segunda-feira, 7 de abril de 2008
"Verdes são os campos!"
...e agora ainda estão mais verdes, com a chuva que por cá caiu!
Deu lugar a um sol de fim-de-tarde , que atravessa as árvores como se fora um arco-íris com uma cor só.
O Portugal profundo de Sousa Tavares
Eis um retrato do Portugal profundo: todos têm direitos inesgotáveis, sem deveres alguns. Nem ao menos o de aproveitarem as oportunidades que lhes caiem do céu. Menezes, como está na oposição, chama a isto “empreendedorismo”. Eu chamo-lhe a atitude de estar sentado no café à espera do subsídio e a dizer mal de tudo.» Miguel Sousa Tavares, no Expresso
Os últimos meses têm sido pródigos em públicos testemunhos recriminatórios em relação à situação em que o país se encontra. Generais, empresários e antigos governantes - desde p.r's a ministros - manifestam-se contra o actual estado de coisas, sem que consigamos discernir a causa de tantos males. É hábito da classe política o alijar de responsabilidades, o criticar de atitudes de outrem e uma recorrente auto-desculpabilização. Desde os debates parlamentares aos chamados artigos de opinião nos jornais, a enxurrada viscosa de corrupções, incompetências, latrocínios, favoritismos indevidos e ilegalidades, são apontadas à generalidade dos detentores de cargos do Estado, sem que qualquer consequência punitiva, ou sejamos condescendentes, regeneradora, pareça advir no sentido de uma maior transparência daquilo a que normalmente se denomina de coisa pública. O sistema está a ferro e fogo e paradoxalmente, os seus inimigos são os seus próprios usufrutuários, aqueles que numa situação de perfeita normalidade seriam os mais estrénues defensores do mesmo.
O texto de M.S.T. é mais um apontar do dedo inquisidor à generalidade dos cidadãos e tem como pretexto final, as declarações do actual presidente do PSD. Compreendemos a revolta até porque quem não beneficia de lugares cativos no aparelho, é o principal e involuntário financiador de uma situação insustentável.
Ao fim de três décadas do regime saído da Constituição de 76, verifica-se a fragilidade do mesmo, quando a simples longevidade, renovação da classe política e progresso económico ditado pela recuperação após o ingresso na UE, pressupunham a sua consolidação e normalização como acontece em Espanha, para citar apenas o vizinho mais próximo.
Hoje alguns denunciam a sede de direitos e a recusa de deveres por parte de quem não detém o poder e serve de agente passivo - isto é, de simples contribuinte -, querendo decerto acusar um povo desinteressado, ignorante, gastador e inepto. Decorreram trinta anos e quem chega agora aos degraus do poder foi educado e preparado por quem dele se assenhorou em 74. O chamado povo é criatura saída do laboratório da Situação.
Organizaram o aparelho do Estado, formaram partidos, destruíram a velha escola e impuseram uma maneira de viver em sociedade que passou a confundir-se com aquilo a que se convencionou apodar de "democracia". De facto, o sistema funciona nos seus aspectos formais e não assistimos a períodos de grave tensão ou violência política nas ruas. Mas isto não é suficiente, porque sabemos que a democracia deverá ser muito mais que a simples obediência e conformidade para com a Lei emanada pela vontade dos cidadãos da res publica. Nas democracias consolidadas os povos participam normalmente na vida política, frequentam ou criam clubes - que não apenas os de futebol -, organizam demonstrações de índole cultural identificativa das gentes, resolvem problemas locais. É a verdadeira participação a que se dá o nome de civismo. Em Portugal verifica-se exactamente o oposto e de uma forma verdadeiramente bizarra, a população foi artificiosamente convencida a tudo esperar de uma etérea entidade designada como "O Estado". Um simples buraco na rua carece do atento olho do responsável autárquico. Um paralelepípedo saído do seu devido lugar na calçada de Lisboa, permanecerá na sarjeta sem que alguém se digne a com um simples gesto, recolocá-lo de onde saíra. Automóveis abandonados apodrecem durante anos nas ruas, sem que os moradores tomem qualquer iniciativa para a sua conveniente remoção e nem a EMEL, empresa interessada na rentabilização de espaços de estacionamento, providencia remédio para estas situações. Poderíamos continuar indefinidamente, tais são os casos a exemplificar. Estamos todos à espera de alguém, ou melhor de algo. De quem ou do quê, não se sabe. "Eles" deverão encontrar as respostas para tudo, por mais ínfimos que sejam os problemas. Quem são "eles" e quem criou e fomentou este estado de coisas?
Sabemos qual é a resposta e é com estupefacção que deparamos hoje com o sórdido espectáculo de autocomiseração daqueles que publicamente dão a entender ter vergonha de pertencer a tal nação. Nação que foram os próprios a conformar - as duas últimas gerações são obra sua - e que agora nos obrigam a identificá-los com as ratazanas que abandonam o navio em perigo de fatalmente ser destruído por uma tempestade em pleno cais.
Se o texto de MST parece curial e na linha do esperado bom senso de um comentador político com credibilidade para assim ser considerado, peca por insuficiência. Esta debilidade reside apenas na fatal e já esperada acusação ao anónimo, isto é, a todos. Os "outros" que somos nós e que jamais fomos informados e chamados a participar em qualquer debate que interesse ao futuro deste país. Recordo-me sempre da infeliz frase de Cavaco Silva, quando admoestado acerca da possibilidade de um referendo ao tratado de Maastricht, seráficamente respondia que ..."o povo português não está informado para decidir acerca de um assunto destes" . Grosso modo, foram as suas palavras. Quando a uma atrocidade deste jaez se soma o ..."desapareça da minha vista, ó senhor guarda"... berrado por Mário Soares num desvairado momento populista, podemos finalmente ser nós, o rebotalho, a apontar o dedo. Quem tem a culpa? "Eles"!
"O sino da minha aldeia"
"Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma"
domingo, 6 de abril de 2008
Adenda a "Tomáz de Figueiredo"
Volto a ele, porque encontrei, adormecido na estante, um livro de António Manuel Couto Viana que se debruça sobre vários escritores, entre os quais Figueiredo: «Coração Arquivista».
Lido há alguns anos já, mas mal lido, passou-me despercebido este pedaço: "Ao lê-lo («A Toca do Lobo»), senti que tinha encontrado o romancista que melhor se identificava com a minha sensibilidade; esse que eu gostaria de ser, se tivesse qualidades de ficcionista. Aliás, aqueles climas, aquelas personagens, conhecia-os eu de sempre; encontrara-os por toda a Ribeira-Lima, em minha casa, ou nas que frequentava, nas ruas e nas feiras ou quintas de lavoura e recreio- exactos, vivos, com a nobreza e o pitoresco que o Tomaz poderosamente retratava.(...) Também não escapava à lupa bem focada do discípulo de Camilo o português de certos discursos de eminências políticas."
Lido há alguns anos já, mas mal lido, passou-me despercebido este pedaço: "Ao lê-lo («A Toca do Lobo»), senti que tinha encontrado o romancista que melhor se identificava com a minha sensibilidade; esse que eu gostaria de ser, se tivesse qualidades de ficcionista. Aliás, aqueles climas, aquelas personagens, conhecia-os eu de sempre; encontrara-os por toda a Ribeira-Lima, em minha casa, ou nas que frequentava, nas ruas e nas feiras ou quintas de lavoura e recreio- exactos, vivos, com a nobreza e o pitoresco que o Tomaz poderosamente retratava.(...) Também não escapava à lupa bem focada do discípulo de Camilo o português de certos discursos de eminências políticas."
Ainda a repressão no Tibete...
No Corta-fitas, João Villalobos refere a mensagem enviada pelo Dalai Lama a todos os defensores da causa tibetana.
A loucura da guerra
Tenho-o por cima da lareira.
Debaixo de um céu muito azul, uma menina de cabelo castanho-dourado, contempla a paisagem que alcança da janela, no fim de um rio de águas calmas. Aparentemente, tudo é paz e há uma grande harmonia no conjunto...
Paz aparente, porque no céu surge um avião torpedeiro a lançar bombas, nesse cenário idílico...
O Nuno deu-lhe o título «Momento de Civilização»...
Debaixo de um céu muito azul, uma menina de cabelo castanho-dourado, contempla a paisagem que alcança da janela, no fim de um rio de águas calmas. Aparentemente, tudo é paz e há uma grande harmonia no conjunto...
Paz aparente, porque no céu surge um avião torpedeiro a lançar bombas, nesse cenário idílico...
O Nuno deu-lhe o título «Momento de Civilização»...
sábado, 5 de abril de 2008
Fins-de -Semana (2)
Hoje, na Feira do Livro, de Braga, encontrei, num alfarrabista, um Livro de Leitura da 3ª Classe, igual ao que um dos meus irmãos tinha. Foi com alegria que nele encontrei uma lengalenga que, fiquei agora a saber, é a adaptação de um Romance popular, e que o ouvi declamar muitas vezes:
- À guerra, à guerra, mourinhos!
Quero uma cristã cativa!
Uns vão pelo mar abaixo
Outros pela terra acima.
- Venha uma cristã cativa
Que é para a nossa rainha.
Uns vão pelo mar abaixo,
Outros pela terra acima.
Os que foram mar abaixo
Não encontraram cativa;
Tiveram melhor fortuna
Os que foram terra acima:
Deram com o conde Flores
Que vinha da romaria
Vinha lá de Santiago,
Santiago da Galiza
Mataram o conde Flores,
A condessa foi cativa
A rainha mal que o soube,
Ao caminho lhe saía:
-Em boa hora venha a escrava,
Boa seja a sua vinda!
Aqui lhe entrego estas chaves
Da despensa e da cozinha,
Que me não fio de mouras
Não me dêem feitiçaria.
-Aceito suas chaves, senhora
Por grande desdita minha...
Ontem condessa jurada,
Hoje moça de cozinha
Duas irmãs que nós éramos.
Ambas de mouros cativas!
-Dize-me tu, minha escrava.
Tua irmã que nome tinha?
-Chamava-se Branca Rosa
Branca Flor de Alexandria
Foi cativada de mouros
Dia de Páscoa Florida
Andava apanhando rosas
Num rosal que meu pai tinha
-Ai triste de mim, coitada
Ai triste de mim, mofina
Mandei buscar uma escrava,
E trazem-me uma irmã minha!
Deram beijos e abraços,
E uma à outra dizia:
Quem se vira em Portugal
Terra que Deus bendizia!
Juntaram muita riqueza
De ouro e pedraria;
Uma noite abençoada
Fugiram da Mouraria
Foram ter à sua terra
Terra de Santa Maria
Meteram-se num mosteiro,
Ambas professaram num dia.
- À guerra, à guerra, mourinhos!
Quero uma cristã cativa!
Uns vão pelo mar abaixo
Outros pela terra acima.
- Venha uma cristã cativa
Que é para a nossa rainha.
Uns vão pelo mar abaixo,
Outros pela terra acima.
Os que foram mar abaixo
Não encontraram cativa;
Tiveram melhor fortuna
Os que foram terra acima:
Deram com o conde Flores
Que vinha da romaria
Vinha lá de Santiago,
Santiago da Galiza
Mataram o conde Flores,
A condessa foi cativa
A rainha mal que o soube,
Ao caminho lhe saía:
-Em boa hora venha a escrava,
Boa seja a sua vinda!
Aqui lhe entrego estas chaves
Da despensa e da cozinha,
Que me não fio de mouras
Não me dêem feitiçaria.
-Aceito suas chaves, senhora
Por grande desdita minha...
Ontem condessa jurada,
Hoje moça de cozinha
Duas irmãs que nós éramos.
Ambas de mouros cativas!
-Dize-me tu, minha escrava.
Tua irmã que nome tinha?
-Chamava-se Branca Rosa
Branca Flor de Alexandria
Foi cativada de mouros
Dia de Páscoa Florida
Andava apanhando rosas
Num rosal que meu pai tinha
-Ai triste de mim, coitada
Ai triste de mim, mofina
Mandei buscar uma escrava,
E trazem-me uma irmã minha!
Deram beijos e abraços,
E uma à outra dizia:
Quem se vira em Portugal
Terra que Deus bendizia!
Juntaram muita riqueza
De ouro e pedraria;
Uma noite abençoada
Fugiram da Mouraria
Foram ter à sua terra
Terra de Santa Maria
Meteram-se num mosteiro,
Ambas professaram num dia.
Câmara de Comuns e os licenciados no desemprego
Um novo e interessante blog, que reúne gente da esquerda à direita, muitos deles já bloggers, outros deputados, que vale a pena visitar, o Câmara de Comuns. Deixo aqui um post de Zé Pedro Amaral sobre as declarações de Mariano Gago, segundo o qual, quase não existirem licenciados no desemprego.
Mariano Gago assevera, em forma de auto-elogio despudorado, que 'quase não há desemprego entre licenciados'.
‘Quase não há’ é exactamente o quê? Há dois? Três? Dez? Vinte? Cem?
Que número tão ridiculamente pequeno leva um Ministro a usar a expressão ‘quase não há’?
Uma visita rápida ao sítio do INE mostra que, no 4º trimestre de 2007, havia 65.600 desempregados com curso superior.
Mas está a descer estrondosamente?
Não, não, não… Em 2006, havia 48.400 desempregados com licenciatura. Está a aumentar… Mas ‘quase não há’.
Assim, e segundo a Cartilha Gago, 65.600 é ‘quase não há’. Mohammad Said al-Sahhaf, esse douto da exactidão, dificilmente faria melhor.
Mariano Gago assevera, em forma de auto-elogio despudorado, que 'quase não há desemprego entre licenciados'.
‘Quase não há’ é exactamente o quê? Há dois? Três? Dez? Vinte? Cem?
Que número tão ridiculamente pequeno leva um Ministro a usar a expressão ‘quase não há’?
Uma visita rápida ao sítio do INE mostra que, no 4º trimestre de 2007, havia 65.600 desempregados com curso superior.
Mas está a descer estrondosamente?
Não, não, não… Em 2006, havia 48.400 desempregados com licenciatura. Está a aumentar… Mas ‘quase não há’.
Assim, e segundo a Cartilha Gago, 65.600 é ‘quase não há’. Mohammad Said al-Sahhaf, esse douto da exactidão, dificilmente faria melhor.
Fins-de-semana
É a introdução de um dos «Contos Baldios», de Cláudio Lima, que acabo de adquirir na Livraria na Avenida Central, em Braga, onde, com regularidade, passo parte das minhas manhãs de Sábado. Ali tenho, ou encomendo, todos os livros que quero ler, além de nela encontrar pessoas com quem é bom falar, de tudo, mas principalmente de livros, conhecedores que são do que de melhor se escreveu, ou escreve, em Portugal, e não só, pois que hoje a "mini-tertúlia" estendeu-se às boas livrarias de Buenos Aires, e ao que por lá de bom se encontra em matéria de escritores...
Política betonada
A notícia deste sábado é sem dúvida, a nomeação de um antigo ministro das obras públicas para a direcção de uma das mais importantes empresas construtoras do país. Acompanhado por outros elementos saídos da esfera governamental, é um claro e preocupante indício da degradação de um sistema que julgando-se intocável e sem mínimos limites impostos pela ética ou simples bom senso, confirma o clima de suspeição generalizada de que os próprios agentes políticos se lamentam.
O controle mediático e a coacção pela ameaça de iminente ataque ao bolso do contribuinte, parecem ser os meios ideais e suficientes para a prossecução de actividades daqueles que tendo exercido cargos públicos de grande evidência e exposição, prosseguem as suas carreiras em sectores que pelas suas actividades, não podem deixar de propiciar interrogações acerca de uma figura basilar do direito: o conflito de interesses.
E desta forma a Situação vai-se afundando nas areias movediças para onde conduziu a betoneira estatal.
Barbaridades
Vieira da Silva, ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, em entrevista ao Expresso:
A matriz ideológica do PS mantém-se intacta ou houve uma evolução?
Matrizes intactas são matrizes mortas. Aquilo que não mexe, que não se adapta, que não se reformula ou renova, está condenado à fossilização. Até as estrelas se movem! Não julgo que seja possível que os contornos das opções ideológicas e doutrinárias das forças políticas não evoluam. Relativamente aos factores essenciais de caracterização do socialismo democrático, em Portugal representado pelo PS - liberdade, igualdade, justiça social, papel do Estado como factor decisivo para garantia daqueles valores - permanecem decisivos, são o código genético do PS.
Pondo de parte a pergunta abjecta, posto que a ideologia dos partidos do centrão, seja aqui seja onde for, é a ideologia do marketing e da governance, pois então o PS é que representa em Portugal a liberdade, a igualdade, a justiça social. Pois, mais ninguém mesmo, e as pessoas ainda se deixam levar nesta lengalenga. Depois queixem-se que os socialistas se arroguem de ser os donos da liberdade de Portugal, os grandes combatentes pela liberdade e os direitos sociais, assim legitimando as suas acções em toda a linha. É assim que se atravessa a ténue linha do ilusório pluralismo para a ditadura ideológica.
Continua a acreditar no modelo europeu de Estado Social?
Há poucas realidades que se tenham mantido tão socialmente eficazes como o Estado Social europeu. Nenhum outro modelo, em nenhuma parte do mundo, tem tal capacidade de reequilíbrio social face a dificuldades de evolução histórica. Mas também não pode ser entendido como algo de estático. Valorizo uma dimensão de mudança. O nosso modelo social europeu, nuns países mais eficaz do que em Portugal, noutros menos, foi construído com base numa lógica de intervenção dos poderes públicos que era profundamente niveladora, com direitos sociais universais e idênticos para todos. O que a realidade dos tempos nos vem mostrando é que a forma de concretizar esses direitos universais tem de ser corrigida no sentido da diferenciação positiva, de uma intervenção mais forte juntos dos segmentos mais fracos da população. É uma correcção porque exige menos recursos à sociedade e dirige-os para onde eles são mais eficazes
Pois de facto há poucas realidades que se tenham mantido tão socialmente eficazes como o Estado Social europeu. Só que onde o modelo funciona efectivamente, ao invés de pensarem em valorizar a intervenção do Estado, demonstram uma combinação mista, herdeira da teoria keynesiana quanto aos sectores chave (educação, saúde, justiça, onde tem de haver mais Estado, ao contrário do que se vem fazendo em Portugal), e da teoria liberal, originária de Adam Smith, valorizando o papel do mercado nos restantes sectores da sociedade, novamente, ao contrário do que se vem fazendo em Portugal (basta atentar na assoberbada intervenção do Estado na Banca, e na quantidade de privados que andam de mãos dadas com o Estado para que possam enriquecer).
A matriz ideológica do PS mantém-se intacta ou houve uma evolução?
Matrizes intactas são matrizes mortas. Aquilo que não mexe, que não se adapta, que não se reformula ou renova, está condenado à fossilização. Até as estrelas se movem! Não julgo que seja possível que os contornos das opções ideológicas e doutrinárias das forças políticas não evoluam. Relativamente aos factores essenciais de caracterização do socialismo democrático, em Portugal representado pelo PS - liberdade, igualdade, justiça social, papel do Estado como factor decisivo para garantia daqueles valores - permanecem decisivos, são o código genético do PS.
Pondo de parte a pergunta abjecta, posto que a ideologia dos partidos do centrão, seja aqui seja onde for, é a ideologia do marketing e da governance, pois então o PS é que representa em Portugal a liberdade, a igualdade, a justiça social. Pois, mais ninguém mesmo, e as pessoas ainda se deixam levar nesta lengalenga. Depois queixem-se que os socialistas se arroguem de ser os donos da liberdade de Portugal, os grandes combatentes pela liberdade e os direitos sociais, assim legitimando as suas acções em toda a linha. É assim que se atravessa a ténue linha do ilusório pluralismo para a ditadura ideológica.
Continua a acreditar no modelo europeu de Estado Social?
Há poucas realidades que se tenham mantido tão socialmente eficazes como o Estado Social europeu. Nenhum outro modelo, em nenhuma parte do mundo, tem tal capacidade de reequilíbrio social face a dificuldades de evolução histórica. Mas também não pode ser entendido como algo de estático. Valorizo uma dimensão de mudança. O nosso modelo social europeu, nuns países mais eficaz do que em Portugal, noutros menos, foi construído com base numa lógica de intervenção dos poderes públicos que era profundamente niveladora, com direitos sociais universais e idênticos para todos. O que a realidade dos tempos nos vem mostrando é que a forma de concretizar esses direitos universais tem de ser corrigida no sentido da diferenciação positiva, de uma intervenção mais forte juntos dos segmentos mais fracos da população. É uma correcção porque exige menos recursos à sociedade e dirige-os para onde eles são mais eficazes
Pois de facto há poucas realidades que se tenham mantido tão socialmente eficazes como o Estado Social europeu. Só que onde o modelo funciona efectivamente, ao invés de pensarem em valorizar a intervenção do Estado, demonstram uma combinação mista, herdeira da teoria keynesiana quanto aos sectores chave (educação, saúde, justiça, onde tem de haver mais Estado, ao contrário do que se vem fazendo em Portugal), e da teoria liberal, originária de Adam Smith, valorizando o papel do mercado nos restantes sectores da sociedade, novamente, ao contrário do que se vem fazendo em Portugal (basta atentar na assoberbada intervenção do Estado na Banca, e na quantidade de privados que andam de mãos dadas com o Estado para que possam enriquecer).
Barbaridades
O Secretário de Estado da Educação disse aos jornalistas, à margem do IX Fórum da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Corporativo, que "há uma campanha orquestrada contra a escola pública".
Valter Lemos considera que esta é uma campanha totalmente imerecida porque “para a maior parte dos portugueses, não existe alternativa ao ensino público”.
Não querendo adiantar que está por detrás desta campanha, Valter Lemos disse apenas que vê as notícias e que os jornalistas saberão.
Olhe que se não há, devia haver. Por não existir alternativa ao ensino público, para muita gente, é que as pessoas se revoltam, ao contrário do que pretendem muitos, que os portugueses se deixem ficar no marasmo, pagando impostos para assistir ao constante nivelar por baixo, pela mediocridade, do sistema de ensino, sem falar ainda das cenas "tristes" a que temos vindo a assistir nos últimos anos.
E parece que já temos aí outra cabala na calha, agora é uma teoria da conspiração contra o sistema de ensino público. Claro, nunca se vai chegar a saber quem é que estará por detrás de tal coisa.
Valter Lemos considera que esta é uma campanha totalmente imerecida porque “para a maior parte dos portugueses, não existe alternativa ao ensino público”.
Não querendo adiantar que está por detrás desta campanha, Valter Lemos disse apenas que vê as notícias e que os jornalistas saberão.
Olhe que se não há, devia haver. Por não existir alternativa ao ensino público, para muita gente, é que as pessoas se revoltam, ao contrário do que pretendem muitos, que os portugueses se deixem ficar no marasmo, pagando impostos para assistir ao constante nivelar por baixo, pela mediocridade, do sistema de ensino, sem falar ainda das cenas "tristes" a que temos vindo a assistir nos últimos anos.
E parece que já temos aí outra cabala na calha, agora é uma teoria da conspiração contra o sistema de ensino público. Claro, nunca se vai chegar a saber quem é que estará por detrás de tal coisa.
Gostei de ler
A entrevista de Koffi Anan ao Expresso, a demonstrar uma douta compreensão pragmática, objectiva, ajuízada e tolerante das relações internacionais hoje, ressalvando-se considerações como:Não se pode impor a democracia, não se pode impor a paz e não se pode querer mais a paz do que o povo que vive no país em causa. Mas pode-se promover a paz, pode-se trabalhar com os povos. O melhor que pode acontecer é que a iniciativa parta das pessoas que vivem no país, mas podem ser assistidos por forças exteriores, por países estrangeiros e pelas Nações Unidas.
Boicotando os Jogos Olímpicos quem se está a punir? O que sentirão os atletas que treinaram durante anos para lá chegar? Temos de encontrar outros meios de lidar com os dirigentes políticos. Acho que há necessidade de encorajar o diálogo, mas não acho que isso se alcance com um boicote aos Jogos Olímpicos.
Já o disse e repito, um ataque militar ao Irão seria desastroso! Não acho que seja maneira de resolver problemas nem de contribuir para a difícil situação que temos hoje em dia no Médio Oriente. E espero que ninguém esteja a pensar numa acção militar contra o Irão.
Todo o mundo perdeu liberdades. Hoje em dia basta classificá-la como "terrorista" para uma pessoa ser tratada arbitrariamente. Há quem acredite que fazer isso é eficaz contra o terrorismo. Penso que não está certo. Ao privar as pessoas de liberdades e direitos civis para nos proteger do terrorismo está a dar-se a vitória aos terroristas.
(foto tirada do Expresso)
Notas Soltas
Peço desculpa pela ausência temporária mas o tempo é pouco nesta altura em que tenho que dirigir esforços para a faculdade. Tomei a liberdade de inscrever o Estado Sentido no concurso Super Bock Blog Awards do corrente ano, não que espere que tenhamos uma classificação por aí além, mas é pelo menos mais uma forma de promoção do blog, e espero que os nossos caros leitores e amigos nos ajudem neste empreendimento.
Já agora por falar em faculdade, no próximo dia 10 de Abril, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas terá lugar uma das míticas festas das universidades lisboetas, a Festa da Primavera, que conta com um cartaz de luxo na pista principal (Pete Kriven, Urban Duo e o sempre efusivo Carlos Manaça) e contará com Dj Samuk (moi-même) e o meu colega Nuno, já Dj de profissão, na pista secundária. Da minha parte prometo desde já um set com muito r&b, funk, eighties, rock'n roll e o house que normalmente se ouve por aí.
Já agora por falar em faculdade, no próximo dia 10 de Abril, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas terá lugar uma das míticas festas das universidades lisboetas, a Festa da Primavera, que conta com um cartaz de luxo na pista principal (Pete Kriven, Urban Duo e o sempre efusivo Carlos Manaça) e contará com Dj Samuk (moi-même) e o meu colega Nuno, já Dj de profissão, na pista secundária. Da minha parte prometo desde já um set com muito r&b, funk, eighties, rock'n roll e o house que normalmente se ouve por aí.
Uma pérola Grande Oriental. A piada de fim de semana
Um inquietante retorno do religioso
http://www.godf.org/comm_p_detail.asp?num=134
Vivemos atualmente — na França como em todo o Ocidente — uma verdadeira revolução silenciosa caracterizada por um retorno inquietante do fenômeno religioso. Sob o assalto de correntes e doutrinas as mais reacionárias, eis que o Homem -- moderno, pós moderno — nos é apresentado plenamente desabrochado graças à redescoberta do fato religioso.
Assim, lentamente, assistimos o triunfo do sujeito religioso, apagando, pouco a pouco, o sujeito político, racional universal.
Essa mudança de rumo histórica se reveste dos maiores perigos. As Anti Luzes estão em vias de obter sua desforra.
Como não constatar que as diferentes igrejas e os diferentes cleros — todas as religiões misturadas — se arrogam novos direitos a cada dia que passa. Diante da fraca resistência das instituições democráticas e republicanas na Europa, eles exigem cada vez mais vantagens.
Aqui, trata-se de modernizar uma lei de 1905 tornada repentinamente arcaica; acolá ainda, por ver o Vaticano beatificar as vítimas religiosas da Guerra Civil espanhola, exatamente na hora em que essa grande democracia tenta corajosamente examinar seu doloroso passado; ou ainda mais recentemente, assistir o incrível retorno «das indulgências plenárias» prometidas pelo Papa Bento XVI, aos peregrinos de Lourdes, em 2008.
Todos esses numerosos sinais não poderiam nos enganar. Eles são duplamente inquietantes diante da fraca resistência das instituições republicanas como diante do eco favorável que o conjunto dos meios mediáticos lhes reserva.
Eis-nos em presença de uma verdadeira ofensiva intelectual e cultural.
O Grande Oriente da França quer manifestar a sua mais viva inquietude diante desse desequilíbrio persistente entre os pensamentos religiosos e os pensamentos agnósticos ou ateus em detrimento dos últimos.
Quem não vê que suas virtudes emancipadoras soam falso quando se trata de submeter os Homens a uma ordem ultrapassada e não de as libertar ?
O Grande Oriente de França apela à mais extrema vigilância face a esta ofensiva geral que trabalha contra a emancipação dos Homens, contra sua Liberdade.
Serviço de comunicação de Imprensa do G.O.D.F
http://www.godf.org/comm_p_detail.asp?num=134
Vivemos atualmente — na França como em todo o Ocidente — uma verdadeira revolução silenciosa caracterizada por um retorno inquietante do fenômeno religioso. Sob o assalto de correntes e doutrinas as mais reacionárias, eis que o Homem -- moderno, pós moderno — nos é apresentado plenamente desabrochado graças à redescoberta do fato religioso.
Assim, lentamente, assistimos o triunfo do sujeito religioso, apagando, pouco a pouco, o sujeito político, racional universal.
Essa mudança de rumo histórica se reveste dos maiores perigos. As Anti Luzes estão em vias de obter sua desforra.
Como não constatar que as diferentes igrejas e os diferentes cleros — todas as religiões misturadas — se arrogam novos direitos a cada dia que passa. Diante da fraca resistência das instituições democráticas e republicanas na Europa, eles exigem cada vez mais vantagens.
Aqui, trata-se de modernizar uma lei de 1905 tornada repentinamente arcaica; acolá ainda, por ver o Vaticano beatificar as vítimas religiosas da Guerra Civil espanhola, exatamente na hora em que essa grande democracia tenta corajosamente examinar seu doloroso passado; ou ainda mais recentemente, assistir o incrível retorno «das indulgências plenárias» prometidas pelo Papa Bento XVI, aos peregrinos de Lourdes, em 2008.
Todos esses numerosos sinais não poderiam nos enganar. Eles são duplamente inquietantes diante da fraca resistência das instituições republicanas como diante do eco favorável que o conjunto dos meios mediáticos lhes reserva.
Eis-nos em presença de uma verdadeira ofensiva intelectual e cultural.
O Grande Oriente da França quer manifestar a sua mais viva inquietude diante desse desequilíbrio persistente entre os pensamentos religiosos e os pensamentos agnósticos ou ateus em detrimento dos últimos.
Quem não vê que suas virtudes emancipadoras soam falso quando se trata de submeter os Homens a uma ordem ultrapassada e não de as libertar ?
O Grande Oriente de França apela à mais extrema vigilância face a esta ofensiva geral que trabalha contra a emancipação dos Homens, contra sua Liberdade.
Serviço de comunicação de Imprensa do G.O.D.F
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Vão ao Combustões: transmissão de pensamento?
"Ao terminar o beberete, a holandesa esgalgada, no meio de um círculo de convivas, parecia ainda procurar argumentos para minimizar a magia que persistia em largar o edifício. Velhos inimigos, peritos na arte da pirataria e do comércio, nunca por nós deixaram de manter o fogo velho de ódios que teimam. Aqui no Sião ficaram os filhos, netos e bisnetos dos aventureiros de Quinhentos e Seiscentos, ficaram as ruínas dos templos, as receitas gastronómicas e a lembrança do tempo passado das naus do trato, das lutas e guerras em que fomos, sempre, indefectíveis amigos desta gente."
Miguel Castelo-Branco in Combustões
Miguel Castelo-Branco in Combustões
Viagens na nossa terra
"Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como S. Petersburgo- entende-se. Mas com este clima, com esse ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ia ao menos até o quintal."
Já Almeida Garret sabia "porque não ficava em casa".Com este sol de Primavera, com a Natureza de braços abertos...
Já Almeida Garret sabia "porque não ficava em casa".Com este sol de Primavera, com a Natureza de braços abertos...
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Portugal e o Mundo de hoje. Parte I: a Ásia
Uma das razões da perenidade de Portugal como entidade nacional erigida em Estado independente será a sua própria história. Poder-se-á dizer sem exagero que é talvez um caso único na Europa, verificada a exiguidade do território, a inexistência de uma população numerosa e a escassez de riquezas naturais propiciadoras de constituírem per se, uma atracção para aventureiros comerciantes, artistas ou homens do saber à procura da abastança que susceptibiliza a criação. Tal como os antigos gregos, os portugueses tiveram que procurar além-mar, novas terras e outras gentes que propiciando novos produtos e oportunidades, garantissem a sua vida autónoma num ambiente geográfico de isolamento e constante pressão por parte do único e poderoso vizinho europeu.
Se a primeira fase da expansão ultramarina teve África como primeira fonte de exploração de possibilidades, as promessas oferecidas pela miragem indiana, catalisaram os esforços no sentido do Oriente. O espaço geográfico, político e cultural com que os homens de quinhentos tiveram que se conformar era o de sociedades complexas e perfeitamente organizadas e na maioria dos casos, muitíssimo avançadas em relação a uma Europa que no alvorecer do Renascimento, começava a gozar os esquecidos luxos do seu passado antigo e redescobria um imenso e até então ostracizado legado cultural devastado pela queda de Roma e a ascensão de uma nova religião que se substituía ao poder imperial e ao saber dos clássicos.
O desembarque português na Índia não estabeleceu qualquer tipo de relacionamento padrão com os potentados, porque a "Índia" significava apenas uma área geográfica, onde coexistiam diferentes tipos de organizações estatais, sociais e religiosas. Se o subcontinente era então uma superpotência económica capaz de fornecer todos os apetecidos bens a uma Europa onde a frugalidade era obrigatória devido ao inacessível preço dos luxos asiáticos, a divisão das Índias em múltiplas realidades políticas, dificultava a acção dos adventícios mercadores-navegantes. Portugal aprendeu a arte da diplomacia e comprovou a fragilidade ou a solidez das alianças. Participou na ascensão e calculou a queda deste ou daquele reino. Favorecendo os seus amigos de oportunidade, indirectamente gizou fronteiras e naquelas paragens marcou de forma indelével, o conceito daquilo que durante séculos foi para a generalidade dos asiáticos, o "homem branco". Para o bem e para o mal. Se o conhecimento de novos mares e novas estrelas garantiram a talassocracia de um século, atraiu também e de forma inevitável, a atenção daqueles que vindo a Lisboa para obter o seu quinhão de perfumes, sedas, porcelanas e especiarias, aqui iniciaram a aprendizagem daquilo que foi a primeira globalização. Na verdade, quando Toynbee divide a história entre a Era Pré-Gâmica e Gâmica, estabelece o marco que definiria o relacionamento entre continentes e as suas gentes.
Portugal criou empórios, viabilizou indústrias e inventou novas dependências. Articulando em favor das suas feitorias e clientes todo o comércio asiático com a longínqua Europa, consolidou dentro das suas frágeis fronteiras, o entendimento que os seus povos até então unidos pela religião e pelo sentido de comunhão de interesse com o monarca, passaram a ter de si próprios. Na consciência do seu papel na respublica christiana reconheceram a sua unidade e sem ainda o saber, tornaram-se na nação que hoje somos. Ironicamente terão sido as Índias o catalisador da verdadeira nacionalidade, ciosa da sua independência e lugar no mundo.
Decorreram séculos e os nossos adversários tomaram momentaneamente o lugar que conquistáramos. Vitória efémera e condenada a tornar-se em simples eflúvio pelo despertar dos povos que tal como fizéramos em 1179, obtiveram a sua própria independência.
As últimas décadas do século XX, conformaram as fronteiras políticas e desvanecendo-se as barreiras ideológicas da Guerra Fria, a Ásia assistiu a um impressionante período de desenvolvimento material, sofrendo simultaneamente uma influência cultural que provindo do aparentemente adversário Ocidente, moldou a realidade que hoje vivemos de forma global.
Conseguindo em 1947 a unidade política pela primeira vez na sua história milenar, a Índia dos nossos dias parece regressar ao primeiro plano no concerto internacional, formando técnicos de renome, fervilhando de actividade nas suas academias, manufacturando produtos de acordo com o mais refinado gosto europeu, ao mesmo tempo que ressurge como destino de sonhos de riqueza ou do simples e necessário lazer. A Índia oferece e vende a sua imagem de "maior democracia do planeta", apesar das gigantescas e aparentemente inultrapassáveis contradições económico-sociais que conformam a estrutura de uma "nação" que ainda está em gestação. Tal como a sua vizinha China, foi durante séculos uma simples expressão geográfica e a separação de parte do território pertencente ao antigo império britânico ajudou a moldar um Estado mais homogéneo, apesar das reconhecidas diferenças étnicas ou religiosas.
Os indianos interessam-se desde há muito pela África oriental e são os lógicos competidores dos chineses em muitas áreas, desde o mercado das matérias primas, aos clientes de produtos de exportação. Lutam pela criação de um espaço vital de interesse - os Himalaias, a Indochina, o Índico ocidental e oriental e possuindo uma respeitável marinha, servem de peão essencial no equilíbrio de forças naquela vasta área, facto que é conhecido por americanos e europeus. No entanto e sendo os interesses portugueses hoje meramente simbólicos e baseados no saudosismo de uma história passada, a relação parece dificultada pelo próprio complexo indiano relativamente à época colonial. Não tendo sido a presença imperial estrangeira mais importante, a portuguesa foi a primeira a fazer sentir a mudança na relação de forças, abrindo o caminho ao futuro domínio inglês. Aliás, o chamado "estilo colonial", é uma clara evidência da profunda influência que Portugal exerceu em muitas áreas, onde a arquitectura não será talvez a jóia menos preciosa. Os acontecimentos de 1961 são também pretexto para uma inextinguível desconfiança indiana que acaba por reconhecer sem o exprimir abertamente, o relevante legado luso naquelas paragens, desde a língua à gastronomia e mais importante que tudo, à religião que marcou extensas camadas da sua população que adoptou crenças, usos e costumes trazidos há séculos e adaptados a uma nova realidade. Não será arriscado prever neste país, mais dificuldades que aquelas a encontrar no seu vizinho do norte, mas apesar disso a Índia oferece oportunidades irrecusáveis, permitindo - paradoxalmente? - a própria modernização de importantes sectores de actividade nacional, desde a informática à medicina. A Ásia parece ser uma vez mais, a terra prometida.
Neste âmbito geográfico e após a II Guerra Mundial, a China despontava como a grande e futura superpotência regional que pela sua dimensão, situação e peso da demografia, prometia a hegemonia face a um Japão muito diminuído após 1945. O período maoísta foi ultrapassado pela praxis e realidade dos números ditados pela oportunidade económica e os chineses assistiram a um desenvolvimento industrial e urbano comparável no espaço asiático, ao experimentado pelos japoneses da era Meiji. O regime parece manter intactos os seus postulados político-ideológicos de controle totalitário da sociedade, mas é visível a radical modificação imposta pelos novos agentes económicos que inevitavelmente esbaterão aquela matriz. A China cresce e impõe-se porque é figura cimeira do nosso desejo de consumo, criando interdependências aparentemente inultrapassáveis. Vive a euforia da promessa da ascensão ao lugar cimeiro que lhe é reservado pelos seus 4.000 anos de tradição. Já anteriormente ressalvámos o intrincado puzzle étnico que conforma o velho Império do Meio, representando uma realidade muito diversa daquela que é a imagem interiorizada pelos europeus e americanos. Existem várias Chinas e sempre assim foi. Tornou-se também numa voraz consumidora de matérias primas, exercendo desta forma uma pressão por vezes intolerável sobre preços que afectam todas as outras economias. Investe em África e influencia as suas comunidades radicadas nos vizinhos asiáticos, estreitando laços e controlando importantes sectores, do comércio a grosso ou a retalho, até à indústria de extracção. Há que ter em conta que apesar das intervenções europeias, norte-americanas e japonesas iniciadas há perto de cento e vinte anos, a China jamais foi reduzida à condição de colónia. Tal como o Japão e a Tailândia, é o único país asiático que manteve a soberania e um Estado reconhecido pelos demais. É esta a grande diferença relativamente a todos os seus vizinhos mais próximos e que lhe permite a assunção de uma postura descomplexada em relação aos seus parceiros bárbaros, ou sejam, os ocidentais. Os portugueses desempenharam um evidentíssimo e inegável papel pioneiro na abertura da China ao mundo e Macau foi durante cinco séculos, a simples prova da boa vontade de Pequim, jamais outorgada voluntariamente a qualquer outra nação. A existência do Brasil como emergente colosso económico, pode ser uma preciosa ajuda aos esforços portugueses de penetração num mercado muito competitivo e em acelerado processo de modernização e de facto, a nossa língua é já a segunda - depois do inglês - com mais estudantes na universidade de Pequim. O património histórico estabelecido em muito sólidas bases de igualdade de tratamento - a memória chinesa é prodigiosa -, é susceptível de permitir parcerias em África e até na crescentemente importadora Europa comunitária. Simultaneamente parece ser nada negligenciável, a hipótese de um paulatino mas seguro crescimento da presença militar chinesa no mundo. Nos portos onde hoje atracam cargueiros de contentores, decerto poderemos visitar dentro de duas décadas o primeiro porta-aviões nuclear construído pela China, para "mostrar bandeira" e marcar a sua posição de potência mundial.
O momento que vivemos é crucial e sendo Portugal uma quase micro-economia, mais esforços deverão ser feitos para a conquista por mais ínfimo que este seja, de um espaço naqueles mercados que parecem crescer de forma descontrolada. A inércia das embaixadas povoadas de amadores de cocktails, a prática inexistência de centros culturais e a quase ausência do ICEP, reflectem uma postura baseada no muito respeitável legado quinhentista, onde as caravelas, os navegadores, comerciantes de especiarias e aventureiros em demanda da fortuna, são afinal a mensagem errada de um Portugal que se quer mais dinâmico na oferta da qualidade, do bom gosto e fornecedor de selectos nichos de mercado onde uma burguesia endinheirada rivaliza com qualquer magnata norte-americano.
A confirmar a tipicidade da tradicional incúria na previsão do futuro, esteve patente no Smithsonian uma deslumbrante exposição sobre os descobrimentos portugueses, oferecendo uma vez mais a bem conhecida imagem do Portugal de outrora. A mensagem não pode - nunca é - deixar de ser positiva naquelas paragens do Novo Mundo, mas uma iniciativa semelhante noutras pontos do globo pode ter efeitos adversos, se não for acompanhada pelos novos tesouros do consumo, como produtos industriais de qualidade, desde a roupa ao calçado e até aqueles que sendo reconhecidamente tradicionais, podem despertar o desejo dos mais abastados.
Sem uma política eficaz de coordenação de prioridades e esforços de promoção, Portugal continuará a ser apenas um extravagante eco do seu passado glorioso. E para sempre perdido.
Caravelas
Acordara bem cedo e , a cada minuto, urgia a mãe : era mister porem-se a caminho de Belém, pois que ouvira dizer que a largada seria bem cedo, e queria arranjar um lugar de onde abarcasse toda a movimentação dos homens que se faziam ao mar...
Chegaram ao Alto do Restelo quando já lá se encontrava muita gente, num bulício que denotava ansiedade. Lá em baixo, na Barra do Tejo, a azáfama era grande.
De repente, um velho que se encontrava ao seu lado começou a vociferar negros vaticínios para aquela empreitada. Assustada, apertou mais a mão da mãe, cruzou os dedos, e rezou para que ele não tivesse razão.
Chegaram ao Alto do Restelo quando já lá se encontrava muita gente, num bulício que denotava ansiedade. Lá em baixo, na Barra do Tejo, a azáfama era grande.
De repente, um velho que se encontrava ao seu lado começou a vociferar negros vaticínios para aquela empreitada. Assustada, apertou mais a mão da mãe, cruzou os dedos, e rezou para que ele não tivesse razão.
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