quarta-feira, 30 de abril de 2008

O Dalai Lama vigilante


A inesperada reacção mundial à situação no Tibete, levou os dirigentes pequineses a uma hábil e bem conhecida manobra desmobilizadora. Propuseram conversações ao supremo chefe tibetano, o Dalai Lama que com a sua habitual mestria  e conhecimento profundo da verdadeira natureza do governo chinês, respondeu de forma sumária e inequívoca. O líder espiritual está disposto a encetar negociações, como sempre manifestou ao longo das cinco décadas de invasão, ocupação e colonização do seu país. No entanto, sabedor dos meandros ínvios da máquina de propaganda do PCC, tornou bem claro que as anunciadas negociações deverão ter uma base concreta, ou seja, uma agenda para discussão. 

No seu ímpeto expansionista, a China tem procurado controlar os países limítrofes - Laos, Birmânia, Coreia do Norte -, ao mesmo tempo que outros como a Tailândia e Singapura , são fortemente influenciados pela importante presença de comunidades chinesas, ou por directa intervenção nos partidos de governo, como no Camboja. Os acontecimentos no Nepal evidenciam esse avanço para sul, garantindo o acesso às passagens dos Himalaias e estabelecendo um regime satélite nas fronteiras da rival Índia. De facto, Pequim liga-se a todo o tipo de Estados considerados como párias, desde o Irão, à Síria, Coreia do Norte ou Venezuela, sedentos de parcerias técnicas no âmbito militar. Na África, a par das missões económicas, intervém nos conflitos internos de vários países, fornecendo armas e assistência técnica. A recente saga do cargueiro chinês com armamento destinado ao Zimbabué é apenas um episódio de uma longa série  de tomadas de partido pelo ditador de serviço, chame-se este Mugabe ou qualquer outro disposto a garantir o fornecimento de matérias primas vitais ao galopante crescimento económico da RPC.

O Dalai Lama conhece os factos e enfrentou Mao e Chu-Enlai, não claudicando perante Xiaoping e Ziemin. Não será o actual chefe do PC quem o irá vergar. Se os Jogos Olímpicos ofereceram uma oportunidade de exibição do novo poder económico do colosso, colocaram-no todavia, sob o severo escrutínio da opinião pública ocidental. Dos consumidores. E para os chineses isso é o que mais importa. Na verdade, tudo o mais são ninharias.

Apeteceu-me esta excentricidade alemã de 1972

Uma lição negligenciada...

Para certos amigos que pretendem nada esquecer e nada aprender, uma sugestão de leitura. Já agora, procurem algo sobre o conde de Chambord e mais concretamente, sobre o período da sua vida na década de 65-75 do século XIX. 

terça-feira, 29 de abril de 2008

A Esquerda, a Direita e o Antes Pelo Contrário


Escutadas as notícias no telejornal da RTP-2 às 10 da noite, fui acometido de uma fúria súbita. A diseuse de serviço abriu o noticiário com a eterna lengalenga da alta dos preços do combustível, onde o despudor das petrolíferas encontra forte apoio - mesmo que tácito - nos perturbantes silêncios governamentais. Prosseguindo o rol de pequenas misérias, passei a saber do futuro e brutal aumento dos bens alimentares, num mundo onde mais cem milhões de seres humanos entrarão no auspicioso clube dos famélicos. O arroz, o trigo, a soja, o milho ou a colza, todos servem para mitigar ainda que de forma ténue, os bestiais apetites das indústrias energéticas. O facto de o sector alimentar se encontrar ligado de forma ostensiva e escabrosamente íntima a certos grandes interesses da área da banca, das farmacêuticas e do investimento, conduz ao imediato e simplista raciocínio da conspiração velada. Não sei nem me interessa saber a verdade desta hipótese, mas a despreocupação, a imbecil e alvar naturalidade com que estas desgraças são oralmente defecadas, fazem transbordar o copo mais fundo.
Já tinha decidido que nas próximas eleições gerais, não ir votar na nossa direita. Para dizer a verdade, jamais votei PSD - velhas contas relativas à descolonização - e assim, oscilei sempre entre o PPM - hoje liquidado pelo buraco negro em que se transformou -, o CDS, o MPT e confesso, nas últimas municipais, no MRPP. Esta última participação eleitoral nada teve que ver com opções ideológicas - nunca fui nem poderei ser comunista -, mas tão só devido á personalidade de Garcia Pereira, meu antigo e excelente professor de Direito do Trabalho na FDL.  A sua honestidade, competência e a recordação da forma cativante e próxima como tratava todos os alunos, pesaram naquela aparentemente despropositada decisão. Não me arrependo e até poderei repetir a ousadia.
Estamos todos a ficar fartos da Situação, tal como ela hoje se apresenta. Quando ouvi o discurso da dona Manuela Ferreira Leite, concluí que finalmente alguns responsáveis do regime reconhecem o facto do descrédito total a que os partidos e seus titulares chegaram. Continuo a acreditar que a chamada democracia burguesa é o sistema constitucional que melhores garantias de progresso e justiça propicia à comunidade. Nada me demove desta crença infantil. No entanto, esta actualidade  de tugúrio de escroques, de gentalha impiedosa, medíocre e de baixo calibre, enoja qualquer um e sinto-me tentado a considerar que aquilo que vivemos - a Europa inteira, excluindo dois ou três casos -, é uma simples e grotesca macaqueação da Democracia que oficialmente é letra de lei. Basta.
Se os grandes interesses económicos pretendem continuar a medrar e a lucrar com o sistema que gostosamente aceitamos como ideal, deve encontrar soluções. Deve prescindir da autêntica usura a que submete os contribuintes-consumidores. Deve moderar o exibicionismo dos alardeados lucros escandalosamente feitos à custa de milhões esmagados pela coacção imposta pela simples necessidade de sobreviver. Os detentores dos órgãos de Soberania, devem dar o exemplo, cortando radicalmente nos gastos que são visíveis e perfeitamente elimináveis. 
Eles que se ponham de acordo, do BE e PC, ao PS, PSD ou CDS. O tempo urge e neste corpo esquálido da Pátria, encontrem um derradeiro fôlego de vida que nos leve a um futuro melhor e mais digno daquilo que fomos e poderemos vir a ser.
A alternativa é muito simples: insurreições generalizadas, invasão e destruição da propriedade, terrorismo urbano e finalmente, uma segunda oportunidade ao fascismo. Estão preparados?

Até já

Como estas ainda estão assim, vou em demanda de outras paragens, onde possam já ter florido...
Se pudesse, mandava um Gin Tónico do Peter's. Fica a intenção.

E ainda dizem que os jovens não se interessam pela política...

Não resisti a roubar ao nosso caro confrade Demokrata esta bela peça humorística:

Os EUA e o fim da ordem unipolar - o necessário reajustamento estratégico

(Ler ainda o artigo do Tiago sobre o desajustamento estratégico de Washington. Em conjunto elaborámos estes dois artigos para o Pacto, jornal do Núcleo de Estudantes de Relações Internacionais do ISCSP, também publicados no Nostrum Symposium, aqui e ali)

Embora a realidade do declínio da hegemonia dos Estados Unidos da América seja evidente aos olhos de todos, algo desde há muito teorizado sobre a forma dos ciclos de poder e hegemonia internacional, até porque empiricamente observável em termos de domínio material pelo hard power, tal não significa no entanto que os interesses dos Estados Unidos estejam ameaçados, tal como procuraremos demonstrar sucintamente.

Se com o fim da Guerra fria entrámos na era da unipolaridade no sistema internacional, com Francis Fukuyama a clamar pelo Fim da História através do aguardado mas (ainda?) não concretizado efeito dominó de expansão das democracias liberais a todo o mundo, com um claro domínio material do sistema internacional por parte dos Estados Unidos e da aliança vencedora, isto é, a NATO, com o advento dos ataques terroristas ao World Trade Center em 11 de Setembro de 2001, ganharia um reforçado ênfase a tese do Choque de Civilizações de Samuel Huntington, implicitamente exaltada em Precisará a América de uma Política Externa, obra em que Henry Kissinger procura responder às necessidades de reajustamento norte-americano às rápidas mudanças no panorama internacional.

Em termos militares é claro o domínio norte-americano e transatlântico através da NATO, que se tem transformado para dar resposta a novas problemáticas numa bipolaridade entre o Ocidente e seus aliados contra o Terrorismo Internacional. Mas é também claro que o conceito de segurança abarca hoje áreas tão distintas como os direitos humanos, energia, ambiente ou desenvolvimento, o que faz com que os instrumentos de Washington estejam cada vez mais desadequados à realidade vigente, sendo insuficientes para responder a todos os inputs do sistema internacional.

Porém, em termos ideológicos é facilmente colocada em perspectiva a noção de que os ideais norte-americanos presidem à construção da Ordem Internacional vigente, em que o surgimento e/ou ressurgimento de novos actores como potências com um papel importante a desempenhar, acontece segundo as regras do jogo e da arena construída a partir do ponto central, os Estados Unidos, sendo de assinalar que em termos políticos a legitimidade internacional é construída com base nas formas democráticas de governo e nas economias de mercado.

Todo o sistema financeiro, económico e comercial a nível mundial tem a intervenção dos Estados Unidos, quer em termos públicos e directos através de organizações como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, quer através de meios privados, pela bolsa, pela banca e pelas suas empresas transnacionais que além fronteiras se instalam por todo o mundo e constituem o motor produtivo da economia mundial.

No recente artigo The Future of American Power, publicado na Foreign Affairs de Maio/Junho 2008, Fareed Zakaria faz um paralelismo entre a hegemonia norte-americana e a hegemonia do Império Colonial Britânico, onde demonstra que enquanto a queda do Império Britânico se deveu a termos económicos, ultrapassado no fim do século XIX pelos Estados Unidos e Alemanha, e posteriormente devassado com duas Guerras Mundiais, no caso dos Estados Unidos o seu declínio explica-se precisamente em termos políticos, pela falta de ajustamento de Washington às transformações no sistema internacional.

A influência sob a forma de hard power que os Estados Unidos têm vindo a perder é natural à luz do surgimento de outros actores e das transformações de um sistema internacional com centros de poder cada vez mais difusos, mas se o mundo está a mudar, é no sentido dos ideais norte-americanos, pelo que normativamente nos parece que o ajustamento dos instrumentos de Washington se deve dar por forma a permitir o domínio em termos de soft power.

Como refere Zakaria, estamos a entrar numa era pós norte-americana, em que os Estados Unidos continuam a ser o actor central decisivo para o funcionamento do sistema mas que têm que se adaptar para ocupar menos espaço e permitir que o jogo funcione segundo as regras por si criadas, onde os seus interesses não se encontram ameaçados porque são simultaneamente os interesses de todos os outros actores, que hoje em dia se pautam pela constante necessidade de desenvolvimento para os seus países, populações e organizações.

Para concluir, parece-nos salutar, em altura de eleições para a Presidência norte-americana, relembrar Paul Kennedy em A Ascensão e Queda das Grandes Potências ao considerar que a natureza liberal e muito pouco estruturada da sociedade americana (…) lhe dá provavelmente maiores hipóteses de se reajustar a circunstâncias mutáveis do que as que teria uma potência rígida e dirigista. Mas isso, por seu turno, depende da existência de uma liderança nacional que consiga compreender os mais amplos processos em funcionamento no mundo actual e que tenha consciência tanto dos pontos fracos como dos fortes da posição dos Estados Unidos enquanto procura ajustar-se ao contexto global em mutação, até porque, por ter tanto poder quer para o bem, quer para o mal, por ser a pedra angular do sistema ocidental de alianças e o centro da economia global actual, aquilo que faz, e o que não faz, é muito mais importante do que aquilo que qualquer das outras potências decide fazer.

Agora é esperar para vermos o que nos aguarda.

Terapia termal (1)

Não sei se o facto de ter nascido numa vila termal, banhada pelo Rio Ave, onde são notáveis os vestígios de balneários romanos, datados de, pelo menos, o tempo do imperador Trajano Augusto, o qual deu nome a um monumento nacional, o Penedo de Trajano, dito da Moura, viria a influenciar neste fascínio que sinto pelos lugares termais.
Vidago, por exemplo, é um lugar mágico, e percorrer os vastos jardins do Palace Hotel, abertos ao público- quando lá fui, ainda o hotel estava em obras- é, por si só, a melhor das terapias.
Mais perto, são famosas as Termas de Vizela e as de Caldelas; a todas elas é comum, além da calma que lhes é, justamente, associada, uma atmosfera da "Belle-Époque", que, também, marcou Portugal.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

O "meu" Paul (2)


Eu sei, eu sei que já falei nele; mas foi tão, mas tão, importante para mim, e as alegrias que lá vivi permanecem tão actuais na memória, que, quando há pouco passei lá "prometi-lhe" voltar a falar nele e mostrá-lo na sua decadência...

Precisamente há 25 anos


Foi a última verdadeira campanha eleitoral do PPM, com muitas iniciativas de rua, paredes cobertas de cartazes e um bom comício no Villaret. O PPM tinha princípios, foi pioneiro de ideias que hoje fazem parte do nosso dia a dia, propiciou camaradagens para a vida, fez parte da nossa juventude. Bons tempos em que o Partido não era mero objecto de projectos pessoais ou de vaidades extemporâneas.

"obrigado"?

Sempre que oiço uma mulher usar esta forma de agradecimento, como é frequente, por exemplo, na televisão, recordo a minha Professora da Primária, a Dona Maria.
Um dia,estava eu na primeira classe, mandou-me devolver um qualquer objecto a um professor de outra sala, e que não me esquecesse de agradecer. Assim fiz; quando regressei perguntou o que tinha eu dito: "obrigado", respondi, ao que a Dona Maria contrapôs- "então achas que o senhor deve estar agradecido por nos ter emprestado (o tal objecto, que já não lembro o que era) ?".
Há bocado lembrei-me novamente da Dona Maria...

Se quer casar,

três voltinhas ao São Longuinhos há-de dar.

Via Memórias de Araduca, um blogue que se dedica a publicitar tudo quanto a Guimarães respeita, e no passo em que procura estátuas com a característica que particulariza a que serve de símbolo à cidade, as duas caras, soube que também por cá temos um santo casamenteiro.
Encontra-se este no Bom Jesus do Monte , em Braga, e também esta estátua, equestre, ostenta uma cara suplementar, esta no escudo do cavaleiro representado.
Parece que no Brasil é invocado quando alguém perde algo, mas aqui reparte com Santo António as virtudes de arranjar marido a quem a ele recorre,

domingo, 27 de abril de 2008

Domingo, 27 de Abril, uma da tarde

Domingo, 27 de Abril, uma da tarde. Na avenida Infante D. Henrique (Cascais), após a segunda rotunda, estava a chegar a casa da minha avó. Ia buscá-la para o almoço de aniversário da minha mãe e trazia comigo o cão dos meus pais, o Rapaz. Circulando a menos de 40 km/hora, fui quase abalroado por um carro de meninos Tunning que devem ter ficado muito contentes com o resultado da brincadeira. Apertaram-me contra o passeio, obrigando-me a embater num poste de electricidade, ao mesmo tempo que o airbag era accionado, deixando-me momentaneamente inconsciente. Fui acordado por uma senhora muito prestável que de imediato chamou o INEM e a PSP. Bastantes pessoas surgiram do nada (hora de almoço) e verifiquei com apreço, a solidariedade e pronta assistência daqueles desconhecidos. O cão estava em pânico e foi o primeiro a ser retirado da viatura, felizmente sem qualquer ferimento. Saliento a extrema prontidão - surgiram decorridos poucos minutos -, competência e amabilidade da brigada da PSP - gente correctíssima - e do INEM. Escoriações nos dois braços e na cara. Parabéns ao visível sucesso dos meninos brincalhões que por sinal, decerto pretendem ver legalizada a brincadeira tunningueira. Comigo obtiveram um full...

O encontro entre os indivíduos na cidade normal: tudo ao som de AIR e em um cenário a “la Mies van Der Rohe”

A organização do espaço da cidade expressava algumas das preocupações sócio-políticas de Le Corbusier: “o local onde o silêncio e a solidão se conjugam com o contato diário entre os indivíduos”. Em Brasília, estão alguns dos preceitos que Le Corbusier defendia de uma cidade ideal. E de verdade, tudo na capital seria perfeito e hiper-organizado, como ele queria, senão fosse justamente isso: o indivíduo.

Leiam a seguir um bom exemplo desse fato:

Brasília, 31 de outubro de 2005.

3:00 da tarde:

Vou para o trabalho dirigindo calmamente num trânsito em que se você quiser sempre chegará no horário certo. As vias retas, perfeitas, a rapidez do trânsito e o som do AIR no meu ouvido. O dia está fresco, como é raro aqui em Brasília, e o posto de gasolina estava vazio. Chego à escola e tenho que dar uma micro aula sobre Le Corbusier, Bauhaus, Gropius e afins. Me empolgo e acabo falando da casa que um dia quero desenhar com o traçado todo a “la Mies Van Der Rohe”. Lá dentro as coisas vão flutuar como no desenho dos Jetsons e algumas paredes vão ser verde água.

6:00 da noite:

Saio da escola e volto pra casa num trânsito ainda tranqüilo. O dia está totalmente bucólico, o som do AIR continua nos meus ouvidos e as pessoas em Brasília voltam para casa sorrindo sorrisos amarelos depois de mais um dia “tranqüilo” de trabalho.

A trilha sonora que ouço torna tudo alegre e verde água, e eu me sinto numa tarde dos anos 60. Passo vagarosamente olhando alguns blocos antigos e fico imaginando se “Corbu” estivesse sentado aqui, do meu lado no carro.

6:30 da noite:

Estou entrando na quadra comercial da minha super quadra. O trânsito já não é tão tranqüilo neste horário. Entre as quadras os carros se engarrafam e eu começo a olhar, ainda ao som de AIR, o “rapaz” (adoro essa palavra retrô) bonito do carro de trás que está tranqüilo ajeitando o cabelo pelo retrovisor. O som da música nos meus ouvidos está alto e tudo parece cena de filme. Numa das entradas em que estou parada, ainda olhando o “rapaz” bonito do carro de trás, avança um ônibus: ele é verde exército e tem aquele design amebóide dos ônibus antigos que carregavam soldados americanos nos anos 60.

O motorista me pede a passagem e eu cedo. Fico pensando de onde saiu aquele ônibus “retro” maravilhoso, enquanto ainda olho o “rapaz” bonito do carro de trás (ele era realmente bonito). Tudo está calmo demais, o som do AIR ainda toca nos meus ouvidos e o trânsito parece enfim avançar. É quando de repente olho pelo retrovisor lateral e vejo uma moto derrapando no chão, derrapou porque bateu de frente com uma senhora gordinha que atravessava feliz a via com seu cachorro bassê. A gordinha cai no chão derrapando também, o bassê late assustado, uma moça vem e ajuda a senhora a se levantar. O cachorro quase é atropelado por um outro carro que vem em alta velocidade. Então, os dois, cachorro e dona, vão correndo pra um dos canteiros, e eu, tenho que partir sem poder entender direito o que havia acontecido ali. Olho pelo retrovisor e vejo que o “rapaz” bonito, preocupado também, estaciona o carro em fila dupla indo ajudar a gordinha e o bassê. E eu parto para minha quadra, entro no estacionamento e pego o elevador, já sem o som do AIR nos meus ouvidos.

Pois é, tudo ia perfeito demais entre o bom contato e o mau contato, e é isso que faz da cidade "ideal" uma cidade "normal".

Le Corbusier: “Cidade ideal, o local onde o silêncio e a solidão se conjugam com o contato diário entre os indivíduos”.

Pois é, por mais que tudo pareça perfeito há sempre o contato entre os indivíduos, será que ele se esqueceu disso? Sempre que eu leio os conceitos de Le Corbusier sobre “a vida perfeita nas cidades” me lembro daqueles livros antigos de medicina alternativa, "Beba 2 litros de água, durma 8 horas por dia, caminhe, etc..." Acho engraçado ler os pré-requisitos que ele determinava para que uma cidade fosse “saudável”. E por mais que ele seja radical, às vezes é muito difícil discordar do que Corbu diz. Fico imaginando como seria conversar com ele e tentar entrar em discussão.

Le Corbusier: - As 8 horas de repouso continuado, a prática de esporte deve ser acessível a todos os habitantes da cidade. O esporte deve ser praticado bem ao lado de casa, bla, bla, bla...

Eu: - Mas senhor...Isso tudo é tão obvio, tão claro, e chato, chato demais! Eu adoro Brasília, gosto da facilidade que existe pra se chegar aos lugares (mas só quando é de carro) da ordem milimetricamente calculada das super quadras, gosto dos imensos verdes vazios e etc...Mas toda essa ordem é tão chata, tão chata quanto a voz de um médico dizendo que carne vermelha faz mal pra saúde!

Le Corbusier: - Mas escuta, todas as vezes que a linha for quebrada, interrompida, descontínua, pontuda, nossos sentidos serão afetados, dolorosamente afetados, nosso espírito se afligirá com a desordem, e pensará: ISSO É BÁRBARO! (Bárbaro de bruto mesmo).

Eu: - Eu discordo, senhor Lê Corbusier, acho muito chato ter sempre o mesmo jeito de voltar pra casa sem a possibilidade de mais outros mil caminhos. Acho chata a retidão das ruas sem um beco que apareça do nada ou uma ladeira linda e imensa que dê pra ver lá embaixo os moleques soltando pipa. Acho chato não me deparar de repente com uma rua de paralelepípedos ou uma curva que dê numa via sem saída. Definitivamente, acho chata a retidão da cidade planejada.

Le Corbusier: - Minha filha, o homem caminha em linha reta porque tem um objetivo, sabe aonde vai. Decidiu ir a algum lugar e caminha em linha reta porque é inteligente. Já a mula ziguezagueia, vagueia com cabeça oca e distraída, evita os grandes pedregulhos, busca a sombra, empenha-se o menos possível.

Eu: - Pois então meu senhor, que vivam as ruas desenhadas pelas mulas! Onde possa se vagar com a cabeça oca e distraída!
A mula é um flâneur!!! Eu sou uma mula!

E já agora comecem a nacionalizar empresas e propriedades

Jerónimo de Sousa em entrevista ao DN:

Os campeões do liberalismo querem sempre menos Estado, deixar funcionar o mercado. Quando se trata de amassar fortuna a fortuna, com lucros fabulosos, designadamente no sector bancário, aí "alto, o Estado que não se meta". Agora, tendo em conta a especulação mobiliária, tendo em conta as bolhas que existem e as dificuldades, então "aqui d'el rei, venha lá o Estado salvar-nos".

Não sei que liberais é que o líder do PCP conhece ou tem ouvido falar, mas só a um tolo poderá parecer crível tal afirmação. A questão está que em Portugal o Estado anda sempre com os privados atrás, aí não há liberalismo nenhum. Não me recordo de ver algum liberal a clamar pela intervenção do Estado para nos salvar em tempo de crises financeiras ou económicas. Aliás, quanto ao que se passa actualmente nos mercados financeiros mundiais do que tenho lido de diversos liberais é o aviso quanto à injecção abrupta de milhares de milhões de dólares para garantir a liquidez dos mercados, que poderá causar o efeito precisamente contrário ao pretendido. Mas camarada Jerónimo ainda faz melhor:

Em relação à banca, achamos que cinquenta por cento desse sector deveria estar [nas mãos do Estado].

Pois claro, saudades dos tempos do PREC não é camarada?

Fins-de Semana

"Caro Fabrizio, estou a escrever-te num estado de extrema prostração. Lê as terríveis notícias que vêm no jornal. Os Piemonteses desembarcaram. Estamos todos perdidos. Esta mesma noite, eu e a família toda vamos refugiar-nos nos barcos ingleses. Decerto quererás fazer o mesmo."
(«O Leopardo», de Giusepe Tomasi di Lampedusa)

Sentada no sofá, muitas foram as vezes em que os olhos paravam neste título, na lombada de um livro fininho, há muito tempo na estante, sem vontade de o abrir, com receio de me decepcionar, tanto gosto do filme protagonizado por Burt Lancaster.
O normal é o contrário: decepção com a adaptação cinematográfica da obra literária; mas este filme de Visconti está num pedestal tão alto...; acontecera uma coisa assim com «Despojos do Dia», em que tive medo de o livro não ser digno das interpretações de Anthony Hopkins e Emma Thompson...
Até que ontem o livrinho venceu esses receios, e já vou a meio, sem que tivesse ainda vontade de o pôr de lado.

Pedaços do Minho


Adeus ó lugar de Ervelho,
Pequenino e airoso,
Quem n'elle tomar amores
Póde-se dar por ditoso.

A agua do rio Minho
Corre por baixo da ponte,
Quem quizer o cravo louco
Ponha-lhe a rosa defronte.

Alta serra do Gerez
Onde a neve se detem,
Chamo, ninguem me responde,
Olho, não vejo ninguem.

O' alta serra da Estrella
Onde se tece a cambraia,
Se d'esta me vejo livre
Não temas que eu n'outra caia.

(in «O Minho pittoresco»)

sábado, 26 de abril de 2008

Pensamento (3)


Ainda do Diário de João Bigotte Chorão

Em Portugal, o desprezo pelo outro tornou-se de tal sorte que suspeitamos ser norma consagrada constitucionalmente.

Quando pela primeira vez fui turista no Estrangeiro

Acabara a Quarta Classe da Escola Primária, quando, nas férias grandes, o meu pai nos meteu- a mim e aos meus quatro irmãos mais velhos, todos rapazes, - num velhinho Vauxhall Victor, e fomos, um bocado sem destino, apenas com a ideia de ir até França. Levávamos uma tenda connosco, provisões, e os utensílios necessários para prepararmos as nossas refeições. Uma grande aventura.
Foi um grande périplo, que nos levou até a Normandia, vale do Loire, e Paris.
Da Normandia lembro bem, além do Mont Saint Michel, o termos visitado o Museu do Desembarque Aliado; recordo ter visto, projectado num grande ecrã, o lançamento de centenas de pára-quedistas, e a reconstituição , em maquete, do desembarque dos tanques. Foi nessa altura que pela primeira vez ouvi falar no soldado Milhões, não sei bem porquê, pois que aquele é um museu dedicado à Segunda Guerra: mas o meu pai aproveitava sempre para fazer associações históricas...
Do Vale do Loire lembro, claro, os castelos que pareciam ter saído direitinhos de um conto de fadas, e de Paris lembro todos aqueles museus e monumentos. Recordo Versailles, o Palácio e os jardins fabulosos.
Já lá voltei várias vezes, mas esta imagem é a que permaneceu, indelével...

Comemorações abrilistas ao som de Chico Buarque

Em tempo de comemoração do 25 de Abril, atentemos na homenagem prestada por um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira, pelas músicas Tanto Mar e Fado Tropical:




Esta tarde, na Avenida

Será?

Pergunto-me se "quem está à beira dos Alpes" terá, ainda, de viajar "à volta do seu quarto". Não, se por lá estiver um tempo, por pouco aproximado que seja, como o que tivemos no dia de ontem, com um céu assim, em que muitos foram os que arejaram já as vestes de Verão. Mas temos de atender ao adágio popular que diz ser fraco o Maio que não rompe uma croça .
Pelo menos, os que amanham a terra puderam começar as sementeiras da batata: já muitos se lamentavam.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

A qualidade da democracia em Portugal

Em dia de comemoração da Revolução dos Cravos, vale a pena ler o único discurso oficial sem lugares comuns, o do Presidente da República, sobre o distanciamento dos jovens em relação à vida política, e os artigos do Público sobre o descontentamento de destacados oficiais militares em relação à qualidade da democracia em Portugal, aqui, aqui e aqui.

Assim tento responder ao desafio do Nuno...


Comecei por socorrer-me do arquivo do Combustões, pois que tinha uma vaga ideia de um post em que versa esta matéria. Depois de uma busca, encontrei-o:" O Brasil de D. Pedro II e o Brasil de Lula", de 4 de Outubro de 2006; - aí diz o Miguel ser aquele "Homem de grande dimensão moral e intelectual(...)que sempre viveu de forma discreta" tendo sido grande amigo de Portugal e das letras portuguesas", referindo as visitas do Imperador a Camilo Castelo Branco. Mas os dois homens terão, além disso, mantido uma correspondência regular, como me dei conta ao consultar, entre outros, o «Boletim da Casa de Camilo.
Tê-lo-á visitado, também, na casa do escritor no Porto, na Rua de S. Lázaro, em 1872, quando este já se encontrava doente: "Tornou-se assunto de conversação a analyse de uns quadros que o senhor Camillo Castello Branco tinha na sala, mostrando o soberano vastos conhecimentos sobre pintura".
Depois de o escritor ter oferecido a D. Pedro um quadro com os vinte e um primeiros reis portugueses, tendo-se ele" comprazido de possuir umas lembrança de Camillo (...), fallaram de literatura, tanto portuguesa como brasileira, matéria sobre a qual o monarcha discursou largamente, com perfeito conhecimento de causa".
Finalmente, num dos volumes de "Dispersos de Camilo" , coligidos por Júlio Dias da Costa, encontrei uma carta dirigida a Tomás Ribeiro, na qual diz Camilo: "No « Livro de Consolação», pagina primeira, está impresso um documento que eu desejo fazer-te conhecido. É uma carta escripta a S. Magestade o Imperador do Brasil, dedicando-lhe affoitamente e audaciosamente, o meu livro. Essa carta manifesta o meu grande respeito e a minha profunda gratidão áquelle magnanimo homem, que não carecia de diadema para ser um dos mais veneraveis cultores das letras, e amigo dos operarios que vivem acorrentados á galé dos trabalhos do espírito, em que a alma, alando-se para altas regiões, vai deixando cahir em terra o corpo despedaçado».

Achmed, o Terrorista

Manifestação em Lisboa de apoio à rainha Carlota

Inacreditável! Estão a reunir-se grandes grupos populares na zona do Marquês de Pombal, preparando-se para descer a avenida da Liberdade, numa manifestação comemorativa do aniversário da rainha Carlota Joaquina. Aproveitam para nesta mesma data celebrar a aclamação de D. Miguel (25-4-1828) como rei, pelo Senado de Lisboa. Ao fim de dois séculos o povo não perdeu a memória e é ainda com os cravos vermelhos que encheram a carruagem real que sai à rua.

Histórias do Minho: O imperador do Brasil visita Camilo

Aqui vai um desafio à Cristina. O imperador D. Pedro II era um erudito e um dos mais decentes homens do seu tempo. Visitou Camilo Castelo Branco em S. Miguel de Seide. Assim, desafio a Cristina a elaborar um post que nos esclareça acerca das relações que o bom monarca manteve  com essas terras e gentes... Que tal?

Por muito querer à sua terra (2)


É ainda por muito ter querido à terra onde nascera, que o Padre Ferreira Caldas, membro da Associação dos Arqueólogos Portugueses e da Sociedade de Geografia "se passava dias inteiros a passear na Costa, na Penha ou ainda na Citânia de Briteiros" dedicava-se a estudar aturadamente tudo o que a ela respeitava, nomeadamente as suas origens, começando por constatar o quão nebulosas elas eram: que esta povoação, situada na confluência dos rios Ave e Vizela, tenha sido a Araduca- a Cidade das Letras- mencionada por Ptolomeu, é apenas uma das hipóteses, com bastante acolhimento na Tradição, embora.
Tudo se tornaria mais claro a partir do século X, quando a viúva Condessa Mumadona vem de Tui fundar um mosteiro na sua quinta de Vimaranes, onde hoje se situa a Colegiada, começando a formar-se uma povoação, que, mais tarde, com a vinda do Conde D. Henrique, iria salientar-se no seio do território governado por Afonso VI de Castela e Leão, dado o importante contributo deste Príncipe na luta de Reconquista, o qual viria a ser reforçado quando seu filho, Afonso Henriques, toma nas suas mãos o combate aos sarracenos, ganhando , deste modo, e após a decisiva Batalha de Ourique, travada em 1139, legitimidade para se proclamar Primeiro Rei do novo Reino que agora nascia.
E mesmo quando a corte se desloca mais para Sul, para Coimbra, Guimarães irá continuar a prosperar, culminando no "estabelecimento da corte dos Duques de Bragança, a família mais nobre e opulenta do Reino".

Feliz Aniversário, Majestade!


Nasceu em Aranjuez a 25 de Abril de 1775, D. Carlota Joaquina de Bourbon, rainha de Portugal e imperatriz do Brasil. Faz hoje 233 anos. Nesta solarenga sexta-feira, desejamos um feliz aniversário a Sua Majestade.


* O trepa-moleque que a rainha ostenta é fabuloso. Por onde andará? A Laura Junot tinha muita inveja dos diamantes de D. Carlota.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Quarto com vista nocturna

E agora tentem imaginar a música do Nocturno, da Luísa...

Pedaços do Minho


Pergunta a quem saiba amar
Qual é mais para sentir,
Se amar e viver ausente,
Se vêr e não possuir.

Eu hei de amar-te de noite
Que a noite tudo encobre
Dá-me uma falla, amorsinho,
Que a tua gente já dorme.

Ó luar da meia noite
Não sejas meu inimigo,
Estou á porta de quem amo,
Não posso entrar comtigo.

Rosa que estás na roseira
Fechadinha no botão,
Deixa-te lá estar dentro
Que lá te procurarão.

Ninguem se fie nos homens
Nem no seu doce fallar,
Que tem fallinhas de mel,
Coração de rosalgar.

Rosa que estás na roseira
Deixa-te estar que estás bem
Debaixo ninguem te chega,
Acima não vae ninguem.

Elle chove, elle chovisca
Na folha ao manjaricão,
É bem tola e é bem varia
Quem por homens tem paixão.

(in «O Minho Pittoresco» )

A Rainha Sofia e a milionésima passagem em revista das tropas espanholas

A blogosfera anda excitadíssima com a foto da ministrazeca da defesa de Espanha, que grávida de onze meses, passa em revista esta e aquela guarda de honra. Grande coisa! Quantas vezes a rainha Sofia fez o mesmo? A propósito, convém lembrar a estes bajuladores dos estrangeiros, que Portugal, que jamais adoptou a Lei Sálica, teve duas mulheres como Chefes do Estado e comandantes-em-chefe das Forças Armadas. Que tal este tema como debate nos blogs? 

* Sinal de grande progresso e modernidade será uma passagem em revista pela ministra, com o trambolho ao colo daqui a uns seis meses, no momento em que o neo-nato chupe furiosamente um dos terminais abastecedores em plena parada. Isso é que era!

Com quem os pratica,

No Desconversa o Mike faz uma reflexão muitíssimo pertinente, e pergunta se não é certo que os actos ficam com quem os pratica. Claro que ficam, Mike. Podem deixar-nos magoados, e até custar a "encaixá-los", mas acabamos, felizmente, por assim concluir, numa espécie de catarse...

Não queiram enganar-nos

O governo resolveu dar a volta ao texto, ou melhor ao nome, porque o essencial dele permaneceu, e aquela coisa brindada com um "porreiro pá!" lá foi aprovada. Não foi ainda ratificada, mas não esperemos que o não seja: é só uma questão de agenda do mais alto magistrado...; pensam que vão continuar a enganar os tolos com bolos. Assumam a natureza do texto que aprovaram...

A ler

Sem dúvida imperdíveis, para quem se interessa por estas coisas, dois artigos na Foreign Affairs que com algum wishfull thinking à mistura, como de resto é normal atendendo ao contexto da publicação em causa, alertam para o que poderá consubstanciar um novo paradigma na Teoria das Relações Internacionais ou, de forma mais prática, o tipo de transformações a que poderemos assistir nos próximos anos, no que diz respeito ao declínio do domínio norte-americano do sistema internacional entendido sob a forma de um mundo pós-americano:

The Future of American Power, por Fareed Zakaria (editor da Newsweek International).

The Age of Nonpolarity, por Richard Hass (presidente do Council on Foreign Relations).

A ler

Os limites do bom senso...dos jornalistas, pelo Alexandre Guerra n'O Diplomata:

Pelos vistos, a Federação Nacional de Imprensa Italiana (FNSI) terá ficado chocada pelo facto de Berlusconi ter simulado com as mãos uma arma a disparar para uma jornalista russa que estava na conferência, após ter feito uma pergunta que Putin não terá gostado.

À primeira vista esta seria, no mínimo, uma brincadeira de mau gosto e que poderia colocar em causa o princípio de liberdade de imprensa, no entanto, lendo com mais atenção a notícia percebe-se o ambiente em que tudo se passou e chega-se a uma conclusão diferente: ao contrário de outras situações no passado, desta vez Il Cavalieri foi apenas sarcástico perante uma pergunta inconveniente da jornalista russa. Esta, talvez pensando que estaria a servir os interesses dos leitores russos, perguntou a Putin se estava em processo divórcio.

Além da questão por si só não ser motivo de notícia nem de interesse público, dificilmente se a consegue enquadrar numa visita do Presidente russo ao estrangeiro, sobretudo durante uma conferência de imprensa acompanhado do chefe de Governo de outro país. Há limites e noções de bom senso que devem reger os jornalistas em diferentes situações, e neste tipo de conferências de imprensa estas são perguntas que apenas servem para cobrir de rídiculo o próprio repórter.

Dia Mundial do Livro

Ora quase me esquecia que hoje, isto é, ontem, 23 de Abril, se comemorou o Dia Mundial do Livro. E para comemorar, nada melhor do que ter um desconto de 20% pela minha condição estudantil ao adquirir o recente livro de Nuno Simas, Portugal Classificado - Documentos Secretos Norte-Americanos 1974-1975, por alturas da comemoração da revolução abrilista. Para já estou a gostar, especialmente do sempre pragmático Henry Kissinger, que a 8 de Outubro de 1975 reunia com os seus conselheiros:

Kissinger: Por que diabo tínhamos nós que saber mais do que o Governo que foi derrubado?

Hyland: Eu disse isso, que [Marcelo] Caetano foi apanhado de surpresa. Mas a resposta ao que eles [Comissão Pike] queriam saber - prevemos o golpe? - é não (...)

Kissinger: Mas que exigência é esta de pôr as nossas agências de informações a descobrir golpes pelo mundo fora? (...) Será que nós temos que ter um FBI em cada país? (...) Nós dizemos que [Portugal] é uma ditadura, com serviços de segurança internos. Se os serviços de segurança internos portugueses não previram o golpe, como diabo íamos nós conseguir prever o golpe?

Sozinho

É e sempre será uma das minhas canções favoritas. Caetano Veloso ao Vivo na MTV. Um grande abraço aos nossos irmãos brasileiros e aos seus imensos artistas.


quarta-feira, 23 de abril de 2008

A respeito da alegada ratificação do Tratado de Lisboa

A mostrar como os jornalistas portugueses padecem de uma grave formação em diversas matérias, Carlos Loureiro do Blasfémias alerta:

Ao contrário do que se afirma no Público (aqui, aqui e aqui, pelo menos), no Expresso, no Sol e em vários outros jornais on-line, Portugal AINDA NÃO RATIFICOU o Tratado de Lisboa. O parlamento limitou-se a aprovar o Tratado para ratificação. A ratificação propriamente dita é competência própria do Presidente da República, através de Decreto-presidencial antes do qual é incorrecto falar-se em ratificação.

O Presidente pode, entre outras coisas, solicitar ao Tribunal Constitucional a fiscalização preventiva da constitucionalidade do Tratado antes de o ratificar.

Não sendo provável que o Presidente utilize esta prerrogativa, considerar, desde já, ratificado o Tratado constitui uma grave subalternização do papel constitucional do PR.

Fim de tarde na Praça do Comércio


O Arco Triunfal, a estátuta de D. José I, o Castelo de S. Jorge ao fundo, um dos principais componentes da sede do poder lusitano e uma imensa praça que desde há muito deixou de ser do comércio, banhada pelo Tejo e com um tecto luzidio de um leve sol primaveril.

Breves Escritos Internacionais

A Joana é uma amiga e colega de faculdade que tem vindo desde há algum tempo a esta parte a revelar-se como uma das mais promissoras "aspirantes" a especialista em Relações Internacionais, no que ao Médio Oriente diz respeito. Para além de sermos colegas de blog no Nostrum Symposium, o seu blog a título pessoal é sem dúvida um ponto de passagem obrigatória para quem se atreve a tentar perceber um pouco mais sobre uma das zonas mais problemáticas do globo. Ora ide lá ver.

Estado Sentido torna-se luso-brasileiro

A mostrar que não precisamos de acordos ortográficos para nos entendermos, e reflectindo a demanda que os nossos leitores de além mar representam nas visitas ao Estado Sentido, é com grande prazer que este se torna um blog luso-brasileiro, para já, com a Cristiane Alcântara, docente universitária da área de artes, uma grande amiga que deixei em Brasília, a quem agradeço ter aceite o convite para integrar a equipa do Estado Sentido.

Este é um espaço cada vez mais multifacetado, e de certa forma cada vez mais completo, versando sobre temas que sempre andaram de mãos dadas, Política, Arte e Literatura. A todos, leitores e colegas de blog, o meu sentido agradecimento, e que possamos continuar com esta bem sucedida empresa.

Lisboa arruinada (29) O terreno da Feira Popular

Em Entrecampos, o enorme terreno onde outrora se ergueu a Feira Popular, encontra-se limpo de ruínas e aguarda por novas construções. A cidade de Lisboa tem sido privada de espaços de lazer e a Feira Popular foi um grande polo de atracção durante décadas, onde gerações se divertiram no luna park disponível, comemorando aniversários ou participando em patuscadas nos Santos Populares. É um apetecível espaço para o sector betoneiro que domina o país e é com preocupação que os lisboetas imaginam o uso a que está destinado. Será decerto mais um colosso a perder de vista e sem qualquer interesse para a população, com volumetrias disparatadas, alumínios e placas em pedra polida ao gosto de qualquer WC de hotel de Tegucigalpa. Nada de novo.
Lisboa precisa urgentemente de espaços lúdicos adaptados às novas necessidades de uma juventude adepta de novos desportos e formas de lazer. Este terreno seria ideal para a construção de um prolongamento do jardim do Campo Grande, estendendo a malha verde em direcção ao renovado Campo Pequeno e incluindo pistas para ciclistas, skatters e patinadores.
Argumentarão com os compromissos tomados. Gesticularão com a ameaça de indemnizações, processos em tribunais nacionais e europeus. O interesse da comunidade está muito acima dos jogos da especulação e seria curioso verificar até onde pode ir a cumplicidade entre as diversas forças políticas dominantes na Câmara e as empresas investidoras interessadas ou "proprietárias" do espaço. Como disse anteriormente, nacionalizações ou expropriações "Por Bem" não amedrontam seja quem for. Ficamos à espera de um projecto do arq. Ribeiro Telles.

Por muito querer à sua terra (1)

Encontrando-se de há muito esgotada a primeira edição, datada de 1881, entenderam por bem, e para bem de todos nós, a Câmara Municipal de Guimarães e a Sociedade Martins Sarmento, reeditar a obra máxima do Padre António José Ferreira Caldas, «Guimarães, Apontamentos Para a Sua História».
Nascido em 1843, foi este "Este espírito ilustrado, aprimorado cultor das letras(...) , um escritor esmerado e jornalista vigoroso", nas palavras do prefaciador da actual edição, Francisco Martins, num texto datado de 1923.
Nele, "o sentimento de amor à Pátria" foi uma realidade de todos os dias.
Sobre Guimarães, escreve:
"Guimarães, cúria augusta do primeiro Afonso, berço nobilíssimo da monarquia portuguesa, assenta em prados verdejantes, que se alastram nas fraldas ocidentais da serra pitoresca de Santa Catarina(...). É tão aprazível e bela a sua estância que um dos nossos antigos infantes, ao contemplar Guimarães da vertente da montanha, dissera enleado por tão formoso quadro: quem te deu, não te viu, se te vira, não te dera. Aludia, diz Frei Leão de S. Tomás, aos reis antepassados, que doaram a vila à Casa de Bragança, o que decerto não fariam, se a vissem tão bem assentada, tão bem murada, coroada de tanta frescura e arvoredo, e tão formosa em si.
(...) Daqui nasce, que, sendo tão pequena esta região, é sumamente fértil, e a benignidade dos seus ares, a afluência dos seus rios, as abundâncias e delícias dos seus campos comprovam a fama do seu admirável temperamento, donde se animou a dizer Manuel de Faria que se no Mundo houve Campos Elísios, existiam nesta Província, e se os não houve, merecia que somente os houvesse nela..."

Só para dizer Olá

À Chris,
Um blogue luso-brasileiro, este que encontrei quando liguei o computador. Já estávamos à sua espera, mas veio sem fazer barulho, de mansinho. Bem-vinda!

Pra começar que tal falar um pouquinho sobre arte contemporânea?

Quem já viu o vídeo-clip do cantor Seu Jorge com a música "Tive Razão"? Bem, quem já viu sabe do que eu estou falando. É lindo! Simplesmente ele está sentado em frente a uma igreja de Roma cantando e tocando tranquilamente seu violão. Pode parecer uma observação boba, mas aquela imagem ali, pra mim, resume tudo que um artista quer da vida: mostrar - exibido, o que faz. E digo mais, vou somente uns 100 anos atrás pra mostrar um outro exemplo: Os impressionistas. Qual era o grande intuito deles? Mostrar o que faziam, e não adianta negar, eles queriam ser aceitos.
O salão de Paris não aceitava os quadros dos pintores impressionistas, por isso eles se uniram e criaram um outro jeito pra mostrar sua arte. E qual era a maior alegria de Van Gogh? Mostrar sua pintura. Quando ele leu pela primeira vez uma crítica de seus quadros ele saiu saltitando de alegria pelos trigais! E Gauguim? Foi pra uma ilha do Pacífico conseguir novas idéias, um novo estilo, qualquer coisa que fizesse com que seus quadros fossem novamente admirados pelos parisienses (que num certo momento começaram a o ignorar) .
Interessante, a pessoa que eu mais tenho visto atualmente escrever e criticar arte contemporânea não é um crítico de arte, nem um artista plástico, é um músico, o Bruno Medina da banda Los Hermanos. E por que será? Num dos posts em seu blog, Medina fala novamente do problema que tem com as instalações. Isso acontece porque ele faz parte da maioria das pessoas que gostam de arte. Feliz do Seu Jorge que toca seu violãozinho e não precisa se preocupar com o "conceito da performance estrutural da vídeo arte inserida na contemporaneidade do homem virtual". Ele canta ali, diante do mesmo público que Van Gogh, Pissarro, Degas e Gauguim buscavam. Que bom que ainda existem pessoas que gostam de arte, sem conceitos, sem problematizações, sem grandes questionamentos, gente feito o Bruno Medina, que reclama por uma arte que ele entenda. Eu torço muito, muito, pra que os tais problemáticos da arte não contaminem esse público e ele não se torne preconceituoso, vazio e frio, como parte da arte contemporânea. E quem não ouviu ainda Seu Jorge e sua música "Tive razão", tem que ouvir, porque é linda, aliás, é brega usar essa palavra em arte contemporânea, né?

Lygia Clark e sua complicada "Arquiteturas biológicas", de 1969.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Pensamento (2)


A ler «Diário Quase Completo», de João Bigotte Chorão, de uma forma aleatória e intervalada, por sentir assim mais proveitosa a leitura de um livro recheado de sabedoria empírica, deparo no escrito no dia do mês correspondente ao de hoje, mas de 1965, com a frase "Céu nublado. Chuva. Como estas nuvens hostis, assim os homens- certos homens- nos ocultam a límpida face do céu."
Até no clima a tradição se mantém...

A crise do PSD e a parcialidade sacerdotal do P.R.


Os recentes acontecimentos no maior partido da oposição, o PSD, parecem confirmar a progressiva decadência do sistema partidário consolidado no regime da Constituição de 1976. Para a reconhecidamente apática opinião pública nacional, o partido é matéria putreciente após um longo declínio iniciado exactamente em 1995, quando o seu chefe de momento e actual presidente da república, decidiu retirar-se do lugar que com total soberania ocupara durante uma década. O PPD ou o PSD - concedamos "generosamente" a oportunidade de situação aos seus militantes -, sempre foi palco de raivenças mais ou menos resolvidas quando do seu cíclico e previsível regresso à condução da nau do Estado. A situação que hoje se vive poderia apenas confirmar a tradição do baronatismo que nele sempre imperou, mas que no momento de sagração de um chefe por todos aceitável, conduziu à união de velhos e de novos militantes, abrindo as mais luzidas esperanças de ascensão a muitos e à conquista de um fugaz mas apetecido El Dorado na gigantesca máquina governamental.  Estamos agora perante uma situação bem diversa, porque às habituais picardias, sucederam-se safarrascadas sem quartel, onde os presidentes do partido foram imolados pelos Brutus de ocasião, tornando-se a agremiação "liberal", num sangradouro onde se torna missão arriscada o simples alvitre de um nome capaz de unificar todos os desavindos. O PSD sempre viveu do poder e foi desde o início do regime quem por  mais tempo dele se assenhorou, em governos mono-partidários ou em coligações à sua direita ou à sua esquerda. A sua missão foi apercebida pelo eleitorado como sendo a das sempre ansiadas e necessárias reformas, sem que o cidadão comum tenha jamais lobrigado o verdadeiro alcance do termo. Situacionistas por natureza, somos tentados a evitar confrontos  que descortinem um futuro incerto, mesmo que aparentemente as parcas o anunciem como promissor, daí o cuidado que todos os chefes dos dois partidos rotativos têm, em evitar a frequência de oráculos comprometedores que coloquem em risco futuros resultados eleitorais. O PSD falhou na missão reformista, quando há seis anos tudo tinha conquistado para se legitimar nesta tarefa: esmagou o PS nas autárquicas e atraiu o arredio CDS ao redil da coligação, subordinando-o aos seus desígnios. Falhou porque temeu as manchetes dos diários e as notícias de abertura dos telejornais. Falhou porque notórios militantes  foram os primeiros a marcar terreno no jogo de influências  que devendo ser simples manifestações de opinião interna, trouxeram à ribalta todas as quezílias e ódios acumulados, fazendo-se o ajuste de contas diante dos esbugalhados olhos dos eleitores de sempre. O sepuku parece não ter fim e nem a ameaça de irreversível residualização, parece demover os chamados grandes nomes do partido. Entre todos estes, figura o actual Chefe do Estado, entidade etéreamente tutelar e derradeiro - e hoje impossível - farol orientador da união da desavinda e dispersa frota laranja. O prof. Cavaco Silva sabe e tem a perfeita consciência que a manutenção do regime de 76 pressupõe um sólido e tacitamente aceite rotativismo. O rumo dado às políticas económicas ocidentais nos últimos dez anos e a emergência de novos polos de poder financeiro e industrial no globo, impelem a corrida partidária às reformas, encaradas estas como a última  - e sempre indesejada - oportunidade a uma Europa envelhecida e prisioneira do seu modelo social que poucos - nem nós - querem ver seriamente adulterado.

 O PSD perdeu a oportunidade, porque o seu eterno rival social-democrata, o PS, apreendeu a urgência e o maná oferecido, exactamente numa altura em que ele próprio se fizera desacreditar após duas maiorias absolutas conquistadas num período de relativa abastança económica mundial. O PS agarrou essa oportunidade e aproveitou-a, fazendo exactamente aquilo que no seu íntimo, o eleitorado esperara do governo PSD-CDS

A posição do Chefe de Estado é por demais típica para poder ser contestada pelos participantes no jogo do poder constituído. É o verdadeiro árbitro da situação e aquela dissolução da A.R., obtida pela directa e muito visível intervenção dos poderes fácticos - a banca -, expôs a figura presidencial de uma forma julgada por muitos como inaceitável, embora pressentida e há décadas interiorizada pelos cidadãos. O caso PRD e a rivalidade Eanes/Soares, a guerra de baixa intensidade entre Soares presidente e Cavaco primeiro-ministro, o fácies iracundo ou gelado de Sampaio durante o mandato de Barroso ou a aberta acrimónia manifestada nos tempos de Santana, são sintomas da ineficácia decorrente da hibridez do sistema semi-presidencial português, acrescendo-se ainda a pulverização em poderes subsidiários dos Supremos, etc.

O que hoje se torna visível para quem se interesse minimamente pelos negócios públicos, é a centralidade da figura presidencial, na qual os portugueses desde sempre depositaram vãs esperanças na obtenção do tal estatuto europeu que há muito nos foi esbulhado pelos avatares da história. Hoje, o presidente Cavaco é o questor maximus  do seu Partido e disso ninguém tem qualquer dúvida. Apesar de todos os desmentidos, para a generalidade dos portugueses surge como um rabdomante à procura do necessário chefe que minimamente congregue hostes ontem entregues a um hedonismo regabofista e hoje caídas no desespero motivado pela acefalia por elas mesmo propiciada pelo constante trucidar de personalidades.

O presidente olha pelos seus e isto tão só por interesse próprio, já na expectativa de um reafretamento de contingentes susceptíveis de viabilizar o segundo mandato. Na esperança de encontrar um chefe partidário capaz de capitalizar o descontentamento motivado pelas inevitáveis reformas - não se discute aqui o alcance ou a bondade das mesmas -, o presidente tem por fim último e lógico, o empossamento dos seus no cargo da governação. É a quitação dos compromissos, o saldar de contas. 

Cremos ser esta, a realidade da situação da república portuguesa, onde o aparelho do Estado no seu todo, é mero circo de exibição de façanhas de aprazados chefes que garantem os conhecidos e circunscritos interesses privados. Um verdadeiro Chefe de Estado terá que ser muito mais que um mero peão no  xadrês da pequena política nacional. A recente visita à Madeira denunciou a fragilidade do sistema, quando as normais e unanimemente aceites praxes de cortesia foram sacrificadas ao capricho de um irreflectido momento. Um caso semelhante é impossível na vizinha Espanha ou na velha aliada Inglaterra. Impossível, porque impensável, dado o universal respeito que a figura do máximo representante do Estado merece. Em Portugal, a clara identificação dos presidentes com a transumância eleitoral, traz o prejuízo irreparável da Situação, entendida esta como o edifício Constitucional que dá forma ao regime. A Democracia pode e merece mais. 

A simplicidade dos ordenamentos constitucionais ingleses ou dinamarqueses, com a presidencialização do poder do primeiro-ministro, dissipa dúvidas, concentra democraticamente o poder, racionaliza gastos e credibiliza os regimes. O Chefe do Estado não pode ser o permanente e incómodo intruso esbanjador de dotações anuais, o nosso bem conhecido participante na faena que corrói o sistema, assumindo em derradeira instância, a ingrata e escandalosa função de sacrificador-mor deste ou daquele governo.

Quando há alguns meses o general Eanes se referiu à  Monarquia Constitucional como o único regime capaz de unir as populações num projecto de liberdades e de progresso, sabia do que estava a falar. Confirmou apenas o que sempre pensámos e dissemos. O tempo o dirá.


A NATO, o Terrorismo e a Nova Ordem Mundial

(ensaio elaborado por Samuel de Paiva Pires para a cadeira de Organizações Técnicas e Científicas, leccionada ao 3.º ano da licenciatura em Relações Internacionais do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (Universidade Técnica de Lisboa), no ano lectivo de 2007/08 - também publicado em Nostrum Symposium)

A NATO, o Terrorismo e a Nova Ordem Mundial - Os Estados Unidos da América, a NATO, a Al-Qaeda, o 11 de Setembro de 2001 e o estabelecimento de uma Nova Ordem Mundial

I. Introdução

Neste breve ensaio, fruto de uma reflexão pessoal para a qual, desde já advertimos, pelo carácter algo polémico, que nos é permitido pelo facto de ser um ensaio crítico de opinião, não descritivo, partindo de determinados elementos de análise pretendemos demonstrar como a multilateral relação entre fenómenos aparentemente tão díspares como a organização terrorista Al-Quaeda, os Estados Unidos da América e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN, doravante designada pela expressão em inglês, NATO – North Atlantic Treaty Organization), estão intrinsecamente relacionados com o estabelecimento de uma Nova Ordem Mundial formulada a partir dos Ataques Terroristas de 11 de Setembro de 2001.

Outros fenómenos há, desde actores internacionais como empresas multi e transnacionais, passando por organizações como as Nações Unidas ou a União Europeia, até movimentos como a opinião pública cada vez mais transnacionalizada através dos meios de comunicação de massas, que merecem ser considerados como variáveis na análise do tema sobre o qual nos propomos debruçar brevemente, porém, para que não se perca o foco devido à circunscrita relação em análise, optámos por centrar esta reflexão nas variáveis previamente referidas.

As razões que nos compelem à realização deste ensaio prendem-se com o natural interesse que desperta o tema da Ordem Internacional, conceito esse presente de forma imemorial na Humanidade, desde que os primeiros povos, tribos, clãs, cidades-estado, nações, e Estados, se propuseram a relacionar-se, e que no caso em análise já nos têm vindo a inquietar desde há algum tempo[1].

Se a opinião vigente, à qual não somos certamente alheios até certo ponto, constata que a chamada Nova Ordem Mundial (porque deixou de ser apenas internacional, i.e., inter nationes), ainda se está a tentar definir, procuraremos demonstrar que poderá existir um outro ponto de vista analítico que vale a pena ser explorado, onde a NATO poderá ter pelo menos um papel a desempenhar em relação ao aparente estabelecimento dessa ordem, ou, em última instância, um papel fulcral adaptado às circunstâncias quanto ao que Francis Fukuyama classificou como o Fim da História, sob a ideia da alegada natural expansão das democracias liberais ao resto do mundo.

Como tal considerámos apropriado estabelecer uma estrutura dividida em três partes, a primeira dedicada a uma breve conceptualização necessária sobre o conceito de Terrorismo, a segunda reportando-se a uma contextualização do tema em análise, e a terceira prendendo-se essencialmente com a consequente argumentação quanto ao que nos propomos demonstrar posteriormente na conclusão.

II. O Conceito de Terrorismo

Sendo um dos conceitos que, porventura, tem suscitado mais controvérsia na academia, não podemos escusar-nos a tomar como referencial o património teórico desta nossa casa que é o ISCSP. Em primeiro lugar, tomamos em linha de conta a consideração do Professor Adriano Moreira quanto ao que classifica de poderes erráticos, formas de subversão da ordem instituída, reconhecendo ainda o terrorismo internacional como um actor na arena internacional[2], o que se nos afigura como extremamente útil quanto à relação que pretendemos demonstrar.

Em segundo lugar, o Professor António de Sousa Lara, deixa-nos de forma resumida na sua recentemente publicada obra “O Terrorismo e a Ideologia do Ocidente”, as mais importantes acepções quanto ao conceito de Terrorismo, nomeadamente distinguindo, em primeiro lugar, entre terrorismo indiscriminado e terrorismo selectivo:

No primeiro caso incluem-se todos os atentados e agressões que visam generalizar um dano de monta a um paciente previamente indefinido, anónimo ou indistinto. É relativamente irrelevante quem morre ou fica ferido, desde que morra ou fique ferida muita gente. No segundo caso, trata-se exactamente do contrário, ou seja, visa-se um alvo concreto, que se quer pressionar, eliminar, que se quer chantagear, fazer desaparecer de cena ou condicionar de forma definitiva, com vista a alterar o paralelograma de forças ou o circunstancialismo político de uma determinada correlação vigente[3].

Para logo de seguida nos deixar a distinção de super terrorismo, enquanto uma nova fase da avançada terrorista abrangendo meios cada vez mais poderosos e letais, designadamente de natureza biológica, química e nuclear, de concepção e execução transnacional, o que constitui, diga-se de passagem, um dos vectores principais da criação da NATO Response Force (NRF), enquanto força de intervenção altamente habilitada a actuar em teatros hostis provocados por ataques com armas biológicas, químicas e nucleares, adicionando ainda a esta categoria de super terrorismo, as acções suicidas de larga escala[4].

Fica assim tratado o fenómeno do Terrorismo, sobre o qual não nos alongaremos mais posto que está objectivamente definido no âmbito a que nos prestamos neste ensaio.

III. Contextualização

Fundada em 1949 pelo Tratado de Washington, a NATO surgiu como a expressão ideológica contrária à que naturalmente se lhe viria a opor durante o período da Guerra Fria, nomeadamente, a União Soviética e o Pacto de Varsóvia.

Até à Queda do Muro de Berlim em 1989, simbólico anúncio da consequente dissolução da União Soviética e do Pacto de Varsóvia nos anos seguintes, assistimos a um sistema internacional dominado pela lógica bipolar, que não degenerou em nenhum dos sistemas de Morton Kaplan, mas cujo fim imprevisto revelou a incapacidade de analistas e académicos em prever tal acontecimento que se processou de forma tão singular e abrupta.

Se, durante a Guerra Fria, de um lado tínhamos o chamado bloco comunista, com a União Soviética como potência directora e o Pacto de Varsóvia como organização militar exprimindo a ideologia que presidia a este pólo (ainda que enquanto na NATO o domínio dos Estados Unidos da América se fe(a)z sentir pelo soft power, no caso do Pacto de Varsóvia, vários analistas catalogaram a organização como mera forma de controlo e legitimação desse controlo sob os países satélites da órbita soviética[5]), do outro tínhamos o bloco Ocidental das democracias capitalistas liberais, liderado pelos Estados Unidos da América, em parceria com o Canadá e os tradicionais aliados da Europa Ocidental, com a devida expressão ideológica representada no campo militar pela NATO.

Esta era a ordem internacional definida de acordo com a sempre importante lógica dialéctica da oposição entre dois ou mais pólos numa balança de poderes, que presidiu desde 1648 às relações internacionais no sistema internacional dominado pelo, e derivado do, continente europeu, que sempre se mostrou avesso ao surgimento de uma potência destabilizadora dessa ordem, mas que também se revelou afoito a deixar-se cair numa monopolaridade com um vácuo de poder quanto ao tradicional equílibrio de poderes, pelo que a doutrina da Mutual Assured Destruction assentou perfeitamente no sistema internacional vigente durante a Guerra Fria, onde os parcos conflitos no terreno apenas ocorreram nas franjas desse sistema, e no qual não foram sequer permitidos conflitos de índole étnica ou religiosa como aqueles a que vimos assistindo desde o fim da Guerra Fria.

Porém, com o declínio do poderio soviético, assistiu-se desde então a uma transformação no sistema internacional (optamos pela definição de sistema internacional na acepção da Escola Inglesa de Teoria das Relações Internacionais, analisando a nível mundial a existência de um sistema internacional, composto por sub-sociedades e eventuais sub-comunidades internacionais, onde ainda assim, elementos do conceito de sociedade internacional desenvolvido por Hedley Bull e outros, poderão estar presentes no sistema internacional) onde o domínio dos assuntos relacionados com a segurança foi alargado, passando esse conceito a estar presente e a depender de sectores como o ambiente, direitos humanos, energia ou desenvolvimento sustentável.

Dessa forma se tem vindo a processar uma desmilitarização do sistema internacional, por vezes mais ténue, outras vezes até ameaçada, onde numa primeira análise a NATO seria condenada ao desaparecimento, posto que se cumpriu o seu objectivo de oposição ao Pacto de Varsóvia, entretanto dissolvido.

Fukuyama não se poderia ter enganado de forma mais assoberbada ao determinar a aparente consequente expansão das democracias liberais a todo o mundo, quando Samuel Huntington, não só contrariou essa tendência com o seu Choque de Civilizações, imensamente criticado, mas cada vez mais acertado no mundo pós-11 de Setembro de 2001, como teorizou sobre as Ondas de Democratização, estabelecendo que a cada Onda de Democratização se segue uma onda reversa onde democracias mais fracas regressam a formas não democráticas de governo[6].

A aparente falta de legitimidade quanto à existência continuada por parte da NATO, tendo em conta o aguardado efeito dominó das democracias liberais, foi rapidamente colmatada pela não verificação desse efeito, pelo surgimento de novos conflitos de índole étnica e religiosa, como nos Balcãs, e através do processo de politização interna da mesma, originando uma transformação que pretende conduzir a ainda aliança e organização regional de defesa colectiva[7] a uma aliança global de intervenção rápida em determinados desafios como crises humanitárias ou catástrofes naturais (como exemplos, a intervenção em Nova Orleães após a passagem do Furacão Katrina em Agosto de 2005, e a intervenção no Paquistão após o terramoto ocorrido em Outubro de 2005), actuando proactivamente no estabelecimento da paz e segurança, através de uma acção preventiva em relação à não proliferação de armas de destruição massiva e no combate ao terrorismo, o que pretende alcançar através de diversas ferramentas de índole política como sejam o Conselho Euro-Atlântico de Parceria, as Parcerias para a Paz, o alargamento a novos membros, o diálogo com a Rússia e Ucrânia que têm fora próprios de consulta com a NATO, o Diálogo Mediterrâneo ou a parceria estratégica com a União Europeia quanto à Política de Segurança e Defesa Europeia, a que se juntam as recentes ferramentas militares reestruturadas e criadas com as cimeiras de Praga (2002) e Istambul (2004), desde as tradicionais forças de estabelecimento e manutenção de paz, passando pela novíssima NRF, uma força de resposta rápida altamente especializada, até à elaboração de um plano conjunto de combate ao Terrorismo, no qual se inserem os países Parceiros para a Paz e os do Diálogo Mediterrâneo[8].

Porém, até chegar ao estado corrente, ocorreu um importantíssimo evento que mudaria a face do sistema internacional, o Ataque Terrorista de 11 de Setembro de 2001, novamente imprevisto, à semelhança da Queda do Muro de Berlim, que serviria como potenciador das transformações acima referidas e cuja análise prévia das suas implicações é por de mais necessária.

IV. Os Estados Unidos da América, a NATO, A Al-Qaeda, o 11 de Setembro de 2001 e o estabelecimento de uma Nova Ordem Mundial

Atentemos então nas considerações de Henry Kissinger num dos mais famosos exercícios de realismo puro em relações internacionais, a sua obra “Diplomacia”, já quanto às suas reflexões sobre o repensar da nova ordem mundial:

A tarefa da Aliança é a de adaptar as duas instituições básicas que modelam a relação atlântica, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e a União Europeia (antes Comunidade Económica Europeia), às realidades do mundo pós-guerra fria[9].

Ora de facto, como já referimos, a NATO encetou um processo de transformação interno que, porém, só viria a ser acelerado, e a trazer à organização um acrescido prestígio e importância na arena internacional, com os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, que se colocam como marco histórico da definição do terrorismo internacional enquanto pólo oposto ao dominante no sistema internacional, ocorrendo o que o Professor António de Sousa Lara considerou na obra “A Grande Mentira”:

O terrorismo, também, a que fiz suficiente alusão do enquadramento em “A Subversão do Estado”, passou a ser a forma de fazer a guerra da parte dos fracos contra os poderosos. E quando muitos analistas incautos e cientistas do imediato se apressaram a decretar o fim das ideologias e o termo da História, eis que renasce das cinzas esta forma de combate subversivo com uma expressão nunca vista, passando a constituir uma das frentes, senão a mais importante, da fase a que já se chamou de “a Terceira Guerra Mundial”. Trata-se da actualização de uma fórmula conhecida a uma situação avassaladora de “ideologia única” e de “imperialismo monopolar”.[10]

Os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001 levariam desta forma o já referido Henry Kissinger a reflectir novamente sobre a ordem mundial, rejeitando Fukuyama:

Durante toda uma década, as democracias tinham-se progressivamente tornado prisioneiras da ilusão de que as ameaças externas tinham virtualmente desaparecido, de que os perigos, se alguns havia, tinham antes de mais, origem psicológica ou sociológica e de que, de certa forma, a história, tal como fora registada até então, se transformara numa subdivisão da economia ou da psiquiatria[11].

Aceitando a tese de Huntington quanto ao Choque de Civilizações:

Simultaneamente, o desastre ensinou à América que alguns dos confortáveis pressupostos do mundo globalizado não se aplicam à porção do mundo que recorre ao terrorismo. Esse segmento parece motivado por um ódio de tal forma profundo pelos valores do Ocidente que os seus representantes se dispõem a enfrentar a morte e a infligir um grande sofrimento a inocentes na procura da destruição das nossas sociedades, em nome do que eles entendem como um choque de valores incompatíveis[12].

Denunciando a Al-Qaeda como símbolo do novo pólo de poder na dialéctica do sistema internacional, i.e., o terrorismo internacional:

(…) o secretário de Estado Colin Powell soube trazer à luz do dia uma coligação global que legitimava o uso da força militar contra o Afeganistão, o mais flagrante fornecedor de um santuário ao mais evidente símbolo do terrorismo internacional, Osama bin Laden[13].

Ainda que a eliminação de bin Laden, da sua rede e associados enquanto força unificada tenha constituído um sucesso significativo, tratou-se apenas do início de uma campanha mundial continuada[14].

Finalmente, exaltando à acção no seio da NATO:

Na medida em que estas realidades penetraram as consciências do mundo democrático, os terroristas perderam uma importante batalha logo no seu início. Na América enfrentaram um povo unido e determinado a erradicar o mal do terrorismo. No seio da Aliança Atlântica acabaram – pelo menos, durante algum tempo – com o debate sobre se ainda existia um propósito comum no mundo pós-Guerra Fria. As democracias ocidentais – pelo menos, na sua primeira reacção – aperceberam-se de que o ataque aos Estados Unidos mostrava talvez as ainda maiores vulnerabilidades das suas próprias sociedades[15].

O que é de ressalvar, tendo, em consideração a histórica evocação, pela 1.ª vez na história da NATO, do Artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte, como resposta aos ataques terroristas.

V. Conclusão

De tudo o acima exposto podemos, agora sim, inferir a conclusão quanto ao que nos propomos demonstrar.

Se durante a década de 90 do século XX os Estados Unidos da América viveram numa ilusão de monopolaridade e segurança, tentando exportar o seu modelo democrático, enquanto a NATO agiu pontualmente nos Balcãs, passando por um período de reflexão interna, seriam, ironicamente, os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001 a servir como catalisador para a necessária reestruturação dos propósitos da NATO, o que se reflecte na reestruturação da própria organização nos últimos anos.

A ordem internacional definiu-se então muito rapidamente, ao contrário do que a ajuizada e conservadora opinião da maioria diz, utilizando um poderoso símbolo do terrorismo fundamentalista islâmico sob a permanente ameaça do recurso a formas de super terrorismo, Bin Laden e a Al-Qaeda, numa lógica maquiavélica, napoleónica e bismarckiana de promoção da coesão interna através da difusão de um inimigo comum.

O Choque de Civilizações tem vindo a sair do campo do debate entre valores culturais e religiosos, entrando no campo do confronto no terreno entre terroristas (embora não sejam só os fundamentalistas islâmicos), e principalmente a NATO, que se assume cada vez mais como uma legítima instituição, porque geradora de consenso, para assumir os esforços do Ocidente e dos seus parceiros contra o terrorismo.

Desta forma os Estados Unidos da América vão mantendo o estatuto de super-potência, e em consonância com a Europa promovem a ideologia do Choque de Civilizações para justificar simultaneamente o combate ao terrorismo e a exportação do modelo das democracias liberais e da economia capitalista, assim definindo e construindo a Nova Ordem Mundial nessa lógica bipolar, que substituiu a União Soviética e o Pacto de Varsóvia pelas organizações terroristas e países apoiantes dessas.

Do lado do terrorismo, não existe um Estado ou Ideologia moralmente razoável ou legítima, enquanto do outro lado, com esta representação de um inimigo comum, a fazer lembrar a ficção orwelliana em “1984”, contra o qual todos os Estados de bem deverão agir, se consegue assim justificar a nova ordem onde a NATO tem sem dúvida um papel fulcral, porque reunindo o consenso que os Estados Unidos da América não reúnem, pode de facto transformar-se para dar resposta ao super terrorismo internacional, o que tem acontecido, como forma de definição da ordem mundial, enquanto, por outro lado, poderá agir de forma cada vez mais proactiva na difusão das ideias das democracias liberais.

É praticamente uma fórmula perfeita de onde todos saem a ganhar, o inimigo comum que está a salvo porque praticamente invisível, e porque invisível e comum todos se unem contra ele, o que justifica os esforços de manutenção, transformação e alargamento da NATO, permitindo aos Estados Unidos promover a sua política externa com base na bipolaridade entre terrorismo fundamentalista islâmico vs. Ocidente, como base para a justificação da sua missão quase “evangelizadora” do mundo.

Resta saber se é esta a verdadeira Nova Ordem Mundial há muito anunciada, ou se ainda iremos assistir a grandes alterações nos próximos tempos, o que poderá ser bem possível com o surgir de potências como a China, Rússia, Brasil e Índia.

Consideremos, por último, que a NATO constitui-se assim como um estabilizador por excelência da actual ordem mundial, enquanto definidora dessa ordem na lógica bipolar e de promoção da coesão interna, que se tem vindo a reestruturar e alargar para dar resposta aos novos desafios que se lhe apresentam, no caso, o contra-terrorismo.

Notas


[1] Ver Pires, Samuel de Paiva - “A Importância de Bin Laden para a Ordem Internacional” in http://estadosentido.blogspot.com/2008/03/da-importncia-de-bin-laden-na-ordem.html publicado em 20/03/2008.

[2] Ver Moreira, Adriano - Teoria das Relações Internacionais, 5.ª ed, Coimbra, Edições Almedina (1.ª ed., Coimbra, 1996), 2005, pp. 371-374.

[3] Ver Lara, António de Sousa - O Terrorismo e a Ideologia do Ocidente, Coimbra Edições Almedina, 2007, p. 44.

[4] Idem, Ibidem, pp. 46-47.

[5] Ver Curtis, Glenn E. – “The Warsaw Pact” (excerpted from Czechoslovakia: A Country Study). Washington, D.C.: Federal Research Division of the Library of Congress; 1992. in http://www.shsu.edu/~his_ncp/WarPact.html acedido em 13/11/2008.

[6] Ver Huntington, Samuel – “Democracy’s Third Wave” in Larry Diamond & Marc Plattner, The Global Ressurgence of Democracy. Baltimore, John Hopkins University Press, 1996.

[7] Ver Artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte in NATO Handbook, Public Diplomacy Division, Brussels, 2006, pp. 372.

[8] Ibidem.

[9] Ver Kissinger, Henry A. – Diplomacia, Lisboa: Gradiva, (1.ª edição 1994), 2.ª ed.; 2002, p. 716

[10] Ver Lara, António de Sousa – A Grande Mentira – Ensaio sobre a Ideologia e o Estado, Lisboa, Hugin, 2004, p. 97.

[11] Ver Kissinger, Henry A. – Precisará a América de Uma Política Externa?. Lisboa: Gradiva, 2002, p. 273

[12] Idem, ibidem, p. 274

[13] Idem, ibidem, p. 276

[14] Idem, ibidem, p. 277

[15] Idem, ibidem, p. 274.

Bibliografia

Kissinger, Henry A. – Diplomacia, Lisboa: Gradiva, (1.ª edição 1994), 2.ª ed.; 2002.

________________ – Precisará a América de Uma Política Externa?. Lisboa: Gradiva, 2002.

Lara, António de Sousa - O Terrorismo e a Ideologia do Ocidente, Coimbra Edições Almedina, 2007, p. 44.

___________________ – A Grande Mentira – Ensaio sobre a Ideologia e o Estado, Lisboa, Hugin, 2004.

Moreira, Adriano - Teoria das Relações Internacionais, 5.ª ed, Coimbra, Edições Almedina (1.ª ed., Coimbra, 1996), 2005.

NATO Handbook, Public Diplomacy Division, Brussels, 2006,

Webgrafia

Curtis, Glenn E. – The Warsaw Pact (excerpted from Czechoslovakia: A Country Study). Washington, D.C.: Federal Research Division of the Library of Congress; 1992; in http://www.shsu.edu/~his_ncp/WarPact.html acedido em 13/11/2008.

Se não é verdadeira, poderia muito bem sê-lo

Relativamente à polémica criada na blogosfera, e não só, acerca da veracidade da carta atribuída a Rosa Coutinho, e referenciada por António Barreto, parece-me lapidar, e definitivo, o post de Helena Matos, no Blasfémias, em que se demonstra à saciedade o papel interventivo de muitos dos portugueses colocados em lugar-chave no Portugal pós 1974, junto das autoridades cubanas para que estas tomassem Angola de assalto, pondo-se também em relevo a parcialidade descarada no apoio ao MPLA , prejudicando, em favor de um outro país, reconhecidamente totalitário, os interesses dos portugueses aí se encontravam. Traição, chama-lhe, com toda a razão.

Movimento Partido da Terra

João Gomes do Câmara de Comuns tem dado conta da preparação dos pequenos partidos para o ano de eleições que se avizinha, dando conta do excelente contributo que o Movimento Partido da Terra tem dado para a democracia portuguesa, do qual Pedro Quartin Graça, deputado eleito pelas listas do PSD, é um dos nomes mais significativos. Ecologista, docente universitário, monárquico e associado do Instituto Democracia Portuguesa, do qual também sou associado, é, tal como João Gomes refere, um dos políticos que mais habilmente tem colocado as potencialidades da internet ao serviço das suas nobres causas. É com muito prazer que o sabemos leitor do Estado Sentido, dando conta do seu link para esta casa, que desde já agradecemos sob a égide da reciprocidade, aconselhando ainda os nossos caros leitores a passar por .

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Pedaços do Minho


Santa Maria Madalena da Falperra- Guimarães

Situada no alto da serra da Falperra, na freguesia de Santa Cristina de Longos, rodeada de frondosos carvalhos e sobreiros, é a jóia da coroa de um dos lugares mais idílicos da região, muito procurado pelas gentes daqui, principalmente em tempos de calor, pois que aí vão encontrar a sombra que buscam.
A igreja do mesmo nome foi mandada edificar no século XVIII, pelo arcebispo de Braga, e antigo reitor da Universidade de Coimbra, D. Rodrigo de Moura Teles, e projectada pelo arquitecto bracarense André Soares, num estilo barroco rococó.
Foi, em tempos antigos, o valhacouto de salteadores, como o conhecido Zé do Telhado, que se cruzou com Camilo Castelo Branco na Cadeia da Relação do Porto, como este relata nas «Memórias do Cárcere», e com quem o bisavô de minha mãe privou muitas vezes, a caminho de Braga...

Se estiver bom tempo...

Agora que se aproximam dois feriados, e se o tempo convidar, é muito provável que as televisões abram os noticiários dizendo que o Algarve "está cheio".. Estou sempre à espera que Sócrates diga, como Guterres: "crise, qual crise? se os portugueses têm dinheiro para ir para o Algarve? "- é que não demorou muito até o ex-Primeiro Ministro dizer que Portugal estava um pântano...

Para ler

O nosso sistema educativo é muito teórico, praticamente ineficaz e socialmente injusto. As injustiças sociais são uma coisa que me incomoda muito. Mas, o que ainda me incomoda mais é as pessoas conformarem-se com facilidade com o que está mal. Não se pode chegar às eleições e não votar ou fazê-lo sempre nos mesmos, sem espírito crítico. E isto sem se exigir da parte dos políticos eleitos contrapartidas. É esta a base da crise que Portugal atravessa neste momento, e grave. Há necessidade de raciocínio lógico, que deve ser ensinado. As pessoas dizem uma coisa, mas depois fazem outra. Querem um país próspero, mas depois não contribuem para isso. Querem um país limpo, mas sujam. Querem um trânsito fluído, mas depois atrapalham-no por egoísmo. Acham que a economia portuguesa não deve ir à falência, mas compram tudo no estrangeiro. A começar pelo Estado. Os carros que adquire são importados e poucos há que optam por viaturas fabricadas em Portugal. Esta é a grande revolução cultural que precisamos: educar o raciocínio lógico e exigir coerência a quem toma decisões e é eleito por todos nós.

32--Se tivesse que deixar uma mensagem ao actual Presidente da República e ao Governo, qual seria?

Pedia-lhes que estimulassem mais a coerência e a lógica do comportamento de todos os portugueses. E nunca permitir que o dinheiro dos nossos impostos seja desbaratado com coisas inúteis, secundárias ou pouco importantes. O povo português não pode ser mugido como uma vaca para depois deitarem fora de qualquer maneira o dinheiro recolhido nos impostos.

Pura anedotice

Alertado pelo nosso caro confrade Demokrata, fiquei extasiado com esta bela notícia de há 3 anos atrás, em tempos de comemoração do regime abrilista, que obviamente me vou escusar a comentar, posto que não consigo parar de rir às gargalhadas:

Os Jovens do Bloco, movimento juvenil associado ao Bloco de Esquerda, têm vindo a ensinar «técnicas de desobediência civil» num workshop realizado no âmbito de um acampamento que decorre entre 27 e 31 de Julho, em São Gião, na Serra da Estrela.

A notícia é avançada na edição desta segunda-feira do Correio da Manhã, que recorda que o workshop em causa, sobre acções de desobediência civil como artes murais, circences e equilibrismo, é apenas uma das várias iniciativas do género anunciadas no folheto informativo do «Acampamento d@s Jovens do Bloco» ou no site da Internet www.bloco.org.

Já o assessor de imprensa do BE, Pedro Sales, embora afirmando que Francisco Louçã «não comenta as iniciativas dos Jovens do Bloco», recorda que «a desobediência civil é um direito consagrado na Constituição da República Portuguesa» que é «valorizado pelo Bloco».

Esperemos é que a guerrilha circense e piolhenta do BE não esteja a pensar repetir a gracinha do ano passado.

A respeito do encerramento da estação de Santa Apolónia

Rodrigo Saraiva do Câmara de Comuns deixa-nos um post incisivo:

António Costa, Presidente da CML, defendeu o encerramento da estação de Santa Apolónia, tendo em conta as obras de alargamento previstas para a Gare do Oriente, no âmbito do projecto de adaptação à Alta Velocidade e ao novo aeroporto.

Á primeira vista até pode parecer uma solução bem pensada, não fosse o facto de há poucos meses, em Dezembro, ter sido inaugurada a estação de Santa Apolónia do metropolitano.

Com o alargamento da linha azul a Santa Apolónia, a cidade está ligada, praticamente na totalidade, ao nível do metropolitano e de comboios. Foi uma obra difícil, mas estratégica.

E convém lembrar os custos directos, bem como os indirectos, que estas obras tiveram para os cofres do estado e para a cidade de Lisboa.
Apenas em termos financeiros os números chegam a cerca de 300 milhões de euros.
Mas parece que, para alguns, 300 milhões são trocos!

A pequena diferença


19 cêntimos é o que cada espanhol paga anualmente pela Monarquia
1,58 Euro, é quanto cada português paga anualmente pela República
9 milhões de Euros é o montante entregue anualmente por Zapatero  à Casa Real
16 milhões de Euros, o montante entregue anualmente por Sócrates à presidência da república.
O rei de Espanha não se intromete na escolha de chefes partidários. Por cá é o que que se sabe.
*Contra factos não há argumentos. Quem quer repúblicas, paga-as!

domingo, 20 de abril de 2008

Pedaços do Minho

Teus lindos cabellos d'oiro
Estendidos formam um veu,
O azul que tens nos olhos
É cor que pertence ao ceu.

Se tu me quizesses bem
Como eu te quero a ti,
Fazias dos braços azas,
Voavas p'ra junto a mim.

Se te amo tenho guerra,
Se te deixo tenho dôr,
Antes guerra toda a vida
Do que eu te deixar, amor.

Meu coração, coitadinho,
Já deita sangue pisado,
A culpa tenho-a eu,
Amar-te demasiado.

(in«O Minho Pittoresco»)

E já agora, o Michael Jackson indiano!

Mas este é um famosíssimo produto de Bollywood, que dá pelo nome de Prabhu Deva. É cantor, actor, realizador de filmes, dançarino, coreógrafo enfim, um verdadeiro espectáculo!

Dias de chuva (2)

É nestas tardes cinzentas que é maior a nostalgia daquelas "Tardes-de-Cinema" com que a RTP nos brindava aos Domingos.
Aconchegada numa manta, não tirava os olhos do ecrã, onde passeavam toda a sua classe actores como Audrey Hepburn, Cary Grant, Katharine Hepburn ou James Stewart.
Nessa altura, a qualidade sobrepunha-se à quantidade...

Outstanding news: A reacção da Mariah Carey!

Unione Monarchicha Italiana

A Liga do Norte em Itália: é o vale tudo!

Naquela ficção  neo-realista a que normalmente se dá o nome de Itália, a Liga do Norte decidiu optar por novas abordagens do problema da imigração ilegal. O conhecido anti-americanismo  dos dois extremos do espectro político aliam-se pontualmente, produzindo curiosidades como estas. Neste caso não disseram mentira alguma, mas esqueceram-se de referir que os italianos contribuíram - e muito -, para aquela realidade além Atlântico. Acrescentemos ainda que os cretinóides da L.N., além de odiar os estrangeiros, advogam igualmente o regresso da península aos velhos e conhecidos mapas de outrora, onde condottieris, cardeais, republiquetas e minúsculos principados faziam as delícias de austríacos, franceses e espanhóis. A memória é curta e o cavallieri Berlusconi não chega nem de longe, aos calcanhares de um Vitor Manuel.

Dias de chuva


"Será chuva, será gente?"; é mesmo chuva!
Um dia para não sair de casa, acender a lareira, ler um livro (qual há-de ser?) e ouvir uns fados de Coimbra, ou a sempre boa música que a Luísa põe no Nocturno. Ao meu lado, o gato dorme, enroscado, o sono dos justos.
Esperemos que no próximo fim-de-semana esteja um tempo que nos permita ver como tudo ficou mais bonito depois desta chuva. Afinal, está quase no fim o mês das águas mil, se bem que em Maio come a velha as cerejas ao borralho...

Corte fitas, vá a banquetes e condecore amigos! Não se meta!

Consta que o actual Venerando anda por aí - a expressão fez escola - a apontar nomes para um possível sucessor do caído chefe de um partido da oposição. É esta a independência que os republicanos tanto gabam e é por isso mesmo que somos monárquicos. Não se meta!

E agora... o Mickael Jackson búlgaro!

À terceira foi de vez: melhorou (não muito...)

sábado, 19 de abril de 2008

Pedaços do Minho


A açucena co'o pé n'água
Pode estar quarenta dias,
Eu sem ti nem uma hora,
Quanto mais annos e dias.

Amar e saber amar,
Amar e saber a quem,
Eu só amo a ti menina,
Não amo a mais ninguém.

Annel de sete pedrinhas
Foi feito na pedraria,
Eu não te posso deixar,
Parece feitiçaria.

(in «O Minho Pittoresco»)

Encontro com Trindade Coelho.

Não será esta chuva que me vai impedir de aceitar o convite da Editora Caixotim para viajar até à vila de Mogadouro, em Trás-os-Montes.
A primeira paragem , porém´será na cidade do Porto, onde o escritor estudou- " Parti, não havia remédio; e nunca me há-de esquecer aquela viagem de barco pelo Douro abaixo, uns poucos de dias, desde a foz do Sabor até ao Porto"-, e começou a escrever- " um dia pus-me a fazer um romance".
É no Mogadouro, porém, onde passa as férias escolares, que começa por escrever artigos curtos, para jornais locais, seguidos de contos, feitos a partir da tradição oral que ia buscar junto do povo.
Passamos depois a Coimbra, onde cursou Direito, tendo encontrado aí um ambiente que exacerbou o seu natural pendor literário, e, posteriormente, a Lisboa, para onde fora transferido em 1889, depois de ter exercido no Sabugal e em Portalegre o cargo de Procurador Régio.
Os seus escritos denunciam então claramente a nostalgia do seu Mogadouro - " Mas o que são os meus contos?! Não sei. Talvez saudades, e tenho a certeza de que se vivesse na minha terra não os teria feito".
É pois dentro deste espírito que, em 1891, publica aquele que seria o seu livro mais difundido: «Os Meus Amores», em que o contista mergulha na" alma do povo", e dá conta da vida pacata que se desenrola na sua terra natal- "Eram as sete. Àquela hora é que os "figuros" da terra, quase todos funcionários públicos, vinham para o largo, à fresca.(...) Nas escadas do pelourinho, sentados, outros do mesmo feitio, cavaqueavam".
Como diz a um amigo, tudo na sua escrita era emoção: " Eu escrevo do pescoço para baixo, do pescoço para cima não sei escrever".

É costume dizer-se que o ar livre abre o apetite. A mim, esta viagem deu-me vontade de conhecer a obra deste transmontano.

No nosso universo político...

...como bem diz o Miguel, no Combustões, o drama é não termos alternativa aos politiqueiros que , já há demasiados anos nos (des)governam. Chegámos até aqui conduzidos por eles e daqui não me parece que possamos sair, com os homens que temos pela frente. Tanto os dois partidos que alternam no poder se equivalem.

Será coincidência o Papa aparecer de costas nesta fotografia?

Belo sentido de humor do Oje.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Coisas realmente importantes da América

Só há uns dias fiquei a conhecer pelo Paulo Cardoso a Encyclopedia Dramatica, um clone humorístico da Wikipedia. Vale bem a pena, e irei deixar aqui alguns textos que se me afigurem como engraçados.

Para já, atentem nesta definição que tem tudo para agradar a anti-americanistas, britânicos, canadianos e homossexuais:

The United States also known as the USA (Moar like U S Gay, amirite?) The Fatass Nation, Obesity Central, Redneckistan, The Ulcered Sphincter of Asserica, Dumbfuckistan, Canada's Ass and the dumbest country in North America, began as a colony originally created by the king of England to house the British Empire's most mentally disturbed and insane pedophiles. Obesity is, in fact, America's number-one killer, as people are too dumb to realize that binging on McDonalds 12 times a day isn't good for one's health.
New York City is there, on the Atlantic Ocean side, while Los Angeles (the place where Anti-Americanism was invented) is on the Pacific Ocean side. Chicago is stuck in the middle of East Coast stupidity and West Coast homosexuality, meaning all chicagoans are both equally gay and stupid.

Many people believe North Korea, Europe, Massachusetts and California are the US's next targets as they are all violating the US's strict "don't be a fucking homo" policy.

Ou ainda nesta maravilha dedicada aos esquerdistas que odeiam o "imperialismo" norte-americano:

The United States has a tendency to free other countries from entities that may or may not actually be a problem - most recently:

* Freeing Afghanistan from Terrorists (and Opium)
* Freeing Iraq from Terrorists (and Oil)
* Freeing The Whoal World!! from Miloševič
* Freeing the UK from British pop music

On tap:

* Freeing Syria from Terrorists (and Oil)
* Freeing Iran from Terrorists (and Oil)

In the works:

* Freeing Venezuela from duly elected President Hugo Chavez, or whomever the CIA decides to install after the coup. (also Oil)
* Freeing the world from North Korea - a crafty ploy, as it was the US that brokered that missile technology to them through 3rd parties. A simple plan and a great excuse to go barging in.

America is very good at bombing the shit out of poor Middle Eastern countries that have about three rusty missiles from 30 years ago and a crate of AK-47s with which to defend themselves. Fighting a country such as North Korea, which might well have weapons of mass destruction, is a little bit riskier. As a result, America probably won't invade unless they have the support of The Coalition of The Willing (Britain, Australia.. Turkey? Other suck-ups..) and are certain China won't nuke the shit out of them in retribution, even if they wanted to.

America single-handedly defeated Fascism, Communism and Socialism!!!1!11. They're currently engaged in the long hard battle against Democracy and freedom of thought which America is subsequently causing them to lose. We should all thank the American army. Thank you American army! Because we as foreigners are humouring American pussies that think they can do everything!!

You're welcome.

Sobre a saída de Menezes e a sucessão no PSD

Não vou sequer comentar. Há muita gente a fazê-lo, na televisão, nos jornais, nas rádios, na blogosfera. Dá muito trabalho andar a especular tão prematuramente. Além do mais há trabalhos para a faculdade e ocupações mais importantes por ora. Vamos aguardar para ver o que sai deste acontecimento político que sem dúvida irá trazer alguma animação ao panorama político nacional. Até Sócrates deve andar em pulgas, posto que muito provavelmente irá conhecer o seu opositor para as legislativas de 2009, dentro de algumas semanas. Ou seja, irá imediatamente saber se terá o seu segundo mandato ameaçado ou assegurado.

Pedaços do Minho

Tornemos, amor tornemos,
Tornemos ao que era d'antes,
Seremos amantes firmes,
Seremos firmes amantes.

Eu sou sol e tu és sombra
Qual de nós será mais firme?
Eu, como o sol a adorar-te,
Tu, como a sombra a fugir-me.

Hei-de atar o junco verde
À raiz da amendoeira,
Se não lograr os teus olhos
Prefiro ficar solteira.

Ó luar da meia-noite,
Ó luar da claridade,
Ó luar que tens prendido
Toda a minha liberdade.

(in«O Minho Pittoresco»)

A luta faz-se é na tasca a beber minis pá!

Eram umas 16:30 ontem, acabados de sair da defesa da tese de mestrado de um colega no ISEG, quando nos deparámos com um daqueles espectáculos que tanto me irritava em Brasília, posto que me fazia atravessar toda a Esplanada dos Ministérios e obrigava-me a gastar dinheiro num táxi para me levar até à universidade, isto é, manifestações sindicalistas.

Eu nem sou contra manifestações, o direito à greve e à livre manifestação são elementares factores da democracia liberal ocidental, e como tal não podem ser reprimidos, sob o risco de ameaça à própria democracia (embora José Sócrates não pareça pensar o mesmo quando as manifestações são contrárias aos seus intentos e, vejam só, parece que tal personagem até é de esquerda...), mas não sou obrigado a gostar desse género de fenómeno de massas.

No entanto, e carregado do meu habitual sentido de humor sarcástico, não me podia excusar a beber um pouco do sentimento que fluía naturalmente dos manifestantes. Ainda para mais com um cachecol do Sporting ao pescoço, o que já me tinha garantido uns elogios de umas anónimas desconhecidas logo pela manhã na Baixa, armei-me em Neto, gritei "dá-lhe Falâncio" (para os que desconhecem, vejam o Vai Tudo Abaixo Tv no Youtube), e enquanto a Ana agitava uma bandeira da CGTP (muito material de campanha desperdiçado encontrava-se no chão), eu ia por ali com o punho levantado disparando alto e bom som argumentos em nome da defesa dos direitos dos trabalhadores, contra este governo pá, que isto é uma vergonha pá, e que temos que fazer outra revolução pá!

O que mais me impressionou foi a quantidade de pessoas que em vez de estar na manifestação andava por ali, uns a fumar ganzas, a maioria nas tascas, pelo que à passagem por tais estabelecimentos de lazer não pude conter o meu manifesto sorriso enquanto disparava "A luta faz-se é na tasca a beber minis pá!"

Depois dos risos de algumas pessoas que não tinham nada a ver com o que por ali se passava, da exclamação de um trolha de bandeira da CGTP em punho que gritou qualquer coisa meio disforme do género "Granda Sporting pá", cuspindo-se todo (afinal não é só gente de bem que tem o Sporting como clube do coração), e de uma senhora, aparentemente revoltada com o facto de eu envergar um tal símbolo me gritar "Oh tu tira esse cachecol", o que obviamente nem retorqui pelo simples facto de não a conhecer de lado algum para me tratar por tu, ainda bem que o carro estava por perto. Mal por mal sempre podia gravar alguma agressão com o telemóvel, mas fica para a próxima. No fundo, o que há a reter, é que a luta faz-se é na tasca a beber minis pá!

Lisboa arruinada (28) r. Rodrigo da Fonseca

Muito perto da rua Braancamp, este prédio abandonado. Ao lado, um mamarracho moderno e à sua direita, um outro belíssimo exemplar do princípio do século, praticamente vazio.

Muito mais do que um lugar-comum.

Dizer-se que o mundo se tornou um lugar muito perigoso é a maior das verdades.
Ontem, como doutras vezes, veio à baila o tema da insegurança, concretamente no que aos perigos a que estão sujeitas as crianças respeita. E então lembrei-me da despreocupação que marcou a minha infância : quando tinha dez anos, saía de casa para as aulas ainda escuro como breu, e percorria, sozinha, um quilómetro de monte, sem que encontrasse vivalma, para apanhar a camioneta que me levaria à cidade. Nunca tive medo, nem os meus pais se preocupavam, como acontece nos dias de hoje...

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Ampliem a imagem e vejam o que está escrito

Aquela gente falava demais, tão seguros de si se encontravam naquele momento. Agora que provem o contrário! Existem milhares de jornais, revistas, filmes da RTP e de televisões estrangeiras (BBC, por exemplo) que possuem um verdadeiro manancial de informação disponível.
*Este pequeno recorte pode ser visto no youtube imagens. Basta escrever o nome Rosa Coutinho.

Não percam este texto!

Pensamento

"Tem-se por inteligente aquele que consegue atingir sempre os seus objectivos, quando não é a inteligência, mas a falta de escrúpulos (todos os meios são bons) que explica tais êxitos"
João Bigotte Chorão

E a natureza junta-se a este lamento...

Duas visitas à casa de S. Miguel de Seide (2)

"Aqui está o seu Bernardino Ribeiro, o seu Bernardes, o seu António Ferreira...
É verdade- respondeu o conde-Todos amigos velhos e d'aquelles de quem se não receberam nem esperam senão bellos officios".
«Herança de Lágrimas», de Ana Plácido.

Voltei há alguns meses a casa de Camilo, mas agora marcara encontro com Ana Plácido.
Tinha adquirido, havia pouco tempo, os dois romances que publicara com o seu nome- por vezes terá recorrido a pseudónimos-, este e «Luz Cada por Ferros»- e fiquei curiosa por saber mais.
Foi assim que fiquei a saber, primeiro pela guia, depois procurando noutros lugares, tratar-se de uma senhora de razoável cultura literária, cimentada no conhecimento efectivo de autores clássicos, mas também românticos, que traduziu vários romances franceses, e manteve colaboração regular em vários jornais e revistas.
Terá, ainda, sido o braço direito de Camilo, ao prestar-lhe vários serviços na feitura dos seus livros, como a revisão dos textos. Isto para além de lhe ter emprestado os olhos, quando os do escritor começaram a ceder...

Era esta a gente que comandava e educava Portugal

Cartas, entrevistas e testemunhos do PREC e da "descolonização"

Este é apenas um curto e hilariante exemplar de um video sobrevivente do período de 74-75, em que Portugal resvalou para a condição de manicómio em autogestão, como então se dizia. Poucos videos relativos ao PREC estão à nossa disposição. Muitos terão sofrido o destino da lixeira, devido à necessidade de espaço nos arquivos da televisão e outros terão desaparecido por conveniência de muitos (tal como o arquivo da PIDE). Os filmes sobreviventes, são um precioso testemunho de um conturbado período da nossa história e demonstram claramente, as verdadeiras intenções dos senhores do momento.

Tinha apenas quinze anos e espantava-me com o baixíssimo nível exibido pelas autoridades que decidiam o nosso destino. Era a ralé mais reles! O primeiro ministro Gonçalves, criatura absolutamente inclassificável e da qual toda a Europa se ria; o Otelo e as suas quotidianas tolices de revista; as conhecidas tropelias e inépcia dos altos comissários em Angola e Moçambique; o repulsivo papel de espantosa duplicidade desempenhado pelo "marechal" Gomes; as corridas de Chaimites diante do Galeto; os patetas semi-analfabetos das coordenadoras do MFA, enfim, intérpretes de gente em tudo incapaz de gerir uma simples portaria de repartição pública, um infindável rol de excentricidades que seriam apenas risíveis se não tivessem causado a desgraça de milhões. Milhares de mortos chacinados nas ruas de Lourenço Marques e de Luanda. Milhares de soldados negros que serviram lealmente a bandeira portuguesa, fuzilados sumariamente pelo PAIGC, MPLA e FRELIMO, na Guiné, em Angola e Moçambique. Países entregues a ferozes e sanguinárias tiranias como a África jamais vira, deixando déspotas como Touré ou Idi Amin, como pálidos precursores dos caminhos abertos pela chamada "descolonização" portuguesa.

Não vou referir o problema dos refugiados do Ultramar, porque sou parte interessada. No entanto, muitos desconhecerão as humilhações suportadas por aqueles que desembarcando em Lisboa pela primeira vez nas suas vidas, depararam com uma população habilmente manipulada e pronta a encontrar novos "inimigos do povo", capazes de saciar os seus bestiais apetites por chufas, linchamentos e, claro está, de roubo. Bastava o nosso sotaque para sermos expulsos de um taxi. Foi esse o Portugal que encontrámos, a ditosa Pátria nossa amada, como na escola nos ensinaram.
Não tínhamos ilusões, porque os longos meses que se seguiram ao 25 de Abril, foram demonstrativos da natureza do novo regime implantado em Lisboa e que sob um ténue simulacro de democracia, ameaçava entregar o país a uma ditadura radical, onde até a pena de morte era reivindicada nas ruas como conquista progressista e revolucionária. Felizmente, tudo isso acabou e a ideologia que corporizou o momento, encontra-se para sempre enterrada em ignomínia. A sociedade civil e o Estado de direito venceram.

Este desabafo surge na sequência da polémica que corre pela blogoesfera e que se iniciou pelo artigo de António Barreto no Público. Os argumentos contrários à veracidade da missiva alegadamente da autoria de Rosa Coutinho, impelem os leitores desprevenidos no sentido da rejeição, devido ao mau português escrito, à crueza do projecto e - sem que alguém o tenha mencionado -, ao claríssimo indício de traição e incentivo ao crime. É esta uma verdade que a carta nos traz. Caberá aos especialistas proceder ao estudo grafológico para se comprovar a autenticidade da assinatura, mas o conteúdo programático da mesma, foi copiosamente executado de forma célere e eficaz e disso ninguém duvida. Quantos antigos combatentes estarão hoje dispostos a testemunhar ordens espúrias ditadas pelos chefes hierárquicos de 74-75? Quantos confessarão a sua passividade perante a chacina da população aterrorizada? Quantos deles estarão prontos a relatar factos até hoje convenientemente esquecidos, de participação em acções lesivas do interesse português em África? Decerto poucos, muito poucos. A retirada poderia qualificar-se de patética se não tivesse raiado a tragédia.

Os discursos das autoridades do PREC são um grande testemunho de acusação. Existem milhares de páginas impressas em jornais e revistas, com entrevistas e sonhos de grandeza pessoal. Aquela gente alçada à embriaguês do poder total, julgava tudo poder fazer ou dizer. O discurso de Vasco Gonçalves na siderurgia, nos plenários do MFA ou em comícios, as tiradas oteleiras de mão na anca e sorriso parvo à Fidel, o famoso chiclete de Lourenço ou os inacreditáveis Correias Jesuínos, Fabiões, Costas Martins, os Clementes, os Charais, os Dinis d'Almeidas e uma infinidade de nomes felizmente esquecidos e que abusivamente nos entravam em casa à hora do telejornal das oito, fizeram-nos temer o pior. Ainda hoje me parece extraordinário que entidades como o Colégio Militar ou a Academia, tenham formado como oficiais, nulidades intelectuais de tal calibre, que não lhes permitiriam a assunção de qualquer comando subalterno num exército europeu. Espantoso.

A famosa "carta de Rosa Coutinho a Agostinho Neto", inclui-se nesta colossal esteira onde rolaram cabeças, corpos e países, em suma, a vida de populações inteiras que aguardaram o destino que certos interesses lhes reservaram. A boçalidade e a crueza são apanágio de ditadores e de pretendentes a tal, categoria conseguida por Neto ou Machel e frustrada nas pessoas dos seus amigos das forças armadas portuguesas e dos cúmplices civis. A forma não estranha, assim como não é estranho o conteúdo programático, aliás um clássico perfeitamente decalcado de modelos bem conhecidos. Era a intelectualidade do momento...

A memória é curta e no plano político, poucos se lembrarão das tentativas de subverter os resultados das eleições para a Constituinte de 75, não permitindo a apresentação do MRPP (e consequente prisão de Arnaldo Matos) e do PDC ao sufrágio. Os maoístas foram o pesadelo do PC pró-soviético e eram os únicos a enfrentá-lo nas ruas e escolas, pagando caro a ousadia. O PDC amedrontava pelo simples nome exibido. Foi a primeira chapelada legal da revolução e dos seus patronos, o chamado Conselho da Revolução que após a decepção pela esmagadora derrota dos seus companheiros de viagem (12%), pretenderam a subversão dos resultados através da intimidação nas ruas, desorganização do aparelho produtivo e completo caos no Ultramar. Sabemos a quem aproveitou esse caos, a história não chegou ao fim.

As culpas e responsabilidades directas têm sido habilidosamente escamoteadas ou escondidas pelo conveniente biombo oferecido aos "pais da democracia", mas a realidade foi outra. Pais da democracia foram milhões de portugueses que nas ruas não permitiram a continuação dos desmandos que iam tornando o país numa presa fácil de um qualquer aventureiro sem escrúpulos. A democracia que hoje vivemos está seguramente muito longe do tipo de regime pretendido por uns quaisquer auto-promovidos generais Tapioca ou Alcazar. Boa ou má, foi a nossa vontade que se impôs, contra pretensos e irreversíveis destinos.
O longo processo de perseguição aos magnicidas do século XX ainda não terminou, sendo ainda hoje levados a julgamento, anciãos com mais de noventa anos de idade. Aqueles que colaboraram activa ou indirectamente na chacina de populações e que procederam a qualquer tipo de limpeza étnica, devem responder perante um Tribunal Internacional. Os crimes contra a humanidade não prescrevem. É isto que queremos tornar bem claro. Não prescrevem.

Eu hoje vou dormir assim...



E amanhã vou sair à rua com o cachecol do Sporting!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Chove...


"As tentativas do sol no céu cinzento de chuva lembram um tímido sorriso em rosto molhado de lágrimas"
João Bigotte Chorão

Duas visitas à casa de S. Miguel de Seide (1)


"A respeito do último discurso de Calisto Elói, as gazetas governamentais estamparam que a sala da representação nacional nunca tinha sido testemunha de insolências de tamanha rudeza e tão audaciosa ignorância" («A Queda dum Anjo», de Camilo Castelo Branco)

Era muito pequena ainda quando meu pai me levou a casa de Camilo. Dessa visita guardo uma memória muito esbatida, tendo-me ficado na retina aquela cadeira de baloiço, muito provavelmente porque fiquei impressionada quando o guia disse que terá sido aí que o escritor se suicidou.
Cresci ouvindo falar nele com uma grande admiração: o seu busto estava num lugar de destaque, na estante que continha a camiliana.
Quando, timidamente, e com relativa desconfiança sobre o acerto de tal veneração, me aventurei na sua obra- creio que o primeiro livro que li foi «A Brasileira de Prazins», o qual só mais tarde abarquei no seu justo valor-, confesso que não fiquei logo cativada. Foi fora do tempo.
O encantamento viria mais tarde, com «A Queda dum Anjo», seguido de »Eusébio Macário» e «A Corja»: a escrita escorreita, a riqueza do vocabulário e a fina ironia, iriam fazer com que , de quando em quando, volte a eles, nem que seja para ler um trecho ou outro...

Relembrar Orwell (5)

«Mas tornou-se igualmente claro que o aumento global da riqueza ameaçava destruir a sociedade hierárquica - e isso, num certo sentido constituía, só por si, a destruição desta. Num mundo onde toda a gente poucas horas trabalhasse, não lhe faltasse comida, vivesse em habitações com frigorífico e casa de banho e tivesse automóvel ou mesmo avião, as formas mais óbvias e talvez mais importantes de desigualdade teriam desaparecido. No dia em que a riqueza se generalizasse, ela deixaria de conferir distinção. Sem dúvida, em abstracto, seria viável uma sociedade onde a riqueza, no sentido de posse de bens e luxos, fosse equitativamente distribuída, enquanto, por seu lado, o poder continuaria nas mãos de uma pequena casta privilegiada. Mas na prática tal sociedade não poderia manter-se estável por muito tempo. De facto, se todos tivessem igual acesso ao lazer e à segurança, a grande maioria dos seres humanos, que normalmente vivem embrutecidos pela pobreza, instruir-se-iam e aprenderiam a pensar pela sua própria cabeça; a partir daí, cedo ou tarde concluiriam que a minoria privilegiada não desempenhava qualquer função, e acabariam com ela. A longo prazo a organização hierárquica da sociedade só seria viável assentando de novo na pobreza e na ignorância.»

Esta é a pièce de résistance desta curta série. Não precisa de grandes explicações. É irónico notar como autores tidos como idealistas e que servem de base a grande parte da esquerda, como Platão (não estou a dizer que Platão era de esquerda, atenção, Platão pode ser tanto de extrema-esquerda como extrema-direita), ou Rousseau, que falaram de educação das massas e igualdade entre todos, foram eles próprios os desmontadores de tais falácias, que Orwell tão bem sumariza neste trecho.

Tudo isto se apresenta tão clarividente que chega a ser absurdo como a maioria das pessoas teima em não o entender.

Relembrar Orwell (4)

«Nos grandes centros da civilização, a guerra manifesta-se pela escassez constante de bens de consumo, e pela explosão ocasional de bombas podendo causar largas dezenas de mortos.»

Isto nem precisa de muita explicação. A explosão ocasional de bombas é utilizada em guerras em nome da religião, da etnia, da raça ou da cultura, fenómeno intrinsecamente relacionado com o terrorismo enquanto forma de manter uma nova ordem mundial (como aqui mostrei).

Por outro lado, os bens de consumo constituem o elemento central do mercado mundial, entre os quais poderemos incluir desde o petróleo e matérias-primas até aos produtos finais, constituindo-se principalmente os recursos naturais como fonte primária de futuros conflitos de grande escala. A guerra económica é feita pelas multinacionais, transnacionais e Estados como forma de demonstrar o seu poderio, na lógica do enriquecimento e da conquista de poder nos diversos paralelogramas de forças de geometria variável que complexificaram as Relações Internacionais no fim do século XX, o que Keohane e Nye previram nos anos 70 com a teorização acerca da interdependência complexa, concretizada a partir da Queda do Muro de Berlim, através da desmilitarização da questão securitária, com o alargar do conceito de segurança a inúmeras outras áreas, e com a centralização do combate na lógica liberal da competição económica, onde até os alemães sabem que o actual Reich não pode ser baseado no conflito armado, ao contrário do que Kissinger tem previsto, mas sim na portentosa demonstração do seu poderio económico enquanto potência destinada a influenciar de forma determinante o sistema internacional.

Relembrar Orwell (3)

«A guerra, porém, já não é essa luta desesperada e devastadora das primeiras décadas do século XX. É um combate de objectivos limitados entre contendores sem capacidade para se destruírem uns aos outros, nem causa material para se digladiarem ou qualquer divergência ideológica genuína a separá-los.»

A incapacidade dos contendores para se aniquilarem é sem dúvida uma previsão concretizada pela coexistência pacífica baseada na doutrina da Mutual Assured Destruction, o tal pacto tácito entre EUA e URSS para manter a ordem durante a Guerra-Fria, apenas desestabilizada quando os EUA decidiram montar um sistema de defesa anti-míssil.

Porém, se durante esse conflito, a divergência ideológica era premente e reflectia-se nas organizações militares respectivas de cada bloco, Pacto de Varsóvia e NATO, certo é que a ideologia do comunismo foi diminuída ao seu indispensável, e até os chineses procuram demonstrar como é necessário o capitalismo para o desenvolvimento de uma alegada sociedade igualitária (trata-se de mais um excelente instrumento de propaganda). De tal forma, a nova ordem económica mundial baseada no liberalismo condiciona de forma determinante a superestrutura política, tal como Marx havia previsto, que os conflitos há muito deixaram de ser entre ideologias (pode-se é arguir como Huntington faz, por uma lógica de Choque de Civilizações, onde a cultura, civilização e religião são os elementos determinantes do conflito, mas isso são contas de outro rosário).

E até numa analogia doméstica em termos da Teoria das Relações Internacionais, pode-se verificar que deixaram de existir verdadeiros conflitos ideológicos no seio das sociedades democráticas liberais ocidentais. Mais ainda nos países do norte da Europa, onde a política aperfeiçoou-se de tal forma que perdeu a sua carga ideológica e passou a estar ao mais directo serviço dos cidadãos, numa lógica de funcionamento pela e para a causa pública, quase remetida ao nível da gestão e administração (talvez nem seja assim tão mau voltar à oikos como alguns julgam, quando na polis não nos conseguimos entender).

Relembrar Orwell (2)

«Desde que há documentos escritos, e provavelmente já desde o fim do Neolítico, existem no mundo três categorias de pessoas: a Alta, a Média e a Baixa. Estes grupos têm-se subdividido das mais diversas formas, foram-lhes atribuídos variados nomes, e a sua proporção numérica, bem como as atitudes recíprocas, variaram de época para época; a estrutura fundamental da sociedade, porém, nunca se modificou. Mesmo depois das maiores convulsões, das mudanças aparentemente mais irreversíveis, acabou sempre por restabelecer-se idêntico modelo (...).»

Desesperadamente pragmático, é uma constatação de uma realidade imutável ao longo dos séculos, que já Rousseau havia demonstrado (como aqui mostrei). Até os comunistas sabem que é impossível mudar isto, por mais que se considere a consciência de classe, por mais que se considere a revolução socialista na lógica evolucionista linear da sociedade, é e, profeticamente arrisco, sempre será assim. A vida em sociedade pressupõe a desigualdade. Mais do que pressupor, fomenta-a, pois essa é o seu motor de desenvolvimento e estabilidade.

Relembrar Orwell (1)

(imagem tirada daqui)

George Orwell, pseudónimo de Eric Arthur Blair, é provavelmente um dos mais famosos escritores do século XX. Pela sua experiência no conflito ideológico que foi a Guerra Civil de Espanha entre 1936 e 1939, acerca da qual escreveu cartas e relatos, mas, principalmente, pelas suas duas obras primas, o Triunfo dos Porcos (Animal Farm é o título original) e 1984. Hoje apeteceu-me relembrar uma das mais fantásticas peças de explicação da dinâmica da sociedade internacional, sob a égide realista do sistema internacional endemicamente anárquico e conflitual, resumida sob um poderosíssimo slogan:

Guerra é Paz
Liberdade é Escravidão
Ignorância é Força.

É extraordinário notar como a sua teoria do Big Brother talvez não se tenha realizado completamente, mas as suas previsões não deixam de certa forma de ser análogas ao que se vai vivendo nesta nossa terráquea Torre de Babel, de que passamos a dar conta nos posts seguintes, com uns breves trechos de 1984.

Na mouche

A opinião de Medeiros Ferreira no Correio da Manhã:

Hesitei em tratar das propostas que circulam sobre possíveis alterações ao Regulamento de Disciplina Militar (RDM). Primeiro porque estamos habituados à técnica das sondagens prévias.

Depois porque confio no bom senso político do actual ministro da Defesa. Porém há algo de escandaloso nessa possibilidade de o oficial reformado – sem armas, sem comando, sem acesso a segredos de Estado e liberto de hierarquias – não poder opinar quando lhe aprouver sobre questões militares, que o melhor é atalhar já. Seria intolerável do ponto de vista da cidadania e mesmo um empobrecimento do debate público sobre matérias tão delicadas e específicas, caso isso acontecesse.

E depois caso haja afronta, calúnia, difamação, e sei lá que mais, a República Portuguesa ainda tem os tribunais civis a funcionar. Ou só a morte liberta os militares do RDM?

terça-feira, 15 de abril de 2008

Uma questão pertinente.

Há uma pergunta que me faço muitas vezes: diziam que dantes interessava manter os portugueses na ignorância- e agora?
Essa pergunta vem-me à cabeça sempre que a "televisão pública" passa um programa de interesse geral, mas que, na prática, está interdito a muitos desses portugueses: por exemplo, de quando em quando o "Prós e Contras" tem esse interesse, mas, à hora a que é transmitido, só pode ser visto por alguns. Na zona onde vivo, e como esta haverá mais, certamente, são pouquíssimos os que o vêem, porque na manhã seguinte a maioria tem de se levantar muito cedo para começar a trabalhar às oito horas. O melhor remédio é entretê-la com uns programazinhos de refugo ...
É essa a razão principal pela qual estas pessoas só falam sobre futebol e novelas, e é aflitiva a percentagem de facadas que dão numa só frase à língua pátria: a imensa maioria não sabe sequer que a querem "reformar"...
Onde está o ópio, afinal?

Pedaços do Minho


Dizes que me queres bem,
Que me adoras no teu peito,
Quem quer bem, não faz assim,
Quem ama tem outro geito.

Dizes que me queres muito,
Tudo isso considero,
Mas dos dentes para fora
Quem quer diz, eu bem te quero.

Dizes que me queres muito,
Que me tens muito amor,
O mundo vive de enganos,
Quem me dás por fiador?

Dizes que me queres muito,
Ignoro o teu querer,
Tu falas quando me encontras,
Não passeias por me ver.

Dizes que me queres muito,
Não entendo o teu querer,
O dizer «quero-te bem»
Qualquer o pode dizer.

(in«O Minho Pittoresco»)

O que a esquerda devia meter na cabeça...

... antes de debitar barbaridades como se vêem por aí, culpando o liberalismo (que não existe verdadeiramente em Portugal), pela crise económico-financeira portuguesa (para não falar da mundial que se avizinha), via Blasfémias:

A maior parte do sector privado lusitano só quer e, se calhar, só pode subsistir associado à tutela estatal e não tem pejo em subordinar-se aos operadores puramente políticos, abandonando a evolução de culturas de empresas inovadoras desenvolvidas por gestores profissionais que pusessem, finalmente, o mercado a funcionar em Portugal. No curto prazo, este hesitante sector privado nascido dos cravos de Abril parece ver mais ganhos incorporando governos em si próprio do que emancipando-se de tutelas constrangedoras.(Mário Crespo in Jornal de Notícias)

E já agora ler a resposta pragmática de LR no Blasfémias:

A atitude habitual nestes casos é diabolizar os políticos, as empresas e os empresários, o que nos confere um muito aceitável estatuto de puristas guardiões de nobres valores como o do pudor. Todos se esquecem porém de três premissas fundamentais, a saber:

* Os agentes económicos reagem adequada e racionalmente a incentivos, sob pena de comprometerem a sua actividade;
* É ao Estado ou a entidades por ele dominadas a quem cabe a (i)rresponsabilidade pela atribuição dos (maus) incentivos;
* A carne é fraca e este mundo está infestado de pecadores.

O implícito “É assim!” do Jorge Coelho traduz, no fundo, a clarividência de quem conhece muitíssimo bem o sistema vigente - ou não se tratasse de um dos seus principais “arquitectos” - e sabe aproveitar em benefício próprio os incentivos que aquele disponibiliza. Recusasse ele o convite, haveria por certo muitos outros “apparatchiks” em fila disponíveis para a função.

O Estado Sentido pelos seus leitores

A nossa cara amiga Luísa deixou-nos um assertivo e mordaz comentário acerca da falta de humor da esquerda:

Meu caro Samuel, a esquerda não tem sentido de humor porque precisa de contrabalançar o «humor» que têm as suas causas. :-)

Touché!

Revolta dos Generais

Pelo blog do Professor Maltez fomos dar com uma notícia que dá conta da forma como o governo pretende silenciar os militares, no caso, generais reformados, quanto às duras críticas que têm tecido contra o estado da nação:

Acordo ortográfico?

Acabo de assistir, na televisão, à discussão das vantagens e desvantagens da projectada reforma da Língua Portuguesa.
Admiradora que sou da Literatura Brasileira- li desde José Mauro de Vasconcelos até Machado de Assis-, sou frontalmente contrária à sua entrada em vigor ( faltam ainda vários países ratificá-la, como por exemplo Moçambique e Angola), antes do mais porque, como disse o Linguista e Filólogo Professor António Emiliano, não há um único argumento linguístico-científico a favor de tal acordo.
Tal como está, a Língua Portuguesa é falada e escrita por duzentos milhões de pessoas, sem que
haja quaisquer problemas de comunicação, e, pelo contrário, as variantes que existem dentro dela só a enriquecem- todos nós nos entendemos na sua diversidade...

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Pedaços do Minho


Não canto por bem cantar
Nem por ser a cantadeira,
Canto para fazer raiva
Àquella namoradeira.

Mal te vi, amei-te logo,
O meu peito deu rebate,
Fôra duro o coração
Para ver-te e não amar-te.

Tenho terra na algibeira,
Agua fechada na mão,
Para plantar uma rosa
Dentro do teu coração.

Hei-de amar-te tantos annos
Como folhas tem o vime,
Tu julgas que te sou falsa,
Cada vez te sou mais firme.

(in «O Minho Pittoresco»)

Machado de Assis

"Que, no alto do principal de seus livros, confessasse Stendhal havê-lo escrito para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal..."

Inicia assim o primeiro livro que li de Machado de Assis: «Memórias Póstumas de Brás Cubas»; o outro foi «Quincas Borba», e o Paulo Cunha Porto já me aconselhou vivamente a leitura do «Memorial de Aires».
Sobre o escritor brasileiro escreveu José Osório de Oliveira: " Foi um autodidacta, que se formou na Biblioteca do Gabinete Português de Leitura(...), viveu sempre longe dos grandes centros de civilização literária, prodigalizou-se em colaborações jornalísticas, e, já na fase de maturidade, passou a ser, e ainda hoje é, o mais original escritor do seu país. tendo a sua obra sido marcada pela quase ferina análise da alma humana."
Autor de vários títulos, universalmente reconhecidos, como atestam as numerosas traduções das suas obras mais representativas, " por dois factos- além daquele, primordial, que é a pureza da linguagem-, está Machado de Assis indissoluvelmente ligado à literatura portuguesa: a influência que sofreu de Garrett, do qual colheu a lição de sobriedade, clareza e ática elegância, e a que, como crítico, exerceu sobre Eça de Queirós, pois que, moralista e com uma, embora contida, concepção dramática da vida, ao analisar «O Crime de Padre Amaro», apontou-lhe como grande defeito, o facto de parecer comprazer-se na pintura de um caso de amoralidade". Esta opinião terá calado fundo no espírito do escritor português, como resulta da sua obra posterior.

Já há uns dias que ando a dizer o mesmo a alguns amigos

Já há alguns dias que ando a dizer que a esquerda em geral não tem sentido de humor, principalmente em determinados círculos, mesmo a nível de estudantes e colegas que parecem não entender as piadas que mando para o ar, e o Henrique Raposo sintetiza-o bem:

A Esquerda continua igual. Mudou de cor - deixou o vermelho e abraçou o verde – mas continua igual: não admite a sátira; não aceita a ironia lançada sobre as suas causas. A “causa” ambiental é sagrada e não admite o gozo (e os ursos polares são o novo proletariado que importa defender).

A esquerda mudou de cor, mas continua igual: incapaz de rir; sem capacidade de encaixe. O riso, naquelas bandas, continua a ser reaccionário.

E já agora, não pensem em pegar pelo ambientalismo contra a minha pessoa, como parece que têm feito com o Henrique Raposo, é que eu trabalhei e ainda colaboro pontualmente com uma das mais conhecidas ONG's de Ambiente em Portugal e na Europa, e apenas utilizei esta citação para ilustrar o que pretendo dizer, que a esquerda em geral não tem sentido de humor, especialmente em Portugal, onde ainda há dias Herman José no programa da RTP1 "O Corredor do Poder" dizia que os políticos têm de ser mais imprevisíveis e ter mais sentido de humor como acontece por exemplo no Reino Unido (arrisco até a dizer em Itália, atire uma pedra o primeiro que não ache piada às tiradas de Berlusconi), ao que Ana Drago reagiu logo com uma carantonha dizendo que não se estão a candidatar a comediantes ou coisa do género, que tratam de coisas muito sérias que não se podem levar a brincar. De resto, é uma reacção típica que vejo em muitos colegas todos os dias quando mando para o ar bocas à fascista ou absolutista, sem sequer me conhecerem e sem saberem que advogo a democracia, o liberalismo e a descentralização do poder político através do federalismo e da difusão dos checks and balances.

Não é pelas reacções que vou deixar de o fazer, ainda para mais gosto de picar as pessoas. Saiam dos dogmas que vos prendem a este terráqueo mundo, esses padrões socialmente impostos de cima para baixo que defendem como se fosse o último resquício de moralidade na Terra. É a colocar em causa os dogmas e padrões da sociedade que podemos conhecê-los e progredir. Ainda me lembro de um certo professor que numa aula dizia que temos de colocar em causa os padrões até chegar a gozar com esses.

Resumindo, a esquerda não tem sentido de humor. É uma chatice, tira à política grande parte da piada que poderia ter em Portugal.

Tomar Partido muda de poiso

O Jorge Ferreira mudou de poiso, encontra-se agora nos blogs do Sapo.

domingo, 13 de abril de 2008

Pedaços do Minho

"O gosto que a salsa tem
Têm meus olhos em te ver,
Trago-te no centro d'alma,
Não me podes esquecer.

Fui à fonte de três bicas,
Bebi, tornei a beber,
Nem minha boca se enfada
Nem meus olhos de te ver.

Não te esqueças de trazer-me
Dentro do teu coração,
Considera um só momento
A nossa separação.

(in «O Minho Pittoresco»)

África em 1974-75: para quando a Verdade, Reconciliação e Justiça?


O jornal Público deste domingo inclui nas suas últimas páginas, um extraordinário artigo assinado por António Barreto. O tema é um tabu de três décadas e remete-nos para o desastroso e conturbado biénio de 1974-75, quando numa apressada, vergonhosa e sob todos os pontos de vista imoral fuga, as autoridades portuguesas então no poder em Lisboa abandonaram o Ultramar. Uma debandada decidida como necessidade imperiosa e razão de ser de um hipotético regime democrático a instaurar em Portugal. Não importa hoje o desfiar de queixas, a apresentação de casos pessoais que afectaram milhões, os roubos, as tropelias e ilegalidades cometidas pelos representantes do Estado português, ansiosos por acompanhar obedientemente as directivas emanadas por aqueles que tendo sido oposição ao Estado Novo, vieram com a queda do regime, liquidar a presença portuguesa em África. Este colapso beneficiou os interesses imediatos de potências estrangeiras e conquistou para certos sectores, uma desmesurada influência interna nos negócios e na estrutura erguida pelos novos detentores do poder em Portugal, situação esta que chegou aos nossos dias.

A documentação que comprove os conhecidos delitos parece ser escassa, embora quem tenha vivido o drama da chamada "descolonização" terá para sempre presente a realidade da violência e do livre arbítrio dos senhores do momento, impiedosos carrascos dos seus próprios compatriotas. Não se pretende um ajuste de contas meramente contabilístico. A grandeza de uma história secular, não cede perante reivindicações de uma casa, propriedade agrícola ou conta bancária. Aquele património que importa conservar é o dos Direitos do Homem, da memória da nação e o da honra esbulhada.

A assunção do processo da "descolonização" pelos seus responsáveis mais directos, sempre foi orgulhosamente apresentada como glorioso feito, enquanto centenas de milhar foram esquecidos e deliberadamente imolados no altar do interesse de uma pretensa e hoje justamente considerada ridícula revolução. A inépcia, cobardia, e pusilanimidade dos sectores militares a quem imputamos a situação criada, aliadas à cobiça e à luta pelo poder entre os políticos recém chegados à nova situação, ocasionaram um drama sem paralelo na nossa história.

O artigo de António Barreto cita nomes de conhecidas figuras daquele tempo e alega a existência de importantíssimas provas documentais. Chegou o momento dos portugueses conhecerem a verdade que é guardada pelos refugiados que chegaram à Portela naqueles anos de medo e de miséria.

Na África do Sul existe uma comissão para o apuramento da Verdade e a promoção da Reconciliação e da Justiça. A Verdade da "descolonização" é bem conhecida, embora calada pelos seus mais directos beneficiários. A Reconciliação está feita, conhecendo-se bem o carácter altaneiro das gentes que orgulhosamente não renegando o passado, souberam estender as mãos aos carrascos que lhes destroçaram as famílias e os privaram dos bens. Falta a Justiça. Aos crimes perpetrados pela soldadesca portuguesa e dos movimentos guerrilheiros, somam-se aqueles que premeditados e autorizados pelos mais altos responsáveis do poder, carecem de punição exemplar. O Tribunal Internacional de Haia que julga os crimes de limpeza étnica cometidos na Bósnia, alerta o mundo para as consequências que recaem sobre os mandantes e autores morais, julgados tão responsáveis como os simples executores. Chegou a altura do ajuste de contas. Quem consultar os jornais delirantemente publicados durante os anos de 1974, 75 e 76, encontrará sobejas provas de delito e de reivindicação dos crimes. Precisaremos de um Baltazar Garzón?

**********

*Um texto de António José Saraiva (5-5-1976)
"Diz-se e escreve-se que os retornados eram exploradores, brutais, ávidos de lucros, criminosos de delito comum, culpados de si mesmo..."Então esses que apontam os crimes dos retornados, que fizeram vidas inteiras senão aproveitarem-se dos ditos crimes?Como foi possível a vida parasitária da maior parte da população portuguesa durante séculos, senão à custa do negro, accionado pelo colonizador?Donde vinha o café e o açúcar que se consomia e consome abundantemente nas pastelarias de Lisboa?Donde vinha o algodão barato que permitia a tantos operários e patrões sustentarem-se de fabriquetas primitivas?Donde vinham as toneladas de ouro que faziam do escudo uma moeda forte, permitindo, com uma indústria deficiente e uma agricultura rudimentar, sustentar legiões de funcionários improdutivos?Pois é!Os "retornados" chegam numa altura em que "eles" precisam de uma desculpa para o maior fracasso da História e de um objectivo para cevar a nossa frustração irremediavel.
"Eles" gritam e bradam que: "o povo é quem mais ordena!"
Que povo?

Ainda a respeito da cena do telemóvel no Carolina Michaellis

Freire de Andrade deixa-nos um ponto de vista à la Fernando Pessa:

O aluno que filmou a cena no seu telemóvel pode ter cometido faltas graves ao fazê-lo: 1) Falta de disciplina, partindo do pressuposto de que essa filmagem era proibida na sala de aula com a aula a decorrer, embora de um modo sui generis; 2) Falta de respeito pela privacidade dos intervenientes, já que filmou uma cena num local não público e sem a autorização da professora e da aluna, nem dos restantes colegas que aparecem mais fugitivamente; 3) Falta de delicadeza, pelas expressões que dirigiu aos colegas e pela maneira como tratou a professora por "a velha".
Mas o que é certo é que os meios de comunicação usaram e abusaram do seu trabalho para divulgar o caso e atrair audiências e as instâncias disciplinares o utilizarão, suponho, como meio de prova.
Portanto, apesar das faltas pelas quais poderá e deverá ter a devida punição, cabe-lhe a autoria de um filme que se tornou num best-seller e é justo que tenha a devida recompensa, se não como prémios cinematográficos, pelo menos sob a forma de direitos de autor. À atenção da SPA.
E esta hem?!

Como gosto de ler Vitorino Nemésio!

Não é apenas o romancista, de por exemplo «Mau Tempo no Canal», que me encanta; é, também, o que escreve:
"Este homem elegante e amadurecido que sobe o Chiado de mão metida no colete e vai parando nalguns escaparates para fingir que não tem pressa de chegar lá a cima, às Portas de Santa Catarina, o que tem são falhas de coração. Se não está velho, está gasto. É o ano da graça de 1852: façam os senhores um esforço e sejam, comigo,desse tempo. O nosso elegante, mais tarde, vai dar o nome à rua que hoje lhe custa a subir. Em vão. Será batido pelo revisteiro do século XVI que por ali andou. O elegante transeunte está com cinquenta e três anos, mas faz-se distraído de idades e nunca passa dos quarenta. No fundo mente mal; porque na alma, na verdura, no sangue, está com os vinte e três que tinha quando, casado de fresco, fugiu para Inglaterra, ou com a idade de Cristo que levou para Bruxelas como Encarregado de Negócios, para florear na conversa e dançar com uma ponta de fastio e um ardor secreto, triste."
Vemos, pois, pelos seus olhos, um Almeida Garrett longe dos fulgores da juventude, ou nem tanto assim...

Fins-de-semana (2)


Não conseguira adormecer até chegar ao fim do livro; sorrindo de si para si, pensou: ainda bem que os avós não são como a Tia Doroteia do Henrique de Souselas...; com efeito, só apagara a luz já a madrugada se havia instalado há muito...
Depois adormecera, e não fazia a menor ideia que horas seriam agora... Até que ouviu a voz da avó:

-Menina, já te chamei várias vezes para tomares o Pequeno-almoço!
-Já vou avó, respondeu, enquanto se espreguiçava.
Daí a pouco, voltou a ouvir a voz da velha senhora:
-Vens ou não vens? Quero levantar a mesa...

Sorriu de novo, enquanto descia as escadas, e pensou: afinal, as Avós não são diferentes das Tias Doroteias...

Segunda prenda de fim-de-semana...

Ken Lee II - A nossa amiga búlgara melhorou muito!

sábado, 12 de abril de 2008

Pedaços do Minho


Tomei amores com o vento,
Não sei se faria bem,
O vento é bandoleiro,
Não tem amor a ninguém.


Trocaste-me a mim por outra
Meu amor, fizeste bem,
Perdeste-me a lealdade
Quero perdê-la também.

A maré cresce e decresce,
Fica a praia descoberta,
Vae-se um amor e vem outro,
Não há verdade mais certa.

Pega o salgueiro de estaca,
O amieiro de raiz,
Não te gabes de deixar-me
Que fui eu que te não quis."

(in «O Minho Pittoresco»)

Coisinhas boas recebidas por e-mail - John Cleese's Letter to America

Com os devidos agradecimentos a quem nos presenteou com esta carta:

John Cleese's Letter to America

In view of your failure to elect a competent President of the USA and thus to govern yourselves, we hereby give notice of the revocation of your independence, effective immediately.

Her Sovereign Majesty, Queen Elizabeth II, will resume monarchical duties over all states, commonwealths and other territories (except Kansas, which she does not fancy), as from Monday next.

Your new prime minister, Gordon Brown, will appoint a governor for America without the need for further elections. Congress and the Senate will be disbanded. A questionnaire may be circulated next year to determine whether any of you noticed.

To aid in the transition to a British Crown Dependency, the following rules are introduced with immediate effect:

1. You should look up "revocation" in the Oxford English Dictionary. Then look up "aluminium," and check the pronunciation guide. You will be amazed at just how wrongly you have been pronouncing it.

2. The letter 'U' will be reinstated in words such as 'colour', 'favour' and 'neighbour.' Likewise, you will learn to spell 'doughnut' without skipping half the letters, and the suffix "ize" will be replaced by the suffix "ise."

3. You will learn that the suffix 'burgh' is pronounced 'burra'; you may elect to respell Pittsburgh as 'Pittsberg' if you find you simply can't cope with correct pronunciation.

4. Generally, you will be expected to raise your vocabulary to acceptable levels (look up "vocabulary"). Using the same twenty-seven words interspersed with filler noises such as "like" and "you know" is an unacceptable and inefficient form of communication.

5. There is no such thing as "US English." We will let Microsoft know on your behalf. The Microsoft spell-checker will be adjusted to take account of the reinstated letter 'u' and the elimination of "-ize."

6. You will relearn your original national anthem, "God Save The Queen", but only after fully carrying out Task #1 (see above).

7. July 4th will no longer be celebrated as a holiday. November 2nd will be a new national holiday, but to be celebrated only in England . It will be called "Come-Uppance Day."

8. You will learn to resolve personal issues without using guns, lawyers or therapists. The fact that you need so many lawyers and therapists shows that you're not adult enough to be independent. Guns should only be handled by adults. If you're not adult enough to sort things out without suing someone or speaking to a therapist then you're not grown up enough to handle a gun.

9. Therefore, you will no longer be allowed to own or carry anything more dangerous than a vegetable peeler. A permit will be required if you wish to carry a vegetable peeler in public.

10. All American cars are hereby banned. They are crap and this is for your own good. When we show you German cars, you will understand what we mean.

11. All intersections will be replaced with roundabouts, and you will start driving on the left with immediate effect. At the same time, you will go metric immediately and without the benefit of conversion tables. Both roundabouts and metrication will help you understand the British sense of humour.

12. The Former USA will adopt UK prices on petrol (which you have been calling "gasoline") - roughly $6/US per gallon. Get used to it.

13. You will learn to make real chips. Those things you call French fries are not real chips, and those things you insist on calling potato chips are properly called "crisps." Real chips are thick cut, fried in animal fat, and dressed not with mayonnaise but with vinegar.

14. Waiters and waitresses will be trained to be more aggressive with customers.

15. The cold tasteless stuff you insist on calling beer is not actually beer at all. Henceforth, only proper British Bitter will be referred to as "beer," and European brews of known and accepted provenance will be referred to as "Lager." American brands will be referred to as "Near-Frozen Gnat's Urine," so that all can be sold without risk of further confusion.

16. Hollywood will be required occasionally to cast English actors as good guys. Hollywood will also be required to cast English actors to play English characters. Watching Andie MacDowell attempt English dialogue in "Four Weddings and a Funeral" was an experience akin to having one's ear removed with a cheese grater.

17. You will cease playing American "football." There is only one kind of proper football; you call it "soccer". Those of you brave enough will, in time, will be allowed to play rugby (which has some similarities to American "football", but does not involve stopping for a rest every twenty seconds or wearing full kevlar body armour like a bunch of Jessies - English slang for "Big Girls Blouse").

18. Further, you will stop playing baseball. It is not reasonable to host an event called the "World Series" for a game which is not played outside of America. Since only 2.1% of you are aware that there is a world beyond your borders, your error is understandable and forgiven.

19. You must tell us who killed JFK. It's been driving us mad.

20. An internal revenue agent (i.e. tax collector) from Her Majesty's Government will be with you shortly to ensure the acquisition of all monies due, backdated to 1776.

Thank you for your co-operation.

John Cleese

Desilusão

Depois de vários anos a acreditar que era possível surgir uma nova classe política, sem os vícios de que cedo me dei conta, fazendo, desse modo, mudar a opinião, que se ia cimentando cada vez mais, de que "assim não vamos lá", chego a um ponto de total descrédito, no que aos partidos, como estão, respeita: o Governo tem sido aquilo que sabemos, e a Oposição não consegue descolar da mediocridade. Estaremos condenados a tal panorama?

Fins-de-semana


Esperava ansiosa que chegasse o fim-de-semana; iria para a quinta dos avós, e, debaixo daquela oliveira que tanto amava, com o fidelíssimo Félix, o cão, ao lado, leria aquele romance que a trazia empolgada, e já tinha posto no saco.
Sabia que, ao fim de umas páginas, o livro lhe escorregaria das mãos, e os dois acabariam por adormecer. Mas era Sábado e podia dar-se a esse luxo. Recomeçaria quando acordasse...

Prendas de fim-de-semana

Ou não seja a Fox dominada pelos republicanos, aqui fica um belo vídeo da Mad Tv com Barack Obama e Hillary Clinton ao som de Umbrella de Rihanna:

Prendas de fim-de-semana

Permitam-me o Nuno e a Cristina, para compensar a minha recente ausência das lides blogueiras, iniciar este fim-de-semana a distribuição das prendas aos nossos amigos e leitores:

Sexo e política na capital do império romano (2)

Via Câmara de Comuns tomámos conhecimento da seguinte notícia:

«A esquerda não tem gosto, nem sequer para escolher mulheres. As nossas candidatas são as mais bonitas do Parlamento, não há comparação» , disse na terça-feira Silvio Berlusconi, em plena campanha eleitoral legislativa.


Pergunto-me se será esta a resposta de Berlusconi à candidatura da socialista Milly D'Abraccio, estrela de filmes pornográficos, à Câmara Municipal de Roma.

Mas a notícia ainda nos revela as afirmações de uma deputada italiana em reacção à declaração de Berlusconi:

«Em qualquer outro Estado moderno e democrático, um só comentário como este seria suficiente para o condenar à derrota» , defende Silvana Mura, deputada do partido de centro Itália de los Valores.

Portanto, quer isto dizer que um estado menos moderno e menos democrático tem mais liberdade de expressão do que um mais moderno e mais democrático?

E agora como ficamos depois de tanto tempo a "aprender" que só em democracia é que há verdadeiramente liberdade de expressão?

O imperialismo capitalista continua a devassar o mundo

O governo de Raul Castro decidiu hoje deixar milhares de cubanos serem titulares das casas do Estado que alugaram, num decreto-lei que pode abrir caminho a uma reforma mais ambiciosa do sector da habitação.

Isto nem se compreende, como é possível que o capitalismo esteja a entrar no último reduto da única ideologia que realmente é plena de preocupações com o Homem, a via única para alcançar a paz e a felicidade mundial. Agora só o Chávez para aguentar o barco.

Isto bem poderia(á) ser o início de um artigo no Avante. Se algum dos editores passar por aqui e precisar de mais ideias para a sua propaganda demagoga avise.

E vergonha na cara não?

As viagens da TAP vão ficar três euros mais caras nos voos entre os Açores, Madeira e o Continente, disse hoje fonte da transportadora aérea nacional.

A taxa de combustível vai passar de 18 para 21 euros por percurso, um aumento que ocorre automaticamente de três em três meses, como estabelece o contrato de serviço público para o transporte aéreo dos dois arquipélagos.

"Este aumento da taxa de combustível tem por base uma fórmula assente no custo médio do preço do barril de petróleo e na variação do câmbio dólares/euros", afirmou a mesma fonte do Gabinete de Relações Públicas da Transportadora Aérea Portuguesa (TAP).


Obviamente compreende-se que haja um aumento automático baseado nos contratos celebrados. Agora não venham é afirmar que esse se baseia no custo do barril de petróleo e na variação de câmbio dólares/euros, até porque segundo um mail que o Hugo há uns tempos me enviou, com dados de 03/03/2008, e muitos outros posts e artigos que têm sido publicados por aí:

Em 2000, um barril de petróleo custava 63 USD, ou se