quinta-feira, 17 de abril de 2008

Pensamento

"Tem-se por inteligente aquele que consegue atingir sempre os seus objectivos, quando não é a inteligência, mas a falta de escrúpulos (todos os meios são bons) que explica tais êxitos"
João Bigotte Chorão

E a natureza junta-se a este lamento...

Duas visitas à casa de S. Miguel de Seide (2)

"Aqui está o seu Bernardino Ribeiro, o seu Bernardes, o seu António Ferreira...
É verdade- respondeu o conde-Todos amigos velhos e d'aquelles de quem se não receberam nem esperam senão bellos officios".
«Herança de Lágrimas», de Ana Plácido.

Voltei há alguns meses a casa de Camilo, mas agora marcara encontro com Ana Plácido.
Tinha adquirido, havia pouco tempo, os dois romances que publicara com o seu nome- por vezes terá recorrido a pseudónimos-, este e «Luz Cada por Ferros»- e fiquei curiosa por saber mais.
Foi assim que fiquei a saber, primeiro pela guia, depois procurando noutros lugares, tratar-se de uma senhora de razoável cultura literária, cimentada no conhecimento efectivo de autores clássicos, mas também românticos, que traduziu vários romances franceses, e manteve colaboração regular em vários jornais e revistas.
Terá, ainda, sido o braço direito de Camilo, ao prestar-lhe vários serviços na feitura dos seus livros, como a revisão dos textos. Isto para além de lhe ter emprestado os olhos, quando os do escritor começaram a ceder...

Era esta a gente que comandava e educava Portugal

Cartas, entrevistas e testemunhos do PREC e da "descolonização"

Este é apenas um curto e hilariante exemplar de um video sobrevivente do período de 74-75, em que Portugal resvalou para a condição de manicómio em autogestão, como então se dizia. Poucos videos relativos ao PREC estão à nossa disposição. Muitos terão sofrido o destino da lixeira, devido à necessidade de espaço nos arquivos da televisão e outros terão desaparecido por conveniência de muitos (tal como o arquivo da PIDE). Os filmes sobreviventes, são um precioso testemunho de um conturbado período da nossa história e demonstram claramente, as verdadeiras intenções dos senhores do momento.

Tinha apenas quinze anos e espantava-me com o baixíssimo nível exibido pelas autoridades que decidiam o nosso destino. Era a ralé mais reles! O primeiro ministro Gonçalves, criatura absolutamente inclassificável e da qual toda a Europa se ria; o Otelo e as suas quotidianas tolices de revista; as conhecidas tropelias e inépcia dos altos comissários em Angola e Moçambique; o repulsivo papel de espantosa duplicidade desempenhado pelo "marechal" Gomes; as corridas de Chaimites diante do Galeto; os patetas semi-analfabetos das coordenadoras do MFA, enfim, intérpretes de gente em tudo incapaz de gerir uma simples portaria de repartição pública, um infindável rol de excentricidades que seriam apenas risíveis se não tivessem causado a desgraça de milhões. Milhares de mortos chacinados nas ruas de Lourenço Marques e de Luanda. Milhares de soldados negros que serviram lealmente a bandeira portuguesa, fuzilados sumariamente pelo PAIGC, MPLA e FRELIMO, na Guiné, em Angola e Moçambique. Países entregues a ferozes e sanguinárias tiranias como a África jamais vira, deixando déspotas como Touré ou Idi Amin, como pálidos precursores dos caminhos abertos pela chamada "descolonização" portuguesa.

Não vou referir o problema dos refugiados do Ultramar, porque sou parte interessada. No entanto, muitos desconhecerão as humilhações suportadas por aqueles que desembarcando em Lisboa pela primeira vez nas suas vidas, depararam com uma população habilmente manipulada e pronta a encontrar novos "inimigos do povo", capazes de saciar os seus bestiais apetites por chufas, linchamentos e, claro está, de roubo. Bastava o nosso sotaque para sermos expulsos de um taxi. Foi esse o Portugal que encontrámos, a ditosa Pátria nossa amada, como na escola nos ensinaram.
Não tínhamos ilusões, porque os longos meses que se seguiram ao 25 de Abril, foram demonstrativos da natureza do novo regime implantado em Lisboa e que sob um ténue simulacro de democracia, ameaçava entregar o país a uma ditadura radical, onde até a pena de morte era reivindicada nas ruas como conquista progressista e revolucionária. Felizmente, tudo isso acabou e a ideologia que corporizou o momento, encontra-se para sempre enterrada em ignomínia. A sociedade civil e o Estado de direito venceram.

Este desabafo surge na sequência da polémica que corre pela blogoesfera e que se iniciou pelo artigo de António Barreto no Público. Os argumentos contrários à veracidade da missiva alegadamente da autoria de Rosa Coutinho, impelem os leitores desprevenidos no sentido da rejeição, devido ao mau português escrito, à crueza do projecto e - sem que alguém o tenha mencionado -, ao claríssimo indício de traição e incentivo ao crime. É esta uma verdade que a carta nos traz. Caberá aos especialistas proceder ao estudo grafológico para se comprovar a autenticidade da assinatura, mas o conteúdo programático da mesma, foi copiosamente executado de forma célere e eficaz e disso ninguém duvida. Quantos antigos combatentes estarão hoje dispostos a testemunhar ordens espúrias ditadas pelos chefes hierárquicos de 74-75? Quantos confessarão a sua passividade perante a chacina da população aterrorizada? Quantos deles estarão prontos a relatar factos até hoje convenientemente esquecidos, de participação em acções lesivas do interesse português em África? Decerto poucos, muito poucos. A retirada poderia qualificar-se de patética se não tivesse raiado a tragédia.

Os discursos das autoridades do PREC são um grande testemunho de acusação. Existem milhares de páginas impressas em jornais e revistas, com entrevistas e sonhos de grandeza pessoal. Aquela gente alçada à embriaguês do poder total, julgava tudo poder fazer ou dizer. O discurso de Vasco Gonçalves na siderurgia, nos plenários do MFA ou em comícios, as tiradas oteleiras de mão na anca e sorriso parvo à Fidel, o famoso chiclete de Lourenço ou os inacreditáveis Correias Jesuínos, Fabiões, Costas Martins, os Clementes, os Charais, os Dinis d'Almeidas e uma infinidade de nomes felizmente esquecidos e que abusivamente nos entravam em casa à hora do telejornal das oito, fizeram-nos temer o pior. Ainda hoje me parece extraordinário que entidades como o Colégio Militar ou a Academia, tenham formado como oficiais, nulidades intelectuais de tal calibre, que não lhes permitiriam a assunção de qualquer comando subalterno num exército europeu. Espantoso.

A famosa "carta de Rosa Coutinho a Agostinho Neto", inclui-se nesta colossal esteira onde rolaram cabeças, corpos e países, em suma, a vida de populações inteiras que aguardaram o destino que certos interesses lhes reservaram. A boçalidade e a crueza são apanágio de ditadores e de pretendentes a tal, categoria conseguida por Neto ou Machel e frustrada nas pessoas dos seus amigos das forças armadas portuguesas e dos cúmplices civis. A forma não estranha, assim como não é estranho o conteúdo programático, aliás um clássico perfeitamente decalcado de modelos bem conhecidos. Era a intelectualidade do momento...

A memória é curta e no plano político, poucos se lembrarão das tentativas de subverter os resultados das eleições para a Constituinte de 75, não permitindo a apresentação do MRPP (e consequente prisão de Arnaldo Matos) e do PDC ao sufrágio. Os maoístas foram o pesadelo do PC pró-soviético e eram os únicos a enfrentá-lo nas ruas e escolas, pagando caro a ousadia. O PDC amedrontava pelo simples nome exibido. Foi a primeira chapelada legal da revolução e dos seus patronos, o chamado Conselho da Revolução que após a decepção pela esmagadora derrota dos seus companheiros de viagem (12%), pretenderam a subversão dos resultados através da intimidação nas ruas, desorganização do aparelho produtivo e completo caos no Ultramar. Sabemos a quem aproveitou esse caos, a história não chegou ao fim.

As culpas e responsabilidades directas têm sido habilidosamente escamoteadas ou escondidas pelo conveniente biombo oferecido aos "pais da democracia", mas a realidade foi outra. Pais da democracia foram milhões de portugueses que nas ruas não permitiram a continuação dos desmandos que iam tornando o país numa presa fácil de um qualquer aventureiro sem escrúpulos. A democracia que hoje vivemos está seguramente muito longe do tipo de regime pretendido por uns quaisquer auto-promovidos generais Tapioca ou Alcazar. Boa ou má, foi a nossa vontade que se impôs, contra pretensos e irreversíveis destinos.
O longo processo de perseguição aos magnicidas do século XX ainda não terminou, sendo ainda hoje levados a julgamento, anciãos com mais de noventa anos de idade. Aqueles que colaboraram activa ou indirectamente na chacina de populações e que procederam a qualquer tipo de limpeza étnica, devem responder perante um Tribunal Internacional. Os crimes contra a humanidade não prescrevem. É isto que queremos tornar bem claro. Não prescrevem.

Eu hoje vou dormir assim...



E amanhã vou sair à rua com o cachecol do Sporting!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Chove...


"As tentativas do sol no céu cinzento de chuva lembram um tímido sorriso em rosto molhado de lágrimas"
João Bigotte Chorão

Duas visitas à casa de S. Miguel de Seide (1)


"A respeito do último discurso de Calisto Elói, as gazetas governamentais estamparam que a sala da representação nacional nunca tinha sido testemunha de insolências de tamanha rudeza e tão audaciosa ignorância" («A Queda dum Anjo», de Camilo Castelo Branco)

Era muito pequena ainda quando meu pai me levou a casa de Camilo. Dessa visita guardo uma memória muito esbatida, tendo-me ficado na retina aquela cadeira de baloiço, muito provavelmente porque fiquei impressionada quando o guia disse que terá sido aí que o escritor se suicidou.
Cresci ouvindo falar nele com uma grande admiração: o seu busto estava num lugar de destaque, na estante que continha a camiliana.
Quando, timidamente, e com relativa desconfiança sobre o acerto de tal veneração, me aventurei na sua obra- creio que o primeiro livro que li foi «A Brasileira de Prazins», o qual só mais tarde abarquei no seu justo valor-, confesso que não fiquei logo cativada. Foi fora do tempo.
O encantamento viria mais tarde, com «A Queda dum Anjo», seguido de »Eusébio Macário» e «A Corja»: a escrita escorreita, a riqueza do vocabulário e a fina ironia, iriam fazer com que , de quando em quando, volte a eles, nem que seja para ler um trecho ou outro...

Relembrar Orwell (5)

«Mas tornou-se igualmente claro que o aumento global da riqueza ameaçava destruir a sociedade hierárquica - e isso, num certo sentido constituía, só por si, a destruição desta. Num mundo onde toda a gente poucas horas trabalhasse, não lhe faltasse comida, vivesse em habitações com frigorífico e casa de banho e tivesse automóvel ou mesmo avião, as formas mais óbvias e talvez mais importantes de desigualdade teriam desaparecido. No dia em que a riqueza se generalizasse, ela deixaria de conferir distinção. Sem dúvida, em abstracto, seria viável uma sociedade onde a riqueza, no sentido de posse de bens e luxos, fosse equitativamente distribuída, enquanto, por seu lado, o poder continuaria nas mãos de uma pequena casta privilegiada. Mas na prática tal sociedade não poderia manter-se estável por muito tempo. De facto, se todos tivessem igual acesso ao lazer e à segurança, a grande maioria dos seres humanos, que normalmente vivem embrutecidos pela pobreza, instruir-se-iam e aprenderiam a pensar pela sua própria cabeça; a partir daí, cedo ou tarde concluiriam que a minoria privilegiada não desempenhava qualquer função, e acabariam com ela. A longo prazo a organização hierárquica da sociedade só seria viável assentando de novo na pobreza e na ignorância.»

Esta é a pièce de résistance desta curta série. Não precisa de grandes explicações. É irónico notar como autores tidos como idealistas e que servem de base a grande parte da esquerda, como Platão (não estou a dizer que Platão era de esquerda, atenção, Platão pode ser tanto de extrema-esquerda como extrema-direita), ou Rousseau, que falaram de educação das massas e igualdade entre todos, foram eles próprios os desmontadores de tais falácias, que Orwell tão bem sumariza neste trecho.

Tudo isto se apresenta tão clarividente que chega a ser absurdo como a maioria das pessoas teima em não o entender.

Relembrar Orwell (4)

«Nos grandes centros da civilização, a guerra manifesta-se pela escassez constante de bens de consumo, e pela explosão ocasional de bombas podendo causar largas dezenas de mortos.»

Isto nem precisa de muita explicação. A explosão ocasional de bombas é utilizada em guerras em nome da religião, da etnia, da raça ou da cultura, fenómeno intrinsecamente relacionado com o terrorismo enquanto forma de manter uma nova ordem mundial (como aqui mostrei).

Por outro lado, os bens de consumo constituem o elemento central do mercado mundial, entre os quais poderemos incluir desde o petróleo e matérias-primas até aos produtos finais, constituindo-se principalmente os recursos naturais como fonte primária de futuros conflitos de grande escala. A guerra económica é feita pelas multinacionais, transnacionais e Estados como forma de demonstrar o seu poderio, na lógica do enriquecimento e da conquista de poder nos diversos paralelogramas de forças de geometria variável que complexificaram as Relações Internacionais no fim do século XX, o que Keohane e Nye previram nos anos 70 com a teorização acerca da interdependência complexa, concretizada a partir da Queda do Muro de Berlim, através da desmilitarização da questão securitária, com o alargar do conceito de segurança a inúmeras outras áreas, e com a centralização do combate na lógica liberal da competição económica, onde até os alemães sabem que o actual Reich não pode ser baseado no conflito armado, ao contrário do que Kissinger tem previsto, mas sim na portentosa demonstração do seu poderio económico enquanto potência destinada a influenciar de forma determinante o sistema internacional.

Relembrar Orwell (3)

«A guerra, porém, já não é essa luta desesperada e devastadora das primeiras décadas do século XX. É um combate de objectivos limitados entre contendores sem capacidade para se destruírem uns aos outros, nem causa material para se digladiarem ou qualquer divergência ideológica genuína a separá-los.»

A incapacidade dos contendores para se aniquilarem é sem dúvida uma previsão concretizada pela coexistência pacífica baseada na doutrina da Mutual Assured Destruction, o tal pacto tácito entre EUA e URSS para manter a ordem durante a Guerra-Fria, apenas desestabilizada quando os EUA decidiram montar um sistema de defesa anti-míssil.

Porém, se durante esse conflito, a divergência ideológica era premente e reflectia-se nas organizações militares respectivas de cada bloco, Pacto de Varsóvia e NATO, certo é que a ideologia do comunismo foi diminuída ao seu indispensável, e até os chineses procuram demonstrar como é necessário o capitalismo para o desenvolvimento de uma alegada sociedade igualitária (trata-se de mais um excelente instrumento de propaganda). De tal forma, a nova ordem económica mundial baseada no liberalismo condiciona de forma determinante a superestrutura política, tal como Marx havia previsto, que os conflitos há muito deixaram de ser entre ideologias (pode-se é arguir como Huntington faz, por uma lógica de Choque de Civilizações, onde a cultura, civilização e religião são os elementos determinantes do conflito, mas isso são contas de outro rosário).

E até numa analogia doméstica em termos da Teoria das Relações Internacionais, pode-se verificar que deixaram de existir verdadeiros conflitos ideológicos no seio das sociedades democráticas liberais ocidentais. Mais ainda nos países do norte da Europa, onde a política aperfeiçoou-se de tal forma que perdeu a sua carga ideológica e passou a estar ao mais directo serviço dos cidadãos, numa lógica de funcionamento pela e para a causa pública, quase remetida ao nível da gestão e administração (talvez nem seja assim tão mau voltar à oikos como alguns julgam, quando na polis não nos conseguimos entender).

Relembrar Orwell (2)

«Desde que há documentos escritos, e provavelmente já desde o fim do Neolítico, existem no mundo três categorias de pessoas: a Alta, a Média e a Baixa. Estes grupos têm-se subdividido das mais diversas formas, foram-lhes atribuídos variados nomes, e a sua proporção numérica, bem como as atitudes recíprocas, variaram de época para época; a estrutura fundamental da sociedade, porém, nunca se modificou. Mesmo depois das maiores convulsões, das mudanças aparentemente mais irreversíveis, acabou sempre por restabelecer-se idêntico modelo (...).»

Desesperadamente pragmático, é uma constatação de uma realidade imutável ao longo dos séculos, que já Rousseau havia demonstrado (como aqui mostrei). Até os comunistas sabem que é impossível mudar isto, por mais que se considere a consciência de classe, por mais que se considere a revolução socialista na lógica evolucionista linear da sociedade, é e, profeticamente arrisco, sempre será assim. A vida em sociedade pressupõe a desigualdade. Mais do que pressupor, fomenta-a, pois essa é o seu motor de desenvolvimento e estabilidade.

Relembrar Orwell (1)

(imagem tirada daqui)

George Orwell, pseudónimo de Eric Arthur Blair, é provavelmente um dos mais famosos escritores do século XX. Pela sua experiência no conflito ideológico que foi a Guerra Civil de Espanha entre 1936 e 1939, acerca da qual escreveu cartas e relatos, mas, principalmente, pelas suas duas obras primas, o Triunfo dos Porcos (Animal Farm é o título original) e 1984. Hoje apeteceu-me relembrar uma das mais fantásticas peças de explicação da dinâmica da sociedade internacional, sob a égide realista do sistema internacional endemicamente anárquico e conflitual, resumida sob um poderosíssimo slogan:

Guerra é Paz
Liberdade é Escravidão
Ignorância é Força.

É extraordinário notar como a sua teoria do Big Brother talvez não se tenha realizado completamente, mas as suas previsões não deixam de certa forma de ser análogas ao que se vai vivendo nesta nossa terráquea Torre de Babel, de que passamos a dar conta nos posts seguintes, com uns breves trechos de 1984.

Na mouche

A opinião de Medeiros Ferreira no Correio da Manhã:

Hesitei em tratar das propostas que circulam sobre possíveis alterações ao Regulamento de Disciplina Militar (RDM). Primeiro porque estamos habituados à técnica das sondagens prévias.

Depois porque confio no bom senso político do actual ministro da Defesa. Porém há algo de escandaloso nessa possibilidade de o oficial reformado – sem armas, sem comando, sem acesso a segredos de Estado e liberto de hierarquias – não poder opinar quando lhe aprouver sobre questões militares, que o melhor é atalhar já. Seria intolerável do ponto de vista da cidadania e mesmo um empobrecimento do debate público sobre matérias tão delicadas e específicas, caso isso acontecesse.

E depois caso haja afronta, calúnia, difamação, e sei lá que mais, a República Portuguesa ainda tem os tribunais civis a funcionar. Ou só a morte liberta os militares do RDM?

terça-feira, 15 de abril de 2008

Uma questão pertinente.

Há uma pergunta que me faço muitas vezes: diziam que dantes interessava manter os portugueses na ignorância- e agora?
Essa pergunta vem-me à cabeça sempre que a "televisão pública" passa um programa de interesse geral, mas que, na prática, está interdito a muitos desses portugueses: por exemplo, de quando em quando o "Prós e Contras" tem esse interesse, mas, à hora a que é transmitido, só pode ser visto por alguns. Na zona onde vivo, e como esta haverá mais, certamente, são pouquíssimos os que o vêem, porque na manhã seguinte a maioria tem de se levantar muito cedo para começar a trabalhar às oito horas. O melhor remédio é entretê-la com uns programazinhos de refugo ...
É essa a razão principal pela qual estas pessoas só falam sobre futebol e novelas, e é aflitiva a percentagem de facadas que dão numa só frase à língua pátria: a imensa maioria não sabe sequer que a querem "reformar"...
Onde está o ópio, afinal?

Pedaços do Minho


Dizes que me queres bem,
Que me adoras no teu peito,
Quem quer bem, não faz assim,
Quem ama tem outro geito.

Dizes que me queres muito,
Tudo isso considero,
Mas dos dentes para fora
Quem quer diz, eu bem te quero.

Dizes que me queres muito,
Que me tens muito amor,
O mundo vive de enganos,
Quem me dás por fiador?

Dizes que me queres muito,
Ignoro o teu querer,
Tu falas quando me encontras,
Não passeias por me ver.

Dizes que me queres muito,
Não entendo o teu querer,
O dizer «quero-te bem»
Qualquer o pode dizer.

(in«O Minho Pittoresco»)

O que a esquerda devia meter na cabeça...

... antes de debitar barbaridades como se vêem por aí, culpando o liberalismo (que não existe verdadeiramente em Portugal), pela crise económico-financeira portuguesa (para não falar da mundial que se avizinha), via Blasfémias:

A maior parte do sector privado lusitano só quer e, se calhar, só pode subsistir associado à tutela estatal e não tem pejo em subordinar-se aos operadores puramente políticos, abandonando a evolução de culturas de empresas inovadoras desenvolvidas por gestores profissionais que pusessem, finalmente, o mercado a funcionar em Portugal. No curto prazo, este hesitante sector privado nascido dos cravos de Abril parece ver mais ganhos incorporando governos em si próprio do que emancipando-se de tutelas constrangedoras.(Mário Crespo in Jornal de Notícias)

E já agora ler a resposta pragmática de LR no Blasfémias:

A atitude habitual nestes casos é diabolizar os políticos, as empresas e os empresários, o que nos confere um muito aceitável estatuto de puristas guardiões de nobres valores como o do pudor. Todos se esquecem porém de três premissas fundamentais, a saber:

* Os agentes económicos reagem adequada e racionalmente a incentivos, sob pena de comprometerem a sua actividade;
* É ao Estado ou a entidades por ele dominadas a quem cabe a (i)rresponsabilidade pela atribuição dos (maus) incentivos;
* A carne é fraca e este mundo está infestado de pecadores.

O implícito “É assim!” do Jorge Coelho traduz, no fundo, a clarividência de quem conhece muitíssimo bem o sistema vigente - ou não se tratasse de um dos seus principais “arquitectos” - e sabe aproveitar em benefício próprio os incentivos que aquele disponibiliza. Recusasse ele o convite, haveria por certo muitos outros “apparatchiks” em fila disponíveis para a função.

O Estado Sentido pelos seus leitores

A nossa cara amiga Luísa deixou-nos um assertivo e mordaz comentário acerca da falta de humor da esquerda:

Meu caro Samuel, a esquerda não tem sentido de humor porque precisa de contrabalançar o «humor» que têm as suas causas. :-)

Touché!

Revolta dos Generais

Pelo blog do Professor Maltez fomos dar com uma notícia que dá conta da forma como o governo pretende silenciar os militares, no caso, generais reformados, quanto às duras críticas que têm tecido contra o estado da nação:

Acordo ortográfico?

Acabo de assistir, na televisão, à discussão das vantagens e desvantagens da projectada reforma da Língua Portuguesa.
Admiradora que sou da Literatura Brasileira- li desde José Mauro de Vasconcelos até Machado de Assis-, sou frontalmente contrária à sua entrada em vigor ( faltam ainda vários países ratificá-la, como por exemplo Moçambique e Angola), antes do mais porque, como disse o Linguista e Filólogo Professor António Emiliano, não há um único argumento linguístico-científico a favor de tal acordo.
Tal como está, a Língua Portuguesa é falada e escrita por duzentos milhões de pessoas, sem que
haja quaisquer problemas de comunicação, e, pelo contrário, as variantes que existem dentro dela só a enriquecem- todos nós nos entendemos na sua diversidade...

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Pedaços do Minho


Não canto por bem cantar
Nem por ser a cantadeira,
Canto para fazer raiva
Àquella namoradeira.

Mal te vi, amei-te logo,
O meu peito deu rebate,
Fôra duro o coração
Para ver-te e não amar-te.

Tenho terra na algibeira,
Agua fechada na mão,
Para plantar uma rosa
Dentro do teu coração.

Hei-de amar-te tantos annos
Como folhas tem o vime,
Tu julgas que te sou falsa,
Cada vez te sou mais firme.

(in «O Minho Pittoresco»)

Machado de Assis

"Que, no alto do principal de seus livros, confessasse Stendhal havê-lo escrito para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal..."

Inicia assim o primeiro livro que li de Machado de Assis: «Memórias Póstumas de Brás Cubas»; o outro foi «Quincas Borba», e o Paulo Cunha Porto já me aconselhou vivamente a leitura do «Memorial de Aires».
Sobre o escritor brasileiro escreveu José Osório de Oliveira: " Foi um autodidacta, que se formou na Biblioteca do Gabinete Português de Leitura(...), viveu sempre longe dos grandes centros de civilização literária, prodigalizou-se em colaborações jornalísticas, e, já na fase de maturidade, passou a ser, e ainda hoje é, o mais original escritor do seu país. tendo a sua obra sido marcada pela quase ferina análise da alma humana."
Autor de vários títulos, universalmente reconhecidos, como atestam as numerosas traduções das suas obras mais representativas, " por dois factos- além daquele, primordial, que é a pureza da linguagem-, está Machado de Assis indissoluvelmente ligado à literatura portuguesa: a influência que sofreu de Garrett, do qual colheu a lição de sobriedade, clareza e ática elegância, e a que, como crítico, exerceu sobre Eça de Queirós, pois que, moralista e com uma, embora contida, concepção dramática da vida, ao analisar «O Crime de Padre Amaro», apontou-lhe como grande defeito, o facto de parecer comprazer-se na pintura de um caso de amoralidade". Esta opinião terá calado fundo no espírito do escritor português, como resulta da sua obra posterior.

Já há uns dias que ando a dizer o mesmo a alguns amigos

Já há alguns dias que ando a dizer que a esquerda em geral não tem sentido de humor, principalmente em determinados círculos, mesmo a nível de estudantes e colegas que parecem não entender as piadas que mando para o ar, e o Henrique Raposo sintetiza-o bem:

A Esquerda continua igual. Mudou de cor - deixou o vermelho e abraçou o verde – mas continua igual: não admite a sátira; não aceita a ironia lançada sobre as suas causas. A “causa” ambiental é sagrada e não admite o gozo (e os ursos polares são o novo proletariado que importa defender).

A esquerda mudou de cor, mas continua igual: incapaz de rir; sem capacidade de encaixe. O riso, naquelas bandas, continua a ser reaccionário.

E já agora, não pensem em pegar pelo ambientalismo contra a minha pessoa, como parece que têm feito com o Henrique Raposo, é que eu trabalhei e ainda colaboro pontualmente com uma das mais conhecidas ONG's de Ambiente em Portugal e na Europa, e apenas utilizei esta citação para ilustrar o que pretendo dizer, que a esquerda em geral não tem sentido de humor, especialmente em Portugal, onde ainda há dias Herman José no programa da RTP1 "O Corredor do Poder" dizia que os políticos têm de ser mais imprevisíveis e ter mais sentido de humor como acontece por exemplo no Reino Unido (arrisco até a dizer em Itália, atire uma pedra o primeiro que não ache piada às tiradas de Berlusconi), ao que Ana Drago reagiu logo com uma carantonha dizendo que não se estão a candidatar a comediantes ou coisa do género, que tratam de coisas muito sérias que não se podem levar a brincar. De resto, é uma reacção típica que vejo em muitos colegas todos os dias quando mando para o ar bocas à fascista ou absolutista, sem sequer me conhecerem e sem saberem que advogo a democracia, o liberalismo e a descentralização do poder político através do federalismo e da difusão dos checks and balances.

Não é pelas reacções que vou deixar de o fazer, ainda para mais gosto de picar as pessoas. Saiam dos dogmas que vos prendem a este terráqueo mundo, esses padrões socialmente impostos de cima para baixo que defendem como se fosse o último resquício de moralidade na Terra. É a colocar em causa os dogmas e padrões da sociedade que podemos conhecê-los e progredir. Ainda me lembro de um certo professor que numa aula dizia que temos de colocar em causa os padrões até chegar a gozar com esses.

Resumindo, a esquerda não tem sentido de humor. É uma chatice, tira à política grande parte da piada que poderia ter em Portugal.

Tomar Partido muda de poiso

O Jorge Ferreira mudou de poiso, encontra-se agora nos blogs do Sapo.

domingo, 13 de abril de 2008

Pedaços do Minho

"O gosto que a salsa tem
Têm meus olhos em te ver,
Trago-te no centro d'alma,
Não me podes esquecer.

Fui à fonte de três bicas,
Bebi, tornei a beber,
Nem minha boca se enfada
Nem meus olhos de te ver.

Não te esqueças de trazer-me
Dentro do teu coração,
Considera um só momento
A nossa separação.

(in «O Minho Pittoresco»)

África em 1974-75: para quando a Verdade, Reconciliação e Justiça?


O jornal Público deste domingo inclui nas suas últimas páginas, um extraordinário artigo assinado por António Barreto. O tema é um tabu de três décadas e remete-nos para o desastroso e conturbado biénio de 1974-75, quando numa apressada, vergonhosa e sob todos os pontos de vista imoral fuga, as autoridades portuguesas então no poder em Lisboa abandonaram o Ultramar. Uma debandada decidida como necessidade imperiosa e razão de ser de um hipotético regime democrático a instaurar em Portugal. Não importa hoje o desfiar de queixas, a apresentação de casos pessoais que afectaram milhões, os roubos, as tropelias e ilegalidades cometidas pelos representantes do Estado português, ansiosos por acompanhar obedientemente as directivas emanadas por aqueles que tendo sido oposição ao Estado Novo, vieram com a queda do regime, liquidar a presença portuguesa em África. Este colapso beneficiou os interesses imediatos de potências estrangeiras e conquistou para certos sectores, uma desmesurada influência interna nos negócios e na estrutura erguida pelos novos detentores do poder em Portugal, situação esta que chegou aos nossos dias.

A documentação que comprove os conhecidos delitos parece ser escassa, embora quem tenha vivido o drama da chamada "descolonização" terá para sempre presente a realidade da violência e do livre arbítrio dos senhores do momento, impiedosos carrascos dos seus próprios compatriotas. Não se pretende um ajuste de contas meramente contabilístico. A grandeza de uma história secular, não cede perante reivindicações de uma casa, propriedade agrícola ou conta bancária. Aquele património que importa conservar é o dos Direitos do Homem, da memória da nação e o da honra esbulhada.

A assunção do processo da "descolonização" pelos seus responsáveis mais directos, sempre foi orgulhosamente apresentada como glorioso feito, enquanto centenas de milhar foram esquecidos e deliberadamente imolados no altar do interesse de uma pretensa e hoje justamente considerada ridícula revolução. A inépcia, cobardia, e pusilanimidade dos sectores militares a quem imputamos a situação criada, aliadas à cobiça e à luta pelo poder entre os políticos recém chegados à nova situação, ocasionaram um drama sem paralelo na nossa história.

O artigo de António Barreto cita nomes de conhecidas figuras daquele tempo e alega a existência de importantíssimas provas documentais. Chegou o momento dos portugueses conhecerem a verdade que é guardada pelos refugiados que chegaram à Portela naqueles anos de medo e de miséria.

Na África do Sul existe uma comissão para o apuramento da Verdade e a promoção da Reconciliação e da Justiça. A Verdade da "descolonização" é bem conhecida, embora calada pelos seus mais directos beneficiários. A Reconciliação está feita, conhecendo-se bem o carácter altaneiro das gentes que orgulhosamente não renegando o passado, souberam estender as mãos aos carrascos que lhes destroçaram as famílias e os privaram dos bens. Falta a Justiça. Aos crimes perpetrados pela soldadesca portuguesa e dos movimentos guerrilheiros, somam-se aqueles que premeditados e autorizados pelos mais altos responsáveis do poder, carecem de punição exemplar. O Tribunal Internacional de Haia que julga os crimes de limpeza étnica cometidos na Bósnia, alerta o mundo para as consequências que recaem sobre os mandantes e autores morais, julgados tão responsáveis como os simples executores. Chegou a altura do ajuste de contas. Quem consultar os jornais delirantemente publicados durante os anos de 1974, 75 e 76, encontrará sobejas provas de delito e de reivindicação dos crimes. Precisaremos de um Baltazar Garzón?

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*Um texto de António José Saraiva (5-5-1976)
"Diz-se e escreve-se que os retornados eram exploradores, brutais, ávidos de lucros, criminosos de delito comum, culpados de si mesmo..."Então esses que apontam os crimes dos retornados, que fizeram vidas inteiras senão aproveitarem-se dos ditos crimes?Como foi possível a vida parasitária da maior parte da população portuguesa durante séculos, senão à custa do negro, accionado pelo colonizador?Donde vinha o café e o açúcar que se consomia e consome abundantemente nas pastelarias de Lisboa?Donde vinha o algodão barato que permitia a tantos operários e patrões sustentarem-se de fabriquetas primitivas?Donde vinham as toneladas de ouro que faziam do escudo uma moeda forte, permitindo, com uma indústria deficiente e uma agricultura rudimentar, sustentar legiões de funcionários improdutivos?Pois é!Os "retornados" chegam numa altura em que "eles" precisam de uma desculpa para o maior fracasso da História e de um objectivo para cevar a nossa frustração irremediavel.
"Eles" gritam e bradam que: "o povo é quem mais ordena!"
Que povo?

Ainda a respeito da cena do telemóvel no Carolina Michaellis

Freire de Andrade deixa-nos um ponto de vista à la Fernando Pessa:

O aluno que filmou a cena no seu telemóvel pode ter cometido faltas graves ao fazê-lo: 1) Falta de disciplina, partindo do pressuposto de que essa filmagem era proibida na sala de aula com a aula a decorrer, embora de um modo sui generis; 2) Falta de respeito pela privacidade dos intervenientes, já que filmou uma cena num local não público e sem a autorização da professora e da aluna, nem dos restantes colegas que aparecem mais fugitivamente; 3) Falta de delicadeza, pelas expressões que dirigiu aos colegas e pela maneira como tratou a professora por "a velha".
Mas o que é certo é que os meios de comunicação usaram e abusaram do seu trabalho para divulgar o caso e atrair audiências e as instâncias disciplinares o utilizarão, suponho, como meio de prova.
Portanto, apesar das faltas pelas quais poderá e deverá ter a devida punição, cabe-lhe a autoria de um filme que se tornou num best-seller e é justo que tenha a devida recompensa, se não como prémios cinematográficos, pelo menos sob a forma de direitos de autor. À atenção da SPA.
E esta hem?!

Como gosto de ler Vitorino Nemésio!

Não é apenas o romancista, de por exemplo «Mau Tempo no Canal», que me encanta; é, também, o que escreve:
"Este homem elegante e amadurecido que sobe o Chiado de mão metida no colete e vai parando nalguns escaparates para fingir que não tem pressa de chegar lá a cima, às Portas de Santa Catarina, o que tem são falhas de coração. Se não está velho, está gasto. É o ano da graça de 1852: façam os senhores um esforço e sejam, comigo,desse tempo. O nosso elegante, mais tarde, vai dar o nome à rua que hoje lhe custa a subir. Em vão. Será batido pelo revisteiro do século XVI que por ali andou. O elegante transeunte está com cinquenta e três anos, mas faz-se distraído de idades e nunca passa dos quarenta. No fundo mente mal; porque na alma, na verdura, no sangue, está com os vinte e três que tinha quando, casado de fresco, fugiu para Inglaterra, ou com a idade de Cristo que levou para Bruxelas como Encarregado de Negócios, para florear na conversa e dançar com uma ponta de fastio e um ardor secreto, triste."
Vemos, pois, pelos seus olhos, um Almeida Garrett longe dos fulgores da juventude, ou nem tanto assim...

Fins-de-semana (2)


Não conseguira adormecer até chegar ao fim do livro; sorrindo de si para si, pensou: ainda bem que os avós não são como a Tia Doroteia do Henrique de Souselas...; com efeito, só apagara a luz já a madrugada se havia instalado há muito...
Depois adormecera, e não fazia a menor ideia que horas seriam agora... Até que ouviu a voz da avó:

-Menina, já te chamei várias vezes para tomares o Pequeno-almoço!
-Já vou avó, respondeu, enquanto se espreguiçava.
Daí a pouco, voltou a ouvir a voz da velha senhora:
-Vens ou não vens? Quero levantar a mesa...

Sorriu de novo, enquanto descia as escadas, e pensou: afinal, as Avós não são diferentes das Tias Doroteias...

Segunda prenda de fim-de-semana...

Ken Lee II - A nossa amiga búlgara melhorou muito!