quinta-feira, 17 de abril de 2008
Duas visitas à casa de S. Miguel de Seide (2)
É verdade- respondeu o conde-Todos amigos velhos e d'aquelles de quem se não receberam nem esperam senão bellos officios".
«Herança de Lágrimas», de Ana Plácido.
Voltei há alguns meses a casa de Camilo, mas agora marcara encontro com Ana Plácido.
Tinha adquirido, havia pouco tempo, os dois romances que publicara com o seu nome- por vezes terá recorrido a pseudónimos-, este e «Luz Cada por Ferros»- e fiquei curiosa por saber mais.
Foi assim que fiquei a saber, primeiro pela guia, depois procurando noutros lugares, tratar-se de uma senhora de razoável cultura literária, cimentada no conhecimento efectivo de autores clássicos, mas também românticos, que traduziu vários romances franceses, e manteve colaboração regular em vários jornais e revistas.
Terá, ainda, sido o braço direito de Camilo, ao prestar-lhe vários serviços na feitura dos seus livros, como a revisão dos textos. Isto para além de lhe ter emprestado os olhos, quando os do escritor começaram a ceder...
Cartas, entrevistas e testemunhos do PREC e da "descolonização"
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Chove...
"As tentativas do sol no céu cinzento de chuva lembram um tímido sorriso em rosto molhado de lágrimas"
João Bigotte Chorão
Duas visitas à casa de S. Miguel de Seide (1)
Era muito pequena ainda quando meu pai me levou a casa de Camilo. Dessa visita guardo uma memória muito esbatida, tendo-me ficado na retina aquela cadeira de baloiço, muito provavelmente porque fiquei impressionada quando o guia disse que terá sido aí que o escritor se suicidou.
Cresci ouvindo falar nele com uma grande admiração: o seu busto estava num lugar de destaque, na estante que continha a camiliana.
Quando, timidamente, e com relativa desconfiança sobre o acerto de tal veneração, me aventurei na sua obra- creio que o primeiro livro que li foi «A Brasileira de Prazins», o qual só mais tarde abarquei no seu justo valor-, confesso que não fiquei logo cativada. Foi fora do tempo.
O encantamento viria mais tarde, com «A Queda dum Anjo», seguido de »Eusébio Macário» e «A Corja»: a escrita escorreita, a riqueza do vocabulário e a fina ironia, iriam fazer com que , de quando em quando, volte a eles, nem que seja para ler um trecho ou outro...
Relembrar Orwell (5)
Esta é a pièce de résistance desta curta série. Não precisa de grandes explicações. É irónico notar como autores tidos como idealistas e que servem de base a grande parte da esquerda, como Platão (não estou a dizer que Platão era de esquerda, atenção, Platão pode ser tanto de extrema-esquerda como extrema-direita), ou Rousseau, que falaram de educação das massas e igualdade entre todos, foram eles próprios os desmontadores de tais falácias, que Orwell tão bem sumariza neste trecho.
Tudo isto se apresenta tão clarividente que chega a ser absurdo como a maioria das pessoas teima em não o entender.
Relembrar Orwell (4)
Isto nem precisa de muita explicação. A explosão ocasional de bombas é utilizada em guerras em nome da religião, da etnia, da raça ou da cultura, fenómeno intrinsecamente relacionado com o terrorismo enquanto forma de manter uma nova ordem mundial (como aqui mostrei).
Por outro lado, os bens de consumo constituem o elemento central do mercado mundial, entre os quais poderemos incluir desde o petróleo e matérias-primas até aos produtos finais, constituindo-se principalmente os recursos naturais como fonte primária de futuros conflitos de grande escala. A guerra económica é feita pelas multinacionais, transnacionais e Estados como forma de demonstrar o seu poderio, na lógica do enriquecimento e da conquista de poder nos diversos paralelogramas de forças de geometria variável que complexificaram as Relações Internacionais no fim do século XX, o que Keohane e Nye previram nos anos 70 com a teorização acerca da interdependência complexa, concretizada a partir da Queda do Muro de Berlim, através da desmilitarização da questão securitária, com o alargar do conceito de segurança a inúmeras outras áreas, e com a centralização do combate na lógica liberal da competição económica, onde até os alemães sabem que o actual Reich não pode ser baseado no conflito armado, ao contrário do que Kissinger tem previsto, mas sim na portentosa demonstração do seu poderio económico enquanto potência destinada a influenciar de forma determinante o sistema internacional.
Relembrar Orwell (3)
A incapacidade dos contendores para se aniquilarem é sem dúvida uma previsão concretizada pela coexistência pacífica baseada na doutrina da Mutual Assured Destruction, o tal pacto tácito entre EUA e URSS para manter a ordem durante a Guerra-Fria, apenas desestabilizada quando os EUA decidiram montar um sistema de defesa anti-míssil.
Porém, se durante esse conflito, a divergência ideológica era premente e reflectia-se nas organizações militares respectivas de cada bloco, Pacto de Varsóvia e NATO, certo é que a ideologia do comunismo foi diminuída ao seu indispensável, e até os chineses procuram demonstrar como é necessário o capitalismo para o desenvolvimento de uma alegada sociedade igualitária (trata-se de mais um excelente instrumento de propaganda). De tal forma, a nova ordem económica mundial baseada no liberalismo condiciona de forma determinante a superestrutura política, tal como Marx havia previsto, que os conflitos há muito deixaram de ser entre ideologias (pode-se é arguir como Huntington faz, por uma lógica de Choque de Civilizações, onde a cultura, civilização e religião são os elementos determinantes do conflito, mas isso são contas de outro rosário).
E até numa analogia doméstica em termos da Teoria das Relações Internacionais, pode-se verificar que deixaram de existir verdadeiros conflitos ideológicos no seio das sociedades democráticas liberais ocidentais. Mais ainda nos países do norte da Europa, onde a política aperfeiçoou-se de tal forma que perdeu a sua carga ideológica e passou a estar ao mais directo serviço dos cidadãos, numa lógica de funcionamento pela e para a causa pública, quase remetida ao nível da gestão e administração (talvez nem seja assim tão mau voltar à oikos como alguns julgam, quando na polis não nos conseguimos entender).
Relembrar Orwell (2)
Desesperadamente pragmático, é uma constatação de uma realidade imutável ao longo dos séculos, que já Rousseau havia demonstrado (como aqui mostrei). Até os comunistas sabem que é impossível mudar isto, por mais que se considere a consciência de classe, por mais que se considere a revolução socialista na lógica evolucionista linear da sociedade, é e, profeticamente arrisco, sempre será assim. A vida em sociedade pressupõe a desigualdade. Mais do que pressupor, fomenta-a, pois essa é o seu motor de desenvolvimento e estabilidade.
Relembrar Orwell (1)
(imagem tirada daqui)Liberdade é Escravidão
Ignorância é Força.
É extraordinário notar como a sua teoria do Big Brother talvez não se tenha realizado completamente, mas as suas previsões não deixam de certa forma de ser análogas ao que se vai vivendo nesta nossa terráquea Torre de Babel, de que passamos a dar conta nos posts seguintes, com uns breves trechos de 1984.
Na mouche
Hesitei em tratar das propostas que circulam sobre possíveis alterações ao Regulamento de Disciplina Militar (RDM). Primeiro porque estamos habituados à técnica das sondagens prévias.
Depois porque confio no bom senso político do actual ministro da Defesa. Porém há algo de escandaloso nessa possibilidade de o oficial reformado – sem armas, sem comando, sem acesso a segredos de Estado e liberto de hierarquias – não poder opinar quando lhe aprouver sobre questões militares, que o melhor é atalhar já. Seria intolerável do ponto de vista da cidadania e mesmo um empobrecimento do debate público sobre matérias tão delicadas e específicas, caso isso acontecesse.
E depois caso haja afronta, calúnia, difamação, e sei lá que mais, a República Portuguesa ainda tem os tribunais civis a funcionar. Ou só a morte liberta os militares do RDM?
terça-feira, 15 de abril de 2008
Uma questão pertinente.
Essa pergunta vem-me à cabeça sempre que a "televisão pública" passa um programa de interesse geral, mas que, na prática, está interdito a muitos desses portugueses: por exemplo, de quando em quando o "Prós e Contras" tem esse interesse, mas, à hora a que é transmitido, só pode ser visto por alguns. Na zona onde vivo, e como esta haverá mais, certamente, são pouquíssimos os que o vêem, porque na manhã seguinte a maioria tem de se levantar muito cedo para começar a trabalhar às oito horas. O melhor remédio é entretê-la com uns programazinhos de refugo ...
É essa a razão principal pela qual estas pessoas só falam sobre futebol e novelas, e é aflitiva a percentagem de facadas que dão numa só frase à língua pátria: a imensa maioria não sabe sequer que a querem "reformar"...
Onde está o ópio, afinal?
Pedaços do Minho
Que me adoras no teu peito,
Quem quer bem, não faz assim,
Quem ama tem outro geito.
Dizes que me queres muito,
Tudo isso considero,
Mas dos dentes para fora
Quem quer diz, eu bem te quero.
Dizes que me queres muito,
Que me tens muito amor,
O mundo vive de enganos,
Quem me dás por fiador?
Dizes que me queres muito,
Ignoro o teu querer,
Tu falas quando me encontras,
Não passeias por me ver.
Dizes que me queres muito,
Não entendo o teu querer,
O dizer «quero-te bem»
Qualquer o pode dizer.
(in«O Minho Pittoresco»)
O que a esquerda devia meter na cabeça...
A maior parte do sector privado lusitano só quer e, se calhar, só pode subsistir associado à tutela estatal e não tem pejo em subordinar-se aos operadores puramente políticos, abandonando a evolução de culturas de empresas inovadoras desenvolvidas por gestores profissionais que pusessem, finalmente, o mercado a funcionar em Portugal. No curto prazo, este hesitante sector privado nascido dos cravos de Abril parece ver mais ganhos incorporando governos em si próprio do que emancipando-se de tutelas constrangedoras.(Mário Crespo in Jornal de Notícias)
E já agora ler a resposta pragmática de LR no Blasfémias:
A atitude habitual nestes casos é diabolizar os políticos, as empresas e os empresários, o que nos confere um muito aceitável estatuto de puristas guardiões de nobres valores como o do pudor. Todos se esquecem porém de três premissas fundamentais, a saber:
* Os agentes económicos reagem adequada e racionalmente a incentivos, sob pena de comprometerem a sua actividade;
* É ao Estado ou a entidades por ele dominadas a quem cabe a (i)rresponsabilidade pela atribuição dos (maus) incentivos;
* A carne é fraca e este mundo está infestado de pecadores.
O implícito “É assim!” do Jorge Coelho traduz, no fundo, a clarividência de quem conhece muitíssimo bem o sistema vigente - ou não se tratasse de um dos seus principais “arquitectos” - e sabe aproveitar em benefício próprio os incentivos que aquele disponibiliza. Recusasse ele o convite, haveria por certo muitos outros “apparatchiks” em fila disponíveis para a função.
O Estado Sentido pelos seus leitores
Meu caro Samuel, a esquerda não tem sentido de humor porque precisa de contrabalançar o «humor» que têm as suas causas. :-)
Touché!
Revolta dos Generais
Acordo ortográfico?
Admiradora que sou da Literatura Brasileira- li desde José Mauro de Vasconcelos até Machado de Assis-, sou frontalmente contrária à sua entrada em vigor ( faltam ainda vários países ratificá-la, como por exemplo Moçambique e Angola), antes do mais porque, como disse o Linguista e Filólogo Professor António Emiliano, não há um único argumento linguístico-científico a favor de tal acordo.
Tal como está, a Língua Portuguesa é falada e escrita por duzentos milhões de pessoas, sem que
haja quaisquer problemas de comunicação, e, pelo contrário, as variantes que existem dentro dela só a enriquecem- todos nós nos entendemos na sua diversidade...
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Pedaços do Minho
Nem por ser a cantadeira,
Canto para fazer raiva
Àquella namoradeira.
Mal te vi, amei-te logo,
O meu peito deu rebate,
Fôra duro o coração
Para ver-te e não amar-te.
Tenho terra na algibeira,
Agua fechada na mão,
Para plantar uma rosa
Dentro do teu coração.
Hei-de amar-te tantos annos
Como folhas tem o vime,
Tu julgas que te sou falsa,
Cada vez te sou mais firme.
(in «O Minho Pittoresco»)
Machado de Assis
Inicia assim o primeiro livro que li de Machado de Assis: «Memórias Póstumas de Brás Cubas»; o outro foi «Quincas Borba», e o Paulo Cunha Porto já me aconselhou vivamente a leitura do «Memorial de Aires».
Sobre o escritor brasileiro escreveu José Osório de Oliveira: " Foi um autodidacta, que se formou na Biblioteca do Gabinete Português de Leitura(...), viveu sempre longe dos grandes centros de civilização literária, prodigalizou-se em colaborações jornalísticas, e, já na fase de maturidade, passou a ser, e ainda hoje é, o mais original escritor do seu país. tendo a sua obra sido marcada pela quase ferina análise da alma humana."
Autor de vários títulos, universalmente reconhecidos, como atestam as numerosas traduções das suas obras mais representativas, " por dois factos- além daquele, primordial, que é a pureza da linguagem-, está Machado de Assis indissoluvelmente ligado à literatura portuguesa: a influência que sofreu de Garrett, do qual colheu a lição de sobriedade, clareza e ática elegância, e a que, como crítico, exerceu sobre Eça de Queirós, pois que, moralista e com uma, embora contida, concepção dramática da vida, ao analisar «O Crime de Padre Amaro», apontou-lhe como grande defeito, o facto de parecer comprazer-se na pintura de um caso de amoralidade". Esta opinião terá calado fundo no espírito do escritor português, como resulta da sua obra posterior.
Já há uns dias que ando a dizer o mesmo a alguns amigos
A Esquerda continua igual. Mudou de cor - deixou o vermelho e abraçou o verde – mas continua igual: não admite a sátira; não aceita a ironia lançada sobre as suas causas. A “causa” ambiental é sagrada e não admite o gozo (e os ursos polares são o novo proletariado que importa defender).
A esquerda mudou de cor, mas continua igual: incapaz de rir; sem capacidade de encaixe. O riso, naquelas bandas, continua a ser reaccionário.
E já agora, não pensem em pegar pelo ambientalismo contra a minha pessoa, como parece que têm feito com o Henrique Raposo, é que eu trabalhei e ainda colaboro pontualmente com uma das mais conhecidas ONG's de Ambiente em Portugal e na Europa, e apenas utilizei esta citação para ilustrar o que pretendo dizer, que a esquerda em geral não tem sentido de humor, especialmente em Portugal, onde ainda há dias Herman José no programa da RTP1 "O Corredor do Poder" dizia que os políticos têm de ser mais imprevisíveis e ter mais sentido de humor como acontece por exemplo no Reino Unido (arrisco até a dizer em Itália, atire uma pedra o primeiro que não ache piada às tiradas de Berlusconi), ao que Ana Drago reagiu logo com uma carantonha dizendo que não se estão a candidatar a comediantes ou coisa do género, que tratam de coisas muito sérias que não se podem levar a brincar. De resto, é uma reacção típica que vejo em muitos colegas todos os dias quando mando para o ar bocas à fascista ou absolutista, sem sequer me conhecerem e sem saberem que advogo a democracia, o liberalismo e a descentralização do poder político através do federalismo e da difusão dos checks and balances.
Não é pelas reacções que vou deixar de o fazer, ainda para mais gosto de picar as pessoas. Saiam dos dogmas que vos prendem a este terráqueo mundo, esses padrões socialmente impostos de cima para baixo que defendem como se fosse o último resquício de moralidade na Terra. É a colocar em causa os dogmas e padrões da sociedade que podemos conhecê-los e progredir. Ainda me lembro de um certo professor que numa aula dizia que temos de colocar em causa os padrões até chegar a gozar com esses.
Resumindo, a esquerda não tem sentido de humor. É uma chatice, tira à política grande parte da piada que poderia ter em Portugal.
domingo, 13 de abril de 2008
Pedaços do Minho
"O gosto que a salsa tem
Têm meus olhos em te ver,
Trago-te no centro d'alma,
Não me podes esquecer.
Fui à fonte de três bicas,
Bebi, tornei a beber,
Nem minha boca se enfada
Nem meus olhos de te ver.
Não te esqueças de trazer-me
Dentro do teu coração,
Considera um só momento
A nossa separação.
(in «O Minho Pittoresco»)
África em 1974-75: para quando a Verdade, Reconciliação e Justiça?
"Eles" gritam e bradam que: "o povo é quem mais ordena!"
Que povo?
Ainda a respeito da cena do telemóvel no Carolina Michaellis
O aluno que filmou a cena no seu telemóvel pode ter cometido faltas graves ao fazê-lo: 1) Falta de disciplina, partindo do pressuposto de que essa filmagem era proibida na sala de aula com a aula a decorrer, embora de um modo sui generis; 2) Falta de respeito pela privacidade dos intervenientes, já que filmou uma cena num local não público e sem a autorização da professora e da aluna, nem dos restantes colegas que aparecem mais fugitivamente; 3) Falta de delicadeza, pelas expressões que dirigiu aos colegas e pela maneira como tratou a professora por "a velha".
Mas o que é certo é que os meios de comunicação usaram e abusaram do seu trabalho para divulgar o caso e atrair audiências e as instâncias disciplinares o utilizarão, suponho, como meio de prova.
Portanto, apesar das faltas pelas quais poderá e deverá ter a devida punição, cabe-lhe a autoria de um filme que se tornou num best-seller e é justo que tenha a devida recompensa, se não como prémios cinematográficos, pelo menos sob a forma de direitos de autor. À atenção da SPA.
E esta hem?!
Como gosto de ler Vitorino Nemésio!
"Este homem elegante e amadurecido que sobe o Chiado de mão metida no colete e vai parando nalguns escaparates para fingir que não tem pressa de chegar lá a cima, às Portas de Santa Catarina, o que tem são falhas de coração. Se não está velho, está gasto. É o ano da graça de 1852: façam os senhores um esforço e sejam, comigo,desse tempo. O nosso elegante, mais tarde, vai dar o nome à rua que hoje lhe custa a subir. Em vão. Será batido pelo revisteiro do século XVI que por ali andou. O elegante transeunte está com cinquenta e três anos, mas faz-se distraído de idades e nunca passa dos quarenta. No fundo mente mal; porque na alma, na verdura, no sangue, está com os vinte e três que tinha quando, casado de fresco, fugiu para Inglaterra, ou com a idade de Cristo que levou para Bruxelas como Encarregado de Negócios, para florear na conversa e dançar com uma ponta de fastio e um ardor secreto, triste."
Vemos, pois, pelos seus olhos, um Almeida Garrett longe dos fulgores da juventude, ou nem tanto assim...
Fins-de-semana (2)
Não conseguira adormecer até chegar ao fim do livro; sorrindo de si para si, pensou: ainda bem que os avós não são como a Tia Doroteia do Henrique de Souselas...; com efeito, só apagara a luz já a madrugada se havia instalado há muito...
Depois adormecera, e não fazia a menor ideia que horas seriam agora... Até que ouviu a voz da avó:
-Menina, já te chamei várias vezes para tomares o Pequeno-almoço!
-Já vou avó, respondeu, enquanto se espreguiçava.
Daí a pouco, voltou a ouvir a voz da velha senhora:
-Vens ou não vens? Quero levantar a mesa...
Sorriu de novo, enquanto descia as escadas, e pensou: afinal, as Avós não são diferentes das Tias Doroteias...



