domingo, 20 de abril de 2008

Dias de chuva


"Será chuva, será gente?"; é mesmo chuva!
Um dia para não sair de casa, acender a lareira, ler um livro (qual há-de ser?) e ouvir uns fados de Coimbra, ou a sempre boa música que a Luísa põe no Nocturno. Ao meu lado, o gato dorme, enroscado, o sono dos justos.
Esperemos que no próximo fim-de-semana esteja um tempo que nos permita ver como tudo ficou mais bonito depois desta chuva. Afinal, está quase no fim o mês das águas mil, se bem que em Maio come a velha as cerejas ao borralho...

Corte fitas, vá a banquetes e condecore amigos! Não se meta!

Consta que o actual Venerando anda por aí - a expressão fez escola - a apontar nomes para um possível sucessor do caído chefe de um partido da oposição. É esta a independência que os republicanos tanto gabam e é por isso mesmo que somos monárquicos. Não se meta!

E agora... o Mickael Jackson búlgaro!

À terceira foi de vez: melhorou (não muito...)

sábado, 19 de abril de 2008

Pedaços do Minho


A açucena co'o pé n'água
Pode estar quarenta dias,
Eu sem ti nem uma hora,
Quanto mais annos e dias.

Amar e saber amar,
Amar e saber a quem,
Eu só amo a ti menina,
Não amo a mais ninguém.

Annel de sete pedrinhas
Foi feito na pedraria,
Eu não te posso deixar,
Parece feitiçaria.

(in «O Minho Pittoresco»)

Encontro com Trindade Coelho.

Não será esta chuva que me vai impedir de aceitar o convite da Editora Caixotim para viajar até à vila de Mogadouro, em Trás-os-Montes.
A primeira paragem , porém´será na cidade do Porto, onde o escritor estudou- " Parti, não havia remédio; e nunca me há-de esquecer aquela viagem de barco pelo Douro abaixo, uns poucos de dias, desde a foz do Sabor até ao Porto"-, e começou a escrever- " um dia pus-me a fazer um romance".
É no Mogadouro, porém, onde passa as férias escolares, que começa por escrever artigos curtos, para jornais locais, seguidos de contos, feitos a partir da tradição oral que ia buscar junto do povo.
Passamos depois a Coimbra, onde cursou Direito, tendo encontrado aí um ambiente que exacerbou o seu natural pendor literário, e, posteriormente, a Lisboa, para onde fora transferido em 1889, depois de ter exercido no Sabugal e em Portalegre o cargo de Procurador Régio.
Os seus escritos denunciam então claramente a nostalgia do seu Mogadouro - " Mas o que são os meus contos?! Não sei. Talvez saudades, e tenho a certeza de que se vivesse na minha terra não os teria feito".
É pois dentro deste espírito que, em 1891, publica aquele que seria o seu livro mais difundido: «Os Meus Amores», em que o contista mergulha na" alma do povo", e dá conta da vida pacata que se desenrola na sua terra natal- "Eram as sete. Àquela hora é que os "figuros" da terra, quase todos funcionários públicos, vinham para o largo, à fresca.(...) Nas escadas do pelourinho, sentados, outros do mesmo feitio, cavaqueavam".
Como diz a um amigo, tudo na sua escrita era emoção: " Eu escrevo do pescoço para baixo, do pescoço para cima não sei escrever".

É costume dizer-se que o ar livre abre o apetite. A mim, esta viagem deu-me vontade de conhecer a obra deste transmontano.

No nosso universo político...

...como bem diz o Miguel, no Combustões, o drama é não termos alternativa aos politiqueiros que , já há demasiados anos nos (des)governam. Chegámos até aqui conduzidos por eles e daqui não me parece que possamos sair, com os homens que temos pela frente. Tanto os dois partidos que alternam no poder se equivalem.

Será coincidência o Papa aparecer de costas nesta fotografia?

Belo sentido de humor do Oje.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Coisas realmente importantes da América

Só há uns dias fiquei a conhecer pelo Paulo Cardoso a Encyclopedia Dramatica, um clone humorístico da Wikipedia. Vale bem a pena, e irei deixar aqui alguns textos que se me afigurem como engraçados.

Para já, atentem nesta definição que tem tudo para agradar a anti-americanistas, britânicos, canadianos e homossexuais:

The United States also known as the USA (Moar like U S Gay, amirite?) The Fatass Nation, Obesity Central, Redneckistan, The Ulcered Sphincter of Asserica, Dumbfuckistan, Canada's Ass and the dumbest country in North America, began as a colony originally created by the king of England to house the British Empire's most mentally disturbed and insane pedophiles. Obesity is, in fact, America's number-one killer, as people are too dumb to realize that binging on McDonalds 12 times a day isn't good for one's health.
New York City is there, on the Atlantic Ocean side, while Los Angeles (the place where Anti-Americanism was invented) is on the Pacific Ocean side. Chicago is stuck in the middle of East Coast stupidity and West Coast homosexuality, meaning all chicagoans are both equally gay and stupid.

Many people believe North Korea, Europe, Massachusetts and California are the US's next targets as they are all violating the US's strict "don't be a fucking homo" policy.

Ou ainda nesta maravilha dedicada aos esquerdistas que odeiam o "imperialismo" norte-americano:

The United States has a tendency to free other countries from entities that may or may not actually be a problem - most recently:

* Freeing Afghanistan from Terrorists (and Opium)
* Freeing Iraq from Terrorists (and Oil)
* Freeing The Whoal World!! from Miloševič
* Freeing the UK from British pop music

On tap:

* Freeing Syria from Terrorists (and Oil)
* Freeing Iran from Terrorists (and Oil)

In the works:

* Freeing Venezuela from duly elected President Hugo Chavez, or whomever the CIA decides to install after the coup. (also Oil)
* Freeing the world from North Korea - a crafty ploy, as it was the US that brokered that missile technology to them through 3rd parties. A simple plan and a great excuse to go barging in.

America is very good at bombing the shit out of poor Middle Eastern countries that have about three rusty missiles from 30 years ago and a crate of AK-47s with which to defend themselves. Fighting a country such as North Korea, which might well have weapons of mass destruction, is a little bit riskier. As a result, America probably won't invade unless they have the support of The Coalition of The Willing (Britain, Australia.. Turkey? Other suck-ups..) and are certain China won't nuke the shit out of them in retribution, even if they wanted to.

America single-handedly defeated Fascism, Communism and Socialism!!!1!11. They're currently engaged in the long hard battle against Democracy and freedom of thought which America is subsequently causing them to lose. We should all thank the American army. Thank you American army! Because we as foreigners are humouring American pussies that think they can do everything!!

You're welcome.

Sobre a saída de Menezes e a sucessão no PSD

Não vou sequer comentar. Há muita gente a fazê-lo, na televisão, nos jornais, nas rádios, na blogosfera. Dá muito trabalho andar a especular tão prematuramente. Além do mais há trabalhos para a faculdade e ocupações mais importantes por ora. Vamos aguardar para ver o que sai deste acontecimento político que sem dúvida irá trazer alguma animação ao panorama político nacional. Até Sócrates deve andar em pulgas, posto que muito provavelmente irá conhecer o seu opositor para as legislativas de 2009, dentro de algumas semanas. Ou seja, irá imediatamente saber se terá o seu segundo mandato ameaçado ou assegurado.

Pedaços do Minho

Tornemos, amor tornemos,
Tornemos ao que era d'antes,
Seremos amantes firmes,
Seremos firmes amantes.

Eu sou sol e tu és sombra
Qual de nós será mais firme?
Eu, como o sol a adorar-te,
Tu, como a sombra a fugir-me.

Hei-de atar o junco verde
À raiz da amendoeira,
Se não lograr os teus olhos
Prefiro ficar solteira.

Ó luar da meia-noite,
Ó luar da claridade,
Ó luar que tens prendido
Toda a minha liberdade.

(in«O Minho Pittoresco»)

A luta faz-se é na tasca a beber minis pá!

Eram umas 16:30 ontem, acabados de sair da defesa da tese de mestrado de um colega no ISEG, quando nos deparámos com um daqueles espectáculos que tanto me irritava em Brasília, posto que me fazia atravessar toda a Esplanada dos Ministérios e obrigava-me a gastar dinheiro num táxi para me levar até à universidade, isto é, manifestações sindicalistas.

Eu nem sou contra manifestações, o direito à greve e à livre manifestação são elementares factores da democracia liberal ocidental, e como tal não podem ser reprimidos, sob o risco de ameaça à própria democracia (embora José Sócrates não pareça pensar o mesmo quando as manifestações são contrárias aos seus intentos e, vejam só, parece que tal personagem até é de esquerda...), mas não sou obrigado a gostar desse género de fenómeno de massas.

No entanto, e carregado do meu habitual sentido de humor sarcástico, não me podia excusar a beber um pouco do sentimento que fluía naturalmente dos manifestantes. Ainda para mais com um cachecol do Sporting ao pescoço, o que já me tinha garantido uns elogios de umas anónimas desconhecidas logo pela manhã na Baixa, armei-me em Neto, gritei "dá-lhe Falâncio" (para os que desconhecem, vejam o Vai Tudo Abaixo Tv no Youtube), e enquanto a Ana agitava uma bandeira da CGTP (muito material de campanha desperdiçado encontrava-se no chão), eu ia por ali com o punho levantado disparando alto e bom som argumentos em nome da defesa dos direitos dos trabalhadores, contra este governo pá, que isto é uma vergonha pá, e que temos que fazer outra revolução pá!

O que mais me impressionou foi a quantidade de pessoas que em vez de estar na manifestação andava por ali, uns a fumar ganzas, a maioria nas tascas, pelo que à passagem por tais estabelecimentos de lazer não pude conter o meu manifesto sorriso enquanto disparava "A luta faz-se é na tasca a beber minis pá!"

Depois dos risos de algumas pessoas que não tinham nada a ver com o que por ali se passava, da exclamação de um trolha de bandeira da CGTP em punho que gritou qualquer coisa meio disforme do género "Granda Sporting pá", cuspindo-se todo (afinal não é só gente de bem que tem o Sporting como clube do coração), e de uma senhora, aparentemente revoltada com o facto de eu envergar um tal símbolo me gritar "Oh tu tira esse cachecol", o que obviamente nem retorqui pelo simples facto de não a conhecer de lado algum para me tratar por tu, ainda bem que o carro estava por perto. Mal por mal sempre podia gravar alguma agressão com o telemóvel, mas fica para a próxima. No fundo, o que há a reter, é que a luta faz-se é na tasca a beber minis pá!

Lisboa arruinada (28) r. Rodrigo da Fonseca

Muito perto da rua Braancamp, este prédio abandonado. Ao lado, um mamarracho moderno e à sua direita, um outro belíssimo exemplar do princípio do século, praticamente vazio.

Muito mais do que um lugar-comum.

Dizer-se que o mundo se tornou um lugar muito perigoso é a maior das verdades.
Ontem, como doutras vezes, veio à baila o tema da insegurança, concretamente no que aos perigos a que estão sujeitas as crianças respeita. E então lembrei-me da despreocupação que marcou a minha infância : quando tinha dez anos, saía de casa para as aulas ainda escuro como breu, e percorria, sozinha, um quilómetro de monte, sem que encontrasse vivalma, para apanhar a camioneta que me levaria à cidade. Nunca tive medo, nem os meus pais se preocupavam, como acontece nos dias de hoje...

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Ampliem a imagem e vejam o que está escrito

Aquela gente falava demais, tão seguros de si se encontravam naquele momento. Agora que provem o contrário! Existem milhares de jornais, revistas, filmes da RTP e de televisões estrangeiras (BBC, por exemplo) que possuem um verdadeiro manancial de informação disponível.
*Este pequeno recorte pode ser visto no youtube imagens. Basta escrever o nome Rosa Coutinho.

Não percam este texto!

Pensamento

"Tem-se por inteligente aquele que consegue atingir sempre os seus objectivos, quando não é a inteligência, mas a falta de escrúpulos (todos os meios são bons) que explica tais êxitos"
João Bigotte Chorão

E a natureza junta-se a este lamento...

Duas visitas à casa de S. Miguel de Seide (2)

"Aqui está o seu Bernardino Ribeiro, o seu Bernardes, o seu António Ferreira...
É verdade- respondeu o conde-Todos amigos velhos e d'aquelles de quem se não receberam nem esperam senão bellos officios".
«Herança de Lágrimas», de Ana Plácido.

Voltei há alguns meses a casa de Camilo, mas agora marcara encontro com Ana Plácido.
Tinha adquirido, havia pouco tempo, os dois romances que publicara com o seu nome- por vezes terá recorrido a pseudónimos-, este e «Luz Cada por Ferros»- e fiquei curiosa por saber mais.
Foi assim que fiquei a saber, primeiro pela guia, depois procurando noutros lugares, tratar-se de uma senhora de razoável cultura literária, cimentada no conhecimento efectivo de autores clássicos, mas também românticos, que traduziu vários romances franceses, e manteve colaboração regular em vários jornais e revistas.
Terá, ainda, sido o braço direito de Camilo, ao prestar-lhe vários serviços na feitura dos seus livros, como a revisão dos textos. Isto para além de lhe ter emprestado os olhos, quando os do escritor começaram a ceder...

Era esta a gente que comandava e educava Portugal

Cartas, entrevistas e testemunhos do PREC e da "descolonização"

Este é apenas um curto e hilariante exemplar de um video sobrevivente do período de 74-75, em que Portugal resvalou para a condição de manicómio em autogestão, como então se dizia. Poucos videos relativos ao PREC estão à nossa disposição. Muitos terão sofrido o destino da lixeira, devido à necessidade de espaço nos arquivos da televisão e outros terão desaparecido por conveniência de muitos (tal como o arquivo da PIDE). Os filmes sobreviventes, são um precioso testemunho de um conturbado período da nossa história e demonstram claramente, as verdadeiras intenções dos senhores do momento.

Tinha apenas quinze anos e espantava-me com o baixíssimo nível exibido pelas autoridades que decidiam o nosso destino. Era a ralé mais reles! O primeiro ministro Gonçalves, criatura absolutamente inclassificável e da qual toda a Europa se ria; o Otelo e as suas quotidianas tolices de revista; as conhecidas tropelias e inépcia dos altos comissários em Angola e Moçambique; o repulsivo papel de espantosa duplicidade desempenhado pelo "marechal" Gomes; as corridas de Chaimites diante do Galeto; os patetas semi-analfabetos das coordenadoras do MFA, enfim, intérpretes de gente em tudo incapaz de gerir uma simples portaria de repartição pública, um infindável rol de excentricidades que seriam apenas risíveis se não tivessem causado a desgraça de milhões. Milhares de mortos chacinados nas ruas de Lourenço Marques e de Luanda. Milhares de soldados negros que serviram lealmente a bandeira portuguesa, fuzilados sumariamente pelo PAIGC, MPLA e FRELIMO, na Guiné, em Angola e Moçambique. Países entregues a ferozes e sanguinárias tiranias como a África jamais vira, deixando déspotas como Touré ou Idi Amin, como pálidos precursores dos caminhos abertos pela chamada "descolonização" portuguesa.

Não vou referir o problema dos refugiados do Ultramar, porque sou parte interessada. No entanto, muitos desconhecerão as humilhações suportadas por aqueles que desembarcando em Lisboa pela primeira vez nas suas vidas, depararam com uma população habilmente manipulada e pronta a encontrar novos "inimigos do povo", capazes de saciar os seus bestiais apetites por chufas, linchamentos e, claro está, de roubo. Bastava o nosso sotaque para sermos expulsos de um taxi. Foi esse o Portugal que encontrámos, a ditosa Pátria nossa amada, como na escola nos ensinaram.
Não tínhamos ilusões, porque os longos meses que se seguiram ao 25 de Abril, foram demonstrativos da natureza do novo regime implantado em Lisboa e que sob um ténue simulacro de democracia, ameaçava entregar o país a uma ditadura radical, onde até a pena de morte era reivindicada nas ruas como conquista progressista e revolucionária. Felizmente, tudo isso acabou e a ideologia que corporizou o momento, encontra-se para sempre enterrada em ignomínia. A sociedade civil e o Estado de direito venceram.

Este desabafo surge na sequência da polémica que corre pela blogoesfera e que se iniciou pelo artigo de António Barreto no Público. Os argumentos contrários à veracidade da missiva alegadamente da autoria de Rosa Coutinho, impelem os leitores desprevenidos no sentido da rejeição, devido ao mau português escrito, à crueza do projecto e - sem que alguém o tenha mencionado -, ao claríssimo indício de traição e incentivo ao crime. É esta uma verdade que a carta nos traz. Caberá aos especialistas proceder ao estudo grafológico para se comprovar a autenticidade da assinatura, mas o conteúdo programático da mesma, foi copiosamente executado de forma célere e eficaz e disso ninguém duvida. Quantos antigos combatentes estarão hoje dispostos a testemunhar ordens espúrias ditadas pelos chefes hierárquicos de 74-75? Quantos confessarão a sua passividade perante a chacina da população aterrorizada? Quantos deles estarão prontos a relatar factos até hoje convenientemente esquecidos, de participação em acções lesivas do interesse português em África? Decerto poucos, muito poucos. A retirada poderia qualificar-se de patética se não tivesse raiado a tragédia.

Os discursos das autoridades do PREC são um grande testemunho de acusação. Existem milhares de páginas impressas em jornais e revistas, com entrevistas e sonhos de grandeza pessoal. Aquela gente alçada à embriaguês do poder total, julgava tudo poder fazer ou dizer. O discurso de Vasco Gonçalves na siderurgia, nos plenários do MFA ou em comícios, as tiradas oteleiras de mão na anca e sorriso parvo à Fidel, o famoso chiclete de Lourenço ou os inacreditáveis Correias Jesuínos, Fabiões, Costas Martins, os Clementes, os Charais, os Dinis d'Almeidas e uma infinidade de nomes felizmente esquecidos e que abusivamente nos entravam em casa à hora do telejornal das oito, fizeram-nos temer o pior. Ainda hoje me parece extraordinário que entidades como o Colégio Militar ou a Academia, tenham formado como oficiais, nulidades intelectuais de tal calibre, que não lhes permitiriam a assunção de qualquer comando subalterno num exército europeu. Espantoso.

A famosa "carta de Rosa Coutinho a Agostinho Neto", inclui-se nesta colossal esteira onde rolaram cabeças, corpos e países, em suma, a vida de populações inteiras que aguardaram o destino que certos interesses lhes reservaram. A boçalidade e a crueza são apanágio de ditadores e de pretendentes a tal, categoria conseguida por Neto ou Machel e frustrada nas pessoas dos seus amigos das forças armadas portuguesas e dos cúmplices civis. A forma não estranha, assim como não é estranho o conteúdo programático, aliás um clássico perfeitamente decalcado de modelos bem conhecidos. Era a intelectualidade do momento...

A memória é curta e no plano político, poucos se lembrarão das tentativas de subverter os resultados das eleições para a Constituinte de 75, não permitindo a apresentação do MRPP (e consequente prisão de Arnaldo Matos) e do PDC ao sufrágio. Os maoístas foram o pesadelo do PC pró-soviético e eram os únicos a enfrentá-lo nas ruas e escolas, pagando caro a ousadia. O PDC amedrontava pelo simples nome exibido. Foi a primeira chapelada legal da revolução e dos seus patronos, o chamado Conselho da Revolução que após a decepção pela esmagadora derrota dos seus companheiros de viagem (12%), pretenderam a subversão dos resultados através da intimidação nas ruas, desorganização do aparelho produtivo e completo caos no Ultramar. Sabemos a quem aproveitou esse caos, a história não chegou ao fim.

As culpas e responsabilidades directas têm sido habilidosamente escamoteadas ou escondidas pelo conveniente biombo oferecido aos "pais da democracia", mas a realidade foi outra. Pais da democracia foram milhões de portugueses que nas ruas não permitiram a continuação dos desmandos que iam tornando o país numa presa fácil de um qualquer aventureiro sem escrúpulos. A democracia que hoje vivemos está seguramente muito longe do tipo de regime pretendido por uns quaisquer auto-promovidos generais Tapioca ou Alcazar. Boa ou má, foi a nossa vontade que se impôs, contra pretensos e irreversíveis destinos.
O longo processo de perseguição aos magnicidas do século XX ainda não terminou, sendo ainda hoje levados a julgamento, anciãos com mais de noventa anos de idade. Aqueles que colaboraram activa ou indirectamente na chacina de populações e que procederam a qualquer tipo de limpeza étnica, devem responder perante um Tribunal Internacional. Os crimes contra a humanidade não prescrevem. É isto que queremos tornar bem claro. Não prescrevem.

Eu hoje vou dormir assim...



E amanhã vou sair à rua com o cachecol do Sporting!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Chove...


"As tentativas do sol no céu cinzento de chuva lembram um tímido sorriso em rosto molhado de lágrimas"
João Bigotte Chorão

Duas visitas à casa de S. Miguel de Seide (1)


"A respeito do último discurso de Calisto Elói, as gazetas governamentais estamparam que a sala da representação nacional nunca tinha sido testemunha de insolências de tamanha rudeza e tão audaciosa ignorância" («A Queda dum Anjo», de Camilo Castelo Branco)

Era muito pequena ainda quando meu pai me levou a casa de Camilo. Dessa visita guardo uma memória muito esbatida, tendo-me ficado na retina aquela cadeira de baloiço, muito provavelmente porque fiquei impressionada quando o guia disse que terá sido aí que o escritor se suicidou.
Cresci ouvindo falar nele com uma grande admiração: o seu busto estava num lugar de destaque, na estante que continha a camiliana.
Quando, timidamente, e com relativa desconfiança sobre o acerto de tal veneração, me aventurei na sua obra- creio que o primeiro livro que li foi «A Brasileira de Prazins», o qual só mais tarde abarquei no seu justo valor-, confesso que não fiquei logo cativada. Foi fora do tempo.
O encantamento viria mais tarde, com «A Queda dum Anjo», seguido de »Eusébio Macário» e «A Corja»: a escrita escorreita, a riqueza do vocabulário e a fina ironia, iriam fazer com que , de quando em quando, volte a eles, nem que seja para ler um trecho ou outro...

Relembrar Orwell (5)

«Mas tornou-se igualmente claro que o aumento global da riqueza ameaçava destruir a sociedade hierárquica - e isso, num certo sentido constituía, só por si, a destruição desta. Num mundo onde toda a gente poucas horas trabalhasse, não lhe faltasse comida, vivesse em habitações com frigorífico e casa de banho e tivesse automóvel ou mesmo avião, as formas mais óbvias e talvez mais importantes de desigualdade teriam desaparecido. No dia em que a riqueza se generalizasse, ela deixaria de conferir distinção. Sem dúvida, em abstracto, seria viável uma sociedade onde a riqueza, no sentido de posse de bens e luxos, fosse equitativamente distribuída, enquanto, por seu lado, o poder continuaria nas mãos de uma pequena casta privilegiada. Mas na prática tal sociedade não poderia manter-se estável por muito tempo. De facto, se todos tivessem igual acesso ao lazer e à segurança, a grande maioria dos seres humanos, que normalmente vivem embrutecidos pela pobreza, instruir-se-iam e aprenderiam a pensar pela sua própria cabeça; a partir daí, cedo ou tarde concluiriam que a minoria privilegiada não desempenhava qualquer função, e acabariam com ela. A longo prazo a organização hierárquica da sociedade só seria viável assentando de novo na pobreza e na ignorância.»

Esta é a pièce de résistance desta curta série. Não precisa de grandes explicações. É irónico notar como autores tidos como idealistas e que servem de base a grande parte da esquerda, como Platão (não estou a dizer que Platão era de esquerda, atenção, Platão pode ser tanto de extrema-esquerda como extrema-direita), ou Rousseau, que falaram de educação das massas e igualdade entre todos, foram eles próprios os desmontadores de tais falácias, que Orwell tão bem sumariza neste trecho.

Tudo isto se apresenta tão clarividente que chega a ser absurdo como a maioria das pessoas teima em não o entender.

Relembrar Orwell (4)

«Nos grandes centros da civilização, a guerra manifesta-se pela escassez constante de bens de consumo, e pela explosão ocasional de bombas podendo causar largas dezenas de mortos.»

Isto nem precisa de muita explicação. A explosão ocasional de bombas é utilizada em guerras em nome da religião, da etnia, da raça ou da cultura, fenómeno intrinsecamente relacionado com o terrorismo enquanto forma de manter uma nova ordem mundial (como aqui mostrei).

Por outro lado, os bens de consumo constituem o elemento central do mercado mundial, entre os quais poderemos incluir desde o petróleo e matérias-primas até aos produtos finais, constituindo-se principalmente os recursos naturais como fonte primária de futuros conflitos de grande escala. A guerra económica é feita pelas multinacionais, transnacionais e Estados como forma de demonstrar o seu poderio, na lógica do enriquecimento e da conquista de poder nos diversos paralelogramas de forças de geometria variável que complexificaram as Relações Internacionais no fim do século XX, o que Keohane e Nye previram nos anos 70 com a teorização acerca da interdependência complexa, concretizada a partir da Queda do Muro de Berlim, através da desmilitarização da questão securitária, com o alargar do conceito de segurança a inúmeras outras áreas, e com a centralização do combate na lógica liberal da competição económica, onde até os alemães sabem que o actual Reich não pode ser baseado no conflito armado, ao contrário do que Kissinger tem previsto, mas sim na portentosa demonstração do seu poderio económico enquanto potência destinada a influenciar de forma determinante o sistema internacional.

Relembrar Orwell (3)

«A guerra, porém, já não é essa luta desesperada e devastadora das primeiras décadas do século XX. É um combate de objectivos limitados entre contendores sem capacidade para se destruírem uns aos outros, nem causa material para se digladiarem ou qualquer divergência ideológica genuína a separá-los.»

A incapacidade dos contendores para se aniquilarem é sem dúvida uma previsão concretizada pela coexistência pacífica baseada na doutrina da Mutual Assured Destruction, o tal pacto tácito entre EUA e URSS para manter a ordem durante a Guerra-Fria, apenas desestabilizada quando os EUA decidiram montar um sistema de defesa anti-míssil.

Porém, se durante esse conflito, a divergência ideológica era premente e reflectia-se nas organizações militares respectivas de cada bloco, Pacto de Varsóvia e NATO, certo é que a ideologia do comunismo foi diminuída ao seu indispensável, e até os chineses procuram demonstrar como é necessário o capitalismo para o desenvolvimento de uma alegada sociedade igualitária (trata-se de mais um excelente instrumento de propaganda). De tal forma, a nova ordem económica mundial baseada no liberalismo condiciona de forma determinante a superestrutura política, tal como Marx havia previsto, que os conflitos há muito deixaram de ser entre ideologias (pode-se é arguir como Huntington faz, por uma lógica de Choque de Civilizações, onde a cultura, civilização e religião são os elementos determinantes do conflito, mas isso são contas de outro rosário).

E até numa analogia doméstica em termos da Teoria das Relações Internacionais, pode-se verificar que deixaram de existir verdadeiros conflitos ideológicos no seio das sociedades democráticas liberais ocidentais. Mais ainda nos países do norte da Europa, onde a política aperfeiçoou-se de tal forma que perdeu a sua carga ideológica e passou a estar ao mais directo serviço dos cidadãos, numa lógica de funcionamento pela e para a causa pública, quase remetida ao nível da gestão e administração (talvez nem seja assim tão mau voltar à oikos como alguns julgam, quando na polis não nos conseguimos entender).

Relembrar Orwell (2)

«Desde que há documentos escritos, e provavelmente já desde o fim do Neolítico, existem no mundo três categorias de pessoas: a Alta, a Média e a Baixa. Estes grupos têm-se subdividido das mais diversas formas, foram-lhes atribuídos variados nomes, e a sua proporção numérica, bem como as atitudes recíprocas, variaram de época para época; a estrutura fundamental da sociedade, porém, nunca se modificou. Mesmo depois das maiores convulsões, das mudanças aparentemente mais irreversíveis, acabou sempre por restabelecer-se idêntico modelo (...).»

Desesperadamente pragmático, é uma constatação de uma realidade imutável ao longo dos séculos, que já Rousseau havia demonstrado (como aqui mostrei). Até os comunistas sabem que é impossível mudar isto, por mais que se considere a consciência de classe, por mais que se considere a revolução socialista na lógica evolucionista linear da sociedade, é e, profeticamente arrisco, sempre será assim. A vida em sociedade pressupõe a desigualdade. Mais do que pressupor, fomenta-a, pois essa é o seu motor de desenvolvimento e estabilidade.

Relembrar Orwell (1)

(imagem tirada daqui)

George Orwell, pseudónimo de Eric Arthur Blair, é provavelmente um dos mais famosos escritores do século XX. Pela sua experiência no conflito ideológico que foi a Guerra Civil de Espanha entre 1936 e 1939, acerca da qual escreveu cartas e relatos, mas, principalmente, pelas suas duas obras primas, o Triunfo dos Porcos (Animal Farm é o título original) e 1984. Hoje apeteceu-me relembrar uma das mais fantásticas peças de explicação da dinâmica da sociedade internacional, sob a égide realista do sistema internacional endemicamente anárquico e conflitual, resumida sob um poderosíssimo slogan:

Guerra é Paz
Liberdade é Escravidão
Ignorância é Força.

É extraordinário notar como a sua teoria do Big Brother talvez não se tenha realizado completamente, mas as suas previsões não deixam de certa forma de ser análogas ao que se vai vivendo nesta nossa terráquea Torre de Babel, de que passamos a dar conta nos posts seguintes, com uns breves trechos de 1984.

Na mouche

A opinião de Medeiros Ferreira no Correio da Manhã:

Hesitei em tratar das propostas que circulam sobre possíveis alterações ao Regulamento de Disciplina Militar (RDM). Primeiro porque estamos habituados à técnica das sondagens prévias.

Depois porque confio no bom senso político do actual ministro da Defesa. Porém há algo de escandaloso nessa possibilidade de o oficial reformado – sem armas, sem comando, sem acesso a segredos de Estado e liberto de hierarquias – não poder opinar quando lhe aprouver sobre questões militares, que o melhor é atalhar já. Seria intolerável do ponto de vista da cidadania e mesmo um empobrecimento do debate público sobre matérias tão delicadas e específicas, caso isso acontecesse.

E depois caso haja afronta, calúnia, difamação, e sei lá que mais, a República Portuguesa ainda tem os tribunais civis a funcionar. Ou só a morte liberta os militares do RDM?

terça-feira, 15 de abril de 2008

Uma questão pertinente.

Há uma pergunta que me faço muitas vezes: diziam que dantes interessava manter os portugueses na ignorância- e agora?
Essa pergunta vem-me à cabeça sempre que a "televisão pública" passa um programa de interesse geral, mas que, na prática, está interdito a muitos desses portugueses: por exemplo, de quando em quando o "Prós e Contras" tem esse interesse, mas, à hora a que é transmitido, só pode ser visto por alguns. Na zona onde vivo, e como esta haverá mais, certamente, são pouquíssimos os que o vêem, porque na manhã seguinte a maioria tem de se levantar muito cedo para começar a trabalhar às oito horas. O melhor remédio é entretê-la com uns programazinhos de refugo ...
É essa a razão principal pela qual estas pessoas só falam sobre futebol e novelas, e é aflitiva a percentagem de facadas que dão numa só frase à língua pátria: a imensa maioria não sabe sequer que a querem "reformar"...
Onde está o ópio, afinal?