O nosso caro confrade Demokrata alertou-nos para um situação que demonstra mais uma vez a falta de cuidado com o património cultural e com o planeamento urbanístico da capital, desta feita denunciada pelo António Costa Amaral na Arte da Fuga.
sábado, 22 de março de 2008
sexta-feira, 21 de março de 2008
80's revisited (3) - King - Love and Pride
Paul King é uma das vozes mais facilmente reconhecíveis dos anos 80, se bem que o seu sucesso não durou muito. Durou no entanto o suficiente para após ter terminado os projectos The Reluctant Stereotypes e The Raw Screens, oferecer ao mundo o hit Love and Pride, em 1984, por intermédio de uma banda intitulada simplesmente King. De notar que o seu corte de cabelo de facto ficava-lhe bem, ao contrário de muitas variantes desse que por aí andam actualmente que em vez de catatuas (como era conhecido o corte de cabelo em causa, cockatoo em inglês), mais parecem aves raras, sem contar ainda com o estilo característico conferido pelas suas conhecidas botas Doc Martin pintadas com spray e pelo fato, em contraste com os All Star ou Vans, jeans rasgadas e t-shirts publicitárias das marcas, da maioria dos jovens, o tal look supostamente descontraído mas onde tudo é escolhido a dedo porque é "fashion", ou lá o que dizem que é. Já agora, também há uns tempos foi feita uma remistura desta música, parece-me que saiu numa daquelas compilações tipo Orbital Mix ou coisa que o valha.
80's revisited (2) - One night in Bangkok
Esta é uma música que tem uma interessante história na sua génese. Escrita por Bjorn Ulvaeus e Benny Anderson (dos ABBA) em conjunto com Tim Rice (letra), esta será a mais conhecida música retirada de Chess, um musical que teve um enorme sucesso no West End londrino entre 1986 e 1989, que não veria o mesmo sucesso na Broadway. Todo o musical, e especialmente "One night in Bangkok", é inspirado no confronto entre Bobby Fischer e Boris Spassky, na final do campeonato mundial de xadrez de 1972, disputada em Reykjavik, partida carregada de um simbolismo tal que fez o mundo parar, vista como uma disputa da Guerra-Fria, entre um soviético e um norte-americano (desde 1948 que todos os finalistas do campeonato do mundo eram soviéticos), que o recentemente falecido Fischer venceu.
A versão mais conhecida é a de Murray Head, que no entanto escusava de fazer no vídeo o chamado mate Pastor, que até um miúdo de 5 anos sabe fazer ou evitar. Ninguém que jogue regularmente xadrez se atreve a tentar fazer um mate Pastor, porventura até entendido como uma ofensa, o que até não seria de admirar da parte de Fischer, tendo em consideração o seu feitio irado que o levaria a fugir dos E.U.A., sendo posteriormente acolhido pela Islândia, o país de onde sou natural, que lhe garantiu a cidadania.
No entanto, nos E.U.A., uma cantora de nome Robey deu um ar mais dance à música, para além do vídeo bem mais atraente se tomarmos em consideração a sua interessante fisionomia curvilínea e expressiva, tendo ambas as versões sido lançadas em 1984.
Embora retire a expressividade da beleza da letra, em 2005 foi lançada uma versão pelos Vinyl Shakerz, um hit nas pistas de dança, e como com esta série pretendo mostrar como hoje em dia muitos artistas vão repescar os clássicos 80's, aí fica.
A versão mais conhecida é a de Murray Head, que no entanto escusava de fazer no vídeo o chamado mate Pastor, que até um miúdo de 5 anos sabe fazer ou evitar. Ninguém que jogue regularmente xadrez se atreve a tentar fazer um mate Pastor, porventura até entendido como uma ofensa, o que até não seria de admirar da parte de Fischer, tendo em consideração o seu feitio irado que o levaria a fugir dos E.U.A., sendo posteriormente acolhido pela Islândia, o país de onde sou natural, que lhe garantiu a cidadania.
No entanto, nos E.U.A., uma cantora de nome Robey deu um ar mais dance à música, para além do vídeo bem mais atraente se tomarmos em consideração a sua interessante fisionomia curvilínea e expressiva, tendo ambas as versões sido lançadas em 1984.
Embora retire a expressividade da beleza da letra, em 2005 foi lançada uma versão pelos Vinyl Shakerz, um hit nas pistas de dança, e como com esta série pretendo mostrar como hoje em dia muitos artistas vão repescar os clássicos 80's, aí fica.
Murray Head
Robey
Vinyl Shakerz
Robey
Vinyl Shakerz
80's revisited (1) - Nik Kershaw - Wouldn't it be good
Decidi iniciar esta rubrica com uma das minhas músicas favoritas da minha infância. Ainda me lembro de ouvir a Rádio Cidade no início dos anos 90, onde esta era uma das que mais passava. Depois de em 1983 ter lançado "I won't let the sun go down on me", seria com "Wouldn't it be good" que Nik Kershaw atingiria o número 4 no top britânico, tornando-se um sucesso por toda a Europa.
Ao vivo no Estádio de Wembley, integrado na primeira edição do Live Aid em 13 de Julho de 1985
Uma pausa na análise e comentário político
Até porque tenho imensas tarefas e ocupações que me andam a chatear a cabeça, aproveito ainda o momento providenciado pela Páscoa para uma pausa na análise e comentário político e para iniciar uma nova rubrica no Estado Sentido. É já no post acima que inicio a série "80's revisited", onde desfilarei, sem qualquer critério outro que não a minha vontade e estado de espírito, algumas das minhas músicas favoritas dos anos 80, até porque o meu gosto musical nos últimos anos tem vindo a sofrer um certo amadurecimento que me leva a preferir o Plateau ou o Tokyo ao Docks ou ao Lux, quando saio para dançar. Sem nenhuma ordem previsível ou cronológica, irei assim deixando aos caros leitores alguns dos melhores vídeos das músicas que fizeram os charts dos anos 80, muitas das quais têm sido remixadas, remasterizadas e reinterpretadas por grupos da actualidade.
P.S.: Já agora, não sei se repararam mas na coluna da esquerda estamos a começar a implementar as "labels" no blog, já iniciadas com a série "Lisboa Arruinada".
P.S.: Já agora, não sei se repararam mas na coluna da esquerda estamos a começar a implementar as "labels" no blog, já iniciadas com a série "Lisboa Arruinada".
Boa Páscoa
Independentemente do credo de cada um, o Estado Sentido deseja a todos, bloggers e leitores, uma Páscoa feliz e tranquila, e se possível, algum descanso.
quinta-feira, 20 de março de 2008
Lisboa Arruinada (23) Av. da Liberdade
Não se trata de uma imagem do galeão do "Piratas das Caraíbas". Não sei o que se passa com estes dois magníficos edifícios, mas a ruína em que presentemente se encontram na principal artéria de Lisboa, é simplesmente demonstrativo do estado a que chegámos.
Lisboa Arruinada (22) a rua Rosa Araújo
Assim vai a educação em Portugal (título roubado ao André Azevedo Alves)
Via O Insurgente e Blasfémias ficamos a conhecer este vídeo que ilustra bem como vai o ensino em Portugal, e novamente digo "Não tendo sido assim há tanto tempo a minha passagem pelo ensino básico, recordo-me de que esse tipo de medidas também vigoravam na altura. Mas com colegas que ameaçavam e batiam em professores e auxiliares, para além das constantes cenas de deliquência e conflitos com outros colegas, e que passavam o tempo a faltar às aulas, como é que se pode esperar que a instituição escolar assegure essas medidas correctivas?"
E já agora...
Para aqueles que não se recordam, aqui deixo o vídeo que esteve na origem da classificação de Alberto João Jardim como palhaço, por parte do Daniel Oliveira, o que até é um miminho, atendendo ao que se poderia dizer sobre a personagem em causa.
A respeito da condenação de Daniel Oliveira por alegada difamação de Alberto João Jardim
Limito-me a notar a palhaçada em que caiu a justiça neste país, citando o Carlos Loureiro:
Há, no mínimo, uma certa ironia no facto de um sistema jurídico que permite a alguém, pelas funções que exerce, dizer impunemente tudo o que lhe apetece (e usar amplamente de tal prerrogativa), permitir, ao mesmo tempo, decisões como esta.
Há, no mínimo, uma certa ironia no facto de um sistema jurídico que permite a alguém, pelas funções que exerce, dizer impunemente tudo o que lhe apetece (e usar amplamente de tal prerrogativa), permitir, ao mesmo tempo, decisões como esta.
Como responder a uma provocação de um brasileiro com um toque de ironia e requinte
Muitas foram as discussões que tive com brasileiros durante a minha estada em Brasília. Pelo Notas Verbais ficámos a conhecer um episódio com o Embaixador Seixas da Costa, em que alguém se valeu do cliché de que o Brasil seria um país melhor se tivesse sido colonizado por holandeses:
Olha que coisa mais linda…/ No Rio de Janeiro para participar da organização das solenidades que marcam os 200 anos da chegada da família real ao Brasil, o embaixador de Portugal, Francisco Seixas Costa (foto), foi abordado por um estudante que lhe fez uma provocação, dizendo que o Brasil seria melhor se tivesse outros colonizadores, como os holandeses. Seixas da Costa não perdeu a fleuma. Depois de sugerir ao jovem que estudasse mais a história do continente, saiu-se com esta: "Queria ver você cantar Garota de Ipanema em holandês!"
Olha que coisa mais linda…/ No Rio de Janeiro para participar da organização das solenidades que marcam os 200 anos da chegada da família real ao Brasil, o embaixador de Portugal, Francisco Seixas Costa (foto), foi abordado por um estudante que lhe fez uma provocação, dizendo que o Brasil seria melhor se tivesse outros colonizadores, como os holandeses. Seixas da Costa não perdeu a fleuma. Depois de sugerir ao jovem que estudasse mais a história do continente, saiu-se com esta: "Queria ver você cantar Garota de Ipanema em holandês!"
Hillary perde pontos
Hillary tem recorrido frequentemente ao argumento de que possui mais experiência para conduzir os desígnios norte-americanos do que o seu rival democrata, Obama, até por toda a sua carreira política. Porém o relatório de 11000 páginas sobre o seu papel como Primeira-dama parece pôr em risco a sua estratégia de argumentação em torno da sua importância decisiva em termos de política interna e externa durante os mandatos do seu marido. É uma questão de ver aqui.
A importância de Bin Laden para a ordem internacional
Numa nova mensagem audio Bin Laden veio condenar e ameaçar a Europa, fruto dos insultos que os cartoons dinamarqueses têm intentado contra o Islão. Devem os norte-americanos andar a pensar que talvez assim os europeus consigam sair do marasmo da hesitação na luta contra o terrorismo global, bem na senda do que Fukuyama considera em A Construção de Estados, a ideia europeia de um mundo pacífico, que só o é dentro das suas fronteiras, supostamente suportado pela máquina de guerra norte-americana.Esta mensagem surge numa altura em que Bush veio afirmar que o mundo é um lugar melhor graças à intervenção no Iraque, e em que vale a pena ler este artigo de Paul Craig Roberts, ex-Secretário Assistente do Tesouro da Administração Reagan, sobre o colapso do poderio norte-americano, que poderá levar a uma grande transformação na configuração do panorama internacional.
De notar ainda que Bin Laden, mais do que qualquer outro Estado, Multinacional ou Organização Internacional, tornou-se um importantíssimo actor das relações internacionais contemporâneas, até pela estabilidade que providencia. Num mundo em que as questões de segurança transbordam para áreas aparentemente tão díspares como o ambiente, os recursos energéticos ou os direitos humanos, e em que estamos num daqueles raros momentos da História em que a ordem internacional se configura através da ausência de uma dialéctica de poder, em que passou a existir uma monopolaridade e um vazio institucional ou moralmente legítimo, isto é, um Estado ou Estados e/ou uma Ideologia, Bin Laden desempenha o papel de uma entidade quase transcendente que deve pairar sobre todos nós como forma de nos limitar nas nossas acções, sendo um excelente aliado dos E.U.A. na lógica maquiavélica, napoleónica e bismarckiana de que é necessário um inimigo comum para promover a coesão interna.
Bin Laden é assim uma espécie de Big Brother orwelliano, que não se sabe muito bem se ainda existe e o que é que faz, mas que em conjunto com os E.U.A. consegue pôr um planeta inteiro a pensar, a falar, a escrever e a agir em nome da luta contra o terrorismo, em que a ideia de um inimigo invisível parece assentar que nem uma luva neste sistema internacional. Trocámos a lógica da Guerra-Fria pela lógica do Ocidente e mais alguns contra o Terrorismo fundamentalista islâmico, em que Bin Laden se tornou o melhor aliado dos E.U.A. para a manutenção do estatuto de super-potência suprema sobre todos os outros. Talvez eu esteja enganado quando recorrentemente tenho dito que a ordem mundial ainda se está a tentar definir a si própria. Talvez esteja até bem definida, pelo acima exposto.
quarta-feira, 19 de março de 2008
Rio de Janeiro, capital de Portugal
"Ele foi o único soberano da Europa que teve a firmeza e a sabedoria de fazer precisamente o que devia", disse James Ligham, acerca da decisão do príncipe Regente de retirar a Corte para o Brasil.***
Desde meados do século XVI, o Brasil surgia como uma terra da promissão, um horizonte infinito para uma expansão, que mitigada na Europa pelas contingências geográficas, políticas e demográficas, levava o reino português a procurar no além-mar, novas fronteiras propiciadoras pela aventura dos Descobrimentos. Martim Afonso de Sousa, o grande impulsionador da ampliação do domínio e da colonização lusa nas terras de Vera Cruz, foi talvez, o primeiro a vislumbrar as imensas possibilidades oferecidas pelo novel domínio, aconselhando D. João III à simples e efectiva transferência da sede da Monarquia, para a recém descoberta colónia.
Após Alcácer Quibir e reconhecendo implicitamente a primazia legal dos direitos de D. Catarina, duquesa de Bragança, à sucessão do trono, Filipe II de Espanha, parece ter considerado seriamente a entrega do domínio americano à Casa de Bragança, em troca da efectiva posse do território português na península ibérica. A Restauração de 1640, ocorreu num momento difícil de total despojamento material da nação, levando o Pde. António Vieira a preconizar a opção brasileira, garantindo a criação de um verdadeiro império, dada a extensão territorial das conquistas, a ausência de inimigos directos nas fronteiras e uma privilegiada situação no Atlântico, o novo grande palco do confronto naval pela supremacia entre as grandes potências. D. Luís da Cunha, foi outro entusiasta desta solução, procedendo a uma copiosa e exuberante enumeração das vantagens decorrentes, garantindo uma nova dimensão ao poderio português, libertado desta forma, das peias que uma situação geográfica difícil e a ausência de recursos, ditava um paulatino e inelutável declínio de Portugal como factor relevante na Europa.
No século XVIII, a instabilidade no precário equilíbrio europeu, fez eclodir guerras nas quais todo o continente se envolveu de forma directa - Guerras da Sucessão da Espanha e da Áustria e intervenção dos Bourbon espanhóis na Itália, para nos referirmos apenas aos principais conflitos -, que inevitavelmente perturbaram a já tradicional política portuguesa de não envolvimento nos conflitos continentais. Se excluirmos uma breve e quase simbólica participação da Armada portuguesa (1717) na guerra Liga cristã contra o Império Otomano, Portugal manteve-se coerentemente ausente dos campos de batalha europeus, durante mais de cinco décadas.
A indirecta intervenção na Guerra dos Sete Anos, deveu-se sobretudo, a uma tentativa bourbónica de neutralizar o importante ponto de apoio da Royal Navy na península, essencial para o controle da navegação atlântica e colonial. Considerando seriamente as hipóteses decorrentes de uma invasão das tropas do Pacto de Família, Pombal ponderou a transferência da corte e do governo - a Soberania -, para o vice-reino do Brasil, a fonte dos recursos que permitiam a existência do próprio Estado português.
A Revolução Francesa de 1789 e a posterior ascensão de Bonaparte, destruiram a velha ordem estabelecida ao longo de séculos. Preceitos, doutrinas, convenções e modus operandi universalmente aceites pela velha diplomacia europeia, volatilizaram-se diante dos disparos da artilharia, ou jazeram para sempre esmagados pelas cargas dos couraceiros franceses que arrasaram tronos, pisotearam Estados antigos e fizeram movimentar massas populacionais de uma forma jamais vista. É hoje difícil imaginarmos o espanto e a tragédia vivida por milhões, que assistiram impotentes, ao desabar de um mundo que para a imensa maioria, era o fruto de uma ordem natural ou divina.
As sucessivas tentativas da manutenção da neutralidade, encontraram no alvorecer de 1800, uma real impossibilidade de concretização. O génio militar de Napoleão e a violência dos seus ímpetos, fizeram dissipar qualquer veleidade de estabelecimento de alianças consistentes no continente, susceptíveis de permitir, pelo menos, a contenção de um expansionismo que não conhecia limites e nem sequer garantia uma razoável moderação, no sentido da criação de uma nova ordem negociada e aceite pelo conjunto dos Estados.
Os ministros portugueses - entre os quais destacamos Domingos de Sousa Coutinho, Rodrigo de Sousa Coutinho e o marquês de Alorna -, instaram com o Regente no sentido de fazer pender Portugal, para a fidelidade à já antiga aliança com a Grã-Bretanha. Conhecendo bem a dependência portuguesa do comércio além-mar e a supremacia inglesa - hegemónica após Trafalgar (1805) - nos mares, consideravam qualquer aproximação de facto à política continental napoleónica, como pressuposto para a imediata perda das possessões ultramarinas. Os ingleses não tardariam muito em proceder à ocupação ou anexação da Madeira, Açores, Goa e Macau. Eram bem conhecidas as ambições expansionistas na América do Sul que surgia como um perfeito sucedâneo das ainda recentemente perdidas Treze Colónias norte-americanas. Em "A Decadência do Ocidente", Oswald Spengler sublinha o projecto de Hobbes, que visava a conquista inglesa de todo o continente, como condição de uma efectiva hegemonia imperial.
Em 1807 e após o decretar do Bloqueio Continental, a Inglaterra encontrava-se ameaçada e sem aliados na Europa. Não parece lícito trabalhar sobre meras hipóteses. A História faz-se sobretudo, da análise dos factos e da documentação, mas também - e este aspecto tem sido ostensivamente negligenciado desde há mais de um século -, com o estudo comparado de eventos demonstrativos de tendências de políticas, situação económica e social dos Estados e doutrinas prosseguidas por estes. Desta forma, poderemos seguramente proceder a uma análise comparativa de situações ocorridas durante os conturbados anos de 1799-1807: a anexação do Piemonte e de Parma (1802), a ocupação de Viena (1805), de Berlim (1806), a anexação da Holanda e destituição da Casa de Orange (1806), a deposição dos Bourbon de Nápoles (1806) e a destruição da frota dinamarquesa e bombardeamento de Copenhaga pela armada britânica, como represália pelo alinhamento da Dinamarca com a França de Napoleão (1807).
Em Novembro de 1807, a barra do porto de Lisboa, já se encontrava bloqueada por uma poderosa frota britânica, onde os sinais de impaciência pela não clarificação da atitude do governo português - sempre confiante até ao fim na obtenção da manutenção de uma neutralidade negociada -, poderiam ter conduzido a um irreparável desenlace: a captura ou destruição da frota portuguesa e o consequente bombardeamento de Lisboa. Estas chegaram a ser opções ponderadas, no caso do prolongamento de uma já insuportável situação dúbia. Sabia-se da rápida aproximação do exército invasor de Junot e era urgente a concretização daquilo que fora acordado pela chamada Convenção Secreta luso-britânica (22 de Outubro de 1807) que indicava a transferência da família real e do governo para o Rio de Janeiro. Para os ingleses, era crucial a manutenção de um aliado no concerto dos Estados europeus, propiciador de um exemplo de sucesso face às ambições expansionistas da França.
Conhecemos bem os detalhes do embarque e ao longo de um século e meio, sobrevalorizaram-se os aspectos anedóticos que eram aliás, inevitáveis, devido às condições precárias do momento. No entanto, a alegada "fuga" - que jamais ocorreu -, faz--se de uma forma inédita em toda a História europeia: é todo um aparelho de Estado que embarca, a quase totalidade do tesouro e uma inquantificável quantidade de documentos, 60.000 livros da Biblioteca Real e bens sumptuários, enfim, uma sociedade inteira que se traslada para um território longe da rapina inimiga e que se exime também - talvez o aspecto mais relevante para a mentalidade da época -, ao vexame da capitulação. Seria bastante útil, procedermos ao completo levantamento e apreciação da reacção da ainda incipiente opinião pública dos diversos países europeus que, naquele momento de todas as incertezas e temores, decerto vislumbrou o bruxelear da chama de uma resistência à prepotência, latrocínio e violência a que os povos estavam submetidos. Foi na verdade, a primeira vez que Bonaparte não venceu e disso deu testemunho nas suas Memórias.
Muito mais tarde, decorridos cento e trinta anos, outros governos e soberanias imitariam, de uma forma ainda mais apressada e sobretudo, menos digna, o exemplo dado pelo Regente D. João, encontrando novos portos de abrigo onde se eximiram aos ditames do vencedor do momento. A rainha Guilhermina da Holanda e os reis Haakon, Pedro II e Jorge II da Noruega, Jugoslávia e Grécia, respectivamente, puderam organizar a resistência nacional à invasão nazi. A derrota militar foi apenas uma batalha perdida e possibilitaram com essas "fugas", o forjar de armas e exércitos que desafrontaram as suas nações. O Armistício francês de Junho de 1940, foi prenhe de consequências nefastas, das quais a França jamais se libertou e podemos legitimamente imaginar, como teria evoluído a II Guerra Mundial, no caso do governo francês não ter ido à Canossa indicada pela vencedora Wehrmacht.
Podemos apenas imaginar o que teria sucedido se Junot tivesse conseguido executar as ordens recebidas das mãos do seu imperador. O Regente e toda a sua família, conheceriam o mesmo destino dos Bourbon de Espanha, partindo coactos para um incerto exílio em França, onde uma abdicação era a hipótese mais provável. O Brasil tal como hoje o conhecemos, jamais existiria na sua grandeza territorial e talvez, até na sua estrutura e multiplicidade étnica. As ilhas atlânticas, seriam hoje, possíveis territórios da coroa britânica, à semelhança de Gibraltar. Embora a derrota final de Napoleão fosse inevitável - dada a relação de forças em presença e a hegemonia inglesa nos mares -, é lícito questionar, se Portugal não teria um destino semelhante ao da Noruega, Finlândia ou Polónia, que no Congresso de Viena, foram sacrificadas às razões do equilíbrio de poder na Europa e à política de simplificação do mapa e de compensações.
Pelo contrário, a declaração de guerra à França - assinada já pelo Regente na sua nova capital além-mar -, possibilitou a manutenção da legitimidade e existência do Estado como entidade soberana. O levantamento nacional, a organização de um exército que foi um instrumento precioso sob o comando de Wellington, garantiram a presença de Portugal na Grande Mesa do Congresso, ao lado da Inglaterra, Rússia, Áustria, Prússia, França e Espanha. Foi talvez, o momento áureo da velha aliança luso-britânica e do efectivo nascimento do Brasil como nação internacionalmente reconhecida, com o nome de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.
O Regente D. João prestou um grande serviço ao país, e ao fazê-lo, criou uma segunda uma segunda Pátria que é também de todos nós. O Brasil, como diz aquele bem conhecido Fado Tropical, talvez ainda se ..."vai tornar num imenso Portugal"... É esta a nossa garantia de sobrevivência como cultura, língua e destino, que são ímpares na Europa. No passado sábado, estava - sei eu lá porquê? - hasteada uma bandeira brasileira na grande varanda do Palácio de S. Bento. Naquele momento de passeio por Lisboa, recordei agradecido, a decisão tomada numa hora de grande comoção nacional. Se pudesse ter visto a fachada do Parlamento, D. João VI teria sorrido com bonomia. A prudência e a memória eram duas das suas grandes qualidades. Saibamos aproveitar o precioso legado.
Adenda:
"When in August 1807 Napoleon issued an ultimatum to Dom João, Prince Regent of Portugal, that he must close his ports to English ships and bring Portugal into the Continental System aimed at destroying Britain's trade with Europe, or else face the consequences of a French invasion, Canning pressured Dom João into rejecting the ultimatum. He was able to do this by threatening on the one hand to destroy the Portuguese fleet in the Tagus (as he had already destroyed the Danish fleet at Copenhagen) and seize Portugal's colonies if Dom João gave way, while promising on the other to renew Britain's existing obligations to defend the House of Braganza and its dominions against external attack if he stood firm. At the same time by a Secret Convention signed in October it was agreed that if Napoleon made it necessary the Portuguese court would withdraw temporarily with the Portuguese fleet to the Portuguese colony of Brazil. And when in November the French advanced on Lisbon the Portuguese court and administration did indeed seek refuge in Brazil, escorted across the Atlantic by four ships of the British navy.
In promoting and facilitating the transfer of the Portuguese court to Brazil, Canning was, of course, pursuing Britain's own interests, strategic (to keep the Portuguese fleet out of Napoleon's hands) - and commercial. Part of the price of British protection was to be the opening up of Brazil to direct British trade at a critical time: British goods were being excluded from Europe and were threatened with exclusion from North America. Brazil was itself potentially an important market. It was also a convenient back door to Spanish America. One of Dom João's first acts on arrival in Brazil in January 1808 was to open Brazilian ports to the trade of all friendly nations, which in practice meant British trade. It has been estimated that the total value of all British goods exported to Brazil in 1808 amounted to over £2 million - a figure not equalled for ten years.
The arrival of the Portuguese court had a profound effect on Brazil. Not only was the Portuguese colonial monopoly of trade ended, which represented a kind of economic independence, but Brazil also achieved a measure of political autonomy. Brazil was governed now from Rio de Janeiro not Lisbon and in December 1815 was elevated to the status of a kingdom equal with Portugal. Brazil, in other words, was no longer strictly a colony. The evolution of Brazil towards independence and the development of Brazilian self-consciousness were greatly accelerated. In so far as the transfer of the court had been essentially "a skilful manoeuvre of British diplomacy" Canning - as well as Napoleon - was indirectly responsible for these developments."
in Canning House History
"When in August 1807 Napoleon issued an ultimatum to Dom João, Prince Regent of Portugal, that he must close his ports to English ships and bring Portugal into the Continental System aimed at destroying Britain's trade with Europe, or else face the consequences of a French invasion, Canning pressured Dom João into rejecting the ultimatum. He was able to do this by threatening on the one hand to destroy the Portuguese fleet in the Tagus (as he had already destroyed the Danish fleet at Copenhagen) and seize Portugal's colonies if Dom João gave way, while promising on the other to renew Britain's existing obligations to defend the House of Braganza and its dominions against external attack if he stood firm. At the same time by a Secret Convention signed in October it was agreed that if Napoleon made it necessary the Portuguese court would withdraw temporarily with the Portuguese fleet to the Portuguese colony of Brazil. And when in November the French advanced on Lisbon the Portuguese court and administration did indeed seek refuge in Brazil, escorted across the Atlantic by four ships of the British navy.
In promoting and facilitating the transfer of the Portuguese court to Brazil, Canning was, of course, pursuing Britain's own interests, strategic (to keep the Portuguese fleet out of Napoleon's hands) - and commercial. Part of the price of British protection was to be the opening up of Brazil to direct British trade at a critical time: British goods were being excluded from Europe and were threatened with exclusion from North America. Brazil was itself potentially an important market. It was also a convenient back door to Spanish America. One of Dom João's first acts on arrival in Brazil in January 1808 was to open Brazilian ports to the trade of all friendly nations, which in practice meant British trade. It has been estimated that the total value of all British goods exported to Brazil in 1808 amounted to over £2 million - a figure not equalled for ten years.
The arrival of the Portuguese court had a profound effect on Brazil. Not only was the Portuguese colonial monopoly of trade ended, which represented a kind of economic independence, but Brazil also achieved a measure of political autonomy. Brazil was governed now from Rio de Janeiro not Lisbon and in December 1815 was elevated to the status of a kingdom equal with Portugal. Brazil, in other words, was no longer strictly a colony. The evolution of Brazil towards independence and the development of Brazilian self-consciousness were greatly accelerated. In so far as the transfer of the court had been essentially "a skilful manoeuvre of British diplomacy" Canning - as well as Napoleon - was indirectly responsible for these developments."
in Canning House History
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Nesta pequena aldeia chamada Terra
(Torre de Babel por Pieter Brueghel, tirada daqui)
Enquanto num acto simbólico e inédito, a chanceler alemã, Angela Merkel, discursou no Knesset, criticando o Irão e reforçando o apoio a Israel quanto ao conflito israelo-palestiniano, já o Comandante da NATO teme pelos soldados em missão no Afeganistão após o anúncio da intenção de um deputado holandês de divulgar um filme de cerca de 15 minutos onde critica o Corão, a que o presidente egípicio, Hosni Mubarak, reagiu dizendo que os insultos ao profeta Maomé trazem inconvenientes a todos.Do outro lado do mundo, num liceu no Illinois, um estudante de origem iraniana pretende processar a escola que frequenta depois de uma professora e vários colegas o terem descriminado, insinuando que cabe no estereótipo típico de um terrorista e, nesse mesmo país, o Pentágono revela um plano para melhorar a imagem dos E.U.A. no mundo e garantir uma ordem mundial mais pacífica, que em conjunto com as declarações do Ministro dos Negócios Estrangeiros Iraquiano de que uma rápida retirada das tropas norte-americanas seria catastrófica e de consequências desastrosas, pressiona no sentido de que as questões do Afeganistão e Iraque se tornem centrais na agenda dos candidatos presidenciais norte-americanos.
Nesta era da globalização, da chamada aldeia global, da revolução científica e tecnológica, onde a ordem mundial ainda se está a tentar definir, é cada vez mais evidente que Fukuyama não tinha razão em proclamar o Fim da História quanto às democracias liberais, pelo menos tão cedo quanto previa, e que o tão criticado Choque de Civilizações de Huntington vai sendo cada vez mais acertado.
Nesta espécie de sistema de estados ou sociedade internacional, onde muitos tentam puxar no sentido de uma kantiana comunidade internacional partilhada, o sistema tornou-se global e deixou de ter um ambiente externo para onde possa exportar os problemas que não consegue resolver, o que advém da transversalização da economia mundial e dos avanços tecnológicos que acentuaram de sobremaneira as interdependências.
Nesta pequena aldeia chamada Terra onde não nos conseguimos entender a nós mesmos nem lidar com os outros, onde questões de etnia, raça, religião, língua, cultura, mais se apresentam como causas da divisão e choque entre indivíduos e nações, nesta Torre de Babel onde todos fomos divididos para que não nos possamos entender, ainda não conseguimos sequer encontrar uma solução pacífica para a paz e desenvolvimento mundial, e no entanto preocupamo-nos com formas de vida alienígena e viagens ao espaço, talvez porque seja esse o próximo ambiente externo para onde poderemos exportar os problemas que não conseguimos resolver, ou porque talvez algures possamos começar uma nova Humanidade sem os vícios e problemas da actual.
O que é certo é que temos viver aqui e agora nesta pequena aldeia chamada Terra, onde a Teoria do Caos de que uma borboleta bate asas em Nova Iorque, Washington, Bruxelas, Pequim, Londres, Paris, Moscovo e logo levanta uma tempestade em qualquer canto do planeta, cada vez mais se me apresenta como a mais viável para explicar o mundo em que vivemos, nesta quotidiana verificação do que Jung verbalizou na ideia de que em todo o caos existe um cosmos e em toda a desordem há uma ordem.
Faleceu Sir Arthur C. Clarke
O autor de "The Sentinel" que viria a ser adaptado para cinema sob o título "2001: Odisseia na Espaço", em conjunto com Stanley Kubrick, escritor, cientista, e até futurologista, que foi o primeiro a introduzir o conceito de órbitas geo-estacionárias e satélites de comunicações, serviu na Royal Air Force durante a II Guerra Mundial e seria armado cavaleiro em 1998, faleceu aos 90 anos.terça-feira, 18 de março de 2008
O Sentido de Estado de Churchill
A propósito da relação entre a arquitectura e o poder o António Luís Vicente deixa-nos esta belíssima citação de Winston Churchill, um grande estadista na verdadeira acepção da palavra, a propósito da reconstrução do parlamento após a sua destruição parcial na II Guerra Mundial:
There are two main characteristics of the House of Commons which will command the approval and the support of reflective and experienced Members. The first is that its shape should be oblong and not semicircular. Here is a very potent factor in our political life. The semicircular assembly, which appeals to political theorists, enables every individual or every group to move round the centre, adopting various shades of pink according as the weather changes. (…) The party system is much favoured by the oblong form of chamber. It is easy for an individual to move through those insensible gradations from left to right, but the act of crossing the Floor is one which requires serious attention. I am well informed on this matter for I have accomplished that difficult process, not only once, but twice.
On the rebuilding of the House of Commons after a bomb blast. The Second World War, Volume V : Closing the Ring (1951) Chapter 9
On the rebuilding of the House of Commons after a bomb blast. The Second World War, Volume V : Closing the Ring (1951) Chapter 9
Bélgica vai finalmente ter governo
Au terme de neuf mois d'une crise politique profonde, la Belgique va enfin se doter, cette semaine, d'un gouvernement définitif. Mardi 18 mars à l'aube, les cinq partis de la future coalition – deux formations flamandes et trois francophones, allant des libéraux aux socialistes – ont approuvé un programme d'action commun. Cet accord lève le dernier obstacle à l'entrée en fonction, au poste de premier ministre, du chrétien-démocrate flamand Yves Leterme.
9 meses e meio depois do início da crise política, onde para regozijo de muitos, anarcas e liberais, se provou que não necessariamente a falta de um governo é causa de uma qualquer crise social ou económica, falta agora ver se também os belgas nos darão uma lição de governação com este governo mesclado, ou se se provará mais uma vez que as coligações demasiado diversificadas não funcionam. É uma questão de aguardar.
9 meses e meio depois do início da crise política, onde para regozijo de muitos, anarcas e liberais, se provou que não necessariamente a falta de um governo é causa de uma qualquer crise social ou económica, falta agora ver se também os belgas nos darão uma lição de governação com este governo mesclado, ou se se provará mais uma vez que as coligações demasiado diversificadas não funcionam. É uma questão de aguardar.
Para o Nuno
No seguimento do teu post sobre a Dusty, e depois do Miguel ter utilizado esta música num post, aqui fica o vídeo:
Uma questão de maturidade
Estive ontem no Parque das Nações durante a tarde, a acompanhar a minha irmã Sofia, que conta actualmente com 15 primaveras, até ao Pavilhão Atlântico, onde ia assistir ao concerto dos Tokyo Hotel. Note-se, de passagem, que me pareceu ser das adolescentes mais "normais" (se é que alguém pode definir o que é a normalidade) que por ali andava, sem nenhum piercing, pinturas, roupas pseudo-góticas, cartazes ou histerismos. Ligou-me mais tarde o meu padrasto a dizer que o concerto havia sido adiado. Conversa de hoje com a minha irmã no Messenger:
Samuel - Então também choraste muito ontem?
Sofia - Eu? Para quê? Eles vêm outra vez no dia 29 de Junho.
Samuel - Mas aquilo era só miúdas a chorar.
Sofia - Pois nem sei porquê, ainda por cima vi miúdas de vinte e tal anos a chorar.
Samuel - Então também choraste muito ontem?
Sofia - Eu? Para quê? Eles vêm outra vez no dia 29 de Junho.
Samuel - Mas aquilo era só miúdas a chorar.
Sofia - Pois nem sei porquê, ainda por cima vi miúdas de vinte e tal anos a chorar.
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