segunda-feira, 19 de novembro de 2007

E camelos não?

Dúvida que assaltou a minha mente inquieta enquanto tentava adormecer: será que Kadhafi, que não confia na segurança portuguesa, tal como não confiou nos Belgas e Moçambicanos, e tendo em conta que os carros com escolta policial talvez não lhe agradem, também irá exigir camelos para se deslocar até ao Pavilhão Atlântico? Talvez assim ainda se sinta mais em casa.

Enquanto as autoridades andam a determinar onde colocar a sua tenda, eu já tive uma ideia. Lembram-se da margem sul? Esse tal deserto de Mário Lino? Talvez Kadhafi até possa fazer campanha por Alcochete...

Agradecimentos blogosféricos (5)

Ao José Pacheco Pereira por ter publicado no Abrupto a mesma fotografia que aqui deixo, Brasília vista da Torre da Tv, em pormenor, a Esplanada dos Ministérios, datada do passado dia 17/11, num tour realizado com os amigos Bruno Amorim e Cris Alcântara.


Agradecimentos blogosféricos (4)

Ao Politicopata pelas suas simpáticas palavras, e quanto à Maddie, é coisa que por aqui não nos interessa falar, esse mediatismo digno de novela brasileira já ultrapassou as marcas do ridículo.
Um grande abraço e que continue com os seus posts deliciosos!

sábado, 17 de novembro de 2007

Campo de Tiro em Serpa - de fait-divers a notíca séria

Notícia do dia, pelo menos para mim: se o novo aeroporto internacional de Lisboa for construído no que é hoje o Campo de Tiro de Alcochete, a Força Aéra poderá começar a usar como campo de tiro um "espaço deserto, com solos pobres, e onde as poucas actividades são a pastorícia e a cinegética" (sic SIC, a do Balsemão).

Ora aqui há uns tempos, tive oportunidade de abordar este assunto com alguém, diga-se, muito bem colocado para discutir o assunto, que dizia não haver possibilidade de outra zona do país poder ser utilizada como campo de tiro, devido à natureza dos solos muito própria que se exige para tal finalidade, e outro pormenores técnicos, que estou longe de dominar.

De referir ainda que o Campo de Tiro de Alcochete não é utilizado apenas pela FA Portuguesa, mas também pela de outros aliados, nomeadamente da NATO.

Se esta notícia tem ponta de credibilidade, não sei. O que sei é que Natureza não se confunde com deserto, nem a caça é uma actividade económica pouco lucrativa, mas dos jornalistas portugueses, já pouco se há de esperar.

O que sei também, é que não quero passar os meus fins-de-semana no Alentejo a ouvir o zumbido dos planadores da FA e estalinhos de carnaval. Apesar de tudo, o que "o Alentejo precisa é de emprego e desenvolvimento, e não de bombas"...

Termino, em favor da honestidade intelectual, admitindo que sou natural do concelho de Serpa, exilado em Lisboa.

Kadhafi quer ficar em tenda

Muamar al-Kadhafi não quer ficar em nenhum hotel. E o MNE anda às voltas para encontrar algum local onde ele possa colocar a sua tenda. De salientar que já fez o mesmo na Bélgica e Moçambique.

No me callo e te digo más...

Chávez não se cala e até resolveu tentar espantar o mundo com novas afirmações, daquelas que vêm do fundo de um ser cada vez mais desorientado, conforme noticiado aqui.

Chávez que estará de visita ao Irão nos próximos dias, afirma-se confiante no desenvolvimento do programa nuclear iraniano com fins exclusivamente pacíficos, e revela ao mundo que também a Venezuela irá iniciar um programa de desenvolvimento de energia atómica.

A Folha de São Paulo ainda revela que "Ele defendeu a energia nuclear como uma solução para a crise energética mundial, causada pelo aumento do preço do petróleo e pela redução das reservas, além da mudança climática e da poluição atmosférica."

Tão altruísta que ele é...Nem Bolívar chegaria a tanto...

Agradecimentos blogosféricos (3)

Desta feita ao Pedro Correia do Corta-Fitas. Obrigado Pedro!

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

A natureza da segunda câmara

No seguimento do post "Dois projectos políticos para Portugal" onde a dada altura dizia:

"Poder-se-á ainda arguir pelo cruzamento entre os dois, algo como uma monarquia constitucional e federada, em que a natureza da segunda câmara seria algo a discutir, e sobre o qual não me quero debruçar agora, até porque ao longo da última semana, enquanto pensava nisto, não consegui encontrar uma saída para o dilema de ter que representar equitativamente os estados federados, mas ter também que instituir uma câmara dos Lordes que garanta a prática do poder fiscalizador da instituição monárquica."

Eis que a resposta para esta minha inquietação é até bem simples. Basta ver algumas das discussões em Espanha ou no Reino Unido acerca da natureza da segunda câmara. Em Espanha já se pensou federalizar o sistema e tornar a segunda câmara mista entre os eleitos directamente e os nomeados pelos estados federados. No Reino Unido foi rejeitada uma proposta para que a House of the Lords fosse composta por membros eleitos e membros nomeados pelo Rei (em proporção a definir).

Portanto, quer Portugal se tornasse um Estado Federal, ou se apenas se voltasse a instituir o elemento Monárquico, essencial seria voltar a ter o Senado, cuja natureza seria porventura técnica, composto por comissões que emitiriam pareceres especializados (à semelhança dos Britânicos) e parece-me que a melhor solução seria um misto entre membros eleitos e membros nomeados pelo Rei.

Pacto de Varsóvia

(Este pequeno post é uma sinopse de um trabalho elaborado no âmbito da disciplina de Organizações Internacionais, e encontra-se também publicado em Nostrum Symposium.)

Firmado em 14 de Maio de 1955 na cidade de Varsóvia, o Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua estabeleceu uma aliança militar entre os Estados Socialistas da Europa Central e de Leste, essencialmente sob o domínio da União Soviética, que pretendia estabelecer um contrapeso efectivo e coordenado à ameaça potencial da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Pese o argumento inicial por parte da União Soviética de justificação da criação do Pacto de Varsóvia como retaliação à integração da República Federal Alemã (RFA) na OTAN (em 9 de Maio de 1955), o Pacto acabaria por constituir de facto uma ferramenta de controlo sobre os países da órbita satélite da União Soviética, intervindo militarmente contra quaisquer tentativas que os Estados em questão tomassem contra a ortodoxia comunista e soviética.

O tratado foi modelado no tratado da OTAN, e instituiu uma estrutura organizacional bastante simples, com sede em Moscovo, estabelecendo o Political Consultative Commitee (PCC), que coordenava todas as actividades excepto as de cariz militar, sendo o fórum onde secretários-gerais dos partidos comunistas e chefes de Estado se reuniam, e o Unified Command of Pact Armed Forces, que detinha autoridade sobre as tropas que lhe eram atribuídas pelos Estados, sendo o Commander in chief o First Deputy Minister of Defence of USSR, e o Chief of Staff o First Deputy chief of the Soviet General Staff.

Todos os Estados socialistas da Europa Central e de Leste se constituíram membros do Pacto excepto a Jugoslávia, sendo os Estados partes do tratado a Albânia, Bulgária, Checoslováquia, República Democrática Alemã (RDA), Hungria, Polónia, Roménia e União Soviética. A Albânia deixaria de apoiar o Pacto em 1961 devido à divisão Sino-Soviética, em que se situou como apoiante da linha Estalinista da China, acabando por se retirar oficialmente em 1968 como protesto à invasão da Checoslováquia, evento que ficou conhecido como Primavera de Praga.

Com o afastar gradual de Gorbatchev em relação à doutrina Brejnev, os movimentos de abertura foram-se propagando pelo Leste Europeu. Os comunistas liberais assumiram o poder na Hungria, enquanto por exemplo na Polónia o Partido Comunista negociava com o Solidariedade. Numa visita à Finlândia em Outubro de 1989, o porta-voz de Gorbatchev, Gerasimov, confirmava o abandonar da doutrina Brejnev, gracejando com a imprensa que Moscovo adoptara a doutrina Sinatra, numa alusão à famosa música de Frank Sinatra “I dit it my way”, afirmando que a Hungria e Polónia estavam a fazer as coisas à sua maneira.

Tornava-se cada vez mais evidente a incompatibilidade entre a liberalização e o comunismo, cujos partidos estavam cada vez mais desmoralizados. Também em Outubro de 1989 Gorbatchev visitava a RDA para participar da comemoração do 40.º aniversário da fundação dessa, acabando ainda por incitar o seu dirigente estalinista, Erich Honecker, a conduzir uma política mais reformista, enquanto exaltava também a estabilidade da RDA. Porém, 4 semanas depois da sua visita o Muro de Berlim caía. Dez meses depois Gorbatchev concordava com a unificação da Alemanha como membro da NATO. Todos os governos comunistas da antiga órbita satélite haviam sido depostos e o Pacto de Varsóvia desmoronou-se. A ordem de Ialta caía, e a História revelava a insensatez das afirmações de Kruchtchev de que o comunismo enterraria o capitalismo.

Com o assumir da doutrina Sinatra em detrimento da doutrina Brejnev (em 1989), os novos governos independentes dos Estados satélites da União Soviética acabariam por contribuir para o fim do Pacto. Em 24 de Setembro de 1990 a RDA retirar-se-ia do tratado e em 3 de Outubro do mesmo ano acabaria por se reunificar com a RFA, pelo que a nova Alemanha unificada se tornou membro da OTAN, enquanto a Checoslováquia, Hungria e Polónia anunciavam em Janeiro de 1991 que iriam retirar o seu apoio ao Pacto, seguindo-se a Bulgária em Fevereiro. Em 1 de Julho do mesmo ano o Pacto acabaria por ser dissolvido numa reunião em Praga.

Tendo estabelecido uma estrutura que se baseava em grande parte na estrutura de comando militar soviético, o que facilitava as operações, como ficou patente nas diversas intervenções, o Pacto nunca chegou a enfrentar no terreno a sua contraparte, a OTAN, apesar de o argumento para a sua formação ser precisamente o constituir um contrapeso à OTAN.

Foi um instrumento ao dispor da União Soviética para exercer uma influência e domínio no contexto da Guerra Fria, que talvez devido às suas especificidades e estruturas demasiado apegadas à União Soviética, bem como as evoluções ideológicas e políticas sofridas pelos países satélites da Europa de Leste, não se soube adaptar ao mundo em devir após a Queda do Muro de Berlim, até pela sua evidente derrota. Por seu lado a OTAN continua viva e em expansão, incluindo já países que faziam parte do pacto, tal como a estrategicamente importante Polónia. Embora dominada pelos Estados Unidos, a Aliança Atlântica constituiu-se como um verdadeiro fórum multilateral, com uma estrutura própria, e não como um fórum que se pretendia multilateral, mas que serviu apenas para a União Soviética exercer o seu poderio e legitimar através desse as suas acções.

De qualquer das formas, independentemente do desfecho do conflito bipolar, é de salientar que na época da sua formação, mas especialmente após a Crise dos Misseis de Cuba, e com o advento do Movimento dos Países Não Alinhados, o Pacto de Varsóvia revelou-se um instrumento que acabaria por constituir uma forma de domínio ideológico que servia os propósitos do sistema internacional, encontrando na sua contraparte um domínio que se exercia mais pelo soft power. Neste particular, uma das críticas que no meu ponto de vista se pode apontar à União Soviética é a sua ortodoxia rígida que provocou sentimentos de revolta nas populações dos países da órbita satélite, acabando por perder a sua força ideológica enquanto modelo único absoluto com a divisão Sino-Soviética, a partir da qual ocorreram as divisões entre os Partidos Comunistas que se mantinham leais à União Soviética, e os Partidos Comunistas Marxistas Leninistas que se alinhavam à China.

Em suma, o Pacto de Varsóvia foi um instrumento necessário à manutenção da ordem bipolar que dando-se por derrotado perante a OTAN, teve necessariamente que sucumbir num momento chave da História de onde adviria uma nova ordem mundial, que ainda hoje se está a tentar encontrar e definir a si própria.

Bibliografia consultada

Curtis, Glenn E. – The Warsaw Pact (excerpted from Czechoslovakia: A Country Study). Washington, D.C.: Federal Research Division of the Library of Congress; 1992.

Kissinger, Henry A. – Diplomacia. Lisboa: Gradiva, 2.ª ed.; 2002.

Keylor, William R. – História do Século XX. Mem Martins: Publicações Europa-América; 2001. (Publicado originalmente pela Oxford University Press em 1996).

O fim do recenseamento militar

Segundo consta parece que o governo quer acabar com o recenseamento militar. Quando há uns anos se acabou com o serviço militar obrigatório, em simultâneo com uma profissionalização crescente das Forças Armadas, pareceu-me essa ser uma medida inteligente e adequada às necessidades de Portugal nesse campo.

Desde há 2/3 anos atrás que jovens como eu tiveram que efectuar o recenseamento militar e apresentar-se no Dia da Defesa Nacional, uma inovação, se não me engano, do ministério de Paulo Portas.

Pese a óbvia propaganda que se efectua nos diversos Dias da Defesa Nacional, certo é que esse evento permitia um maior contacto da juventude com uma realidade bastante desconhecida da maior parte, convencendo mesmo alguns a ingressar nas Forças Armadas. Não sendo militar nem militarista, parece-me que esta inovação deveria ser continuada.

Porém agora que o governo quer acabar com o recenseamento militar, estarei certo ao presumir que também se acabará com o Dia da Defesa Nacional? Se sim, parece-me um enorme disparate. Como é que pretendem atrair mais jovens para o serviço militar? Espero estar enganado nesta assumpção até porque a Defesa continua a ser uma das pastas mais sensíveis e importantes quanto às prerrogativas de soberania de um Estado.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Agradecimentos blogosféricos (2)

Cumpre-me agradecer mais uma vez à blogosfera portuguesa o reconhecimento deste recém-criado blog, desta feita ao Miguel Castelo-Branco do Combustões, um dos melhores blogs que já tive oportunidade de ler. Obrigado Miguel!

E porque amanhã é feriado no Brasil, dia da Proclamação da República (1892), o que ironicamente nem alguns colegas na universidade sabiam, não publicarei nada amanhã, pelo que aproveitarei para pôr a leitura em dia.

A dois é bom, mas a três é ainda melhor

Pese novamente o teor tendencioso do título, serve este post para dar as boas vindas a mais um grande amigo que também agora passa a colaborar no Estado Sentido. Bem vindo Hugo!

Também eu preferia que o nome do blog fosse Sentido de Estado, mas já existia um com esse nome quando o criei!

A Polémica das Caricaturas Revisitada, nesta estreia blogueira

Revisitação de um texto escrito, há ano e meio atrás. Assim inicio, a minha colaboração no Sentido de Estado (ó SP, prefiria que o blogue tivesse este nome!), após várias insistências. A minha participação será apenas fortuita, porque não tenho mais nada que fazer.

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A questão dos cartoons sobre Maomé foi influenciada por uma sucessão de episódios manipulados, que começou pela indignada reacção das comunidades muçulmanas, quase quatro meses depois da primeira publicação das caricaturas, e passou pela republicação das mesmas, instigadora de um choque de civilizações, por vários órgãos de comunicação social, por vezes com intuitos menos claros.

O facto é que a comédia e a sátira são desde os clássicos um elemento fundamental da cultura europeia. É facto também que, como lembrou acerca desta questão Vasco Pulido Valente*, a verdade religiosa é absoluta e, logicamente, incompatível com a liberdade de imprensa. Foi esse o sentido orientador da Santa Inquisição e do Índex. A diferença é que as culturas eram relativamente mais homogéneas e os contactos entre áreas culturais pontuais. Assim as autoridades muçulmanas nunca souberam (pelos vistos não sabem hoje) que Camões apelida n’Os Lusíadas, apelida Maomé de torpe: O mesmo o falso Mouro determina/Que o seguro Cristão lhe manda e pede;/Que a Ilha é possuída da malina/Gente que segue o torpe Mahamede... Ou então já se teria levantado o direito à indignação (onde, como nos meios de tutela privada, o dano causado não pode ser manifestamente superior ao dano eventual), ou teria sido mesmo lançada uma Fatwa contra Camões, ou mesmo (com o apoio de muitos mais, é óbvio) contra o sistema de ensino português. Mesmo antes de Camões, Dante fazia na sua Divina Comédia uma representação grotesca de Maomé.

A questão mais pertinente que se levanta com as representações de Maomé encontra-se no seguimento de outras situações semelhantes, como a perseguição a Salman Rushdie, autor de Versículos Satânicos ou o assassinato do cineasta holandês Theo Van Gogh, que supostamente terá ofendido os seguidores do Profeta. O importante é lembrarmos que opiniões são opiniões, não são actos, resume Pedro Mexia. E, para mim, a liberdade de expressão é a de Voltaire, não a do politicamente correcto. E esta liberdade fundamental, como muitas outras, não é negociável na Europa. Estes valores universalizados, mas não verdadeiramente universais, têm, em grande medida, a sua origem na Europa e custaram-nos guerras, extermínios, manifestações, revoluções industriais e tratados de filosofia. Não é tempo de, em nome da subserviência e de jogadas diplomáticas, abdicarmos deles.

A polémica das caricaturas de Maomé e das violentas reacções em países muçulmanos voltou a pôr na ordem do dia a tese de Samuel Huntington do Choque de Civilizações, onde afirma que as grandes divisões entre o género humano e as fontes dominantes de conflito serão culturais. À primeira vista, um olhar sobre o mundo pós Guerra-Fria e com o surgimento das tensões com a área cultural muçulmana indicaria que estaríamos de facto perante clivagens culturais que em fase de escalada conduziriam a situações de crise e de conflito. Contudo as relações internacionais não se podem reduzir a estes termos e parece-me que ao analisar as situações de conflito das últimas décadas não estaria assim tão latente um choque de civilizações, mas tal daria para outro post. Cada comunidade procurou sempre reger-se pelos seus valores. Contudo evoluímos de comunidades clássicas, localizadas, para comunidades transnacionais e multi-situadas. Os indivíduos assumem hoje pluralidades de pertenças, o que não diminui necessariamente a sua condição enquanto membro de uma comunidade específica. Existem milhões de muçulmanos europeus, e outros tantos de europeus muçulmanos – e essa compatibilidade é salutar. As comunidades entram em contacto entre si e tentam-se influenciar mutuamente, pois a mudança é inerente à cultura, que hoje em dia viaja, transnacionaliza-se e desterritorializa-se. Assim certos projectos civilizacionais podem chocar em determinados aspectos, espontaneamente, contudo não me parece que a escalada para fases posteriores e mais agudas de conflito seja possível apenas baseando-se em reacções sociais.

Reservando-me a este caso particular, a meu ver houve uma clara manipulação e concertação por parte de muitos países muito islâmicos, como demonstra a denúncia efectuada pelo New York Times sobre a Conferência Islâmica Internacional. Assim sendo, este conflito terá sido mais manipulado pelas elites governantes, passando a aparência de uma revolta espontânea da população muçulmana.

Quanto a algumas reacções na Europa e no resto do mundo ocidental, vejo surgir concepções bizarras de multiculturalismo que se confundem, ou procuram confundir, com tolerância. O relativismo moral e cultural confunde-se com desculpabilização e faz lembrar a imagem do paradoxo do relativismo cultural sugerido por Claude Lévi-Strauss há uns anos: enquanto nas Antilhas os espanhóis enviavam missionários para aferirem se os nativos tinham ou não alma, os nativos colocavam os cadáveres dos europeus dentro de água, procurando saber se os seus corpos resistiam à putrefacção.



*Tenho o hábito de, em tudo o que escrevo, fazer referência a todos os autores que me possam ter influenciado. A minha política editorial resume-se no seguinte:

Confesso que as mais das iguarias
com que vos convido são alheias,
mas o guisamento delas é de minha casa.

Frei Amador Arrais apud Prof. José Adelino Maltez

Irritação com os irmãos

Ontem fiquei irritado. Fui para casa irritado. Deitei-me irritado. Não dormi sossegado e acordei novamente irritado.

E porque continuo irritado decidi escrever aqui o motivo de tanta irritação.

Ontem tive uma das discussões mais idiotas de toda a minha curta vida, com um colega brasileiro, também de Relações Internacionais. As opiniões dele reflectem o senso comum e parco conhecimento acerca da cultura portuguesa que são apanágio de um sistema de ensino (até ao 12.º) essencialmente de esquerda. Neste Brasil que se gaba de ser um país cristão ocidental (e de onde é que terá vindo isso?), onde a dialéctica política é essencialmente entre marxistas e neo-liberais. Sim, leram bem, marxistas. Ainda os há. Aliás, há os que julgam que são marxistas, que levam com um chorrilho de ideias que lhes toldam a visão do mundo, e que portanto se julgam marxistas, quando o próprio Marx a determinada altura da sua vida acabaria por dizer que se determinadas pessoas eram marxistas, então ele não o seria.

Entre os argumentos mais comuns para falar mal de Portugal encontra-se o argumento de que Portugal é um país retrógrado e provinciano, ideia que me foi explicada por um conhecido Professor brasileiro de História das Relações Internacionais, como advindo do facto de a maior parte dos colonos ter vindo de regiões rurais, e trabalhar aqui nas grandes cidades como padeiros, sapateiros, talhantes, barbeiros, e que por isso julgam que todos nós nos chamamos Maria ou Manuel, e que todas as mulheres têm bigode.

Ora esta imagem já não corresponde na sua totalidade ao Portugal contemporâneo. Mas muitos brasileiros acham que sim. E como acham que sim e que isso é verdade não querem saber de mais nada. Lembra-me uma definição do conceito de crenças, como sendo imagens e valores que se tem por absolutos, apesar de não serem corroborados pela realidade.

Como não ficar irritado quando um brasileiro me quer ensinar História de Portugal dizendo que foram os espanhóis que fizeram a nossa independência (hmm e quem será que fez a do Brasil? Ops, foram as elites portuguesas que tinham os seus interesses aqui), que Portugal só é o que é porque a União Europeia nos governa, que somos o curral da Europa, que os únicos produtos manufacturados que produzimos são Pastéis de Belém, enfim, uma série de outras coisas que eles acham mesmo que correspondem à realidade.

Outro argumento, utilizado pelo mesmo indivíduo, é o da economia Brasileira ser muito superior à Portuguesa, já que o PIB é muito superior. Ora bem...O PIB é de facto superior, mas tendo em conta que nós só somos 10 milhões, e eles são 180, dos quais 50 milhões vivem abaixo do limiar da pobreza, palavras para quê? A economia brasileira continua, tal como no final do século XIX, baseada na agroexportação. A nossa economia é industrializada e baseada em serviços.

Não somos assim tanto curral da Europa como temos tendência a pensar. Se saíssemos todos de Portugal por uns tempos, seríamos atingidos pela percepção de que Portugal é até não é mau sítio para se viver. Com os seus problemas claro, que existem em todos os países.

Mas não temos favelas nem temos o nível de corrupção que perpassa todo o sistema político brasileiro. Temos óptimas infraestruturas, rodoviárias, ferroviárias, de habitação, somos muito mais avançados tecnologicamente do que o que a maioria das pessoas pensa, temos melhores condições de vida. Basta que estejamos na 28.º posição no Índice de Desenvolvimento Humano, onde o Brasil aparece no 69.º lugar.

Alguns dizem-me que Brasília é uma ilha dentro do Brasil, muito organizada, que o resto fora daqui é o caos. Pois se aqui o asfalto parece borracha, os carros são modelos europeus modificados bem mais frágeis, o lixo inunda as ruas, existem carroças com cavalos que andam a apanhar o lixo andando lado a lado com carros, farmácias parecem mercearias do bairro, indicações de trânsito é coisa de que nunca ouviram falar, as casas são feitas com materiais fracos, o gás é trazido pelo homem do gás que anda todas as manhãs a gritar "Olhó gás" para as pessoas virem à janela dizer-lhe que querem gás, os trabalhadores em serviços tipo supermercado, cafés ou restaurantes são lentos a pensar e a trabalhar, os autocarros são uma lástima, não há estruturas para pedestres, entre outros tantos pormenores de que me vou esquecendo, então como será o resto?

E depois dizem-me que foi a colonização portuguesa que fez este país ser assim. Esquecem-se que todos eles são descendentes de portugueses. Esquecem-se que pelo menos desde o Marquês de Pombal a metrópole sempre favoreceu muito mais as suas colónias do que a si própria (como alguém me disse, nos anos 60, 70, Luanda era bem mais desenvolvida do que Lisboa por exemplo). Aliás não se esquecem, apenas não sabem, porque ensinam-lhes a História com uma visão distorcida. Mas também não se interessam.

É também frequente ouvir afirmações que levam à conclusão de que tudo o que acontece de mal no Brasil é culpa da colonização, mas já o que acontece de bom é porque o povo brasileiro é de facto grandioso. Acham que nós somos retrógrados e conservadores. Pelo menos não somos um país de "piriguetes" (termo brasileiro para meninas um pouco "dadas") e veados (gays). Nem mesmo os universitários, que se esperava serem um pouco mais open-minded conseguem conceber um relacionamento ou uma conversa entre um homem e uma mulher sem pensar em sexo. Tudo revolve à volta de sexo. Sim, tudo é Futebol, Carnaval e Sexo. É esta a imagem internacional do Brasil.

Mas a melhor de todas é quererem ensinar-me a falar Português. Como se já não bastasse a questão do Acordo Ortográfico, ainda dizem que nós não falamos português correcto. Ora atentando na etimologia da palavra, parece-me que Português é quem é de Portugal. Querem vir ensinar-me a falar a minha própria língua? Os brasileiros que inventaram um sem número de expressões e omitiram outras tantas porque são demasiado complicadas para as conseguirem compreender (não esquecendo o índice de analfabetismo)?

Gosto do Brasil sim, e bem que gostava de passar aqui mais tempo. Mas muitas pessoas têm de aprender História. Têm que ler. E têm que conhecer a sério aquilo de que falam e desprender-se do estigma da colonização. Nós não passamos a vida a falar nisso, mas eles não perdem uma oportunidade para tal. E alguns ainda dizem que a colonização espanhola foi exemplar. Pudera, mataram todos os índios.

Continuo irritado. Mas menos. Talvez esteja a dar demasiada importância a uma questão idiota. A um indivíduo idiota, um entre muitos que não o são e com quem tenho gostado imenso de conviver. Aquilo que descrevi é produto da ignorância, também de parte a parte, que em nome não se sabe bem de quê, tem alimentado um certo misticismo que teoricamente opõe a cultura brasileira e a cultura portuguesa. Não é possível acabar com os preconceitos com mais preconceitos.

Embora as elites que vão lá fora vejam Portugal e o mundo com outros olhos, a grande maioria não tem essa oportunidade e continua a ter uma imagem rudimentar de Portugal, o que é compreensível, tendo em conta o que já referi acima acerca dos colonos. Mas têm que se esforçar para percepcionar a realidade actual.

O Brasil tem capacidade para ser uma grande potência, têm é que melhorar certos aspectos e sair dos estigmas criados por eles próprios. Quanto a Portugal, de facto é um grande país. Mas também pode ser bem melhor.

Não somos assim tão diferentes. As culturas não são assim tão diferentes. As duas nações têm muito a aprender uma com a outra, e poderiam beneficiar de um relacionamento bem mais aprofundado. Pena que em determinada altura da História nos tivéssemos deixado separar graças aos interesses de terceiros.

Portugal e Brasil têm que aumentar a cooperação entre as duas nações. Só assim se poderão acabar com fantasmas e imagens ignorantes entre as duas culturas, que originam as centenas de piadas que brasileiros fazem acerca de portugueses e os preconceitos que nós temos que não correspondem à realidade brasileira.

Irritações à parte, Brasília até é bem agradável, bem tranquila, fruto do génio arquitectónico de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, e de uma visão de modernidade personificada por Juscelino Kubitschek (que viria a ser exilado em Lisboa), embora já um pouco subvertida.

Aqui sinto que estou numa verdadeira Universidade digna desse nome, onde a ciência continua a ser a prerrogativa mais importante que leva docentes e discentes a investigar e produzir conhecimento. Onde esses não se perdem em disputas de poder e demonstrações de arrogância. Neste particular, no campo académico, poderíamos aprender muito com o Brasil, o que talvez nos fizesse sair da nossa pequena visão paroquial do papel da academia. A este respeito recomendo a leitura do post de Miguel Castelo-Branco intitulado "Deixem-se de pedantices e venham aprender a arte da humildade".

Para finalizar, deixo apenas um expresso desejo de que nos anos em devir, à medida que o ambiente internacional e a Política Externa Brasileira vão exigindo e conferindo um papel cada vez maior ao Brasil, que Portugal possa apoiar a sua nação irmã na sua ascensão a grande potência. Mas também os brasileiros têm que acreditar em si próprios. Por exemplo, numa aula de Organizações Internacionais fui o único a mostrar-se favorável à passagem do Brasil a um lugar permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, já que os restantes colegas acham que o Brasil não tem capacidade para isso e tem demasiados problemas internos por resolver.

Isto faz-me lembrar aquela característica portuguesa, à qual também não sou alheio, de não perder uma oportunidade para falar mal de Portugal. Como vêem não somos assim tão diferentes. Só na exteriorização dos sentimentos, nós pelo fado, os brasileiros pelo samba. Talvez possamos ensiná-los a cantar fado e eles nos ensinem a sambar. Quanto a mim cá vou tentando aprender a sambar, já que cantar o fado é arte para a qual não estou capacitado...

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Anarquismo liberal?

Perante o que se tem passado na Bélgica onde há já mais de 150 dias que o país está sem governo, embora todos os sistemas continuem a funcionar normalmente, parece-me que duas correntes de pensamento opostas se entrelaçam nesta situação, o anarquismo que advoga a auto-regulação da vida social por parte dos cidadãos sem necessidade do Estado ou Governo para tal, e o liberalismo à la Adam Smith. Como diria Fernando Pessa, e esta hein?

A queda de Ialta


Embora um pouco atrasado, resolvi também por aqui deixar uma pequena nota quanto à comemoração do aniversário da queda do Muro de Berlim, lembrando que para além da reunificação da Alemanha, uma das consequências mais relevantes, se não mesmo talvez a mais relevante, da Queda do Muro, foi a queda da ordem de Ialta. Como tal, deixo aqui uma pequena passagem do livro de Henry Kissinger "Diplomacia", editado em Portugal pela Gradiva:

"Ialta tinha caído. A História revelava a insensatez das palavras de Kruchtchev de que o comunismo enterraria o capitalismo".

A Mentira de Che

Recomendo a leitura do artigo de Alvaro Vargas Llosa "The Lie About Where Che Lies", do qual saliento o seguinte excerto:

"It is not surprising, of course, that Che Guevara's remains are a myth. Everything about this modern saint is a myth -- his love of justice, his romantic disposition, his goodness. The truth is that he executed hundreds of people, ruined the Cuban economy, tried to turn Cuba into a nuclear power and helped bring about many military dictatorships in Latin America in reaction to the guerrillas he inspired in the 1960s and the 1970s."

Viva el-Rei Juan Carlos

Haja alguém que tenha coragem de mandar calar um louco mal educado que consegue irritar qualquer um.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Saramago finalmente porta-se à altura...

Em tempo de comemoração da Revolução Russa, e num dia em que tenho que apresentar na Universidade 45 anos de História sobre o Pacto de Varsóvia (infelizmente alguém escolheu a NATO antes de mim), lembrei-me de um desses comunistas que por aí andam, e decidi recuperar aqui um post originalmente escrito em Junho deste ano n’O Coliseu:

“Recordo-me do comentário de alguém que se intitula como "Toffee", ao post sobre a 77.ª Feira do Livro: "há sempre belas histórias na Feira do Livro... ".

Deleitávamo-nos eu e a Erida a passear agradavelmente por tão excelso evento cultural, que é sempre merecedor de um certo louvor, quando ouvimos a voz de uma simpática senhora que pelos altifalantes anunciava a presença do senhor José Saramago na Feira para uma sessão de autógrafos.

Poucos minutos antes havia a Erida adquirido a recentemente publicada obra do Senhor Professor Doutor António de Sousa Lara, que entretanto está esgotado: "O Terrorismo e a Ideologia do Ocidente".

Não preciso de recordar a ninguém a já célebre história, que se iniciou em 1992, quando o livro "Evangelho segundo Jesus Cristo" foi cortado da lista de concorrentes ao Prémio Literário Europeu.

Entretanto, Saramago prossegue a sua carreira literária, alternando entre a publicação de novas obras, a atribuição do Prémio Nobel, e comentários desprovidos de sentido em relação ao Senhor Professor. Culmina esta novela numa "reconciliação" entre o Estado Português, representado na altura pelo ex-Primeiro-Ministro, José Durão Barroso, num almoço em São Bento, corria o mês de Abril de 2004.

Bom...Eis que nos atinge um raio de simultânea genialidade e malícia. Impregnados de um certo sentimento de gozo, colocamo-nos na fila (onde só estavam pessoas com livros como "O Memorial do Convento", "Ensaio sobre a cegueira", "As intermitências da morte") para receber um autógrafo, ficando eu um pouco afastado, não fosse o senhor ter um acesso de fúria ainda maior e espancar alguém:


Erida: "Pode-me autografar este livro?".
Saramago: (Lê o nome do autor e resmunga) "O quê? António de Sousa Lara!? Nunca na vida!!!"
Erida: "Faça lá um pequeno comentário, com a sua assinatura..."
Saramago: "Como se chama?"
Erida: "Erida"
Saramago: (vermelho de raiva, escreve) "Para a Erida, que não tem culpa nenhuma, com simpatia, José Saramago"
Erida: (risos)
Saramago: (já espumando de raiva)"Esse homem não está preso?"
Erida: (orgulhosamente) "Não, é meu professor, e coordenador da minha licenciatura!"
Erida: "Muito obrigada e uma boa tarde
"Saramago: (grunhe) "Boa tarde"

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Der Putinismus

Porque também aqui não podíamos deixar de assinalar o 90.º aniversário da revolução russa, e até porque ironicamente tenho que ir para casa acabar o trabalho sobre o Pacto de Varsóvia para apresentar amanhã, aqui deixo, via O Insurgente, a capa da edição de hoje do Die Tageszeitung:

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Laicismo como unidade cultural?

Dúvida que me assaltou na aula de Tópicos Especiais de Teoria das Relações Internacionais onde a Professora se foca essencialmente na Escola Inglesa.

Martin Wight considerou num dos seus primeiros escritos que para que um sistema de Estados possa emergir é necessário que haja uma unidade cultural, tal como a demonstrada ao longo dos séculos nos diversos sistemas de Estados, nomeadamente no sistema europeu, através de uma unidade essencialmente, mas não necessariamente, pela religião (ainda que na Europa a religião cristã se tenha dividido entre protestantes, católicos e ortodoxos), e alguns extrapolam que isso dará razão ao conceito de Choque de Civilizações de Huntington. Porém, no sistema de Estados actual, que decorre da expansão do modelo europeu de Estados soberanos, não existe esse mesmo tipo de unidade cultural, o que desmonta o argumento de Wight (que se não tivesse morrido antes do final da Guerra Fria talvez tivesse rectificado a sua análise).

A dúvida que me assaltou e à qual a Professora não soube responder, apesar de poder apenas ser devaneio mental da minha parte, é se no sistema actual, onde os Estados que levantam mais problemas à ordem instituída são os do Médio-Oriente (onde não aconteceram movimentos como o Renascimento, não se chegando a separar a religião do Estado), será que os restantes Estados não estarão unidos por um conceito, o laicismo?

Embora todas as sociedades tenham eminentemente uma afeição por alguma religião, o Estado moderno proclama-se laico. Continuará isto a dar razão a Huntington? Enfim, só sei que nada sei...

Sugestões de leitura

Entrevista de Charles Murray, cientista político norte-americano, à Folha de São Paulo, sobre as afirmações de James Watson (via A Origem das Espécies).

O Diplomata revela em "Pensar George Orwell no século XXI" que "O livro What Orwell Didn't Know: Propaganda and the New Face of American Politics está prestes a ser publicado, mas enquanto isso não acontece o Los Angeles Times levantou o véu ao publicar quatro ensaios de autores diferentes que fazem parte daquela obra."

Mais um brilhante texto de Pedro Picoito no Cachimbo de Magritte: "Da Guerra Civil de Espanha ao ranking das escolas: a insustentável leveza da esquerda (I)".

E por último, a "Paranóia do Fascismo" no Incontinentes Verbais (post datado de 6 de Novembro).

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Politicopata

Já nem sei bem como fui dar com este blog, mas diverti-me imenso a ler o que o Politicopata escreve, até porque dá para perceber um pouco como funciona a máquina daquele partido que de forma persistente nos vai tentando apanhar...

Faz-me lembrar certas conversas que se passam nos corredores da podridão da politiquice do associativismo juvenil e universitário, ou outras que se vão ouvindo por aqui e ali, como as que há uns tempos ouvia vindas de "ilustres desconhecidos" das "J's", num daqueles espaços nocturnos de eleição da direita lisboeta e de certa esquerda caviar, de que sou cliente assíduo, nesse caso, o Foxtrot.

Embora seja de lamentar esta máquina do arrebanhar de votos, é algo extremamente pragmático, porque a política continua a ser um espaço feudal onde se desenvolve o jogo político-social de que Helen Milner fala em relação à formulação da política externa, embora seja um modelo aplicável a outros tipos de actividade política, e porque não se pode esperar que platonicamente todos os indivíduos sejam esclarecidos, pelo que se deixam guiar por outros. É uma lei natural, uns nascem para liderar e outros para ser liderados. Pelo menos não é uma máquina de irritantes demagogos sem classe como a da JS.

Um mês de Estado Sentido

Reparei que fez há três dias um mês que iniciei este blog. Embora não tenha tido a disponibilidade que desejaria, por motivos de ordem profissional e académica, agradeço aos que têm passado por aqui, deixando ainda a promessa de que a partir de Janeiro este espaço será mais dinamizado e actualizado.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Delicioso pingue-pongue

Recomendo a leitura do post de Ana de Amsterdam intitulado "Pingue-pongue", que acerca da questão dos rankings das escolas diz o seguinte:

"Não é pela falência do sistema de ensino público que a classe média, média alta, mete os filhos nos colégios privados. É por preguiça e por estatuto. Há quem faça do cu três bico para por os filhos no São João de Brito, no Moderno, no Sagrado Coração, no Manuel Bernardes e afins. E há quem sossegue com a exigência e o acompanhamento dos colégios. Assim, ao final da tarde, enquanto os filhos estudam, as mães podem ir descansadas às aulas de pilates e os pais podem fornicar docemente com os colegas e as colegas do escritório. Ter um filho numa escola pública, para além de não conferir estatuto, dá trabalho, exige coerência e disponibilidade. A maior parte dos pais e das mães não está para isso."

Simplesmente delicioso.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Subvenções vitalícias para políticos profissionais

Marques Mendes decidiu pedir uma subvenção vitalícia pelos serviços prestados ao Estado.

Não vou fazer as habituais critícas associadas às esquerdalhadas de que o povo é que paga o que uns poucos ganham, que "Isto é uma bergonha!", que é só "tachos" e por aí adiante.

O que me chama a atenção nesta notícia é o facto óbvio que ser político profissional acaba por vezes por não ser uma das melhores escolhas de carreira. É uma profissão altamente remunerada e obivamente que as pensões também têm que ser elevadas. O problema é que quando acontecem certos desaires, se não se tiver um outro qualquer tipo de ocupação remunerada, seja no sector privado ou público (académico por exemplo), do que é que se espera que uma pessoa viva se não sabe fazer mais nada?

Você é um fanfarrão!


Porque todo o mundo (pelo menos no Brasil) fala nisso, não podia deixar passar em branco o privilégio de que usufruí na passada sexta-feira ao assistir ao filme Tropa de Elite, diga-se de passagem, em muito boa companhia.

Devo dizer que prefiro a Cidade de Deus, bem mais conseguido (e também muito mais violento).

Enquanto os chavões do Capitão Nascimento (aquele sujeito com cara de poucos amigos que vêm na foto em cima) vão sendo ouvidos aqui e ali, não posso imiscuir-me dessa mesma moda, especialmente ao pensar em certas pessoas, (como Francisco Louçã, ver post abaixo), tendo já perdido a conta a quantas vezes por dia exclamo: "Você é um fanfarrão!"

Já estou a ver a moda a pegar em certos debates à portuguesa, a lembrar uns sketches do Gato Fedorento...

Periferias ao centrão em convulsões

Enquanto Louçã se perde em acusações de carácter demagogo com laivos que vão demonstrando a desorientação vivida por uma organização que só desde há algum tempo a esta parte se tornou realmente um partido na actual conjuntura, perdendo portanto grande parte do seu fulgor ideológico, assisto com curiosidade à formação do Movimento Mérito e Sociedade.

Eduardo Correia, professor de marketing do ISCTE, parece-me colocar-se naquilo a que se pode chamar a ideologia da governance. O rejeitar dos rótulos esquerda e direita em prol de um bem e interesse comum embora seja de assinalar, sendo uma tentativa de se colocar acima de ideologias e rótulos padronizados, carece de uma análise politológica à luz das definições de partidos de Duverger e Kircheimer.

É que para todos os efeitos, em termos práticos, PS e PSD também não se enquadram nessas mesmas noções, daí que a conotação de centristas em centro-esquerda ou centro-direita, que passa tão despercebida, seja por demais importante. No essencial, em pouco ou nada divergem. No acessório, é simples demagogia para entreter multidões. O centro é a governance. E a governance faz-se pelo marketing político. E o centro é demasiado forte para permitir a ascensão de periferias (a lembrar um pouco a teoria dependentista).

Resta aguardar para verificar se têm razão alguns politólogos que vão dizendo que não há espaço no espectro político português para mais partidos.
E por falar em movimentos, o que é feito do movimento de Manuel Alegre? Aos mais curiosos, cliquem no link Movimento Já que se encontra no site de Manuel Alegre. Será que o Movimento Já se tornou uma dating service agency?

A não perder

Parabéns pah! Que bela maneira de começar o dia! E que belo dia este aqui por Brasília!

Barão de Rio Branco

Recuperando um pouco a índole inicial deste blog, decidi “homenagear” um dos maiores estadistas de todos os tempos, neste caso, especialmente afoito ao Brasil.

José Maria da Silva Paranhos Júnior, Barão de Rio Branco, foi um daqueles raros homens de uma nobreza de espírito e intelectual invejável, político e diplomata exemplar que através do pragmatismo político soube servir da melhor forma possível o seu país numa conjuntura doméstica e internacional pouco amistosa.

Em 1892 com o advento da revolução que derrubou a única monarquia da América Latina, os republicanos imbuídos de um visão romântica e idealista, que acabaria por ser prejudicial ao Brasil – onde é que eu já ouvi isto? – tomaram as rédeas da diplomacia brasileira, transferindo o eixo fundamental dessa de Londres para Washington.

Acreditavam numa aproximação às repúblicas americanas, através da retórica pan-americana, dessa forma iniciando-se o movimento que viria a ser considerado um dos paradigmas da Política Exterior Brasileira, a Aliança Especial com os Estados Unidos.

Esta visão romântica que se aproximava aos ideais Bolivariano e Monroista, após diversos falhanços, entre os quais, concessões exageradas à Argentina em matéria de definição de limites territoriais, acabaria por ser substituída por uma visão mais próxima da realidade, ironicamente, fruto do trabalho de um homem ligado ao Império.

De 1902 a 1912, o Barão reorientou a diplomacia brasileira sob a índole do realismo e pragmatismo, constituindo o eixo das relações especiais com os Estados Unidos (durante a sua estada à frente do Itamaraty essas pautaram-se pelo alinhamento pragmático, ou seja, com recompensas, por oposição ao alinhamento automático, sem qualquer tipo de recompensa), restaurando o prestígio da diplomacia espelhada na época do Império, concluindo todas as negociações sobre limites territoriais à epóca, salvaguardando a soberania do Estado Brasileiro e esboçando ainda a primeira tentativa de integração em bloco na América Latina, embora não concretizada, o Pacto ABC (Argentina, Brasil, Chile).

Enquanto assistia à turbulência que perpassava o país sob o governo de Hermes da Fonseca, também a sua saúde se tornava cada vez mais débil, pelo que acabaria por se demitir em Janeiro de 1912, falecendo um mês depois, diz-se, pelo desgosto de ver o seu país em tal estado.

Para o Barão, filho do Visconde de Rio Branco, a sua descendência portuguesa e nobiliárquica eram motivo de orgulho, porém o seu sentido de Estado predominou sobre qualquer tipo de idealismo, ideologia ou artifício social. É notável e admirável como um monárquico convicto serviu o Estado Brasileiro republicano de forma exemplar.

Homem dotado de uma inteligência invulgar, deixaria para o futuro o que ficaria conhecido como o “Legado de Rio Branco”, que ainda hoje enforma a base da escola diplomática brasileira, que em sua honra instituiu o Instituto Rio Branco. Era de tal forma importante para os brasileiros, que sempre o viram como o indivíduo mais capaz para conduzir a chancelaria, que a notícia da sua morte abalou toda a sociedade, pelo que nesse ano se adiou a comemoração do Carnaval.

Rio Branco provou que acima de ideologias ou maniqueísmos está um sentido de Estado que todos os verdadeiros estadistas deviam possuir. Infelizmente isso vai sendo cada vez mais raro...