta com a NATO, o Diálogo Mediterrâneo ou a parceria estratégica com a União Europeia quanto à Política de Segurança e Defesa Europeia, a que se juntam as recentes ferramentas militares reestruturadas e criadas com as cimeiras de Praga (2002) e Istambul (2004), desde as tradicionais forças de estabelecimento e manutenção de paz, passando pela novíssima NRF, uma força de resposta rápida altamente especializada, até à elaboração de um plano conjunto de combate ao Terrorismo, no qual se inserem os países Parceiros para a Paz e os do Diálogo Mediterrâneo[8].

Porém, até chegar ao estado corrente, ocorreu um importantíssimo evento que mudaria a face do sistema internacional, o Ataque Terrorista de 11 de Setembro de 2001, novamente imprevisto, à semelhança da Queda do Muro de Berlim, que serviria como potenciador das transformações acima referidas e cuja análise prévia das suas implicações é por de mais necessária.

IV. Os Estados Unidos da América, a NATO, A Al-Qaeda, o 11 de Setembro de 2001 e o estabelecimento de uma Nova Ordem Mundial

Atentemos então nas considerações de Henry Kissinger num dos mais famosos exercícios de realismo puro em relações internacionais, a sua obra “Diplomacia”, já quanto às suas reflexões sobre o repensar da nova ordem mundial:

A tarefa da Aliança é a de adaptar as duas instituições básicas que modelam a relação atlântica, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e a União Europeia (antes Comunidade Económica Europeia), às realidades do mundo pós-guerra fria[9].

Ora de facto, como já referimos, a NATO encetou um processo de transformação interno que, porém, só viria a ser acelerado, e a trazer à organização um acrescido prestígio e importância na arena internacional, com os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, que se colocam como marco histórico da definição do terrorismo internacional enquanto pólo oposto ao dominante no sistema internacional, ocorrendo o que o Professor António de Sousa Lara considerou na obra “A Grande Mentira”:

O terrorismo, também, a que fiz suficiente alusão do enquadramento em “A Subversão do Estado”, passou a ser a forma de fazer a guerra da parte dos fracos contra os poderosos. E quando muitos analistas incautos e cientistas do imediato se apressaram a decretar o fim das ideologias e o termo da História, eis que renasce das cinzas esta forma de combate subversivo com uma expressão nunca vista, passando a constituir uma das frentes, senão a mais importante, da fase a que já se chamou de “a Terceira Guerra Mundial”. Trata-se da actualização de uma fórmula conhecida a uma situação avassaladora de “ideologia única” e de “imperialismo monopolar”.[10]

Os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001 levariam desta forma o já referido Henry Kissinger a reflectir novamente sobre a ordem mundial, rejeitando Fukuyama:

Durante toda uma década, as democracias tinham-se progressivamente tornado prisioneiras da ilusão de que as ameaças externas tinham virtualmente desaparecido, de que os perigos, se alguns havia, tinham antes de mais, origem psicológica ou sociológica e de que, de certa forma, a história, tal como fora registada até então, se transformara numa subdivisão da economia ou da psiquiatria[11].

Aceitando a tese de Huntington quanto ao Choque de Civilizações:

Simultaneamente, o desastre ensinou à América que alguns dos confortáveis pressupostos do mundo globalizado não se aplicam à porção do mundo que recorre ao terrorismo. Esse segmento parece motivado por um ódio de tal forma profundo pelos valores do Ocidente que os seus representantes se dispõem a enfrentar a morte e a infligir um grande sofrimento a inocentes na procura da destruição das nossas sociedades, em nome do que eles entendem como um choque de valores incompatíveis[12].

Denunciando a Al-Qaeda como símbolo do novo pólo de poder na dialéctica do sistema internacional, i.e., o terrorismo internacional:

(…) o secretário de Estado Colin Powell soube trazer à luz do dia uma coligação global que legitimava o uso da força militar contra o Afeganistão, o mais flagrante fornecedor de um santuário ao mais evidente símbolo do terrorismo internacional, Osama bin Laden[13].

Ainda que a eliminação de bin Laden, da sua rede e associados enquanto força unificada tenha constituído um sucesso significativo, tratou-se apenas do início de uma campanha mundial continuada[14].

Finalmente, exaltando à acção no seio da NATO:

Na medida em que estas realidades penetraram as consciências do mundo democrático, os terroristas perderam uma importante batalha logo no seu início. Na América enfrentaram um povo unido e determinado a erradicar o mal do terrorismo. No seio da Aliança Atlântica acabaram – pelo menos, durante algum tempo – com o debate sobre se ainda existia um propósito comum no mundo pós-Guerra Fria. As democracias ocidentais – pelo menos, na sua primeira reacção – aperceberam-se de que o ataque aos Estados Unidos mostrava talvez as ainda maiores vulnerabilidades das suas próprias sociedades[15].

O que é de ressalvar, tendo, em consideração a histórica evocação, pela 1.ª vez na história da NATO, do Artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte, como resposta aos ataques terroristas.

V. Conclusão

De tudo o acima exposto podemos, agora sim, inferir a conclusão quanto ao que nos propomos demonstrar.

Se durante a década de 90 do século XX os Estados Unidos da América viveram numa ilusão de monopolaridade e segurança, tentando exportar o seu modelo democrático, enquanto a NATO agiu pontualmente nos Balcãs, passando por um período de reflexão interna, seriam, ironicamente, os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001 a servir como catalisador para a necessária reestruturação dos propósitos da NATO, o que se reflecte na reestruturação da própria organização nos últimos anos.

A ordem internacional definiu-se então muito rapidamente, ao contrário do que a ajuizada e conservadora opinião da maioria diz, utilizando um poderoso símbolo do terrorismo fundamentalista islâmico sob a permanente ameaça do recurso a formas de super terrorismo, Bin Laden e a Al-Qaeda, numa lógica maquiavélica, napoleónica e bismarckiana de promoção da coesão interna através da difusão de um inimigo comum.

O Choque de Civilizações tem vindo a sair do campo do debate entre valores culturais e religiosos, entrando no campo do confronto no terreno entre terroristas (embora não sejam só os fundamentalistas islâmicos), e principalmente a NATO, que se assume cada vez mais como uma legítima instituição, porque geradora de consenso, para assumir os esforços do Ocidente e dos seus parceiros contra o terrorismo.

Desta forma os Estados Unidos da América vão mantendo o estatuto de super-potência, e em consonância com a Europa promovem a ideologia do Choque de Civilizações para justificar simultaneamente o combate ao terrorismo e a exportação do modelo das democracias liberais e da economia capitalista, assim definindo e construindo a Nova Ordem Mundial nessa lógica bipolar, que substituiu a União Soviética e o Pacto de Varsóvia pelas organizações terroristas e países apoiantes dessas.

Do lado do terrorismo, não existe um Estado ou Ideologia moralmente razoável ou legítima, enquanto do outro lado, com esta representação de um inimigo comum, a fazer lembrar a ficção orwelliana em “1984”, contra o qual todos os Estados de bem deverão agir, se consegue assim justificar a nova ordem onde a NATO tem sem dúvida um papel fulcral, porque reunindo o consenso que os Estados Unidos da América não reúnem, pode de facto transformar-se para dar resposta ao super terrorismo internacional, o que tem acontecido, como forma de definição da ordem mundial, enquanto, por outro lado, poderá agir de forma cada vez mais proactiva na difusão das ideias das democracias liberais.

É praticamente uma fórmula perfeita de onde todos saem a ganhar, o inimigo comum que está a salvo porque praticamente invisível, e porque invisível e comum todos se unem contra ele, o que justifica os esforços de manutenção, transformação e alargamento da NATO, permitindo aos Estados Unidos promover a sua política externa com base na bipolaridade entre terrorismo fundamentalista islâmico vs. Ocidente, como base para a justificação da sua missão quase “evangelizadora” do mundo.

Resta saber se é esta a verdadeira Nova Ordem Mundial há muito anunciada, ou se ainda iremos assistir a grandes alterações nos próximos tempos, o que poderá ser bem possível com o surgir de potências como a China, Rússia, Brasil e Índia.

Consideremos, por último, que a NATO constitui-se assim como um estabilizador por excelência da actual ordem mundial, enquanto definidora dessa ordem na lógica bipolar e de promoção da coesão interna, que se tem vindo a reestruturar e alargar para dar resposta aos novos desafios que se lhe apresentam, no caso, o contra-terrorismo.

Notas


[1] Ver Pires, Samuel de Paiva - “A Importância de Bin Laden para a Ordem Internacional” in http://estadosentido.blogspot.com/2008/03/da-importncia-de-bin-laden-na-ordem.html publicado em 20/03/2008.

[2] Ver Moreira, Adriano - Teoria das Relações Internacionais, 5.ª ed, Coimbra, Edições Almedina (1.ª ed., Coimbra, 1996), 2005, pp. 371-374.

[3] Ver Lara, António de Sousa - O Terrorismo e a Ideologia do Ocidente, Coimbra Edições Almedina, 2007, p. 44.

[4] Idem, Ibidem, pp. 46-47.

[5] Ver Curtis, Glenn E. – “The Warsaw Pact” (excerpted from Czechoslovakia: A Country Study). Washington, D.C.: Federal Research Division of the Library of Congress; 1992. in http://www.shsu.edu/~his_ncp/WarPact.html acedido em 13/11/2008.

[6] Ver Huntington, Samuel – “Democracy’s Third Wave” in Larry Diamond & Marc Plattner, The Global Ressurgence of Democracy. Baltimore, John Hopkins University Press, 1996.

[7] Ver Artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte in NATO Handbook, Public Diplomacy Division, Brussels, 2006, pp. 372.

[8] Ibidem.

[9] Ver Kissinger, Henry A. – Diplomacia, Lisboa: Gradiva, (1.ª edição 1994), 2.ª ed.; 2002, p. 716

[10] Ver Lara, António de Sousa – A Grande Mentira – Ensaio sobre a Ideologia e o Estado, Lisboa, Hugin, 2004, p. 97.

[11] Ver Kissinger, Henry A. – Precisará a América de Uma Política Externa?. Lisboa: Gradiva, 2002, p. 273

[12] Idem, ibidem, p. 274

[13] Idem, ibidem, p. 276

[14] Idem, ibidem, p. 277

[15] Idem, ibidem, p. 274.

Bibliografia

Kissinger, Henry A. – Diplomacia, Lisboa: Gradiva, (1.ª edição 1994), 2.ª ed.; 2002.

________________ – Precisará a América de Uma Política Externa?. Lisboa: Gradiva, 2002.

Lara, António de Sousa - O Terrorismo e a Ideologia do Ocidente, Coimbra Edições Almedina, 2007, p. 44.

___________________ – A Grande Mentira – Ensaio sobre a Ideologia e o Estado, Lisboa, Hugin, 2004.

Moreira, Adriano - Teoria das Relações Internacionais, 5.ª ed, Coimbra, Edições Almedina (1.ª ed., Coimbra, 1996), 2005.

NATO Handbook, Public Diplomacy Division, Brussels, 2006,

Webgrafia

Curtis, Glenn E. – The Warsaw Pact (excerpted from Czechoslovakia: A Country Study). Washington, D.C.: Federal Research Division of the Library of Congress; 1992; in http://www.shsu.edu/~his_ncp/WarPact.html acedido em 13/11/2008.