quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Demagogia

Estou a assistir ao debate entre a oposição e o governo na Assembleia da República. Sinto-me com vergonha desta gente que supostamente manda neste país. Podiam enforcar-se todos como o ministro da agricultura japonês fez há um ano ou dois, posta que estava em causa a sua honra ao ver-se envolvido num escândalo de desvio de dinheiros. Não se perdia nada. Se não quiserem também há outras soluções, podem sempre perder a cabeça...na guilhotina.

Se o Obama não se põe a pau...

...quem ainda ganha as eleições é este miúdo (via Anarca Constipado, Mar Salgado e Pastoral Portuguesa):

Garcia Leandro volta à carga

Desta feita numa entrevista ao Correio da Manhã, da qual fiquei a saber via Andarilho, não só volta a afirmar o perigo eminente de explosão ou implosão social em Portugal dizendo que:

"Há um grupo, uma elite dominante que controla a componente político-partidária e económica que vive noutro País e com rendimentos, benefícios e mordomias que não têm nada a ver com a grande maioria da população."

Como ainda tem esta tirada:

"O engenheiro Sócrates é claramente de uma área social-democrata. Está a fazer as reformas que são necessárias pelo enquadramento internacional e para que Portugal se possa reafirmar no quadro da União Europeia. É muita coisa ao mesmo, com a violência mundial e com a situação financeira completamente desregulada. Mas essa parte mais à direita do PS com a parte mais à esquerda do PSD é que seria o partido social-democrata. E a parte mais à direita do PSD, com o doutor Santana Lopes e outras pessoas conhecidas, com o CDS era claramente o partido liberal. Eu diria que ideologicamente estariam certos. Mas não sei se conseguem fazer isso, se conseguem mexer no quadro partidário."

Chapeau. Cada vez mais me sinto compelido a juntar-me às Forças Armadas. Talvez consiga organizar uma revoluçãozita ou coisa assim...assim à laia de 28 de Maio porque este país de gente que "não se governa nem se deixa governar" só merece mesmo um paizinho que trate da Nação em prol dos "valores mais altos que se alevantam".

Explosão ou implosão, o que me parece é que se analisarmos o Estado como um sistema poderíamos fazer assim uma espécie de analogia com um sistema informático. Portugal tem capacidade para ser um MacOSx ou um Linux. Mas como a maioria e a mediocridade triunfa sobre a minoria esclarecida e competente, somos um Windows. Assim um Windows 95 cheio de incongruências e incoerências...E já que o reboot há muito deixou de funcionar, talvez um format e uma instalação nova fosse interessante.

Sugestões de leitura

Corrupção sistémica

Dizia eu no post anterior que a corrupção serve de base à passagem do estado natureza para o estado social por via contratualista, sendo por isso esse fenómeno típico do ser humano. Lembrei-me que já tinha lido há uns anos algo do género. Fui ali tirar da prateleira "A Grande Mentira - Ensaio sobre a Ideologia e o Estado" do Professor António de Sousa Lara, e aqui deixo parte do último capítulo intitulado "A fraude e a corrupção: sistema ou subversão?":

"Enquanto o terrorismo, em qualquer das suas variantes, é sempre uma prática de natureza subversiva, os restantes crimes e violações do Direito e da Moral, porque não dizê-lo também, não revestem necessariamente essa natureza. Não que não tenham efeitos perversos sobre as finanças públicas, o serviço público, entendido de uma forma genérica e ideal, a democracia política, a Liberdade, ou, sendo mais preciso, sobre os direitos liberdades e garantias dos cidadãos, a justiça social, fiscal e económica, e portanto contra a própria justificação do Estado, traduzida nos seus fins clássicos de defesa, de segurança, de justiça e de bem-estar económico e social. Mas esta questão deve pôr-se na mesma: serão estas práticas sistémicas ou subversivas?

A minha resposta opta pela primeira proposta, ou seja, que estas práticas ilícitas, ilegais e imorais nasceram com o próprio Estado, desenvolveram-se no Estado liberal e expandiram-se de forma exponencial com a internacionalização da economia nos séculos XIX e XX, sobretudo depois da Segunda Grande Guerra Mundial e, de uma forma ainda mais avassaladora e acelerada, a partir da crucial década de 80 do século passado. Diria até mais: se avaliarmos os efeitos colaterais de algumas destas práticas, mormente de lavagem de dinheiro e do branqueamento de capitais e os réditos produzidos pelos tráficos de armamento, de minerais, de drogas, de tabaco, de álcool, só para citar alguns dos casos, chegaremos à conclusão de que, apesar de defraudarem enormemente os Estados e as administrações públicas em direitos tributários de natureza fiscal e aduaneira, acabam por produzir efeitos de manutenção e desenvolvimento do próprio sistema capitalista e liberal, ao final do processo do branqueamento, com o investimento dos rendimentos produzidos em acções e empresas de natureza legal, geradoras de postos de trabalho, de impostos, estes efectivamente cobrados, fazendo aquecer ou desenvolver a própria Economia, gerando um conjunto de efeitos que são essenciais à manutenção, ao desenvolvimento e ao progresso da própria sociedade liberal e capitalista. Ou seja, não só não têm natureza subversiva, tendo em conta os conceitos e as noções que desenvolvi sobre o tema, designadamente em "A Subversão do Estado", já citada, como têm ainda, por paradoxo e para lá dos julgamentos éticos e jurídicos possíveis, o efeito de sustentação e de promoção do próprio sistema. Daí resulta, sem dúvida, uma das grandes dificuldades que se põem ao poder judicial, à investigação criminal, ao aparelho judiciário, em suma: a erradicação de práticas que têm efeitos funcionais e sistémicos mas que são de natureza perversa e imoral, para lá da própria ilegalidade já referida. E esta funcionalidade é de tal modo verdadeira, que, em muitas das situações, mais ou menos graves, se instalou, em muitos países ditos democráticos e liberais, uma tolerância quase que consuetudinária, relativamente a certas práticas usuais.

A omissão é uma forma de expressão ideológica. Quando ela se instala em termos culturais, representa uma ideologia dominante."

Touché.

Notas Soltas

Há já uns dias que tenho andado um pouco desaparecido das lides blogueiras. Agora que me habituei a diariamente ler imensos blogs da coluna ali do lado, e a estar actualizado quase em tempo real, sinto um certo incómodo quando não estou up to date.

Não é por isso que o Estado Sentido tem deixado de ter actividade, muito pelo contrário, só me posso congratular por os outros membros do blog o dinamizarem cada vez mais, pelo que aqui fica um sentido agradecimento aos meus colegas e amigos e a todos os leitores que têm acorrido a este espaço cada vez mais lido na blogosfera. Que assim possamos continuar a atrair cada vez mais leitores.

Antes de comentar acontecimentos mais recentes tenho aqui umas notas soltas sobre uns temas de há uns dias.

1 - O Arcebispo da Cantuária afirmou que a introdução da Sharia é inevitável para garantir a coesão social, enquanto o parlamento turco decidiu aprovar o uso do véu islâmico nas universidades. Novamente reafirmo, cada vez mais dou razão a Huntington, as divisões/uniões fomentadas pela religião e/ou cultura são cada vez mais evidentes nesta sociedade global em permanente conflito de interesses. Se no primeiro caso, um símbolo religioso da maior importância no Reino Unido tem a percepção que certas pressões sociais são cada vez mais prementes, no segundo caso, a Turquia dá passos na direcção oposta à União Europeia, não sendo difícil de imaginar o rejúbilo do Quai d'Orsay ao tomar conhecimento desta decisão que traz de bandeja ao discurso francês argumentos para fundamentar a oposição à entrada do país na União Europeia.

2 - O Secretário da Defesa dos EUA, Robert Gates, afirmou que uma derrota no Afeganistão ameaça directamente a Europa. Sendo uma tentativa declarada da actual administração norte-americana (já agora, porque é que ultimamente muita gente tem utilizado a expressão abrasileirada "estadudinense" em vez de "norte-americana"? Acho que o Acordo Ortográfico não implica modificações a esse ponto. Repito, acho.) de convencer os europeus a incrementar a despesa com esta operação, seria muito mais interessante ouvir o que os candidatos à Presidência têm a dizer sobre este assunto. Talvez até já tenham dito alguma coisa, mas eu não dei por isso, pelo que se algum leitor souber pode deixar aí um comentário.

3 - Parece que Manuel Alegre institucionalizou uma espécie de facção divergente da oficial dentro do PS. Gosto disto. Faz-me lembrar as divergências entre os membros do Partido Republicano Português, que originaram os Democráticos, os Evolucionistas e os Unionistas.

4 - Estou neste momento a assistir à repetição do Prós & Contras na RTP N. Acabo de ouvir um professor, António Hespanha, a dizer que na sua faculdade funcionários administrativos lançam notas de alunos que não fizeram exames, referindo-se ainda ao forte sentimento corporativo das universidades. Do outro lado tentam colocar água na fervura. Paulo Morais foi a única nota digna de registo, pragmático e incisivo. Se alguém estiver interessado também sei umas quantas histórias engraçadas a nível de corrupção nas faculdades.

Pessoas de Direito a discutir o fenómeno da corrupção parece-me algo contraproducente. A meu ver, existem duas grandes formas de as pessoas de Direito encararem esta questão: a pragmática que leva à manipulação dentro do sistema e à banalização da corrupção, e aquela dos que não querem ver que esse fenómeno existe. Não tenho nada contra as pessoas de Direito, mas parece-me que muitos sofrem de um certo autismo e falta de percepção do que um professor de Brasília chama de "forças profundas" da sociedade. É por isso que o Direito se dedica ao dever ser enquanto a ciência política estuda aquilo que efectivamente é. Mas, continuando, o exacerbar da discussão em torno do fenómeno da corrupção que tem acontecido um pouco por todo o lado, especialmente na imprensa e na blogosfera, começa a parecer algo ineficiente. Relembro o que um congressista norte-americano diz numa película fantástica que vivamente aconselho, Syriana, que na falta do DVD, retirei daqui:

"Corruption? Corruption ain't nothing more than government intrusion into market efficiencies in the form of regulation. That's Milton Friedman. He got a goddamn Nobel Prize. We have laws against it precisely so we can get away with it. Corruption is our protection. Corruption is what keeps us safe and warm. Corruption is why you and I are prancing around here instead of fighting each other for scraps of meat out in the streets. Corruption is why we win."

A profundidade desta deixa não pode passar despercebida. Tal como referia, o Direito dedica-se ao que deve ser para que possa precisamente justificar o que é. Por outro lado, na senda da famosa frase de Montesquieu de que "todo o índividuo investido de poder é tentado a abusar dele" penso ser apropriada a assumpção de Schumpeter de que o homem ao entrar no domínio da política perde grande parte da sua capacidade racional, tornando-se eminentemente um ser associativo que funciona por interesses. Analisando isto à luz dos ensinamentos aristotélicos, tendo em especial consideração que "o homem é um animal político por natureza", então logicamente se concluirá que a passagem do estado de natureza para o estado social por via contratualista implicará sempre uma base de corrupção, especialmente quando se trata dos povos latinos possuidores de uma tendência inata para a corrupção, que no caso português começa ao mais baixo nível com a chico-espertice que não é alheia aos que ao mais alto nível se imiscuem de dar o exemplo, apesar de muitos terem bonitos e até épicos discursos contra a corrupção.

Sempre foi assim, e profeticamente arrisco que sempre o será.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Futebóis e nabices

Nunca entrei num estádio de futebol, nem mesmo no Estádio Nacional. Não sou sócio de qualquer clube desportivo, nem prescindo de uma boa conversa ou de um passeio, para ficar colado ao ecrã de um televisor, de assistência a um qualquer desafio interclubístico do chamado desporto rei. No entanto, padeço daquele mal anacrónico e talvez irracional, a que se dá o nome de orgulho nacional. Não perco um só desafio televisionado da selecção nacional de futebol, emociono-me, por vezes sofro uns minutos com a decepção e felizmente, regozijo-me bastas vezes com o sucesso.

Neste país de tão escassos recursos, o futebol atingiu proporções inauditas, parecendo vivermos em função deste ou daquele jogo mata-mata, ou do talento ou azar de um ou outro menino de ouro. Além do mérito desportivo nas competições internacionais, o futebol português é um inegável veículo de promoção e de prestígio. Desta forma, algumas declarações recentemente proferidas pelo presidente dos republicanos, são apenas passíveis de um encolher de ombros pelos despreocupados, ou de surpresa, pelos aficcionados. É que o argumento utilizado, não prima pela coerência, uma vez que implicitamente se alegam dificuldades financeiras a que há muito nos habituámos e a outras "prioridades a que o país deve atender". É falar muito e dizer nada.

Muito se criticou ao longo de anos, a decisão de construir os estádios de futebol destinados ao Euro 2004. Existem, é tudo. Se excluirmos os três que pertencem ao Sporting, Benfica e Porto, os outros têm uma ocupação efectiva muito abaixo da sua capacidade de acolhimento. Assim, a hipótese de realização, em parceria com a Espanha, de um Mundial no nosso país, deve ser seriamente ponderada. É que se não é séria uma imediata e entusiástica aceitação da candidatura, é igualmente demagógica e profundamente imbecil, uma automática rejeição da possibilidade. Temos as infraestruturas, ou pelo menos, grande parte daquelas que seriam necessárias. Temos necessidade de viabilizar negócios, de atrair a atenção do mundo, de cativar novos mercados de penetração dos agentes turísticos portugueses.

Não reconheço qualquer legitimidade à actual posição presidencial. É pura demagogia. É eleiçoarismo chão. É a vertigem do viver ao sabor e mercê das sondagens semanais do Expresso/Sol.

O prof. Cavaco Silva, foi primeiro ministro durante quase dez anos, Durante o seu mandato, "viu-se obra", é certo. Temos uma densíssima rede de autoestradas, quando por reflexo, a Irlanda quase não as possui. Por vezes, torna-se necessário uma curta viagem à memória do passado ainda muito recente, para facilmente verificarmos as catastróficas políticas despesistas prosseguidas por moralistas de hoje. É que ninguém pode esquecer os milhões de fundos destinados à formação profissional que em teoria, dotou Portugal de regimentos de imprescindíveis cabeleireiras, manicures e massagistas, quando os irlandeses decerto os esbanjavam na formação de programadores informáticos, mecânicos, electricistas, etc. O presidente dos republicanos parece ter memória curta, mas podemos sucintamente avivá-la com uns poucos exemplos:

A faraónica Expo 98, tão entusiásticamente apresentada durante anos, como símbolo de ressurgimento nacional; o ciclópico Centro Cultural de Belém, cujas derrapagens orçamentais introduziram o termo no nosso léxico quotidiano e cuja utilidade, é por fim viabilizada, através de um "empréstimo" à Colecção Berardo (em boa hora ). A Ponte Vasco da Gama, obra de inegável utilidade, mas cuja exploração - aliás anexada à ponte 25 de Abril - é motivo de controvérsia no que respeita à defesa do interesses do Estado; uma infindável lista de prebendas atribuídas pelo chamado fundo de coesão, criadoras de empresas fantasma e talvez, da maciça introdução do jeepismo no nosso país. Se a tudo isto juntarmos a loucura dos desperdícios autárquicos e regionais e a total ausência de fiscalização e implementação de reformas e modernização do tecido empresarial privado e do Estado, o panorama não parece remeter-nos para a época dourada implícita nas palavras do venerando. Quem não se lembra do ansioso aguardar das manchetes do Independente? Isso diz alguma coisa ao senhor presidente? Quem não se lembra da total insensibilidade às carências mais imediatas de largas franjas da população que tiveram de se habituar às cargas policiais e à indiferença dos Donos da nação? A lista é longa, enfadonha e deprimente.

Se o presidente dos republicanos a esqueceu, há quem se lembre e até estes, lhe poderão oferecer o benefício da dúvida, ainda que por uns meros segundos. Conhecendo as engrenagens e o móbil fundamental do funcionamento do sistema, o aproveitamento do "direito à indignação" - frequentemente utilizado por Mário Soares contra o seu próprio primeiro ministro Aníbal Cavaco Silva -, torna-se extemporâneo, ridículo e patético.

Antes de se tomarem decisões, deverão ser minuciosamente avaliados os benefícios e os prejuízos a elas inerentes. Tudo o resto, é mero folclore mediático da república portuguesa. Portugal merece melhor.

Desabafo

Tinha muita coisa para dizer, mas não vou correr o risco de o fazer. De qualquer forma, é só para alguém ficar a saber que eu ando uma escola que, afinal, não é de ciências políticas, é de vida.

Eu vou andar nessa escola até Julho. E depois não volto mais.

Merda.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Palavras de Eça, premonitórias de tempos que aí virão.

" E depois, nem tudo são tristezas: também temos as nossas festas! E para as festas tudo nos serve: o 1º de Dezembro, a outorga da Carta, o 24 de Julho, qualquer coisa contanto que celebre uma data nacional. Não em público - ainda não podemos fazer -, mas cada um em sua casa, à sua mesa. N'esses dias colocam-se mais flores nos vasos, decora-se o lustre com verduras, põe-se em evidência a linda e velha Bandeira, as Quinas de que sorrimos e que hoje nos enternecem - e depois, todos em família, cantamos em surdina, para não chamar a attenção dos espias, o velho hymno, O Himno da carta ... E faz-se uma grande saúde a um futuro melhor!"

Eça de Queiroz, A Catástrofe

TIMOR-LESTE: o tempo das dúvidas

Os acontecimentos da última madrugada, vieram confirmar as dúvidas internacionais, acerca da viabilidade do novo Estado criado sob os auspícios das Nações Unidas.

As tradicionais disputas tribais que durante décadas pareceram desvanecer-se devido à presença portuguesa, regressaram com inaudita violência, que sucessora da guerrilha contra a ocupação indonésia, possui características muito próprias. É que hoje, o móbil do conflito é de difícil classificação, não se enquadrando no quadro da sublevação armada de cariz ideológico - ou de luta contra uma potência estrangeira -, nem de revolta das populações contra um regime opressor.

A república de Timor-Leste, foi criada do nada, do vazio deixado por duas potências coloniais. A primeira delas, Portugal, pela introdução e posterior consolidação do elemento religioso, deu consistência ao aglomerado tribal que pelo catolicismo, divergia claramente do conjunto muçulmano envolvente. O triste abandono das responsabilidades por parte das autoridades de Lisboa (1975), exactamente numa das fases mais agudas do conflito este-oeste, tornou inevitável a intervenção armada da Indonésia, que desrespeitando o que era convencionado tacitamente pela ONU , ocupou e anexou o território.

Os anos de Timor como província da república da Indonésia, logicamente não criaram as condições para a construção de estruturas que viabilizassem uma futura independência. Desta forma, o autêntico vazio de poder, só pode ser colmatado, pela presença de forças estrangeiras que garantam a segurança mínima da população, dos bens e da própria autoridade político-administrativa. É aquilo a que de forma simplista poderemos chamar de "Estado em construção".

Os preconceitos decorrentes da nova realidade internacional pós-1945, impossibilitaram no ano do referendo para a autodeterminação, a terceira pergunta que era necessário colocar nos boletins de voto. Pergunta que aliás, estaria na mente da maioria dos timorenses, ou seja, uma forma de união política à antiga potência colonial. Portugal decerto tem capacidade para uma mais estreita colaboração na organização da administração pública do território e na formação de quadros, desde as forças armadas, ao ensino e saúde.

No entanto, a segurança deveria continuar a ser garantida por forças destacadas pelas Nações Unidas, ao mesmo tempo que as F.A.P. re-orientariam os recursos hoje disponíveis noutros cenários de intervenção. O aparente desinteresse internacional por tudo aquilo a que quase semanalmente assistimos através dos noticiários, não é susceptível de augurar um futuro tranquilizador. A própria disputa acerca das riquezas naturais timorenses, está longe do seu epílogo e de um acordo definitivo entre as partes interessadas (Austrália, Indonésia e Timor).

Um último factor não negligenciável, será a ameaça de desestabilização das zonas vizinhas, isto é, de Timor ocidental e de outras ilhas do arquipélago indonésio. As ambições locais de maior autonomia e até de independência, poderão levar a uma segunda intervenção dos sectores militares, que em Jacarta, decerto não tolerarão qualquer outra secessão do conjunto herdado do antigo império holandês.

Efeméride - Henrique de Paiva Couceiro

Em 11 de Fevereiro de 1944 faleceu o último grande revolucionário monárquico, Henrique de Paiva Couceiro, que comandou a incursão monárquica de 1911, participou na de 1912, e proclamaria a chamada Monarquia do Norte em 1919.

Atentado a Ramos Horta


Ainda não se sabem mais pormenores sobre o seu estado de saúde, uma vez que este ataque sucedeu à poucas horas, por volta das 7h00 de Timor.

O ataque foi feito sobre a casa do Presidente e durante a troca de disparos Ramos Horta foi ferido e o fugitivo Major Alfredo Reinado terá sido morto por membros da guarda pessoal do Presidente timorense.

Ao mesmo tempo, Xanana Gusmão, que ainda na quinta-feira tentava desvalorizar o movimento dos militares rebeldes, afirmando que o seu líder, o Major Alfredo Reinaldo, "não é uma ameaça real à estabilidade", também foi vitima de um ataque, ao qual escapou ileso.

Hoje em Dilí não vai ser um dia calmo...

domingo, 10 de fevereiro de 2008

O único factor estrutural na política externa portuguesa?

Caro Nuno,

Concordo na quase totalidade com a sua análise, e no que discordo é mais por omissão do que por divergência de opiniões.

Neste sentido, deixe-me apenas comentar que a aliança com a potência marítima, depois do fim da fragmentação peninsular, serviu de suporte estratégico da independência portuguesa, com apoio (quase) sempre da Inglaterra. Nunca foi, no entanto, o factor exclusivo do equilíbrio peninsular: veja-se por exemplo o interesse português pelo norte de África ao longo do século XV, que não me parece ter sido apenas um primeiro passo experimental na direcção das descobertas, mas também uma forma de contornar geopoliticamente Castela. Podemos remontar ainda à independência e à procura do reconhecimento papal e da Primazia de Braga como forma de escapar à pressão continental dos nossos vizinhos.

Nada impede, assim, que esse suporte estratégico na potência marítima tenha, em certos momentos, vindo a ser posta em causa. Falo do conturbado período da diplomacia da restauração e do partido francês existente em Portugal (e do partido português, em França). Não me cabe aqui estabelecer a verdadeira orientação estratégica dessa aproximação a Paris, que, no fim, acabou por ser bem instrumentalizada por Portugal.

Dando um norme salto, até às vésperas da Conferência de Berlim, salienta-se a tentativa de Portugal de jogar a Alemanha contra o Reino Unido, a que nos faltou claramente habilidade diplomática e, sobretudo, base de poder para o fazer. O resultado foi o que nós sabemos, e o que alguns não sabem, acordos de partilha das colónias portuguesas entre Berlim e Londres, com o grande Soveral a ter que beber bastantes gin with tonic com Eduardo VII para recuperar o mal feito. Não obstante, na vergonhosa política de appeasement pré II Guerra Mundial, crê-se que o Almirantado britânico tenha proposto ao Foreign Office que oferecesse as colónias portuguesas a Hitler.

Passando para a guerra colonial em si, e ainda não li o trabalho de Pedro Aires de Oliveira, o orgulhosamente sós foi desmistificado, e se os ventos da história de Macmillan nos provocaram uma tempestade, contámos com a neutralidade benevolente, agora, americana, depois dos devaneios de Kennedy, com a sinceridade de uma França que partulhava uma certaine idée com Portugal, e com a amizade militar alemã, consubstanciada nesta base militar aqui a 30 km de onde escrevo, em Beja.

A tentativa de regresso à democracia foi mais um cenário de procura de apoios no aliado marítimo, onde os EUA se assumiram, definitivamente, como o maior aliado do interesse que saiu vencedor. Aqui é claro e sublinhado o papel de Carlucci contra a falta de visão, ou de interesse, que Kissinger manifestava face a Portugal.

Ao longo da história, nestas equações de múltiplas variáveis, o interesse nacional sempre se jogou em aliança com o Reino Unido e, a partir de certo momento, com os Estados Unidos. Tal terá necessariamente de ser assim, já que geopoliticamente Portugal é essencialmente um país atlântico e não europeu. Basta pensar em Vestefália e Viena, dois dos acontecimentos definidores da ordem europeia no passado. E sempre se jogou na procura de não deixar a Espanha ocupar o lugar estratégico de Portugal na aliança com as potências marítimas. E assim se explica o "americanismo" da política externa portuguesa, que é pragmática e realista (além de, em minha opinião pessoal, saudável).

E acho que todos sabemos o que teria feito o PS, nesta história do Iraque, se estivesse no governo. Das poucas pessoas que, nesse contexto, tomaram uma posição pública séria em termos de política externa, no quadro do PS, lembro-me de Bernardino Gomes e António Rebelo de Sousa.

As eleições americanas e os eleitores lusos da blogosfera


Desde que foi disponibilizado o site Electoral Compass , referente a um inquérito tendente a encontrar pontos de coincidência de opinião entre os diversos candidatos à presidência e os eleitores, muitos têm sido aqueles, que não sendo americanos, procuraram conhecer a sua colocação hipotética no eleitorado do Grande Aliado.

É uma forma de passatempo, porque se as perguntas são centradas nos principais tópicos de discussão do momento, muitas há, contudo, que se tornam de difícil escolha, dado o natural afastamento que temos da realidade americana e porque não dizê-lo?, do desconhecimento de sectores muito particulares, como a segurança social nos seus múltiplos aspectos e que por si, são-nos completamente estranhos. É que aquilo a que já podemos chamar tradição europeia, torna-se incompreensível nos EUA, passando-se o mesmo com os europeus, em situação inversa. Duas realidades, dois problemas distintos e de impossível coincidência.

No entanto, a utilidade desta sondagem, serve sobretudo, como passatempo e decerto, algumas surpresas poderão ocorrer. Num grupo de amigos, aqueles que habitualmente se encontram fidelizados a um determinado campo político, poderiam - se fossem norte-americanos -, votar hipoteticamente no candidato convencionalmente apontado como "rival". E isto em qualquer dos sentidos, isto é, aquilo que designamos como "esquerda" ou "direita".

Experimentem este passatempo. A indicação que o Sam gentilmente me facultou, propiciou largos momentos de debate entre um grupo de amigos. Depois de um jantar, era o melhor a fazer. Por mera curiosidade, claro. Nem sequer somos republicanos...

Satisfazendo a curiosidade de alguns, já agora informo que este empedernido grupo Realista, votaria maioritariamente em Hillary, seguido de Obama. Sem surpresa.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

"O Regresso do PS"

"Sócrates dura até 2011 ou 2012"


Miguel Castelo-Branco, in Combustões, Bangkok

Ainda os vôos da CIA

O presidente do Governo regional dos Açores, Carlos César (PS), admite que aviões transportando alegados suspeitos de terrorismo para a base norte-americana de Guantanamo, em Cuba, tenham passado em território nacional, o que considera "lamentável".

Esta questão é por de mais falaciosa, se pensarmos que Portugal tem um dos mais extensos espaços aéreos do mundo, devidamente controlado por imensos controladores de tráfego aéreo (civis e militares), que durante as guerras no Afeganistão e Iraque tinham que manter corredores aéreos abertos para os aviões norte-americanos, apoio que viria a ser compensado com F-16s e coisas do género.

Andam sempre a atirar-nos areia para os olhos, como se não se soubesse que apoiámos os Estados Unidos, e como se o transporte dos prisioneiros para Guantanamo fosse de uma qualquer imoralidade tal que é preciso esconder. Se algo foi ilegítimo foi a invasão do Iraque, e fez-se, portanto deixem-se de falsos moralismos porque já se está a ver o que passou, até porque:

Na sexta-feira, PS, PSD e CDS-PP votaram contra a constituição de uma comissão de inquérito parlamentar para apurar responsabilidades no caso, proposta pelo PCP e Bloco de Esquerda e que mereceu os votos favoráveis das bancadas proponentes do Partido Ecologista "Os Verdes".

Ainda vai a tempo

Para «acabar de vez com as suspeitas» sobre os políticos, António Galamba, deputado do PS, quer alterar a lei e impedir que possa existir secretismo nas declarações de rendimentos de titulares de cargos públicos.

Vá lá, ainda vai a tempo antes que se gere um qualquer tipo de consternação social. É que parece que esta gente gosta mesmo de se pôr a jeito para que se possa suspeitar de actividades ilícitas e de corrupção.

USA, Lajes, África e chineses

A Administração norte-americana, volta hoje a olhar para os Açores, como um ponto de apoio essencial à prossecução da sua política externa. De facto, se durante a Guerra Fria, serviu a estratégia da contenção do Pacto de Varsóvia na Europa, o arquipélago foi também fundamental para a manutenção do status quo no Médio Oriente, onde o aliado israelita sempre contou com o rápido fornecimento de material bélico em períodos de conflito militar.

O desaparecimento do Pacto de Varsóvia e o recuo da Rússia para as fronteiras existentes antes de Catarina II, não levaram ao encerramento da base das Lajes, por parte do governo dos EUA. Pelo contrário, a reformulação do seu papel na garantia do estatuto de single superpower, tornou-a imprescindível e isto, num momento em que a antiga tecnologia deixara de ser o argumento essencial para a sua manutenção. A USAF possui equipamento capaz de atravessar o Atlântico sem escalas, mas a posse dos Açores diminui custos, facilita a gestão de recursos e torna possível a rapidez numa hipotética intervenção.

A participação nos conflitos dos Balcãs durante a maior parte da década de 90 e a alteração do mapa geoestratégico na zona do Golfo, sublinharam ainda mais, a importância dos Açores.

A instabilidade política e militar decorrente da invasão do Iraque e a ameaça de diminuição progressiva mas inelutável das reservas petrolíferas naquela parte do mundo, obrigou as grandes companhias energéticas e a administração americana, a interessar-se pelos emergentes centros de produção e a África tornou-se num peão vital.

Ainda numa fase de consolidação das novas realidades que são os Estados africanos - criados a régua e esquadro pelos poderes coloniais -, o continente foi o palco privilegiado do conflito este-oeste, onde as possessões portuguesas desempenharam um papel importantíssimo. Já em 1961, era claro o apoio da administração Kennedy aos bandos da UPA que desencadearam uma tremenda vaga terrorista no norte de Angola, à revelia de qualquer tratado de aliança existente em termos bilaterais ou no quadro da OTAN.

No entanto, a ameaça de depredação do secular património português, já vinha de algumas décadas, porque Roosevelt - e os seus serviços de informação -, manifestando um total desconhecimento da realidade política em Lisboa, chegou a propor a Salazar, a alienação do então Império Colonial, em troca de substancial apoio económico. Macau seria entregue à China de Chang Kai-chek, e Timor não regressaria à soberania nacional após a derrota do Japão Existia também, um vago plano de colocação de todas as colónias europeias, sob mandato da novel ONU.

A derrota dos movimentos subsidiados pelos EUA (UPA/FNLA) em Angola e a tomada do poder em todo o antigo Ultramar, por governos de inspiração soviética, adiaram sine die a política de expansão do domínio político-económico sobre o continente negro. Mantendo a hegemonia em alguns Estados, como o Zaire de Mobutu, os americanos limitaram-se a conter aquilo que parecia inevitável, ou seja, o total domínio da África pelos soviéticos.

Os acontecimentos de 1989-91, alteraram todo o quadro e hoje, decorridos quase vinte anos, a potência emergente e concorrente é outra. Na verdade, os chineses são capazes de oferecer aos regimes africanos, a assistência necessária à satisfação das necessidades que garantam a sobrevivência das oligarquias dominantes. No plano comercial, as vantagens são evidentes, desde a inundação dos mercados com produtos de preço muito acessível, até à abertura de linhas de crédito que inevitavelmente criam novas dependências. No campo das infraestruturas, a China tem capacidade para um vasto plano de reconstrução daquelas que foram danificadas por longas décadas de guerras civis, e mais importante, da criação de outras, mais modernas e eficientes, que sirvam os interesses de ambas as partes na dinamização dos centros de extracção de matérias primas e sua distribuição para exportação. Creio ser este o ponto essencial do interesse chinês.

Durante a fase final da Guerra de África de 1961-74, surgiram em Lourenço Marques e junto dos meios militares e gabinetes da administração, rumores com uma certa consistência, que indiciavam a preparação de um acordo secreto sino-indiano que visava a partilha de zonas de influência na África oriental. Isto parecia ter algum fundamento, dada a penetração chinesa na Tanzânia e Zâmbia e o claro apoio com dinheiro, armas e técnicos militares, aos terroristas da Frelimo, que estabelecendo as suas bases exactamente naqueles países vizinhos, desencadeavam as operações no norte de Moçambique. Não é hoje possível termos certezas acerca dessa nova partilha do continente, mas surge apenas, como nota de curiosidade, no momento em que a China desesperadamente precisa do fornecimento constante e seguro das matérias primas, que possibilitem a manutenção do seu surpreendente crescimento económico.

Os EUA, com aparentemente irresolúveis conflitos no Médio Oriente e com a ameaça de sérias perturbações políticas - e económicas - na zona do Caribe, procuram garantir uma posição de importância cimeira e assim, a atenção a países como Angola, o Congo e S. Tomé (este último, uma promessa ainda por revelar no que respeita à produção petrolífera), insere-se já numa estratégia de contenção dos chineses. Desta forma, a eleição de Obama nas eleições presidenciais, poderá ser um importante trunfo da Administração - aquela que verdadeiramente nunca muda e é perene -, das Corporations e, porque não, do essencial papel dos media na afirmação e enraizamento da mensagem a levar aos africanos.

No que respeita a Portugal, e conhecendo todos as limitações que decorrem do nosso diminuto peso económico e militar, interessa toda esta questão. É que, a par de uma necessária e urgente renegociação do estatuto da Lajes - e porque não dizê-lo?, de uma mais justa partilha dos benefícios decorrentes da sua utilização - , África interessa-nos e muito. Continua a ser um bom mercado de exportação e em crescimento. A afirmação da lusofonia, aliás consolidada com as independências, terá que ter em reflexo, outras contrapartidas. A cooperação militar - desejada pelos africanos, como parece ser -, pode ir acompanhada por uma ofensiva de âmbito cultural, onde a permuta de estudantes, a recuperação do património e o envio de professores, é vital. Timor é um exemplo na afirmação da portugalidade de uma nova nação.

É que uma política externa, já antiga de sete séculos, não pode ser posta em causa ou dúvida. A posição de um Portugal independente, pressupõe, como sempre aconteceu, a aliança com a potência marítima. Já há mais de cem anos, D. Carlos dizia a Hintze Ribeiro ..."não perca nunca o governo de vista, que podemos estar mal com todo o mundo, menos com o Brasil e a Inglaterra"...

Nada mudou: ao Brasil acrescentaram-se mais seis Estados e a nova Inglaterra são os EUA.

Uma outra análise das Presidenciais nos EUA

Com a devida curiosidade fui descobrir que Mitt Romney tem como antepassado o pintor George Romney. E como até sou um curioso da genealogia, fui à procura das devidas árvores genealógicas dos restantes candidatos à presidência norte-americana, e outras figuras.

Eis que "descobri" que tanto Clinton (o Bill), como Bush, como Obama, descendem, segundo o Geneall, de Guilherme I, o Conquistador de Inglaterra. E tanto Bush como Clinton são ainda descendentes de D. Afonso Henriques. (É o que indicam as "bolinhas" cuja legenda está aqui).

Descobri ainda este site, onde se encontram bem detalhadas todas as árvores genealógicas de todos os candidatos e outras figuras como senadores e governadores.

Fui depois pesquisar que Universidades os diversos candidatos frequentaram. Obama estudou em Columbia e Harvard. Hillary, depois de Wellesley, seguiu para Yale. McCain, por seu lado, cursou na Academia Naval. Ron Paul estudou na Universidade de Gettysburg. Romney em Stanford, Brigham e Harvard. Huckabee formou-se em teologia em duas pequenas universidades. Edwards cursou na North Carolina State University. Gravel depois da experiência militar, estudou em Columbia.

Assim como que a obedecer à Lei de Ferro da Oligarquia de Robert Michels, que nos diz que o poder nunca sai das elites, se verifica que neste caso, mesmo com atípicos candidatos como Hillary e Obama, ela mulher, ele muçulmano e negro, ainda que não se observe na totalidade a típica regra Male WASP (White Anglo-Saxon Protestant), não deixam os candidatos de pertencer à elite e, na sua maioria, descender de nobres e antigas linhagens europeias.

Por outro lado, apesar dos backgrounds diversificados, todos eles obtiveram graus académicos, tendo uns estado nas grandes universidades (não menosprezar o facto de a grande maioria dos Presidentes norte-americanos terem cursado na Ivy League), outros noutras mais pequenas, Huckabee ligado à religião e Gravel e McCain, por seu lado, pertencem a famílias com tradição militar e como tal seguiram também essa via.

Numa sociedade de matriz puritana protestante que se arroga de ser a chamada "terra da oportunidade", não deixa de ser interessante verificar que a mobilidade social vertical talvez não seja tão ampla como parece à primeira vista, até porque quando se trata da Presidência, tendem a aparecer sempre os que estão ligados aos valores tradicionais e conservadores, que se apresentam como estáveis e socialmente aceitáveis, como o sejam os valores ligados às grandes universidades, à religião e à tradição militar. Daí que a análise do Nuno sobre Obama seja certeira quando nos diz que:

"Obama é conservador e prova disso, é a irresistível atracção que exerce sobre uma franja não negligenciável dos republicanos. Mesmo a sua imagem, parece absolutamente convincente e genuína. A forma de vestir, a sua casa e família, não são consequência de uma varinha de condão dos image makers contratados às agências competentes. Obama atrai os conservadores, pela autenticidade. Tem tudo para afastar a nossa "esquerda" doméstica, sempre à procura de um híbrido de Bonaparte com Afonso Costa."

A conclusão a retirar, embora não seja novidade para ninguém, é que em termos políticos a sociedade norte-americana é de um conservadorismo avassalador (até porque mesmo muitos Democratas se considerados à luz do espectro das ideias políticas europeias terão fortes características conservadoras), reflexo de uma matriz social puritana protestante e contratualista, que quer os seus interesses políticos assegurados por alguém que prossiga uma política que não se encontre desprovida e desligada de uma moral fortemente impregnada de valores religiosos, o que é certamente perigoso quanto a determinadas acções como a chamada "Guerra contra o Terrorismo", que é bem reflexo do que Huntington avisa no "Choque de Civilizações". Se de um lado estão os fanáticos muçulmanos, do outro estão os fanáticos puritanos, uma espécie de Israel moderado, e no meio estão os sempre hesitantes Europeus, que nem vão pelo multi-culturalismo, a braços que estamos com a problemática da imigração, mas que também não se deixam levar pelas ideias peregrinas e de Cruzada norte-americana de expansão da democracia liberal como fim da História, como pensa Fukuyama.

Portanto, considerando alguns padrões que sempre se podem encontrar nos candidatos à Presidência, certas características nas quais está baseada a sociedade norte-americana e tendo ainda em linha de conta o marketing político a que quer Democratas, quer Republicanos obedecem, até que ponto não se poderá hoje dizer que a diferença ideológica entre os dois pólos do espectro não será já muito diminuta, sendo que a acção futura em termos de liderança interna e política externa poderá não ser assim tão diferente entre os candidatos derradeiros, mais próximos do chamado centrão?

América Latina por quem sabe

Enquanto eu passei uns tempos no Brasil e o Hugo está na especialização em América Latina, deixamos aqui a referência ao blog da Professora Raquel Patrício, alguém que realmente sabe do que fala, e que certamente é uma referência em Portugal para aqueles que se interessam ou dedicam a estudar essa região do mundo.

O fim de um grande blog

Uma das vozes mais lúcidas e com quem realmente se aprende na blogosfera lusa é o Je Maintiendrai, que infelizmente decidiu terminar o seu blog, aparentemente por motivos profissionais.

Fui também um daqueles que, não sei se infundadamente, julgou saber a identidade do autor. Embora me tenha arriscado a perguntar a quem julgava ser o autor, foi-me assegurado que não se tratava da sua pessoa, embora saiba de quem se trata.

Da nossa parte, boa sorte para o que venha a enfrentar, e que num futuro talvez próximo possa voltar a partilhar na blogosfera as suas reflexões.

Reforço feminino

Antes que alguém se atrevesse a dizer que este é um blog machista, eis que temos um novo reforço, desta feita feminino, a nossa amiga Ana Marques! Bem-vinda Ana!

Agradecimentos blogosféricos (17)

1 - Ao João Nuno Almeida e Sousa pelo seu comentário e simpáticas palavras, de quem fomos ver o blog e gostámos.

2 - Ao António de Almeida, pela referência no seu Direito de Opinião, já um blogger conhecido que também faz parte d'O Andarilho.

3 - Ao Carlos Miguel Fernandes, pela referência no seu No Mundo, bastante interessante por sinal, com posts e fotografias "refrescantes".

4 - Ao Pedro Leito Ribeiro, também pelo seu comentário e simpáticas palavras.

5 - Ao Miguel Castelo-Branco que depois de há uns meses ter impulsionado o Estado Sentido ainda escrito a apenas 2 mãos na altura, nos tem trazido imensos leitores após a referência ao post do Nuno, que em boa hora conheci através da net, dono de uma mestria assinalável que os leitores podem aferir pelos seus deliciosos posts, e a quem também agradeço por ter aceite o nosso humilde convite para fazer parte deste blog.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Adenda ao Hino do PS

Não domino esta tecnologia e assim, o refrão do hino surgiu cortado. Segue-se a quadra completa:

"Nem capital nem ditadura,
Nem monopólios nem tortura,
A vitória de uma vontade,
Socialismo em Liberdade"....

é que... há coisas fantásticas, não há? E esta coisa é verdadeira!

Post Scriptum: entretanto o corrigi o erro que se deve ao template (SPP).

CRONIQUETAS REPUBLICANAS

1. O Hino do PS ou Manuel Alegre revisitado

"Levanta a voz, camarada
Vem cantar nossa vitória,
Bandeiras rubras são história,
Nossa luta é tudo ou nada,
Se nas fábricas e nos campos,
Camaradas somos o povo,
Todos juntos somos tantos
Pra fazer um tempo novo!
(refrão)
Nem capital nem ditadura!
Nem monopólios nem tortura!
A vitória duma vontade,
Socialismo em liberdade!
(repete)

Todo este entusiasmo, acompanhado de rufar de tambores e sinos natalícios, transporta-nos para um qualquer shangri-la radioso e plausível. A letra é indubitavelmente de Manuel Alegre e sintetiza a sua visão do PS, aquele "PS à PS", que na falta de um antepassado em linha recta, descende colateralmente do costismo da 1ª república, onde o histrionismo camufla habilmente a exigível coerência mínima.

O grupo Alegre do Partido Socialista, é isto mesmo, resumindo-se a frases inflamadas, indignações postiças e sobretudo, grandes tiradas patuleias de promessas redentoras. Na política partidária portuguesa, a apregoada ética republicana, limita-se ao bem conhecido fazer de conta. É que o faz de conta adormece ímpetos e serve de biombo a manobras pouco consentâneas com reivindicados princípios basilares da organização de clube.

São os vigilantes da ortodoxia ditada pela necessidade da aparência, do politicamente correcto estabelecido por lutas que pouca gente conheceu, porque na maior parte são simples mitos. Os herdeiros das lutas do pau travadas pelos "formigas brancas" do extinto p.r.p, pretendem conservar aquilo, que para os saudosistas de um tempo que não conheceram, é fundamental. Um igualitarismo que eles próprios não praticam, porque desdenham do povo que não souberam formar. Uma fraternidade que exclui todos aqueles que não pertençam à confraria. E uma liberdade condescendente e no condicional, isto é, que obrigue ao reconhecimento por parte dos exógenos, da listagem de dogmas sacrossantos e intocáveis.

O PS à PS resume-se a isto, ou seja, fazer de conta de que pertence a uma "esquerda" já há muito desaparecida da história. Ao fazer de conta de que nada deve aos amigos americanos e alemães de 75 e enfim, em cismar na fé e ilusão daquela velha palavra de ordem gritada até à exaustão na Alameda, ..."aqui só há um, o PS e mais nenhum"..., recebida em silêncio pela maioria dos manifestantes naquele tórrido verão de todas as decisões.

Entre uns tiros certeiros ou falhados numa coutada alentejana, ou entre a estreia do Loden novo e da cartucheira comprada no Rossio, há sempre tempo para uma forte cachimbada à volta de uma fogueira onde rechina no espeto, um javali acabado de caçar no Pingo Doce. Um vinhito de 90 Euros a garrafa, uma feijoada daquelas como D. Carlos tanto apreciava e por fim, duas ou três garrafitas de digestivo caseiro, propiciam uma longa noite de declamações poéticas e quiçá, de um ou outro desafinado fado em que as touradas reais e o Embuçado inevitavelmente marcam presença.

Adoro o PS à PS. É cá dos nossos e não nos aborrece com spreads, indicadores macroeconómicos, transitários entre ministérios e bancos e outras coisas desta terceira e tão modernaça república. A "plutocracia"(termo tão do agrado de Mário Soares e Benito Mussolini) não faz o nosso género, nada mesmo.

Viva Manuel Alegre! Queiram ou não queiram, é o último senhor e isso diz tudo.

Leste? Qual leste...

Escrevo-vos já emigrado no suposto Leste Europeu.

Cada vez mais me surpreendo com a Eslováquia. De Dezembro a hoje pode claramente verificar-se nas ruas um aumento exponencial de iniciativas privadas.

Com um crescimento de cerca de 8% anual continuado e sustentado no IDE e turismo, posso afirmar que dentro de meses ultrapassará o poder económico do Burgo Luso.

A 50 minutos de Viena, 2 horas de Budapeste, 4 horas de Praga e Ljubljana, 6 de Varsóvia, Belgrado e Zagreb (tudo de automóvel), atrevo-me a afirmar: "Leste? Leste são os Urais...".

Romney está fora, Ron Paul vence

Romney retirou-se da corrida deixando espaço para McCain se dedicar desde já a fazer campanha para a presidência sem se preocupar com a nomeação, entretanto já garantida, embora alguns se dediquem a analisar a vitória de Ron Paul.

Já agora, pel'O Andarilho fiquei a conhecer o Electoral Compass destas Presidenciais Americanas. Fiquei mais próximo de Ron Paul, e mais afastado de Huckabee.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

300

300 foram os Espartanos que na BD de Frank Miller enfrentaram o excêntrico império Persa. 300 foram também os despachos que Telmo Correia assinou enquanto Ministro do Turismo cessante, na madrugada da tomada de posse de José Sócrates. É isso e certos políticos e diplomatas que tiram cópias de documentos pertencentes ao Estado, ainda que estivessem envolvidos na produção desses, que depois levam para casa para o seu arquivo pessoal...

Mas sobre os 300 despachos, dos melhores posts que vi foi o engraçado desenho de Telmo Shiva, do Pedro Vieira.

Ao volante do poder

Depois da curiosidade devidamente aguçada pelo Carlos Albino, fui hoje comprar "ao volante do poder". Espero que seja de facto uma leitura interessante.